Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 12/3/1969 – 4ª-feira[CR2] – p. 6 de 6

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 12/3/1969 — 4ª-feira[CR2]

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[Este microfilme apresenta algumas correções manuscritas, por isso adotamos os seguintes critérios:

os trechos entre colchetes e “?”: são do original datilografado, riscados, mal escritos ou sem sentido;

os trechos apenas entre colchetes: são sugestões ou possíveis alterações do corretor, e algumas do cotejador.]


Frutos da pretensão e da despretensão

* As várias atitudes que tem o pretensioso em relação aos demais

nós vamos agora tratar da despretensão, o que [é] que ela gera, quais são os frutos da despretensão.

Primeiro, os da pretensão; depois, os da despretensão.

Primeiro, na atitude com o próximo: má vontade com os outros. O pretensioso tem má vontade com os outros.

Tristeza pelo bem que sucede aos outros, segundo ponto.

Terceiro: alegria pelo mal que acontece aos outros.

E quarto: uma indiferença completa pelos que estão fora do circuito de pretensão, quer dizer, fora de seu próprio teatrinho. Pode acontecer o que quiser, não tem importância; está fora de seu teatro, não importa.

Eu não sei se devo explicar por que razão isto é assim. Uma pessoa que se pretende o que não é e que vive para aparecer o que não é, não pode ter boa vontade com os outros, porque ela quer ser continuamente a primeira. Se acontece algo de bom para o outro, ela fica aborrecida, é evidente.

Segundo: tristeza pelo bem que sucede aos outros. É forçoso. Se o bem que sucede aos outros aproxima os outros da gente, quer dizer, faz [com que os outros possam]1 rivalizar com a gente, a gente não pode gostar.

Imaginem, por exemplo, um homem que é muito pretensioso porque tem, vamos dizer, quinhentos mil contos — que, aliás, hoje não é nenhuma fortuna grande; mas com muito menos do que isto muita gente fica pretensiosa. Bem, vem alguém e conta para ele radiante: “Você sabe, aquele primo seu, assim, deu uma tacada e ganhou um milhão de contos”. Ele, sendo pretensioso, ele fica alegre ou fica triste? Ele fica aborrecido: “Que história é essa? Meu primo, então, vai ficar mais rico do que eu? Onde é que se viu?”. Agora, imagine que chega um para um que tem quinhentos mil contos e que é muito pretensioso, chega algum para ele e diz: “Olha aqui! Sabe aquele seu primo, que tinha um milhão de contos? Fez um mau negócio, ficou reduzido a duzentos mil”. Ela dirá naturalmente: “Coitado! Não diga! Como ele me aborrece; eu compreendo… Mas é o suficiente…” Ele pode sentir outra coisa? Ele quer ser o primeiro em tudo, ele vê um rival cair no caminho, ele fica aborrecido? Não pode ser, é impossível.

Imaginem um rapaz que se tenha em conta, eu não sei, de muito bonito; tem um outro que também se tem em conta de muito bonito, e figura a mesma roda. Chega alguém: “Você não imagina o que aconteceu com aquele [rapaz]; tomou varíola e ficou com a pele toda marcada.” Esse vai ficar triste? Dirá: “Oh! coitado! No fundo, eu estou sozinho! É a miséria da vida, não é?”. Chega para um outro, diz: “Aquele lá, você sabe, que era o leão da roda social que você freqüenta, está caolho, está com coisa à la Moshe Dayan no rosto.” O que é que o sujeito diz? No fundo ele dirá: “Que coitado!”. Ninguém é um monstro de dizer que está contente, mas, no fundo, era2… é um concorrente que ficou de lado. O pretensioso está numa perpétua concorrência com todo mundo, e quem está em concorrência, só pode estimar que os outros fiquem de lado. Não tem conversa.

* O pretensioso tem total indiferença para quem não faz parte da mesma “panelinha” que ele

Bem, agora, indiferença total em relação aos que estão fora do circuito da pretensão. Quer dizer o seguinte. Hoje, e sobretudo, é a época das rodinhas e das panelinhas e cada um procura ser galo daquele galinheirozinho, não é? Se há uma… vamos dizer o que? O sujeito, vamos dizer, é estudante da Faculdade de Direito, e um outro é um leão da Politécnica. Ele nem liga porque não aparece na faculdade dele, não tem nada com a faculdade dele, ele nem toma conhecimento porque o que ele quer saber é aquela plateiazinha dele da Faculdade de Direito; o resto disso que estoure uma bomba, que arrebente, que aconteça… Ah!3 Não tem nada, porque como o centro do mundo é ele e o mundinho dele acaba uns poucos metros além dele, o que se passar depois disso, não tem importância: isto é o pretensioso.

