Reunião Normal (Santa Sabedoria) – 12/3/1969 – 4ª-feira – p. 3 de 3

Reunião Normal (Santa Sabedoria) — 12/3/1969 — 4ª-feira

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Método de ensino para o Brasil

...outra coisa quadrada que tem ali é supor que as qualidades que ele atribui ao autor são detectáveis como ele detecta. Pegando com uma pinça três palavras, ali está aquela qualidade. Que aquela qualidade está lá, está. Mas está também de algum modo difusa em todo o texto. Mais ainda, o texto tem uma porção de qualidades difusas, para a qual ele nem tem a atenção voltada porque ele acha que só o detectado exige. Isso é o próprio do quadrado.

(Sr. –: Mas a primeira parte não é legítima num livro didático. O livro diz que tem tais e tais qualidades à maneira de exemplo mais acessível. A segunda parte... [faltam palavras] ...)

É legítimo no livro didático, desde que o livro didático faça a ressalva de que ele vai exemplificar o trecho onde a qualidade está mais saliente. E, habitualmente — isso é um processo de todo criticismo francês, ou melhor, é um processo que todo criticismo francês não só faz tabula rasa, como quando o senhor conversa com um francês concreto que encontra, percebe que está na cabeça dele isso — a omissão do livro criou uma sombra na cabeça dele. O desprezo do francês pelo subconsciente só foi um pouco resgatado pelo Proust.

Isso vai a tal ponto que, eu, estando na Europa, muitas vezes me perguntei o seguinte: pega uma obra prima italiana, ou espanhola, a impressão que eu tenho é que os italianos e espanhóis compreendem perfeitamente aquela obra prima. Tomem uma obra prima francesa, eu me pergunto se o francês de hoje compreende aquela obra prima inteira. Não sei se me exprimi bem?

Aliás, isso é próprio do cientificismo cartesiano, muito quadrado.

(Sr. –: O senhor poderia, ainda que em rápidas palavras, dizer qual seria um método ultramontano para o Brasil?)

Não consigo. Sabe o que eu acho? É preciso um sistema de ensino completamente diferente. E eu tenho a impressão de que ensino no Brasil não é tanto aprender ao menos para certas matérias; há matérias que nós poderíamos chamar susceptíveis de serem intuídas; é claro que isso não pode ser na geografia, por exemplo — mas a parte mais importante do ensino nessas matérias de que falo, para o brasileiro, não é aprender o sujeito o que ele não sabe, mas é fazê-lo explicitar o que sabe, o que ele já intuiu. Aqui está a importância — é ajudá-lo a intuir.

Tenho a impressão de que ele passa por um processo que o torna destro a explicitar o que ele intuiu. Aí o brasileiro presta atenção e se interessa. Mas como fazer isso? E de modo institucionalizado e num programa de ensino, eu não sei se o professor Fedeli que lida muito mais com meninos do que eu, tem alguma sugestão a respeito. Não chega a ter opinião sobre o caso?

(Sr. –: ... [inaudível] ...)

Sim, para o brasileiro. Eu não digo para o ítalo-brasileiro e nem para o luso-brasileiro, que deveria ser a tintura mãe do brasileiro. Nem isso. É para o brasileiro. Por exemplo, meus olhos caíram no Professor: para os furquinzinhos, por exemplo. Olha-se para a cara deles, tudo com olho preto, já perceberam. É só explicitar, porque eles já estão pegando. Mas essa explicitação é complicada, isso eu sei bem. Como fazer é o problema.

(Sr. –: … [inaudível] …)

Numa obra minha fazer a análise que eu fiz ontem, ou melhor, que aquele francês fez da obra francesa?

(Sr. –: … [inaudível] …)

Fica-me muito ingrato eu ficar elogiando minha própria obra. Eu posso na RAQC, na… ilegível …, que alguns dizem que foi feita por mim, numa ou noutra coisa, eu posso no esquema mostrar como é que eu fiz para o brasileiro. Porque aqueles livros são escritos por um brasileiro para brasileiro.

Então, como a gente organiza a caçada do brasileiro, como quem caça um bicho, para obrigá-lo a concordar. É uma caçada qualquer daqueles livros é uma caçada. Algumas caçadas em forma de cerco e outras em forma de corrida descarada atrás da vítima. Isso, uma noite que você me lembre, eu poderia fazer.

