Santo
do Dia (Santa Sabedoria) – 11/3/1969 – 3ª-feira –
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Santo do Dia (Santa Sabedoria) — 11/3/1969 — 3ª-feira
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Sintomas da pretensão e da despretensão
O Solimeo deixou-me aqui um aviso de que as fichas do Santo do Dia estão muito raras porque o irmão do Luiz Gonzaga ainda não pode retomar o serviço depois do falecimento do pai dela, de maneira que estão apenas fornecidas como fichas algumas que em anos anteriores não foram consultadas, daí também o fato de que o Santo do Dia está involuntariamente tomando de um modo demasiado o caráter de um comentário estritamente moral ou de um comentário político oportuno mas que não corresponde bem à natureza do nosso hábito que é mais estritamente piedoso.
Eu fiquei de fazer aqui uma exposição aos senhores no esquema a respeito da questão da pretensão. Eu não me lembro bem exatamente em que ocasião é que eu fiz esse esquema que está aqui. Mas afinal de contas eu dei alguns sintomas da pretensão e alguns sintomas da despretensão. Eu vou dar esses sintomas, depois eu vou dar outros desenvolvimentos sobre a pretensão e despretensão para que a pretensão não seja para os senhores uma espécie de monstro de fumaça difícil de pegar, difícil de segurar, que a gente quer combater e não sabe bem como. Se eu der os sintomas eu tenho a impressão de que mais facilmente os senhores perceberão que estão em estado de pretensão e mais facilmente poderão combatê-la.
Bom. Nós poderíamos dizer o seguinte: o esquema é este: pretensão. Sintomas da pretensão: agitação, inquietude, irritabilidade e, desconfiança e torcida. São os principais sintomas, ou alguns dentre os principais sintomas, alguns dentre os principais sintomas da pretensão.
(Dr. Castilho: Qual depois da desconfiança?)
Torcida.
É claro, é intuitivo isso para os senhores ou quereriam que eu explicasse em que se prende a pretensão? Quem quiser explicação levante o braço para eu ter uma idéia.
Bem. Primeiro lugar: agitação. A agitação não é produzida só pela pretensão mas a pretensão produz sempre a agitação. Por quê? Porque quando a pessoa está pretenciosa ela está querendo impor uma alta idéia de si mesmo para si ou para os outros, é evidente. E com aquele esforço, com aquela tensão que a apetência disso causa. A pessoa fica com muita vontade de modelar essa auto idéia, de justificá-la. E esta vontade é uma vontade desordenada, e por causa disso agitada. Em termos mais simples: uma pessoa por exemplo, vamos dizer, que vai fazer uma conferência, é uma pessoa pretensiosa, ela se agita. Por quê? Porque ela fica com uma alta vontade de fazer a conferência muito bem feita por vaidade. Agora, com esse desejo quando é inspirado pela vaidade é desordenado ele produz agitação. Resultado: se um orador está agitado antes de fazer uma conferência ele pode se perguntar se a pretensão não está presente. É portanto um sintoma da pretensão.
Outro sintoma da pretensão é a inquietude. Agitação não é bem inquietude, a pessoa pode estar agitada sem estar inquieta. Os senhores tomem por exemplo uma pessoa… vamos dizer que alguém dissesse aos senhores: olha, você tirou um prêmio de cem milhões de contos, está aqui tal bilhete, vá pegar no homem da loteria, chega agitado, não chega inquieto, chega ultra-alegre, mas chega agitado. Os senhores compreendem então que a agitação não é a mesma coisa que inquietude. O que é que é um individuo inquieto? É um individuo que está com medo de algum perigo. O extremo da inquietude é a angústia.