* Ao contrário o despretensioso é benévolo, tem alegria pelo bem dos outros

Está claro isto, meus caros, ou alguém quer… Eu acho que é tão dolorosamente evidente, é até tão banal, que vale a pena apenas fazer uma lista.

Bem, o despretensioso naturalmente é benévolo, tem alegria pelo bem dos outros, tem tristeza pelo mal dos outros e tem interesse por todo mundo. Mas que meio [há] de ser despretensioso, a não ser amando a Nossa Senhora, eu não conheço.

Bem, agora “os frutos da pretensão4 na atitude do homem para consigo mesmo”. Mera preocupação consigo, é claro, não é? Depois, segundo: indiferença para com doutrinas e princípios. Por que é que o pretensioso é indiferente para com doutrinas e princípios? Quem é que me dá explicação disso? Por que é?

(Sr. Andrés Bravo: … [½ linha em branco] …outro… [¾ de linha em branco] …queria que… [¼ de linha em branco] …)

que eu explicasse?

(Sr. Andrés Bravo: É.)

Quem é que me explica? Wilson.

(Sr. Wilson [Gabriel]: Não seria porque ele vive de sensações?)

É isso, mas não é inteiramente isso. Por que [é] que é? Quem é que me diz? Por que é? Quem é? É o José Luiz?

* O pretensioso é tolerante para com os defeitos dos que o lisonjeiam ou bajulam

(Sr. José Luiz Ablas: Eu não sei, mas os princípios são muito impessoais, de maneira que a pessoa não vai ligar para uma coisa que não tem relação com ela.)

É isso. O princípio é uma coisa que não diz respeito diretamente a ela. E o pretensioso só procura envaidecer-se, não se incomoda com mais nada. Chegar para um pretensioso e dizer a ele:

Você admite o princípio de contradição?

Não sei, se ficar bonito para mim, eu admito; se não ficar, pouco me incomodo. O que [é] que me incomoda o princípio de contradição? Que vá às favas!

Não é isso?

Bem, o pretensioso é tolerante para com os defeitos dos que o lisonjeiam ou bajulam. O pretensioso é tolerante para com isso. É natural. Elogia o sujeito; o que ele quer, ele está sempre naquele medo de não merecer tal elogio. Vem um e elogia, [e] ele: “Ah!”, fica todo doce. “Aquele é bom!”. Querem que eu explique isso melhor, ou está claro? Quem quiser que eu explique, levante a mão.

(Sr. Carlos Viano: Qué es “bajulam”, Doutor Plinio?)

Bajular é dizer coisas amáveis de que a gente não está persuadido, ouviu?

(Sr. Carlos Viano: Decir cosas amables?)

Insinceramente.

(Sr. Carlos Viano: A outra persona?)

A outra pessoa.

* Um exemplo de uma pessoa que gosta de ser bajulada

(Sr. Carlos Viano: Isso es adular; [lo mismo?] que adular?)

É adular, é. É adular, bajular. Adular em português é sinônimo.

Bem, os senhores imaginem uma pessoa que tenha a pretensão, por exemplo, de não sei… de ser pontual, por exemplo. [Ser] pontual é uma virtude. Luís XVIII dizia que a polidez dos reis é a pontualidade. Bem, mas imaginem uma pessoa que tenha a mania… que ponha nisso seu ponto de honra. Mas chega sempre pontual, e nunca ninguém percebe. Bem, de repente um chega, e diz: “Chegou o britânico impecável da sua pontualidade! Luís XVIII dizia: ‘A pontualidade é a polidez dos reis’”. Ele fica… Ele, depois disso, vai dizer: “Bom, esse sujeito me disse aquela amabilidade, mas eu não gosto dele porque ele não vai à Missa aos domingos?” Uhm! A Missa que se arranje como puder! Ele comigo foi justo, pouca gente é justa comigo, comigo ele foi justo!”

[Risos]

Não sei se eu explico bem esse reflexo. Acho que muito bem, não é?

Bom, o pretensioso é indiferente para –– é evidente! –– para com as qualidades que estão fora de seu circuito — isto está repetido — e antipatiza pelos que entram em rivalidade com ele. Já está dito anteriormente, é uma pura fórmula. Todo rival é antipático, não é?

