Santo do Dia (Sala dos Alardos) – 25/3/1969 – 3ª-feira [SD102] – p. 3 de 3

Santo do Dia (Sala dos Alardos) — 25/3/1969 — 3ª-feira [SD102]

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Hoje é festa da Anunciação de Nossa Senhora e por isso quisemos — como já havia sido anunciado aos senhores antes — fazer o ósculo da Sagrada Corrente e daí o aspecto pouco comum do Alardo e do Santo do Dia. Nós vamos comentar um trecho de São Luís Maria Grignion de Montfort sobre a Anunciação, tirado do Tratado da Verdadeira Devoção.



248. O tempo não me permite deter‑me aqui para explicar as excelências e as grandezas do mistério de Jesus vivendo e reinando em Maria, ou da Encarnação do Verbo. Contento‑me, por isso, em dizer, em três palavras, que é este o primeiro mistério de Jesus Cristo, o mais oculto, o mais elevado e o menos conhecido; que é neste mistério que Jesus, em colaboração com Maria, em seu seio, e por isto chamado pelos santos “aula sacramentorum” — sala dos segredos de Deus1, escolheu todos os eleitos; que foi neste mistério que ele operou todos os mistérios subseqüentes de sua vida, pela aceitação deles: “Iesus ingrediens mundum dicit: Ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam” (cf. Heb 10, 5‑9).



É um trecho das epístolas aos hebreus.



Por conseguinte, este mistério é um resumo de todos os mistérios, e contém a vontade e a graça de todos. Este mistério é, enfim, o trono da misericórdia, da liberdade e da glória de Deus.



Nós vemos que São Luís Maria Grignion de Montfort dá uma consideração altíssima aqui, ao fato que Nosso Senhor se encarnou no ventre puríssimo de Nossa Senhora e que aí permaneceu durante nove meses, numa união inefável com Ela, numa intimidade inefável com Ela. Os pensamentos que ele sucessivamente desdobra a respeito disso, são os seguinte: em primeiro lugar, que esse é o Mistério, “mais oculto, o mais elevado e o menos conhecido”, de Jesus Cristo.

O mais oculto”, sem dúvida é, não só n sentido material da palavra porque Nosso Senhor estava ali num estado completamente oculto, mas porque o que se passou entre Ele e Ela, nessa ocasião é uma coisa completamente oculta. De alma a alma, o que se passou, que graças Ele deu a Ela, que tesouros, que formas de união espiritual Ele contraiu com Ela, são coisas completamente ocultas, que não se pode medir adequadamente, não se pode excogitar adequadamente.

Depois, ele diz o seguinte: “que é o mais elevado”. Que é o mais elevado, a gente fica pasmo de vê-lo dizer. Porque se diria que o mais alto mistério é o mistério da Cruz. É aquele que, ou melhor, em que o Verbo se imolou pelos homens na Cruz. Mas, São Luís Grignion tem uma grande autoridade de Doutor e o que ele diz deve ser admitido como real. E, depois, naturalmente, essas comparações dependem muito do ângulo debaixo do qual elas são vistas. É algum ponto de vista segundo o qual o mistério da Encarnação do Verbo é mais alto do que o mistério da Cruz. Alguns desses pontos de vista podem ser facilmente intuídos. O primeiro deles é que esse mistério procedeu o da Cruz. Não teria havido o mistério da Cruz, se Nosso Senhor Jesus Cisto não se tivesse encarnado. Por que como Ele poderia crucificar ou deixar crucificar a sua natureza humana, se ele não tivesse adquirido essa natureza humana? E com o que Ele poderia ter adquirido a não ser por meio da Encarnação? Logo, o mistério da Cruz, como todos os outros mistérios de Jesus Cristo, estão contidos na Encarnação como na sua semente. De onde uma nobreza especial do mistério da Encarnação.

Mas há ainda uma outra consideração, que é preciso fazer. É que Jesus Cristo, tornando-se homem, assumindo…ou melhor, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumindo a natureza humana, a união de Deus com a Criação toda, fez-se de modo especial. Porque o homem tem em comum com os Anjos o espírito e tem em comum com os animais, com as plantas, com a matéria, a propriedade de vida animal, de vida vegetativa, de existência material que os outros seres tem. De maneira que unindo-se hipostaticamente ao homem, que é uma espécie de sumário de todo o universo, ele deu uma honra especial ao universo inteiro. E os Doutores, em geral, são propensos a acreditar, afirmar que a Encarnação do Verbo se teria dado para que a obra da Criação tomasse essa excelência maravilhosa, se teria dado ainda que não houvesse pecado original. E, portanto, se não houvesse a Crucifixão e a Redenção do gênero humano. De maneira que há uma excelência própria na Encarnação, que não está relacionada com a Crucifixão. É uma excelência autônoma e antecedente, títulos pelos quais se compreende facilmente que a Encarnação seja um mistério superior ao próprio mistério da Cruz.

