Reunião
Normal (Auditório da Santa Sabedoria) – 13/3/1969 –
5ª-feira – p.
Reunião Normal (Auditório da Santa Sabedoria) — 13/3/1969 — 5ª-feira
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A cortesia
Acontece que na linguagem, no conversar de nós que lemos o Saint Simon, o Saint Simon passou, começou-se a dizer que tais maneiras são Saint Simon, tais outras maneiras não são Saint Simon e depois, por esse jogo de analogias que o brasileiro faz com as palavras, assim como a palavra fassur foi elaborada quase até o infinito, como eu expliquei outro dia, também a palavra , a expressão Saint Simon foi elaborada até quase o infinito. E o Saint Simon acabou sendo, alguém que seja do gênero Saint Simon acabou sendo o seguinte: uma pessoa que observa em grau maior ou menor, mas de algum modo, as fórmulas de cortesia e de modos de ser dos antigos tempos. Quer dizer, um modo de ser digno, um modo de ser importante, um modo de ser elevado, uma cortesia, uma gentileza que chega ao extremo, ao mais agradável, ao mais afável, ao mais atraente. E com isso a palavra acabou deformando entre nós.
Mas na realidade, Saint Simon — eu acho que os senhores todos sabem disso — era um duque da corte de Luís XIV e escreveu memórias caudalosas: oito volumes em papel de arroz, com quantas páginas cada volume? Umas mil e cem páginas cada volume. E quase cada página contendo várias jóias.
D. Pedro leu Saint Simon com certeza, não é D. Pedro? Não inteiro?
Na França todo mundo lê. Saint Simon todo mundo lê.
É um escritor que não escreve muito bem, quer dizer, gramaticalmente falando pode-se fazer dele toda série de objeções, mas ele é, apesar disso, um dos grandes escritores da língua francesa. Porque ele é fraco na gramática, mas fortíssimo na literatura. Ele tira de cada palavra um efeito extraordinário, e quando ele não tem uma palavra adequada para dizer o que ele quer, ele cria um neologismo e põe o neologismo em circulação. Mas pela etimologia da palavra a gente percebe o que ele quer dizer e percebe que aquele neologismo era indispensável para o pensamento dele. Um observador finíssimo, um homem capaz de, pelas minúcias, tomando em consideração minúcias, fazer interpretações muito sagazes mas, de outro lado, não era nem um pouco pensador. Ele era um homem muito hábil no descrever, mas ele não tinha doutrina, ele não tinha grandes princípios. Tanto é que quando a gente vai ver o furor dele contra as coisas do tempo dele, de algum modo tomam o que a política do rei Luis XIV tinha de igualitário. E ele pega com muita sagacidade a linha igualitária da política absolutista de Luís XIV. Mas... disso se pergunta até que ponto ele, Saint Simon tem uma filosofia anti-igualitária, que isso corresponde a uma doutrina, não se vê claro a doutrina nele. E se a gente pergunta qual seria a sociedade ideal para ele, a gente tem a impressão de que para o mundo corresponder ao ideal dele era só dar alguns privilégios honoríficos aos duques, a cuja categoria pertencia ele, e ele acharia que estava tudo resolvido. Quer dizer, ele é um homem extraordinariamente... mas ele não é, de nenhum modo, um pensador, não é um homem de doutrina, ele é apenas um grande pintor de costumes de uma época. É o que ele foi nas memórias dele.
Agora, através da pintura percebe-se a época, e então descrita genialmente. E na descrição da época, como ele escreve toda espécie de coisas, inclusive até cena burlescas — a cena em que ele descreve, por exemplo, o dia em que morreu o filho de Luís XIV. Ele morreu um pouco inesperadamente, eu resumo um pouco as coisas — e que quando então chegou o Grand Delfin — o filho de Luiz XIV estava fora de Versailles, estava num castelo que ele possuía a alguma distância, chamado…[faltam palavras] … ele morreu em…[faltam palavras] … Quando chegou a Versailles, durante a noite, a noticia que o filho primogênito, o filho único do rei, morrera, então a corte toda acordou. Ele então descreve saindo daqueles apartamentos vários do castelo de Versailles, as pessoas em traje de noite, levado pelo susto. E então, ainda meio estremunhadas de sono, com a dupla circunstância de estarem em traje de noite e, portanto, com o ridículo que podia apresentar um traje de noite pessoas que durante o dia só se viam vestidas de um modo extraordinário — então, colocadas nos chambrões, nas camisilonas, nos bonés da noite, e tudo posto assim meio depressa para ir para o salão onde estavam todos se reunindo, e depois descreve também as ambições e as desilusões que se manifestam nas fisionomias, conforme os interesses políticos que esses acontecimentos favoreciam ou prejudicavam. Então, ele dá no meio de coisas admiravelmente bem apanhadas, coisas burlescas; ele conta, inclusive, de duas pessoas, de duas senhoras que foram fazer uma confidência, uma com a outra, junto, para comentar o que tinha acontecido e viam ali uma cama, dessa espécie de cama de campanha e não pensaram no que era e sentaram na cama para conversar. E acordou um guarda aflito do rei, que não tinha percebido nada, se levantou e jogou as duas no chão. Ele conta o fato com uma graça extraordinária, porque ele é um conteur fenomenal.
Quer dizer, até o burlesco passa por lá, e passa também a cortesia. E é isso a cortesia no grande século, no século de Luis XIV; quer dizer, a cortesia francesa quando ela atingiu talvez o seu auge. Pode-se discutir se foi no tempo de Luís XIV ou no tempo de Luís XV. A meu ver, no tempo de Luís XV era uma cortesia mais delicada. No tempo de Luís XIV foi uma cortesia mais elevada. Mas, sem dúvida, o ápice da cortesia francesa se deu nesses dois reinos: no reinado de Luís XIV e no reinado de Luís XV. Ele pegou o reinado de Luís XV e uma parte do reinado de Luís XV. Portanto, ele está extraordinariamente bem situado para descrever isso.
Bom. Eu não posso aqui fazer o que eu tenho material feito para isso, que é tomar o Saint Simon, que eu tenho todo anotado e começar a dar para os senhores a cena. Porque para fazer a seleção das cenas, eu deveria ter uns 15 dias de trabalho, sem interrupção. Por outro lado, eu precisaria, para depois dar as cenas, um simpósio. Porque são tantas e constituem no seu conjunto uma coisa tão rica que é quase indissociável uma da outra as cenas da cortesia. De maneira que eu tenho que me reportar mais ou menos às idéias correntes que existem sobre a cortesia do Grand Siècle, e fazer uma descrição e uma análise dessa, não, fazer uma análise e interpretação doutrinária dessa cortesia, com um objetivo que eu vou expor daqui a pouco. A única coisa que eu queria dizer, para explicar um ou outro comentário que eu vou fazer, é que essas maneiras não morreram no século XVIII, século XVII e XVIII. Elas tiveram uma espécie de sobrevida depois da revolução francesa, e elas chegaram de algum modo, em alguns ambientes, alguma coisa delas chegou até nossos dias. De maneira que eu ainda pude conhecer algumas pessoas que tiveram cortesia à antiga e que eram pálido reflexo da velha cortesia do Grand Siècle. De maneira que às vezes eu poderei, num comentário, distraidamente, citar, quer um fato do século XVIII, quer um fato do século XIX, quer um fato de autoria de pessoas que viveram no século XX, mas que se formaram ainda de acordo com a escola do século XIX. Porque essa é uma tradição que foi se depauperando ao longo dos tempos, mas que foi vivendo, e enquanto viveu foi linda. Hoje, um ou outro raro sobrevivente conserva essa tradição, mas é uma coisa que a gente tem que procurar com não sei que lente de precisão para encontrar. De maneira que então um ou outro comentário que eu faça sobre fatos mais recentes, deve reportar-se a isso como sendo continuação de uma determinada tradição.