Bom, o despretensioso. Se preocupa só com princípios. Depois. É indiferente para consigo mesmo.

* O despretensioso não tem rivalidades

(Sr. Andrés Bravo: Doutor Plinio, él preocupa solo con principios?)

Quer dizer, principalmente com os princípios, não é?

É indiferente para com o modo pelo qual os outros o vêem. Ele é indiferente à adulação, não tem rivalidades. Eu quero acabar esse assunto da pretensão logo, de maneira que eu vou dar rapidamente aos senhores umas normas para aproveitarem esse quadro.

Para a gente aproveitar bem esse quadro não deve começar aplicando a si, porque ninguém é bom juiz em causa própria. A gente deve procurar aplicar aos outros, ver esse defeito nos outros, primeiro. Eu compreendo que lhes espante, mas é assim. Depois que a gente está bem familiarizado a ver esse defeito nos outros, volta o holofote sobre si mesmo, porque aí a gente conheceu bem o defeito; é a segunda fase que se condensa nessas palavras: E eu? ponto de interrogação.

Depois. Alguém da geração “muito nova” me disse que há algumas formas de pretensão no Grupo; algumas coisas que causam pretensão. Eu não sabia disso. Também não garanto que seja inteiramente objetivo, porque não é o forte da “geração-nova” uma objetividade a toda prova assim; à prova de bala, não é o forte da “geração-nova”. Mas eu ouvi dizer que passa — é uma coisa extraordinária —, passa por ser muito bonito ter problemas espirituais complexos para dar para eu resolver. Isso eu acho uma coisa do outro mundo! Mas inteiramente impossível não é, hein!

* O importante é servir a Nossa Senhora com toda a alma e não preocupar-se consigo mesmo

(Sr. –: …)

Quer dizer, uma pessoa que — parece que é assim — que precisa ser atendida muitas vezes pelo Doutor Plinio, porque tem problemas subtis, terríveis! Isso me lembra um pouco um tempo no século XIX, em que era moda ser tuberculoso, está compreendendo? A coisa é um pouco parecida com isso.

Quer dizer, o bonito é servir a Nossa Senhora com toda alma! Se, para isso, é preciso falar muito comigo ou pouco comigo, dá na mesma; isso é um meio, não tem importância nenhuma. O que é preciso é servir a Nossa Senhora, isso é que é [importante]; o resto não é nada! O que [é] que é o resto? Quer dizer, isso é doentio.

Eu não sei se na época dos senhores, se usa essa palavra; na minha se usava: “caraminhola”. Ainda se usa isso ou não? Morreu a palavra, é? Mas ela diz muito, ouviu? “Caraminhola” é uma coisa, uma idéia toda encaracolada, voltada sobre si mesma e que… Os senhores sabem de uma certa forma de cabelo que forma cacho e que a gente não consegue alisar; uma “caraminhola” é uma idéia que corresponderia a este gráfico, compreende? Isto é uma “caraminhola”, não tem fundamento nenhum nesta forma de pretensão.

* O thau é dado por Nossa Senhora por uma bondade inteiramente gratuita, nós não temos nenhum mérito

Bem, parece que uma outra coisa, da qual se faz pretensão, é ter muito “thau”. Ter muito “thau”, parece, eu ouvi dizer que se tem muita pretensão disso. É a coisa mais infundada e antiteológica que imaginar se possa. Por que razão? Porque o “thau” é totalmente gratuito. Nossa Senhora dá o “thau” à pessoa quando Ela quer, e sem mérito da pessoa. A pessoa pode corresponder melhor ou pior ao “thau”. Há mais de um caso dentro do Grupo, de gente com muito “thau” que não corresponde tão bem quanto outros com pouco “thau”. Há muitos casos de gente que tem muito pouco “thau” e que corresponde melhor do que outros com igual “thau”. O que importa aqui é a correspondência.

A gente se ufanar do “thau” é como se os senhores vissem que eu estou todo inchado, envaidecido porque meus pais me batizaram quando eu era pequenino. Que eu tenha muita ufania de ser católico, está bom, mas não ficar vaidoso porque eu sou católico. Meus pais é que me batizaram… O que é que eu estava fazendo na hora em que fui batizado? Babando, chorando, estava me enrolando nos braços de uma ama qualquer, é isso que eu estava fazendo. Agora, eu vou me ufanar disso? Orgulhar-[me] como se fosse uma coisa vinda de mim, não! Agradecer o tesouro que Nossa Senhora pôs em mim, fazendo-me filho da Igreja Católica. Eu quero passar a eternidade agradecendo isto, isso sim, tanto mais que eu de nenhum modo merecia; eu fui concebido no Pecado Original, Nossa Senhora por bondade me conseguiu essa graça, a maior de minha vida, a maior, a maior, a maior!