(Sr. –: Parece-me que se refere a um pedido ao Dr. Plinio, pedindo um método de estudo, ou de leitura para as obras dele.)

Isso me é extremamente difícil, sabe por quê? Eu faço as obras como elas vão aparecendo e apenas com o plano de cercar… Uma obra minha é composta assim: há uma categoria de gente que eu quero cercar e reduzir ao silêncio a respeito de outros terceiros. E tenho falsos aliados que vão falar mal da obra. Então eu componho para uns, limo para outros e depois limo para aqueles. E assim está feita a obra.

E isso de tal maneira preocupa, que depois me seria difícil fazer, ou melhor, saber como aquilo poderia ser objeto de um estudo. O verdadeiro é o indivíduo se colocar na categoria do homem a quem eu quis persuadir.

(Sr. –: … [inaudível] …)

Outra noite que me lembrarem de tratar desses dois assuntos, eu trato com muito gosto aqui.

Eu gostaria muito de saber o seguinte: o que o leitor hispano-americano acha das dificuldades que a forma de apresentar o livro oferece. Isso eu teria muita curiosidade de ver. Porque há uma diferença qualquer com o brasileiro, que é difícil de definir, mas há.

(Sr. –: Mas não compreendo.)

Isso. Gostariam de uma exposição com menos atalhos para a direita e para a esquerda, o que é mais difícil? A RCR?

(Sr. –: [um ouvinte castelhano] RCR é mais agarrável. Por outro lado, o BUCO é mais, ou demasiado sintético. É preciso intuição para completar o que falta.)

Aqui entra o brasileiro…

Eu digo o seguinte: RAQC, por exemplo. Eu quis na RAQC demonstrar que os partidários da reforma agrária estão errados. Mas eu não quis demonstrar isso para os partidários da reforma agrária. Porque, em geral, o brasileiro já persuadido de alguma coisa, só por um milagre da graça se persuade do contrário. Eu quis demonstrar que a reforma agrária é errada para brasileiros que têm dúvidas a esse respeito ou que subconscientemente apenas tomaram posição na questão. Então, o livro, à primeira vista, é uma refutação contra a reforma agrária. Mas toda a linguagem do livro e o aparelhamento psicológico do livro não é adequado como seria para um partidário da reforma agrária. É adequado para um homem que está em dúvida. De maneira que todas as coisas que estão postas lá não são as dúvidas que teoricamente poderiam ocorrer, mas são as dúvidas que eu sei que aquela categoria de gente tem.

O livro é composto assim, com essa preocupação. Depois, é relido com outra preocupação. Eu sei que há uma porção de pessoas que pensam mais ou menos como eu, mas que vão ler o livro com má vontade. Então, eu preciso não pôr dentro nada que possa servir de exploração. Eu sei que os partidários da reforma agrária também vão ler com má vontade. Eu preciso então tirar os pretextos para crítica. Mas então, dos partidários e dos adversários da reforma agrária, eu quero apenas tirar os pretextos da crítica.

A dialética é toda armada contra o brasileiro que está na dúvida ou que só tomou posição subconsciente. Eu achava mais interessante no dia em que eu tratar disso me fazerem as perguntas.

(Sr. –: Não entendo.)

Da seguinte maneira: eu acho que os livros verdadeiramente que se tornaram universais, não são os livros — ao menos em sua maioria — escritos em abstrato sem preocupação de tempo e de lugar, mas são os livros feitos para um encaixe em tempo e lugar, mas que apesar disso contém valores universais. Vamos dizer, por exemplo: Dante. Eu estou longe de me comparar com o talento de Dante. Dante está todo ele cheio de alusões à política municipal, minúscula e mesquinha, da Itália do tempo dele. Rancores, reivindicações de personagens municipais de terceira categoria, ao lado de grandes personagens históricos. É a ótica de um florentino do tempo dele. Isso não impediu a Divina Comédia de ficar universal. Eu não ousei ir tão alto: mas os Evangelhos?

(Sr. –: Há uma pergunta sobre qualquer coisa de cercar brasileiros.)

Essa caçada, para ser eficaz, tem que ser tão adaptada que ela não pode ser uma caçada, ao mesmo tempo, para homens de várias nações.

(Sr. –: … [inaudível] …)

Os grupos locais que insistem para que os livros sejam lidos e os comentem doutamente. Enfim, perguntem-me na segunda ou terça-feira, eu darei uma resposta.

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Santa Sabedoria