Bem. Eu queria fixar a importância desse comentário. A importância desse comentário é, em primeiro lugar, de dar uma compreensão do que é que fez a verdadeira cortesia para nós termos em vista o mal que a Revolução faz ao mundo eliminando a cortesia. Porque a gente pode dizer que a cortesia está quase eliminada do mundo de hoje.
Bom. De outro lado, entretanto, há uma coisa que apresenta um interesse maior e que deveria insistir nesse ponto. E é o seguinte: é que através disso nós conhecemos melhor a doutrina católica. Um dos modos melhores pelos quais eu cheguei a conhecer a doutrina católica foi exatamente esse: tomando as coisas como eram nos séculos em que a Igreja influenciava os costumes, tomando esses costumes, estudando e procurando explicá-los pela doutrina católica. Quer dizer, pondo-me a mim mesmo a seguinte pergunta: em que sentido, de que maneira, em que termos é que isso, que nesse século se praticava, deve ser entendido como a expressão da doutrina católica.
Bem. Depois de eu ter feito, de me ter dado essa resposta a essa pergunta, eu então passava a outra parte do estudo: o que quer dizer a Igreja quando ela diz tal coisa? Não quer dizer o que o heresia branca diz, mas quer dizer tal coisa assim. Eu vou dar aos senhores um exemplo e os senhores entenderão perfeitamente. Os senhores encontrarão um número enorme de sacerdotes.
— — —
Traga um pouco de café para D. Pedro; acho que D. Pedro prefere; é, D. Pedro prefere café talvez.
— — —
Bem. Eu perdi o fio do que eu dizia. Ah, eu estava dando uma aplicação de princípios. Os senhores tomem o seguinte: os senhores encontram um número enorme de padres que dizem o seguinte: a senhora dona de casa deve levar a afabilidade para com os seus empregados tão longe quanto possível. E fazendo assim ela pratica um ato de caridade cristã.
Bom. Principio formulado como este coloca a alma do católico numa espécie de bipartição. Porque, de um lado, a afabilidade é uma virtude. E toda virtude deve ser levada tão longe quanto possível. Logo, a dona de casa deve ser tão afável quanto possível com a empregada. Então, o principio é verdadeiro. De outro lado, nós sentimos bem que se se for afável como o padre recomenda, a dona de casa se nivela completamente com a empregada, e que no fundo, sob a fórmula afabilidade, de fato está recomendando uma… [falta palavra] … na igualdade. Nós ficamos sem saber como é que o principio se aplica. O que é que o principio quer dizer praticamente.
Bem. O mesmo se pode dizer da afabilidade do professor com os alunos. O professor não deve ser tão afável quanto possível aos alunos? Deve. Porque a gente deve ser tão afável quanto possível com todo mundo. Mas se o professor for ter com os alunos todas as formas e graus de afabilidade, o aluno monta no professor. Agora, então, é caridade cristã deixar-se montar? Resposta do padre: é. Tenha pena dele, coitado. Trate com bondade, com mansidão não seja orgulhoso querendo afirmar sua superioridade de professor, porque assim você terá imitado Nosso Senhor Jesus Cristo, que se deixou esbofetear e arrastar e etc., etc. A gente fica assim: bem, como é? Eu não vou imitar Jesus Cristo? Jesus Cristo, de fato, não fez isso? Então, qual é o modo da gente, ou melhor, qual é o modo que a gente tem? É procurar ver na época em que havia uma civilização cristã, qual era a afabilidade dos patrões com os empregados, para ver como é que esse princípio se estendia? Daí a gente vai ler o catecismo e entende de um outro modo do que está nos subentendidos de hoje. Não no que está expresso, mas no que está oculto hoje.
Eu me lembro, por exemplo, de ter visto várias vezes minha avó, que era uma senhora muito imponente — ela era imponente até cochilando na cadeira de balanço, que é uma cadeira de balanço que está hoje no meu escritório — ela era incapaz de deixar cair a cabeça de modo que não fosse correto. Quando ela deixava cair por negligência um xale, o xale caía no chão de modo bonito. Eu não sei o que acontecia com ela, mas comigo, por exemplo, eu tiro o capote, o capote cai no chão de um modo horrendo. Se ela tira, aquilo caía… Ela fazia crochê, rolava no chão aquele novelo, rolava de um modo bonito, formava um fio bonito. Tal era o modo de ser dela, que tudo nela caía com harmonia. Quantas vezes eu vi minha avó — umas dez vezes, mais — ela sentada, com aquela linha dela, fazendo crochê e conversando com uma preta, preta como piche, que foi escrava dela — a… eu já contei essa cena aqui várias vezes. Mas precisava ver como ela conversava e como conversava a preta. Como a preta conversava com veneração com ela e como ela tinha bondade com a preta. Como a afabilidade dela era uma afabilidade que descia das nuvens, em circuitos cada vez mais largos, até tocar a preta. E embora as duas estivessem sentadas a um metro uma da outra ou um pouco mais, que distâncias históricas, distâncias culturais, distâncias psicológicas havia entre ambas e como ambas respeitavam essas distâncias. Então, eu compreendi como é que se pode levar tão longe quanto possível a afabilidade com uma empregada. Quer dizer, a gente conhecendo o passado interpreta melhor o principio do Catecismo de nossos dias. Esse processo de reconstituição catequética está claro, ou alguém gostaria de me fazer alguma pergunta a esse respeito? Quem quiser, eu estou à disposição.
Bem. Presumindo… Professor Fedeli.
(Professor Fedeli: Houve um caso no colégio em que eu estudei que mostra bem…)
Aí é que está. É sempre assim. A autoridade que não se respeita, se deprecia. E o que se deprecia dá nojo, e é pisado ao pé pelos outros. Não tem conversa.
Bom. Então aqui vem a necessidade, a conveniência de uma explicação da cortesia antiga, com os princípios doutrinários que estão por detrás, porque então a gente compreende melhor a doutrina da Igreja. Então, são dois objetivos que eu tenho em vista: 1º objetivo mais próximo é a valorização da cortesia, na qual hoje em dia se tem a tendência de ver apenas um conjunto de fórmulas… [falta palavra] … A outra coisa é o método de elucidação da doutrina católica através do exemplo histórico. Aqui é um exemplo de aplicação desse método. São as duas coisas que eu pretendo desenvolver hoje à noite.