Bom, não tem dúvida, mas eu me ufanar de ter “thau”, é a mesma coisa! Onde é que se viu isto? Não sei, meus caros, se isto está bem claro ou se isto pediria uma explicação. A pessoa alegrar-se de ter “thau”, agradecer a Nossa Senhora está bem, mas gostar constantemente que apareça gente com mais “thau”.

* Se aparecesse um grupo muito mais contra revolucionário do que o nosso qual seria a minha atitude?

Eu, numa noite aí que houve a recepção ao Cardeal Slypjy, numa rodinha que se fez na Sala da Tradição, eu fiz uma pergunta sumamente antipática. Eu a faço aqui aos senhores. Qual seria a reação de cada um de nós nessa sala aqui, se eu chegasse e dissesse o seguinte: “Eu vou lhes contar uma novidade espetacular, simplesmente extraordinária. Eu tive conhecimento, aqui, de um ‘Grupo’ mais numeroso do que o nosso, mais equipado do que o nosso, com incomparavelmente mais ‘thau’ do que o nosso, e que corresponde a esse ‘thau’ incomparavelmente melhor do que nós; a tal ponto que eu resolvi trabalhar também nesse ‘Grupo’. Uma parte do meu dia — helás! — e uma parte das noites da semana, eu vou consagrar a esse ‘Grupo’ também. Mas eu acho que eles estão tão acima de nós, que até eu logo não vou pôr os senhores em contato com eles; daqui a alguns anos, depois que os senhores progredirem bem, talvez”.

Bom, nós ficaríamos encantados? Nós diríamos: “Mas que esplêndida notícia! Então, Nossa Senhora, afinal, encontrou quem A sirva como nós quereríamos servi-La!”? Ou nós ficamos mais encafifados!?

Não acham interessante fazer esse exame de consciência, não? Eu acho esse exame de consciência muito interessante, não é? Bom, ponham de lado a idéia de que eu passasse parte de meu tempo nesse “Grupo”. Não, eu continuo a dar todo o meu tempo — não vamos personalizar isso —, dou todo o meu tempo ao Grupo. Apenas eu digo que é um grupo incomparável e que até não vale a pena estabelecer, por enquanto, contatos; só daqui a alguns anos. E depois, toda noite eu chego aqui e conto uma maravilha deles: “Fizeram tal maravilha e tal outra, etc., etc.!”. Isto, que reação produziria em nossa alma? Júbilo incontido ou encafifamento? Eu tenho a impressão que se pode fazer essa pergunta, não é? Então, se produz encafifamento, é porque há alguma pretensão.

Eu continuamente faço esse exame de consciência. Se aparecesse o Profeta Elias e me dissesse: “De lado agora, o chefe sou eu! Eu sou o profeta Elias”, eu ficaria encantado ou eu ficaria encafifado? Se eu ficar encafifado é melhor eu deixar a chefia desde já, porque então eu não estou correspondendo à graça. Então isso serve também… Encafifado, não sei se entendem, eu acho que dá para entender, não é? A palavra é, por assim dizer, onomatopaica, não é?

Bem, agora, terceira coisa é… Isso é mais compreensível, que causa muita tentação de pretensão, exercer tarefas importantes, que são tarefas que exigem muito talento, ou muita capacidade de ação, ou muita dedicação, ou que dão — ó delícia das delícias! — mando sobre muita gente. É claro que este não é o amor de Nossa Senhora. O amor de Nossa Senhora, em princípio, a gente prefere ser mandado a mandar, para imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo, que foi obediente até a morte e morte de Cruz! Esta é a formação que nós devemos ter.

Bom, meus caros, com isso, está terminada a exposição e…

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1 ) No microfilme estava: “ faz os outros poder rivalizar”

2 ) No microfilme estava “ora”.

3 ) No microfilme estava escrito “(interjeição)”. Portanto, não fica claro se é uma interjeição do Sr. Dr. Plinio ou do auditório.

4 ) No microfilme estava “despretensão”, mas não faz sentido.

Auditório da Santa Sabedoria