Então, o pretensioso fica inquieto. Por quê? Porque o pretensioso sempre visa fazer de si uma imagem muito melhor do que a realidade. E ele sente como é difícil conseguir isso, de maneira que fica inquieto diante do fracasso. Eu estou talvez falando um pouco de pressa, eu não sei. O pretensioso sempre quer fazer de si… vamos dizer que um pretensioso seja capaz de fazer uma conferência igual a dez, ele nunca se contentará com isso, ele imagina fazer a conferência igual a duzentos. Agora, como ele instintivamente sente que há muito risco de ele não conseguir fazer a conferência igual a duzentos, resultado ele fica inquieto, é claro, a inquietação, é uma expressão mais portuguesa, mais correta do que inquietude, que é muito francesa, a inquietude, bem, a inquietação é um efeito da pretensão.
Bem. Outro: irritabilidade. Eu acho que os senhores estão vendo bem para que é que é, não é? O pretensioso por quê é que é irritável? É que ele facilmente… ele fica com a idéia tão grande de si que qualquer coisa que não está em proporção com a idéia que ele forma de si o irrita, ele fica susceptível.
(Sr. Carlos Antunes: Podia repetir?)
Eu dou um exemplo concreto: um indivíduo que tenha pretensão, por exemplo, de ser o maior atleta de São Paulo. Se ele vê um outro elogiar diante dele um atleta ele fica sentido, ele fica irritado. Por quê? Ele diz: como vai elogiar diante de mim que sou o astro e o fênix dos atletas! Como é que vai ousar elogiar este outro, que não é senão uma gota d’água perto deste mar que está aqui! Quer dizer, por qualquer coisa se irrita.
Bom. A última coisa, o pretensioso é desconfiado. Por quê é que é desconfiado? O pretensioso tem sempre medo que percebem que ele não tem todo valor que ele inculca junto aos outros. Mais ainda: ele tem medo de ele mesmo perceber que não tem esse valor. E fica desconfiado, qualquer dito ele toma como sendo voltado contra ele. Por quê? Porque a pessoa que esconde uma coisa é sempre desconfiada. O pretensioso esconde a sua falta de valor — ao menos que seu valor não é tão grande como ele imagina, vai ficar desconfiado. Os senhores querem ver um exemplo, como é isso aí? Os senhores imaginam que um dos senhores usasse… tivesse por exemplo em pequeno, num acidente perdido a orelha, e usasse uma orelha de cera perfeitamente bem feita, artística, ninguém notasse isto. Eu pergunto: os senhores não viviam numa certa desconfiança de que alguém está olhando para a orelha?
Bom. Nós hoje olhamos para as orelhas uns dos outros, nem de longe, nem passa pela cabeça, não é verdade? Orelha, orelha dos outros, nunca na vida. Mas o que tem orelha de cera, hum! Como é isso? O que é que ele está olhando em mim? O que é que ele está achando na minha orelha, não é verdade?
Bem. Ora, todo pretensioso tem orelha de cera, nariz de cera, tem uma porção de coisas de cera, é todo de cera, é parte carne, parte cera. Resultado… [falta palavra] …insegurança, como é? Esse homem de repente vai olhar com aquela má vontade dele… [falta palavra] … para mim e percebe aquilo, como é isso, está compreendendo? Depois ele vai falar de mim: ele que é um isso e aquilo… [falta palavra] … o coitado nem olhou. Mas é o destino de quem tem orelhas de cera, está acabado, não é?
Bom. Em sentido oposto, sintomas de despretensão.
(Sr. –: … [faltam palavras] … torcida.)
Ah! Torcida. Torcida tem uma razão simplicíssima, não é? É que (risos prolongados do Dr. Plinio e do auditório) eu deverei dizer qual é a razão ou não da torcida?
O individuo que é pretensioso nunca de contenta com nada, se ele tem valor igual a dez e consegue imprimir que ele tem valor igual a duzentos, ele imagina logo o seguinte: por que é que eu não farei constar que eu tenho valor igual a mil? Quer dizer, ele está sempre querendo requintar e querendo elevar isto de mais um ponto, vive na torcida.
(Sr. Carlos Viano: O que é que é torcida?)
Como traduzir torcida? É quase intraduzível. É quando por exemplo há um jogo de futebol, um indivíduo é partidário de um dos times, sente uma determinada coisa chamada torcida.