O que é que começa, o que eu quero dar a entender por cortesia? A cortesia, hoje em dia, é entendida num sentido muito estrito. Eu pensei em escrever no quadro-negro, mas eu tenho impressão que eu dando bem esquematicamente dispensa o quadro-negro. Eu dei, portanto, o sentido, qual é o interesse da matéria, agora eu vou dar a definição do vocábulo sobre o qual eu vou fazer o estudo.
A cortesia hoje é tida, ao menos aqui no Brasil — não sei se a palavra em castelhano, e já não sei bem que sentido tem ela em castelhano —, aqui no Brasil, na linguagem contemporânea, conterrânea, a cortesia é uma expressão que significa um conjunto de fórmulas, que a gente emprega, fórmulas convencionais, o mais das vezes, que a gente emprega no trato com os outros. Além das fórmulas, a palavra cortesia tem um sentido um pouco mais largo: é um conjunto de atitudes. Por exemplo, a cortesia manda que a gente receba uma pessoa em casa com expressão afável, risonha. Não é uma fórmula, mas é uma atitude.
Eu tomo a palavra cortesia num sentido mais amplo. A cortesia é uma excelência no trato com as pessoas. Não é, portanto, apenas um conjunto de fórmulas ou de atitudes, mas é todo o trato. O ter um trato excelente com as pessoas, isso se chama cortesia. Como os senhores estão vendo, a cortesia é muito mais do que uma simples polidez, porque que eu acabo de dizer em cima é a polidez. A cortesia hoje se identifica com polidez. Mas a cortesia no sentido mais profundo da apalavra é muito mais do que isso. É, ao tratar a pessoa, saber tratá-la excelentemente. O que é que isso importa? Importa em conhecer inteiramente a situação da pessoa a quem eu trato. Depois, conhecer a minha própria situação… sem megalice… Depois, conhecer a ocasião em que estou tratando com a pessoa. Quer dizer, se é um trato de negócios, se é um encontro formal, se é um encontro fortuito, na rua, se é uma visita de pêsames, se é uma visita de felicitações, etc. Quer dizer, eu tomar consciência da ocasião em que eu estou tratando com a pessoa. Tomar em consideração os antecedentes de minhas relações com a pessoa. E tomado tudo isso em conjunto, tratar a pessoa excelentemente. Quer dizer, ter uma atitude perante a pessoa, meu comportamento perante ela ser excelente. Isso é cortesia.
Como os senhores estão percebendo, a cortesia supõe, portanto, muito pensamento. Quer dizer, supõe muita análise da vida. A verdadeira cortesia supõe da parte da pessoa uma verdadeira análise da vida. Um exemplo entre mil outros. A gente encontra, por exemplo, um militar que se tornou ilustre na guerra, um general que brilhou na guerra.
Bem. Mas esse general ainda está na força da idade, está dormindo sobre seus louros. A gente trata esse general de um modo. Outra coisa é esse general tendo atingido uma idade provecta, já tendo entrado para a história, estando também meio velho. A gente trata o general de outro modo. Há um certo modo mais afável, um certo cuidado; há uma expressão francesa… [falta palavra] …, que é especial para isso; certo homenagement, eu não sei bem como traduzir isso, que se devem ao mesmo homem em circunstâncias diversas da vida dele. Mudaram as circunstâncias, mudou o trato. A gente tem que conhecer tudo isso, analisar tudo isso, saber de que peso é tudo isso para saber tratar cada um como deve. Isso é o pressuposto da cortesia.
Bem. Para isso nós vemos desde logo que a cortesia é uma virtude inerente às sociedades não igualitárias. Ela não é possível nas sociedades igualitárias. Porque o igualitarismo é fazer tabula rasa de tudo isso. Igualitário não toma nada disso em consideração. Depois, nas sociedades igualitárias, os velhos querem parecer moços, os moços querem parecer crianças. Quer dizer, toda a tabela de valores é contestada e invertida até. Resultado, a cortesia, as situações não existem, ou quase não existem, e a cortesia se torna quase completamente impossível. Quer dizer, a cortesia é uma virtude que é própria, é um procedimento no qual entram três virtudes católicas: 1º, é humildade. Mas em que sentido da palavra humildade. Nesse sentido: a humildade é a verdade. Não no sentido de dizer: eu sou o último dos homens, eu sei que eu valho tão pouco quanto um lixeiro. Mas se isso não é verdade… Quer dizer, mas é saber ao meu respeito e cada um dos outros, a verdade.
Que é que é que eu sou? Que é que é que ele é? Qual é a situação em que nós estamos etc., etc? Quer dizer, começa pela humilhação nesse sentido da palavra.
Bem. Ela tem conjugada consigo, a justiça. O velho princípio do Direito Romano… [faltam palavras] … tributar, reconhecer a cada um o que é direito. Quer dizer, as pessoas desiguais têm direito a um trato desigual, e é um pecado contra a justiça tratar igualmente desiguais. Isso é um pecado contra a justiça.
Bem. E depois a caridade. A caridade, nessa aplicação é uma forma do trato por onde a pessoa, embora conhecendo finge ignorar certos lados fracos do outro. Quer dizer, vai além da justiça, porque a justiça é ali, no taco. Eu conheço — eu acho que contei esse caso aqui, não me lembro bem —, um caso de brincadeira de muito mau gosto, mas aí os senhores vão ver o que é caridade — um senhor, um banqueiro… [faltam palavras] … aqui de São Paulo que convidou um grupo grande de casais para jantar em casa dele, ele com a senhora. Ele vinha da Europa. E qual não foi o horror dos casais que vinham chegando, vendo que ele tinha, estava com uma doença no nariz, uma doença horrorosa, uma protuberância no nariz, mas uma coisa medonha, uma carne horrível, nojenta, etc., etc. Várias pessoas que chegaram, chegaram dizendo (isso é descortesia moderna): o fulano, o que aconteceu com você? Em determinado momento, chegou um casal que o cumprimentou como se não houvesse nada. Tomou o choque, dominou-se e não disse nada. Como vai você, etc., etc., entrou, sentou-se junto com os outros. Em certo momento, durante a conversa, ele tirou aquilo, era uma coisa de borracha, mas que imitava a realidade perfeita e ele estava normal. Era uma brincadeira de péssimo gosto.
Na hora de se despedir, ele comentou com esse casal: os únicos inteiramente educados foram vocês, porque foram os únicos que não disseram nada. Por que? Porque esse é o procedimento perfeito, não é?