Depois ele diz que esse mistério é o menos conhecido. Não haverá redundância em afirmar que é o mais oculto e o menos conhecido. Não há. Mais oculto quer dizer que intrinsecamente esse mistério não pode ser sondado pela mente humana. O menos conhecido é que se fala menos sobre ele. A existência dele é menos conhecida e enquanto mistério não se tem tanta noção dele. Então, aqui nós perguntamos: será que um mistério a tão alto, não é destinado a ser conhecido mais pela Igreja? Será que um mistério desse não deve ser muito mais manifestado à Igreja do que tem sido até aqui? É claro. Com certeza esse mistério tem uma relação especial com o Reino de Maria. E talvez aquela decifração do Apocalipse que se diz que dará uma força maravilhosa à consistência doutrinária do Reino de Maria, essa decifração se faça em função de alguma coisa que diga respeito à Encarnação porque como vemos depois, ele joga um pouco com as palavras e dá a entender que o mistério de Maria está ligado à Encarnação. Os senhores verão isso nos trechos seguintes.

que é neste mistério que Jesus, em colaboração com Maria, em seu seio, e por isto chamado pelos santos, Sala dos segredos de Deus, escolheu todos os eleitos;

Os senhores estão vendo, portanto, que Deus operou as suas maravilhas de antemão, escolhendo os eleitos no seio de Maria. Coisa misteriosa, coisa enigmática. Mas se ele ali escolheu os eleitos, ele não terá escolhido esses super-eleitos que são os escravos de Maria? Não terão sido escolhidos aí também? Então, que relação há com o mistério de Maria, a escravidão a Maria, o Reino de Maria, se nessa “Sala dos sacramentos”, que é o seio puríssimo de Maria Santíssima, aí foram feitos todos os mistérios de Jesus? Esses mistérios não foram feitos lá? Tudo leva a crer que sim.

Depois ele diz o seguinte:

foi neste mistério que ele operou todos os mistérios subseqüentes de sua vida, pela aceitação deles…

É claro. Ele ali fez o ato de obediência dele ao Padre Eterno.

Por conseguinte, este mistério é um resumo de todos os mistérios, e contém a vontade e a graça de todos.

Os senhores vejam essa afirmação: “Esse mistério contém a graça de todos.” Em última análise, o corolário disso é que quem for muito devoto deste mistério , pode receber graças que receberia cultuando todos os mistérios ao mesmo tempo. Os senhores compreendem como nós andamos acertados dando, portanto, no Grupo, um realce todo particular a esta festa.

Agora nós perguntamos: “Qual é a oração, qual é a súplica própria a ser feita ma noite de hoje? E para nós? Para nós é aquele …… [Faltam palavras] ….. Há uma obra misteriosa do Espírito Santo nas nossas almas. Há um modo de agir superexcelente, que passa para além de todas as nossas fraquezas, de todas as nossas misérias, que, por assim dizer, nos transformam completamente — eu quase diria, “nos transubstancia”, se a expressão não fosse por demais ousado — de maneira que nos transformemos em outros homens do que nós éramos. Algo parecido com Pentecostes. Isso devemos pedir a Nosso Senhora que faça em nós, que ela exatamente realize essa obra maravilhosa de nos tornar verdadeiros e perfeitos escravos dEla, de nos tornar verdadeiros e perfeitos Apóstolos dos últimos tempos. Essa é uma obra secreta em nossas almas. É uma obra de uma natureza , de uma índole que nós mesmo não imaginamos. São Luís Grignion de Montfort, no Tratado da Cruz, diz isso: que é só pela experiência que a gente chega a se dar bem conta de como opera o mistério de Maria.

Que Nossa Senhora nos dê a graça de que esse mistérios opere em nós. E que Ela nos faça inteiramente como Ela queria que nós fossemos, desde o momento em que nós nascemos, desde o momento em que fomos batizados, desde o momento em que fomos chamados para o Grupo, desde esse momento em que Ela nos chama de novo para uma grande intimidade com Ela.

A. R. M

1) S. Ambrósio: De Instit. Virg., cap. VII, n. 50.

Sala dos Alardos