(Sr. Carlos Viano: Imparcialidade?)
Uma imparcialidade…
(Sr. Carlos Viano: Parcialidade.)
Uma parcialidade veemente, angustiada e facciosa, isso seria torcida.
(Sr. Carlos Viano: Isto seria por si mesmo?)
É! Por si mesmo, é claro! Eu não sei como se diz isto em catelhano.
(Dr. Eduardo: Inchada, não é?)
(Sr. Carlos Viano: Barra.)
Barra? Acho que barra não, é alguma coisa que corta alguém, não é?
(Sr. Carlos Viano: Fanático.)
Não, não, não, não.
(Dr. Eduardo: Dr. Plinio, é inchas.)
Inchas?
(Dr. Eduardo: Inchada.)
Inchada? Inchada, é isto, é.
(Sr. Carlos Viano: … [ inaudível] … exemplo.)
Por exemplo…
(Dr. Eduardo: Dr. Plinio, numa torcida de futebol que é uma coisa um pouco diferente que é vamos dizer, seria os sentimentos individuais para atuarem…)
Sim.
(Dr. Eduardo: Um grupo.)
Sim, sim.
(Dr. Eduardo: A torcida num jogo é algo de diferente…)
Da torcida do pretensioso. Eu vou explicar a coisa de outra maneira. Você imagina uma pessoa que gosta por exemplo de passar por ter uma conversa interessante. Vamos dizer que esse indivíduo tenha uma conversa interessante igual a dez, mas ele consegue, por meio de um esforço louco, repetindo coisas que ele ouviu de outros, imitando outros, etc., uma porção de orelhas de cera, ele consegue fazer uma conversa igual a duzentos, ele não se contenta, ele logo passa para mil! Resultado é que ele fica com uma “inchada” permanente, conseguirei, não conseguirei! Está isso claro, ou não?
(Sr. Carlos Viano: Mais ou menos.)
(Sr. Carlos Antúnez: Ele, ele…)
É uma instituição tão brasileira a torcida…
[Risos]
(Sr. Carlos Viano: … [inaudível] …)
Diga.
(Sr. Carlos Viano: Ele não se contenta nunca, ele sempre quer representar um papel cada vez mais brilhante que os outros?)
É isto, ou aos olhos dos outros. Mas há uma forma especial de ansiedade que é contínua com a vontade de conseguir isto e o medo de não conseguir. E isto se chama torcida. Não sei se é bem “inchada”, mas enfim, essa seria a idéia.
Bem. Agora, a despretensão. A despretensão, a primeira coisa dela por oposição à agitação é a sensibilidade. Quem é despretensioso é estável, não se agita. Algum dos senhores está agitado a propósito das próprias orelhas no momento? Ninguém. Por quê? Porque não é pretensioso, sabe que tem o que tem — não é — e está acabado, não é?
Bem. Vamos dizer uma outra coisa, um sujeito que tenha um defeito. Está bom, se ele é despretensioso ele é estável naquele defeito, não se envergonha, não se aborrece nem nada, aquilo é daquele jeito, está acabado, ele toma uma santa sem-cerimônia — não é — é daquele jeito e pronto, não tem remédio — não é — é uma qualidade isto, isto dá estabilidade. Bem.
(Sr. Carlos Viano: Dr. Plinio, um defeito físico ou um defeito moral?)
Não. Defeito moral é diferente, mas defeito moral ou físico.
(Sr. Carlos Viano: Uma capenguice.)
Uma capenguice, qualquer coisa. Nós temos… [falta palavra] …
Bem. Serenidade. É o oposto à inquietação, não é? A serenidade não é simplesmente a calma, mas nos imponderáveis da linguagem portuguesa a serenidade é mais do que a calma, é uma forma de calma requintada, prolongada e com bem estar. A despretensão dá isto. O indivíduo não pretende ser mais do que é, sabe que não é menos do que é, ele se apresenta como é, pronto, é isto.