Os senhores estão vendo o que é. É uma aplicação da virtude da caridade. Quer dizer, é perceber que seria desagradável para aquele homem, uma vez que ele está com aquela nariganga, estar fazendo comentários sobre o nariz dele, que ele preferia que a gente esquecesse do nariz. Então, a caridade, mas levada ao estado de finura. Aqui os senhores estão vendo que essa é a caridade diferente, eu vou usar, ou melhor, diferente de uma caridade — eu vou usar a expressão no seu sentido pejorativo — caridade… [faltam palavras] …sacristia — o quanto entra de inteligência nessa caridade, quanto entra de tato mas, sobretudo, de virtude católica — não é —, entra aqui no trato com os outros. Eu há pouco tive um exemplo interessante, até me lembrei desse caso — entrando aqui no hall — o interessado me desculpe a referência. Mas eu fui cumprimentar D. Pedro e eu vi que se eu não dissesse nada a D. Pedro pelo fato de eu estar de muletas, D. Pedro não diria uma palavra também. A coisa passaria em branca nuvem. É como se deve fazer. Embora seja uma coisa passageira, acidental, etc., etc., é como se deve fazer. O que é? É uma figura da educação, mas que no seu resíduo antigo era uma aplicação do principio do catecismo. É preciso ver nisso não um mundanismo, porque não é. Isso tem muito mais profundidade, que é exatamente a virtude da caridade. A caridade leva a isso. Dissimular os defeitos dos outros por essa espécie de amor fraterno, requintado, exquis, que todos os homens se devem uns aos outros. Aqui os senhores estão vendo a perspectiva exata como vai se pondo.
Bom. Então, essas três virtudes juntas florescem muito numa sociedade desigual. Nessa sociedade desigual, mas que seja uma sociedade desigual… [[falta palavra] … mas é uma sociedade desigual com ordem. Aqui os senhores vêem ainda no Ancien Régime, portanto até a Revolução francesa, como as coisas eram. Por exemplo, um é o valor do duque; outro é o valor do magistrado, outro é o do general, outro é o grande médico, outro é o do diplomata, outro é o de uma senhora que é uma grande dama de salão e que recebe eximiamente. E outra é de uma tontona, mas que é boa mãe de família. São valores diferentes.
O que a gente vê na sociedade de Saint Simon é que por causa da doutrina católica e à luz da doutrina católica, isso estava inteiramente classificado. E sabia-se o que cada uma dessas coisas valia. E sabia-se catalogar as pessoas de acordo com essas várias tabelas, de maneira que em presença de alguém havia uma série de fórmulas e de provas de respeito, que eram adequadas ao que vale cada um. Então, os senhores estão vendo o que? Uma filosofia da vida que gerou uma organização social, gerou um estilo de vida, tudo nascido da filosofia católica da vida, da teologia. Gerou um estilo de vida e gerou então uma cortesia, que é a flor desse estilo de vida, é o trato. Quer dizer, é uma alta flor da civilização a cortesia.
Eu prefiro um povo que não tem nenhum desses progressos modernos e é muito cortes, do que um povo sem cortesia mas que tem, por exemplo, aviões supersônicos… [faltam palavras] … basta ter dinheiro. E dinheiro qualquer beata tem, basta abrir os olhos. Mas não é disso que se trata. Trata-se de ter tudo dentro de si, todas essas concepções. Trata-se de ter uma alma católica.
Bem. Essa cortesia eu vou dar exemplo aos senhores. Saint Simon fala — para chegar um pouco no Saint Simon — de uma senhora — era se não me engano, uma contesse de… — que tinha esse, ela sabia tão bem cumprimentar as pessoas que quando ela estava — ele dá o exemplo concreto — numa roda onde tem — infelizmente eu não tenho o livro aqui para consultar — mas tem, por exemplo, um general, um príncipe, um magistrado, o [médico?] do rei e uma amiga dela, ela seria capaz de fazer uma reverência diante de todos. Olhando para cada um sucessivamente, e pelo olhar dosando o cumprimento segundo o que era cada um. Isso é um mundanismo, ou melhor, isso não é um mundanismo; é uma flor de justiça, uma flor de humildade, uma flor de caridade. É a Igreja que suscita essa perfeição.
Bem. Eu falei de etiqueta. A etiqueta é uma coisa muito mais vasta do que a cortesia no sentido de hoje da palavra, mas faz parte do ar de côrte de antigamente. Vamos imaginar, por exemplo, na corte de Luís XIV, coisas de etiqueta. O rei, em primeiro lugar, normalmente, etiqueta daquele tempo era diferente de hoje, da de hoje, os senhores vão ficar chocados com isso — estava-se habitualmente de chapéu na cabeça dentro de casa, os homens, e também nos jardins. De maneira que um homem, dentro de casa, tinha a peruca, que é uma coisa que naturalmente choca muito aos senhores, a peruca e, por cima da peruca, um chapéu. E o chapéu ainda tinha plumas e ainda às vezes tinha pedras preciosas, além de bordados. Portanto, vamos dizer, o rei sai no parque, Luís XIV sai no parque acompanhado com grande número de cortesãos. Ele se encontra com um primo, como era a pessoa mais próxima possível dele, ele tira ligeiramente o chapéu. E é a única categoria de homens para a qual o rei tira ligeiramente o chapéu. Para os outros ele não tira. Ele tira, entretanto, para todas as senhoras que ele encontra, até para as crianças do palácio.
Os senhores estão vendo aqui a dosagem. Uma criada do palácio era imensamente menos do que um príncipe, primo do rei. Mas era uma mulher. E as idéias da cortesia antiga levavam a respeitar na mulher a fragilidade, levavam a respeitar da mulher a graça e viram uma excelência particular em que o homem, que representa a força, soubesse tributar esse respeito à fragilidade. Resultado: para qualquer mulher o Rei sol tirava o chapéu.
Não sei se os senhores percebem o mundo de idéias, de considerações, de pontos de vista que entram nessa simples diferença de protocolo. Ele encontra um Cardeal. Para o Cardeal ele tira o chapéu inteiro, mais do que para o príncipe. Por que? Porque é um chefe na ordem eclesiástica e a Igreja é mais do que o Estado. E por isso ele diante do Cardeal se descobrirá suspendendo o chapéu inteiro.
Bom. Ele passa pelas ruas de Paris — quantas vezes isso aconteceu; não tanto ele, que ele ia pouco a Paris, mas outros reis da França, outros soberanos em todos os lugares — ele ia a Paris e passava e via o Santíssimo Sacramento, que era levado para um doente. Imediatamente a carruagem real parava, e se não fosse do rei, de um príncipe, um ministro de estado, um embaixador, um general, fosse lá o que fosse, parava a carruagem, e tinha dentro da carruagem almofadas para essa emergência. Os dois lacaios que estavam atrás desciam, colocavam a almofada no chão da rua, e o rei se ajoelhava junto com todos os outros para ver Nosso Senhor Jesus Cristo passar. Por que? Porque diante de Deus são todos iguais. Não sei se os senhores percebem a Fé que entra nisso. Isso é uma coisa bonita. Não era tão raro o fato do rei ter tempo e fazer o seguinte: o Santíssimo Sacramento, quando saía à rua naquele tempo, não saía como hoje, no peito de um padre que vai conversando sobre futebol. Ele saía, o sino da paróquia tocava, e o Santíssimo Sacramento ia debaixo do pálio, carregado o pálio pelos fiéis e pelos fiéis mais importantes do lugar, que iam levar, acompanhar Nosso Senhor pelas ruas até a casa do doente, e entravam na casa do doente. Fosse um porão. Porque onde entra Nosso Senhor Jesus Cristo, é uma honra para cada um entrar.
