Santo do Dia – 21/3/69 – 6ª feira . 3 de 3

Santo do Dia — 21/3/69 — 6ª feira

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No livro de Jules Romain, uma distinção entre duas “Igrejas Católicas”: a de Pedro e a de João * Três categorias de homens: os superiores, que se preocupam com as idéias; os medianos, que se preocupam com os acontecimentos; os pocas, que se preocupam com os fatos * O delírio e o triunfo da poquice é quando o homem se preocupa só com sua pessoa * Quem se encaixa nas três categorias, leve em consideração que se, nesta “corrente”, um elo é de aço, há um outro de barro

* No livro de Jules Romain, uma distinção entre duas “Igrejas Católicas”: a de Pedro e a de João

É um pensamento de um escritor francês que tem um livro muito original. O escritor chama-se Jules Romain. Este Jules Romain tem um livro A la recherche de l’Église, à procura de uma Igreja, que com uns dez anos de antecedência talvez, prevê o Concílio Ecumênico Vaticano II como uma conjuração de padres que resolveram democratizar a Igreja, para transformar a Igreja Católica numa igreja ocultista que pratica um evangelho dito evangelho do amor, que seria um evangelho diferente do Evangelho verdadeiro de Nosso Senhor Jesus Cristo.

E então faz uma distinção entre a Igreja de São Pedro e a Igreja de São João. A Igreja de São Pedro seria a Igreja da autoridade, a Igreja da severidade, a Igreja da grandeza; a Igreja de São João seria a igreja sem regras, a igreja sem leis, a igreja sem preceitos, etc. Seria uma igreja anárquica.

Bom, então esse homem teve um pensamento que eu li numa revista francesa e que me pareceu muito interessante e eu quero expor muito rapidamente.

* Três categorias de homens: os superiores, que se preocupam com as idéias; os medianos, que se preocupam com os acontecimentos; os pocas, que se preocupam com os fatos

O pensamento dele foi o seguinte:

Os homens se classificam de acordo com aquilo que habitualmente os preocupa: os homens superiores se preocupam com as idéias; os homens de certa categoria, mas meio médios se preocupam com os acontecimentos; os homens pocas se preocupam com os fatos.

Os senhores conhecem a diferença que vai entre acontecimento e o fato, não é? O acontecimento é uma coisa como por exemplo a Segunda Guerra Mundial [ou] a Primeira Guerra Mundial. Os três acontecimentos por excelência da história do mundo foram a Encarnação do Verbo, a Crucifixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e a Ressurreição d’Ele. Se os senhores querem, os senhores podem pôr ao lado disso o nascimento de Nossa Senhora e a instituição da Igreja Católica. São os acontecimentos por excelência da história dos homens, depois do pecado original. E assim por diante.

Os fatos não. São os pequenos fatos concretos de nossa vida. Por exemplo, não sei… Eu vim agora aqui com o Ceron e o automóvel [em] que eu estava quase deu uma trombada num outro automóvel da mesma marca. Está acabado. Esta é uma coisa sem graça que a maior parte das pessoas acha que tem graça.

Bem, então os homens pocas se ocupam com os fatos, não se ocupam com os acontecimentos. Por isso também os senhores vêem [que] as conversas pocas giram em geral sobre os fatos e não sobre os acontecimentos.

* O delírio e o triunfo da poquice é quando o homem se preocupa só com sua pessoa

Quando a pessoa — acrescento eu — é muito poca, não conversa nem sobre fatos, conversa só sobre as pessoas. É o fuxico: “Aquele disse, outro falou, aquele contou, preste atenção. E depois fica com inveja, e depois fica com birra, e cerrou de cima, deu uma paulada na cabeça do outro.” Isso é quando o sujeito é muito poca.

Agora, o delírio da poquice, o triunfo da poquice, o apogeu da poquice é quando a pessoa se preocupa só com sua pessoa. Aí é o fim do fim, é o último do último, quando a pessoa se preocupa só com sua pessoa. O que é uma pessoa que só se preocupa consigo? O normal da pessoa que se preocupa só consigo é uma dificuldade em achar interessante tratar de outra pessoa a não ser ela mesma, e quando ela fala de outra pessoa, é só em função dela.

Sabe o que aconteceu com MEU tio?” Quer dizer, é o tio dela. O homem, o tal indivíduo não tem importância, a questão é ser tio dela. “Sabe o que aconteceu com MINHA escola?” É porque é a escola que ela freqüenta. Se aquele homem não fosse tio, não se incomodava; se a escola não fosse a dela, não se incomodava. “Sabe o que aconteceu com o ônibus do MEU bairro?” É porque é o bairro dele. Se fosse uma coisa mesmo mais grave [que] acontecesse fora do bairro, não teria importância nenhuma.

Sobretudo gosta de conversar a respeito de coisas que lhe possam trazer alguma idéia, alguma vantagem pessoal de qualquer natureza. E gosta de pensar a respeito de si mesmo, quer dizer: “Eu, eu, eu, eu, eu, eu.” Não é? Então levanta de manhã: “O que eu vou fazer hoje”? Olha no espelho: “Que cara eu tenho?” Vai tomar banho: “Vai me fazer bem ou mal?” Sai do banho: “O que é que vão pensar de eu estar atrasado, o que é que vão pensar de eu estar adiantado?” Veste a roupa: “O que é que vão pensar da minha roupa?” Olha-se no espelho de novo: “Que colosso sou eu!”

Às vezes cálculos mal feitos… [Risos] Eu já tenho visto cálculos mal feitos…

Bem: “Que colosso sou eu”. Depois rememora a conversa que teve, em vez de prestar atenção no que foi dito, no tema, não: “Que cara fizeram quando eu disse tal coisa? Aquele bandido daquele AEFulano AF que não me respondeu, mudou de assunto quando eu disse uma coisa, e olhe que era engraçada, tá compreendendo? Também da próxima vez ele vai ver. E quando eu cheguei, aquele AECicrano AF que não me cumprimentou como eu queria.” Quer dizer: “Eu, eu, eu, eu, eu, eu.” Isto é “arquipoca”, é o triunfo e o delírio da poquice. Não se pode ser mais poca do que isto.

* Quem se encaixa nas três categorias, leve em consideração que se, nesta “corrente”, um elo é de aço, há um outro de barro

Então nós podemos fazer uma análise de nós mesmos. Alguém dirá: “Dr. Plinio, analisando-me a mim mesmo eu arrebento a sua classificação, porque eu noto que em mim há de tudo: eu às vezes penso um pouco em idéias, às vezes penso um pouco em acontecimentos, às vezes eu penso bem mais nos fatos, confesso que penso ainda muito mais na minha pessoa. Mas eu lá também penso de vez em quando em algumas idéias e alguns acontecimentos. O senhor está injusto comigo recriminando-me de nunca pensar em idéias e acontecimentos.”

Eu digo:

Meu caro, então é o caso de dizer que você pertence às três coisas: você tem algo de homem superior, você tem algo de misto, algo de medíocre e algo de poca. Então você é como uma corrente com elos de qualidades desiguais, um elo de aço fortíssimo, um elo de ferro cosi, cosi, um elo de estanho já fora de qualquer apreciação e depois um elo de barro. Do que é que vale a corrente?

Ah, seja imparcial! Uma corrente com quatro elos de valor diferente se aquilata tirando a média dos valores dos elos!” —Não é verdade. Uma corrente vale pelo valor de seu elo mais fraco. Então, meu caro, meça-se, julgue-se e não me queira mal.

Como já está muito tarde, vamos rezar.

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