Depois. Em oposição à irritabilidade, de si a despretensão leva à afabilidade. O despretensioso é afável. O que é uma pessoa afável? A língua portuguesa está mudando de sentido ao longo das gerações, talvez não seja de todo mau eu descrever o que é o afável. O afável é aquele que é normalmente acolhedor, quando é procurado tende a atender bem, quando se lhe pede alguma coisa é propenso a dar, é propenso a concordar, é propenso a combinar com os outros, sem ser um cretino, sem ser um “sem ligação” idiota, quer dizer, não é um bobo, mas ele no que é razoável concordar ele é propenso a concordar.
Bem. Depois por ocasião à desconfiança o despretensioso é perspicaz sem sobressaltos. Qual é a diferença do desconfiado e do perspicaz? O desconfiado é agitado: está olhando o que é que acham? (estas palavras grifadas foram ditas baixinho, cochichando.) O perspicaz não, é calmo, tranqüilo, ele analisa as coisas com frieza, não é isto? Mas ele tem uma forma de perspicácia que é uma perspicácia sem sobressaltos, não tem sustos: ou, é! Vai vendo com calma, com normalidade.
Bem. O despretensioso eu disse que vive de torcida, o despretensioso é propenso à confiança na providência, que é o contrário da torcida: Deus me dará o que for das vias de Nossa Senhora eu receberei, não há razão para eu torcer.
Aqui estão algumas características da pretensão e da despretensão. Eu volto a dizer, essas características não são só do pretensioso nem só do despretensioso, mas normalmente quem experimenta os sintomas da pretensão deve desconfiar que está com pretensão embora possam ser sintomas de outra coisa. Quem experimenta os sintomas da despretensão pode achar provável que esteja num estado de despretensão, embora às vezes haja algum engano, mas são indícios favoráveis a um diagnóstico do estado de espírito da gente.
Bem. Com isso eu então termino o Santo do Dia de hoje. Eu queria apenas dizer duas coisas. Pois não, Viano.
(Sr. Carlos Viano: … [inaudível] … a conferência, cem por cento das pessoas são pretensiosas.)
Cem por cento das pessoas tende a ser pretensioso, não que concede, não cede à pretensão. Quando falo aqui do pretensioso, é o que dá o consentimento ao defeito.
(Sr. Carlos Viano: Agora, esse consentimento é um estado habitual da alma ou é como tentação individual?)
Pode ser uma coisa, pode ser outra. Pode ser um estado habitual de uma alma, pode uma alma ser tentada de pretensão, quer dizer, normalmente a alma tentada de pretensão, ela pode ter de vez em quando concessões ou viver habitualmente no estado de concessão.
(Sr. Carlos Viano: O exemplo que dá o senhor aparenta uma pessoa que está… numa espécie de progresso da pretensão?)
É isso, é. É mais fácil exemplificar. Mas existem estados transitórios de concessão à pretensão, isto pode existir também.
(Sr. Carlos Viano: Agora… [faltam palavras] …questão de consciência… [falta palavra] … senhor?)
É isso.
(Sr. Carlos Viano: Uma pessoa fala… [faltam palavras] … por demagogia, para ganhar a simpatia dos demais, para mas… digamos, por uma pretensão de mando, não é?)
É claro.
(Sr. Carlos Viano: … [faltam palavras] … seu ligacion.)
Não, a questão é a seguinte, que não possui a verdadeira afabilidade. Eu digo isto aqui serve não tanto para nós discernirmos o outro que é pretensioso mas para vermos a pretensão em nós. O demagogo não tem nada de afável, a maior parte dos demagogos, pelo menos, nas horas de solidão ou de intimidades tem um jeito impossível. Eles são afáveis para fora, isso é uma falsa afabilidade forçada. O despretensioso tem uma afabilidade normal, natural, habitualmente, na maior parte dos casos. Eu tinha um tio que era candidato crônico — tio avô — toda espécie de eleições de deputado e de vez em quando tirava na loteria e era eleito. Ele era para ser eleito, um sorriso com todo mundo. Eu vi ele descer do ônibus, passar perto do chaufeur do ônibus e tirar o chapéu para o caufeur do ônibus para agradecer de ter parado. Essa era a cobotinice eleitoral desse homem. Ele sorria para todo mundo, quando entrava em casa mudava de cara, fazia uma cara de dia de chuva e não conversava com ninguém desde a hora que entrava para o jantar até a hora de ir dormir.