Bem. Não era tão raro, o rei tendo tempo, pegar uma das varas do pálio e ir à casa do doente. Bem. Quando o rei entrava com o Santíssimo Sacramento, não havia honras para o rei. Só estava presente o Santíssimo. É claro, ali está Nosso Senhor Jesus Cristo, acabou-se. Mas isso é Fé.
Saint Simon descreve a cena de levarem o Santíssimo Sacramento para Luís XIV agonizante. As tropas em grande gala formando alas, desde a capela do castelo de Versailles até a ante-câmera do quarto de dormir do rei. A côrte toda em traje de gala para honrar o Santíssimo Sacramento. Na escadaria que conduzia ao andar onde estava o rei, todos os príncipes e princesas da Casa Real ajoelhados, para honrar o Santíssimo Sacramento. O Cardeal arcebispo de Paris passava, levando o Santíssimo, em grande aparato de Cardeal e seguido de todo o clero com velas na frente. Era assim que Nosso Senhor era levado ao rei.
Agora, por que? Porque se havia tantas honras para o rei, a fortiori maiores eram as honras para Deus Nosso Senhor, para o Santíssimo sacramento. Os senhores estão vendo que é um conjunto de fórmulas que envolvem o próprio Deus.
Bem. Uma coisa linda da etiqueta daquele tempo: quando se rezava o Evangelho, o padre rezava o Evangelho na Igreja, na hora de rezar o Evangelho todo mundo se levanta, mas os fidalgos puxavam a espada e assim ouviam o Evangelho com a espada alta, com o propósito de guerrear pela expansão do Evangelho e por sua defesa. Os senhores não acham que isso é mais bonito do que ouvir uma missa em ié-ié-ié? Faz mal comparar. Não sei até se não de mau gosto fazer comparação.
Bom. Agora, o rei está na sua sala, recebendo pessoas. Há uma poltrona supereminente para ele e para a rainha, e eles ocupam o lugar mais em evidência da sala. Depois, tem cadeiras, poltronas comuns para os duques e pares da França. Depois, tem simples cadeiras para nobres de uma categoria menor e para senhoras de categoria menor ainda uma forma de almofada grande, redonda, que eles sentavam.
Bem. Por que? Porque a hierarquia social é como uma escada, em que todos participam em grau maior ou menor do poder do rei e da dignidade do rei. E como os duques são chamados os florões da coroa do rei, os florões da coroa do rei são aqueles ornatos que cercam a coroa — então, eles junto ao rei se sentam numa cadeira que, sem ser um trono, tem algo de um trono. Agora, como os outros nobres já não são os florões do rei, sentam-se numa cadeira e os outros membros… [faltam palavras] …E muitos nobres estão de pé. E uma das virtudes do cortesão era saber ficar em pé. Ficavam horas em pé. A tal ponto que se dizia que o verdadeiro cortesão deve sempre comer quando pode e sentar quando pode, porque é dura a vida para ele. Agora, isso não chocava ninguém. E muitas vezes entrava uma pessoa que tinha uma cadeira mais próxima do rei e os lugares se mudavam e algumas pessoas ficavam desbancadas. Passavam a ficar em pé. E ninguém se chocava. Era natural. Por que? Porque o mundo é hierárquico e a virtude da humildade, da justiça, da caridade levam a querer prestar essa honra ao outro. Quer dizer, assim é que se faz. Essa é que é a hierarquia, a hierarquização de todas as coisas.
Bem. Para dar exemplo dessa geral hierarquização, o vestir-se do rei. O vestir-se do rei — é uma coisa que choca um pouco hoje — era público. Como é que era o vestir-se do rei em público? O rei se levantava e, primeiro ato, ele se ajoelhava, mas ainda de camisola, e rezava num oratório, num genuflexório que tinha à cabeceira dele. Depois, havia uma espécie de balaústre separando a cama do rei do resto do quarto, o rei atravessava o balaústre e começava a se vestir. Eram as principais pessoas da corte que ofereciam as principais peças de roupa para o rei. De maneira que um oferecia a camisa, outro oferecia a cinta… o irmão do rei, portanto, a pessoa mais próxima possível do rei, oferecia a camisa a ele. E assim os outros serviam o rei, até que o rei estivesse pronto. Eram os mais altos nobres que se ufanavam de fazer isso. Mas não era só com o rei. Era também com os príncipes de uma categoria menor do que o rei. Uns ofereciam a camisa aos outros. A casa da França, por exemplo, tinha dois ramos da família real, colaterais: o ramo de Orléans e o ramo de Condé. Mas os Condés eram parentes mais longe do rei do que os Orléans. De maneira que quando estava presente um príncipe de Condé na cerimônia de vestir-se de um Orléans, o príncipe de Condé devia passar a camisa para o duque de Orléans vestir.
Bem. Um dos Condés, não me lembro bem se era precisamente príncipe de Condé ou um… um qualquer duque de Bourbon, qualquer um daqueles, andou se gabando de que a diferença entre ele e os Orléans era tão pequena que ele, estando presente ao vestir-se do duque de Orléans, ele não passaria a camisa ao duque de Orléans. O Saint Simon conta esse fato. O duque de Orléans deu risada, oh, oh, oh, etc., onde é que se viu etc., e disse: eu vou obrigá-lo a me passar a camisa. Um dia ele estava, levantou-se da janela do quarto onde ele estava presente, ele percebeu o tal príncipe primo dele passeando embaixo no jardim. Ele, no traje em que estava, chegou na janela e gritou:
— Mon cousin, mon cousin — meu primo, ó meu primo.
O outro teve que acabar vindo.
— Chega aqui um pouco!
O outro veio.
— Pega minha camisa e vista aqui
Era tão flagrante a recusa, que o outro vestiu.
— Agora pode ir embora, porque eu não tenho nada a dizer.
Bem. É para os senhores compreenderem que essa hierarquia não existia apenas do patrão para o empregado ou de nobre para plebeu. Mas existia igualmente acentuada em todas as categorias reais, categorias mais altas da sociedade. Agora, os senhores querem ver como isso é católico? E como isso se conservou na Igreja? Basta os senhores considerarem o seguinte: quando se paramentava, um Papa quando se paramentava (observação de um ouvinte: quando se paramentava…) Era uma honra ajudar o bispo a paramentar-se. Era uma honra ajudar o Papa a paramentar-se e eram altos prelados escolhidos para isso que ajudavam para isso. Por que? Porque era a expressão hierárquica do serviço. Quer dizer, é toda, portanto, uma sociedade na qual essa hierarquização se fazia de um modo muito pronunciado, de um modo muito acentuado que condicionava todos os costumes. Por exemplo, uma duquesa, quando ia à côrte para as ocasiões; eu nem falo ,ais de graus, mas as ocasiões — quando se tratava de fazer, havia uma distinção muito forte entre três ocasiões; as ocasiões de gala, as ocasiões solenes; bom, depois, nas ocasiões de cerimônia e as ocasiões comuns. A ocasião de gala — que é o que Saint Simon chama de cerimônia, que não tem em português propriamente o sentido de cerimônia francesa — era, por exemplo, para fazer uma visita a um personagem de alta categoria, em grandes circunstâncias da vida dele. Por exemplo, luto, grande luto. Então, havia o traje de cor para isso, que é um traje particularmente brilhante. Alguns trajes de cor eram até arcaicos, capas, mantos, com lacaios carregando etc., etc. Depois, as visitas propriamente de cerimônia. Correspondem ao que se chama uma visita de cerimônia ainda hoje. Quer dizer, visitas a pessoas que a gente conhece pouco, e que são de muita distinção. Depois, a intimidade, o trato comum.
Bom. A idéia falsa que as pessoas têm é que nas ocasiões de gala as pessoas tomavam uns ares mais arrogantes. Essa é a gala do cafajeste. Na ocasião de gala, a pessoa tomava um ar solene. Mas era exatamente quando a maior amabilidade se punha, da parte das pessoas. Era a ocasião de ser amável, não mais arrogante. Todo mundo tem idéia de que isso é arrogância.
Bem. Uma era a atitude do homem na ocasião de gala, quer dizer, pêsames e gala se mudava. Havia um traje especial, havia um modo especial de se cumprimentar, reverências especiais, tudo era especial para essa ocasião. Outro era para fazer os mesmos pêsames para uma pessoa de categoria menor. Quer dizer, tudo era graduado conforme as circunstâncias. Os senhores encontram aí uma diferença profunda no trato de hoje em dia, evidentemente. E os senhores encontram a seguinte idéia: quanto mais eu admiro uma pessoa, por alguns desses títulos, mais eu devo me inclinar diante dele. Essa idéia é desconcertante para o moderno. Agora que encontrou o desconcertante. Quanto mais eu me inclino diante dela, tanto mais eu participo dessa coisa boa que tem nela. Isso é desconcertante para o moderno.
Eu dou aos senhores uma aplicação: os senhores imaginem uma pessoa que fosse falar com — não sei — vamos tomar uma figura do tempo de Luís XVI, que era muito admirada no tempo de Luís XVI, talvez exageradamente — o bailio de… Era grande navegador lá das Índias etc., e considerado um herói. Quando ele chegou á côrte Luís XVI, depois de ter sido feita a navegação dele às Índias, ter tomado colônias… [falta palavra] …etc., etc., contra todo o protocolo da côrte, o irmão do rei, Conde de Artois, levantou-se para falar com ele, falou com ele de pé, como se ele fosse um príncipe. A idéia era que o Conde de Artois, fazendo isso, não se rebaixava, mas mostrava compreender o valor do homem. E mostrando compreender o valor do homem tinha algo do valor do homem. Porque aquilo que a gente compreende e admira, tem algo daquilo. Não sei se eu exprimo bem essa idéia, ou deveria exprimir melhor. Se não estiver clara eu dou um outro exemplo; talvez fique mais clara a idéia.
Os senhores tomem uma pessoa, por exemplo, que vai tratar com um grande pintor. A pessoa trata o grande pintor com todas as atenções devidas a um grande pintor. A idéia que dá é de que a pessoa compreende o valor de uma grande pintura. Já que respeita tanto um grande pintor é porque compreende o valor de uma grande pintura. E se compreende o valor de uma grande pintura, é porque algo de valor da grande pintura existe nela, porque quem entende de uma grande pintura tem algo do valor de um grande pintor e da grande pintura. Não sei se está claro o exemplo ou se queriam que eu explicasse melhor?
Então, mostrar o respeito para tudo quanto é respeitável e sua admiração para tudo quanto é admirável, é crescer até essas coisas. Não é diminuir. Isso está claro para a geração muito nova, ou eu deveria explicar melhor? Então, também, quem soubesse tratar um rei com toda, vamos dizer, uma rainha com aspecto muito nobre, muito elegante, como era Maria Antonieta. Quem soubesse tratar Maria Antonieta inteiramente como ela devia ser tratada, dava provas de que era um homem de côrte, que sabia o apreço que se devia dar a uma pessoa como ela. E, portanto, entrava um tanto na linha dela. Quem faltasse com respeito para ela, não era tido como um colosso; era tido como um cretino… [falta palavra] … que entrou para falar com a rainha Elisabeth e… [faltam palavras] … Há pouco eu o comentei. Isso, antigamente, diriam: que horror! Que besta quadrada! Ele não entende que é uma rainha?! Na mentalidade moderna, não. Ele achatou a rainha. Então, é um colosso.
Não sei se os senhores percebem a inversão completa de idéias que há nisso. Está aí também o fato de ter reverências mais profundas, que indicavam maior respeito, eram aquelas que eram feitas pelos homens de côrte, os fidalgos. Era porque eram homens que sabem respeitar, que tem a arte do respeito.
Bem. Para acabar a parte do respeito, eu diria o seguinte: é que isso só existe numa sociedade, quando existe exatamente esse conjunto de virtudes ao menos em estado de tradição. Se não possuem por princípio, pelo menos como reflexo. No tempo de Luís XIV, isso, como virtude, já estava se esfumaçando, mas como reflexo ainda existia. Era um hábito bom que resultava de um tempo anterior onde houvera virtude. Não se pode dizer que essa virtude houvesse no tempo dele. Mas era uma tradição que restava. Então, havia um bom impulso de todo mundo, por humildade, por justiça de admirar tudo que admirava. O contrário do espírito igualitário moderno.