Ele dizia que já conhecia todo mundo lá dentro, que não precisava mais conversar, está acabado. Quer dizer, está vendo que é o pseudo-afável, não é? Aliás, sumamente pretensioso.
Bem. Então com isso… João Carlos.
(Sr. João Carlos Leal da Costa: … [falta palavra] … permitir o seguinte: creio ver também um pequeno problema quando as pessoas começam a fazer um exame de consciência com esses sintomas, por exemplo tende a olhar os sintomas de despretensão e pode haver um problema quando a pessoa nota em si alguns sintomas de despretensão, começa a achar, veja, eu sou despretensioso, etc. O fundo o senhor aconselharia que a gente fizesse esse exame, se notasse alguma característica de despretensão como levar isso a bom termo?)
Não, o valor desse exame, desta investigação é apenas o seguinte: quando a pessoa diz: eu não vejo claro em mim, feito o exame, se eu estou pretensioso ou não, então pode examinar através disso como uma espécie de exame colateral, mas o objeto do exame da pretensão é a gente olhar para si mesmo e ver se a gente está querendo passar por aquilo que não é, primeiro ponto; segundo lugar, se a gente está querendo mostrar de um modo ostensivo aquilo que é. São os dois pontos. Aí é analisar cada ponto da conduta da gente. Isto são exames colaterais para a pessoa testar o seu estado de espírito quando não vê claro.
Bem. Isto redunda de algum modo num elogio da despretensão e numa critica à pretensão. Porque os senhores estão vendo que o despretensioso tem a paz de alma e tem o bem-estar interior, enquanto o pretensioso tem uma verdadeira infelicidade interior. Os senhores vejam uma pessoa que carrega dentro de si agitação, inquietação, irritabilidade, desconfiança, torcida, os senhores queriam estar na pele deste?
Bem. Os senhores vejam um outro, que é estável, sereno, afável, perspicaz sem sobressaltos, e confiante na Providência, os senhores não acham que esta é uma pele sumamente habitável? Não é verdade.
Bem. Então o que é que se deduz daí? É também um convite a praticar a despretensão recebendo já na terra uma parte do prêmio que se vai ter no Céu. São duas coisas que pendem desta conferência. Está claro, João Carlos? É… Viano.
(Sr. Carlos Viano: O que é que o senhor… [faltam palavras] … por exemplo, a falta de confiança na bagarre, o Reino de Maria, a missão do senhor?)
Porque é…
(Sr. Carlos Viano: … [falta palavra] … mais concludente?)
Não. Porque esses são os sintomas, vamos dizer, que são sintomas do pretensioso como tal sem considerar o pretensioso no Grupo, o pretensioso fora do Grupo, é uma coisa considerada em tese. Agora, a vantagem de considerar em tese é que a pessoa que faz essa análise mais facilmente se habitua a perceber a medula da pretensão no que consiste. E para combater um defeito é preciso conhecer bem a medula. Carlos.
(Sr. Carlos Antúnez: Queria pedir se podia repetir os pontos, Dr. Plinio.)
Os dois pontos são: então aqui há um exame de consciência colateral, não é? E há também um convite a gozar já nesta terra da felicidade que a despretensão traz.
(Sr. Marcos Aurélio Vieira: Dr. Plinio, o seguinte: para a pessoa ter esses requisitos da despretensão, em última análise, para ela ter despretensão, precisa ter algo, posse de algo, quer dizer, para ela ter isso afabilidade, estabilidade, etc., precisava que ela tivesse posse de algum valor, enfim de algo; o que seria isso?)