Bem. Agora, quanto ao afeto. As pessoas que imaginavam que a cortesia do Ancien Régime era uma cortesia puramente feita de sorrisos, não entendem nada do negócio. Era uma cortesia que dava verdadeiramente trabalho. Um exemplo que o Saint Simon conta — naturalmente exemplo raríssimo — Luís XIV foi passar uma noite, ou uns dias, não me lembro bem — no castelo do duque de… [falta palavra] ,…que era um filho de Madame de Montespan. E então o duque de… [falta palavra] … fez a ele as honras do castelo, mostrou onde era… [falta palavra] …e Luís XIV olhou pela janela e viu uma fileira de árvores e disse o seguinte: é bonita a fileira — uma alameda, árvores de um lado e de outro — mas ela ficaria muito mais bonita ainda se fosse em tal lugar assim. O duque de… [falta palavra] … não disse nada. Na manhã seguinte, quando o rei acordou, as árvores estavam na outra fileira. Para fazer a vontade do rei. Quer dizer, ele mandou gente trabalhar a noite inteira — o Saint Simon não indica se ele mandou cerrar as árvores e espetar no chão no outro lugar, ou se ele mandou extirpar as árvores, mas não é com qualquer árvore que a extirpação é possível, na manhã seguinte as árvores estavam do outro lado. Os senhores podem imaginar o gasto, o trabalho, a amolação, ficar a noite inteira acordado vigiando etc., etc. Era apenas para determinar um sorriso do rei. Os senhores vão dizer: bajulação! Pode ter entrado bajulação, mas quem leva isso meramente à conta de bajulação não compreendeu o prazer de fazer prazer, que era uma das molas da vida de antigamente. Isso que naturalmente com o rei tomava esses casos extremos, citam cem exemplos de outra natureza em casos menores. Alguém que elogia um objeto qualquer de uma casa em que está em visita, toma a carruagem para voltar para sua própria casa e quando chega em casa encontra aquele objeto lá. O dono tinha mandado a cavalo, mas depressa. Era um presente, para fazer uma gentileza. Perdeu o objeto, e o objeto custa dinheiro. Mas era o prazer de ter causado prazer.
A arte, por exemplo, das festas de improviso. Receber um visitante ilustre no seu castelo — o castelo é sempre no campo, um parque, etc — receber um visitante ilustre no seu castelo, improvisar festas de que ninguém pensou. Novas completamente. E preparadas com meses de antecedência, originais para aquele homem. Então, por exemplo, vão passear — não sei, por exemplo — está se recebendo um general, termina o jantar, o dono do castelo diz: “general, vamos passear um pouco pelo parque”? Em um dos passeios pelo parque, de repente, de um lugar, pulam vários soldados com o mesmo fardamento com que estava a guarda dele no dia em que ele ganhou a batalha. E prestam a ele a honra. Ele pensa que está tudo, não. Uma orquestra campestre toca uma música que é a marcha daquele dia. E depois aparece um ator da comédia, ou uma atriz, e recita uma poesia original para a ocasião, elogiando o feito dele em tal batalha. Quer dizer, os senhores estão percebendo, isso foi pensado. Meses antes, deu trabalho, deu despesa, mas não se diz o que se diria hoje: que abacaxi receber um homem desses? Mas pelo contrário, há uma alegria em causar alegria. E isso é assim mais modestamente em todas as categorias sociais. Faz parte da doucer de vivre.
Eu me lembro num livro do Lenotre, chamado: “La Vieille France”, há um capítulo especialmente consagrado a essa doucer de vivre. Ele conta, por exemplo, casos assim: uma pessoa que vai a um hotel em Calais, que é um porto onde se chega vindo da Inglaterra. Desce um inglês, que conta isso nas memórias dele, mas é um quidam qualquer num hotel qualquer, e elogia muito o vinho que lhe servem. Naquele tempo, quem viajava de carruagem, levava um farnel com garrafas, com uma porção de coisas. Quando o sujeito abre, encontra três, quatro, meia dúzia daquelas garrafas, que o hoteleiro tinha mandado pôr sem cobrar, dentro da carruagem para o homem, pelo prazer de ser amável, mais nada.
Então se conta milhares de fatos assim. E o presente, o presente recíproco, chega a ser um hábito comum da vida. Outra coisa, outro pedaço na casa dos outros. O hotel era raríssimo naquele tempo. As pessoas quando iam a Paris se hospedavam nas casas das que tinham casa. As casas tinham um quarto de hóspedes e era normal quase o ano inteiro hóspedes presentes, tratados o tempo inteiro com a maior distinção, a maior gentileza e quando iam embora, presentes. O hóspede, também ao ir embora, deixava presentes.
Um caso que diz tudo. Uma duquesa, eu não me lembro qual é, eu creio que contei esse caso aqui — uma noite acorda, ela dorme e ela não tinha o hábito de mandar colocar — não, não foi assim: ela dormiu e entre a cabeceira da casa dela e a parede, havia um cortinado; quando ela subiu, ou melhor, quando ela despediu a criada dela, ela ficou sozinha — os senhores tendem a imaginar aquelas camas esplêndidas, com degraus, com aquele dossel em cima etc., ela vê que alguém se move atrás da cama dela. Susto, aparece um homem com uma pistola na mão e diz: não se mexa! Ele diz a ela: Madame, eu sou Cartouche. Cartouche era o mais célebre bandido da época. Diz: “eu estou morrendo de fome, a senhora vai mandar vir coisas para comer e champanhe, porque eu quero beber champanhe. Eu vou me esconder atrás da cortina, a senhora toca a campainha, chama sua criada e manda servir essas coisas. Manda a criada ir embora, se tranque e quando a senhora estiver trancada, eu vou comer”… havia uns cordões que passavam pelo teto e tocavam um sino, não havia eletricidade. Pam. Chegou a criada. Ela: “olha, traga perdizes, não sei mais o que, etc., e champanhe. Eu estou com fome”.
A criada terá ou não terá estranhado, eu não sei. Naturalmente trouxe o que ele mandou. Ela foi, levantou, trancou e disse ao Cartouche: coma. Ele comeu.
Agora, era um bandido… [faltam palavras] … caixote de magníficas caixas do melhor champanhe que Cartouche mandava para a duquesa.
Aí os senhores compreendem todo o resto. Até hoje, ou melhor, até onde essas coisas entranhavam a vida.
Bem. Ela foi beber o champanhe. Não teve, por exemplo, medo do que estivesse envenenado, o que se teria hoje. Bebeu. O champanhe estava ótimo, etc., etc. A policia soube, veio trazer a investigação de onde é que vinha esse champanhe. Resposta: tudo indica que tenha sido roubada de tal magistrado assim… [falta palavra] … do rei, que seria o Supremo Tribunal do tempo, o Parlamento de Paris.
Bem. O presidente do supremo tribunal, menos elegante do que o bandido, move um processo à duquesa para obter indenização por ter bebido o champanhe dele. E ela bate o pé e diz que não está provado que era dele, e sai um processo… [falta palavra] … cuja existência eu não conheço. Cartouche tinha mostrado até onde ia o gosto do presente e da delicadeza no Ancien Régime. Para que um bandido fazia isso? Era um bandido, ele acabou morto, e merecia a morte que teve. Mas é um tal hábito da doçura de viver que por um impulso natural o bandido tem reflexo de gentilhomem. Eu creio que poucos casos poderiam dizer bem aos senhores até que ponto essa impregnação do respeito, da admiração e da suavidade de vida penetrava nas camadas mais degeneradas da sociedade. É uma espécie de triunfo disso, que é uma flor da civilização cristã, penetrar na alma de um bandido. Os senhores dirão: ih, que coisa horrorosa Dr. Plinio está dizendo! Olha aí, virtude num bandido. Agora, eu pergunto: se eu dissesse: um bandido não tem virtude humana nenhuma; que coisa horrorosa — a mesma pessoa — está dizendo que um bandido não tem virtudes. É ou não é verdade? Porque essa é a cabeça cretina do heresia branca. É tonto na ida e na volta. Não se aproveita para nada. É uma besta. Por que? Porque virtude teológica verdadeira o bandido não tem; se ele está em estado de pecado mortal, o bandido não tem. Mas ele pode ter bons hábitos e hábitos dignos de louvor. Por exemplo, os bandidos da Calábria que faziam esmolas com o dinheiro que roubavam. Roubar é mal feito. Mas ter compaixão dos que precisam é bem feito. Isso que alguma pessoa dirá: pobre homem, vai ver que ele tem muito mais caridade do que muito banqueiro, eu posso dizer do Cartouche, que tinha mais cortesia do que muito burguês. Está dito. Os senhores sabem qual é o reflexo de heresia branca quando ouvem isso? Eles ficam com um nó enjoado, embrutecido, não tem argumentos, se encafifa. Conseqüência: Dr. Plinio é orgulhoso. Pronto…
Bom. Aqui fica uma comparação entre o Cartouche e o democrata cristão. E a conclusão é: eu prefiro o Cartouche. Está terminada uma ligeira exposição do Saint Simon. Nós vamos passar às notícias do dia. Professor Fedeli.
(Sr. –: … [Inaudível] …)
No vestir-se? Por mais singular que seja, o senhor sabe bem toda a admiração que eu tenho pela Europa. A gente deve reconhecer que em algumas coisas da Europa, para alguns efeitos da Europa, existe qualquer coisa de barbárie, que se prolongou durante muito tempo com uma tal ou qual inocência. Por exemplo, coisa chocante: desde os primórdios da monarquia capetíngea, a rainha devia dar à luz a criança, em público, e entrava no quarto dela quem quisesse. Quem quisesse, absolutamente, para ter certeza de que aquele era o herdeiro do trono, porque… [faltam palavras] … capazes de herdar o trono. Agora, imaginem aquela carinha de criança, como é que se podia reconhecer depois de um outro, não é? Está bom. Eu vejo nisso uma certa barbárie. Que é barbárie, é, porque vem desde o tempo dos bárbaros, por uma continuação ininterrupta. Eu acho que aqui está dito tudo. Há mais alguma pergunta, meus caros?…
(Sr. –: … [Inaudível] …)
Houve várias escolas de cortesia muito quintessenciadas. Houve a cortesia chinesa, japonesa — mais a chinesa do que a japonesa — os romanos e gregos tinham certas fórmulas de cortesia — mas o próprio de todos esses produtos nesses povos pagãos é de eles serem muito quintessenciados em algum ponto e apresentarem lacunas entre outros pontos de lacuna em todas essas outras escolas de cortesia antiga, é uma manifestação de respeito que se tributa muito mais ao poder do que verdadeiramente ao valor pessoal. Quer dizer, era objeto da cortesia quase que exclusivamente aquele eu tinha o poder político na mão. A cortesia voltada para o homem célebre, o homem ilustre, muito menos.
Em Roma, na Grécia, por exemplo, havia matemáticos célebres, cientistas célebres que eram escravos. Tratados como escravos e vivendo na senzala como escravos. Sem mais nem menos, e passando a matemática para limpar fechaduras e não sei, para tirar manchas de roupa e voltando para a matemática. E não se tinha idéia de que uma monstruosidade dessa era uma injustiça — não é — às vezes chegando até a divinização das pessoas, tratando-as como deus, como sendo deus etc. E então, com demonstrações de respeito exageradas, até inumanas. A exageração, o exagero então do salamaleque, por exemplo, do oriental, que já perde a proporção que existe entre um homem e outro homem, por mais desiguais que sejam. Pois não, Paulo Sérgio.
(Sr. –: … [Inaudível] …)
O espírito medieval, no fundo, era muito mais hierarquizado que o espírito do Ancien Régime. A única coisa que tem é que não houve tempo de se destilar tudo isso. A Idade Média morreu quando muitas dessas coisas ainda não estavam destiladas, razão pela qual elas viram se fixar depois, e então com uma certa nota mundana de gozo do prazer pelo prazer, e de vaidades, que é o lado censurável dessas coisas. Entrou então muito. Então, vamos dizer: para a gente ter idéia do que é que seria a cortesia perfeita, seria preciso tomar o espírito sacral da Idade Média, imaginar como essas coisas teriam sido, despidos do mundanismo que elas tinham nos tempos modernos. É uma ginástica de espírito difícil de fazer, mas que se pode entender. Está certo, Paulo? Há mais alguma pergunta, meus caros? Dr…
(Sr. –: …[Inaudível] …)
Ah, certamente e muito. Mas como a virtude o saber, o talento — e o saber, que estão na mesma ordem, depois, o nascimento — quer dizer, a condição social hereditária, ou nova, porque eles promoviam muito os plebeus a nobres, eram como que tabelas de valores especiais, dos quais a gente poderia ter hoje idéia, os senhores imaginando, por exemplo — pode sentar-se — imaginando por exemplo o trato que se daria a dois embaixadores, dos quais um é um homem de virtude insigne e o outro um homem de virtude comum. Há uma coisa que se dá ao embaixador e que se daria a ambos. Mas há uma outra coisa que se dá à virtude e que se daria a um muito mais do que ao outro. A gente saberia como graduar, mesmo na pobreza de fórmulas de hoje, saberia como graduar isso, sabendo bem que não se poderia dizer o seguinte: como tal porteiro de hotel é mais virtuoso que o embaixador eu vou tratar dando precedência a ele sobre o embaixador. Isso seria uma fórmula revolucionária.
Mas há uma forma de honra que ainda hoje uma pessoa educada sabe atribuir à virtude, e que não é a mesma que se atribui ao cargo, não é verdade? Isso então naquele tempo um homem compunha ainda com mais arte do que hoje. Não sei se eu respondo bem a sua pergunta? É por meio dos mil imponderáveis que formam o trato…
(Sr. –: … [Inaudível] …)
É curioso. Eu não conheço a liturgia oriental, nem história da liturgia para lhe dar uma resposta precisa. Mas a primeira impressão que me dá o fato é exatamente uma certa simplicidade meio patriarcal, meio pastoril, não é verdade? E é até bonito que tenha sobrevivido, porque as reminiscências são tocantes, são bonitas.
(Sr. –: …[Inaudível] …)
Como? É, de si uma pobreza.
(Sr. –: … [Inaudível] …)
É uma coisa que chama a atenção. Eu creio que a idéia de feudalismo entra muito nisso. Quem participa da condição de alguém, o serve, e o paramentado quase que o integra. Eu tenho a impressão de que no oriente, isso é certo, não floresceu feudalismo nenhum. São civilizações sem feudalismo. Talvez isso tenha concorrido para o caso no oriente médio e próximo.
Bem.eu creio que nós poderíamos passar para as noticias do dia. Os senhores da esquerda têm noticias? Professor Fedeli tem noticia? Os senhores da direita, algum tem noticia? Dr. Paulinho?
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