Quer dizer, ela precisa ter orelhas de verdade e não de cera, é isso?
(Sr. Marcos Aurélio Vieira: É, exatamente.)
É verdade. E esse algo todo mundo que tenha uma visão reta das coisas tem. O algo qual é? Eu existo criado por Deus, fui batizado e eu estando no estado de graça, Deus do mais alto dos Céus faz as suas delicias de olhar para mim. Não precisa mais nada. O senhor quer ver a contrapartida disto? Imagine que lhe contassem o seguinte: olhe, Marcos Aurélio, você não sabe, você estava andando por tal rua assim assim, passou a Rainha da Inglaterra e disse: sim senhor, aquele é um rapaz! Poderia talvez… não a sua mas a despretensão de um outro poderia talvez ficar abalada com esse elogio, não é verdade? Imagine a Rainha da Inglaterra, entendida em elegâncias e outras coisas do gênero,… [faltam palavras] …: aquele é o rapaz, não é verdade? Isso poderia dar pano para manga para um outro, não digo concretamente no seu caso, para meses de megalice, ao menos de tentação de megalice. Pois bem, Deus não é infinitamente mais do que a Rainha da Inglaterra?
Algo há em cada ser, por mais modesto que seja que faz dele algo de único, Deus nunca repetirá um ser igual àquele. E algo que estando em estado de graça tem tanto valor que do mais alto dos Céus, tendo sua essência infinita a considerar, tendo Nossa Senhora, tendo todos os Anjos, todos os santos, tendo todas as pessoas virtuosas na terra, sem embargo disso Deus detém Seu Olhar naquele e faz as suas delicias de olhar para aquele. Então, toda criatura de Deus tem algo de muito nobre e de muito alto na sua alma, e isto Deus olha, por miserável que a pessoa seja segundo os padrões humanos. Não sei se eu me exprimi claramente?
(Sr. Marcos Aurélio: … [faltam palavras] … agora, eu perguntaria mais o seguinte: teria algo também na… no sentido da vocação, quer dizer, a pessoa estará satisfeita na medida em que ela está… sente… está compenetrada de que ela está seguindo a vocação, quer dizer, ela está no caminho certo. Teria algo também nesse sentido?)
É claro, isto também deve dar a pessoa segurança, quer dizer, eu estou fazendo a vontade de Deus, eu estou seguindo o caminho que eu devo seguir, eu portanto posso estar tranqüilo por mais que seja criticado por outros. É um elemento de segurança, de tranqüilidade que pode ser despretensiosamente utilizado.
Bom. Então com isso… Mirra.
(Dr. Antônio José Mirra: Dr. Plinio, uma pessoa pode… [falta palavra] … audaciosa,… [falta palavra] …, querer ser melhor do que é? Por exemplo, Santa Teresinha, ela queria ser cruzado, queria ser uma porção de coisas, e tinha grandes desejos. Grandes desejos é… é…)
É pretensão?
(Dr. Antônio José Mirra: É pretensão?)
Não. O grande desejo não, quando a gente tem esse grande desejo como ela tinha, por amor de Deus. Agora, quando a pessoa faz a idéia seguinte: “eu queria ser cruzado porque é lindo ser cruzado, toda a imprensa católica do mundo estaria dizendo”… (interrompido pelos risos). “Que lindo seria se eu fosse cruzado, missionário e ao mesmo tempo professora, e então me aclamariam como professora e eu deixaria a glória da professora e me enterraria das missões, das missões eu iria para um leprosário e seria aclamada como a consolação dos leprosos. De lá eu saltaria para a guerra e deixaria longe a glória de Santa Joana d’Arc! No meu epitáfio se diria: aqui esteve a alma desinteressada que fez tudo, está compreendendo? Ó que lindo”! Pelo menos um purgatório daqueles bons. Mas em Santa Teresinha não tinha isso, não é? Era tudo por amor de Deus. Está claro?
Bom. Vamos rezar então.
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Santa Sabedoria