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Santo do dia ─ 10/03/69 ─ 2ª feira

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Se os donatários das capitanias tivessem vindo morar no Brasil, o país teria se aristocratizado e se cultivado muito mais do que foi * O modo mais requintado de combater a Religião é tirar da mente dos homens a capacidade de se reportar a Deus através da desigualdade * O papel dos superiores em relação aos inferiores é ser como que deuses para eles

Hoje é dia dez de Março.

Neste dia, em 1534, numa tentativa de colonização orgânica e feudal do território brasileiro, o Rei de Portugal, D. João III, faz doação da primeira Capitania Hereditária, a de Pernambuco, a Duarte Coelho.

Em 1793, levanta-se em armas a Vendée, em defesa da Igreja e do trono, contra os princípios da Revolução Francesa e os crimes perpetrados em seu nome.

Estamos na Novena de São José.

Se alguém pegasse esse nosso calendário e visse que essas duas datas estão no nosso Santo do Dia eu tenho a impressão de que urraria de ódio e de furor, de tal maneira essas datas são contra-revolucionárias.

Antes de entrar na matéria de hoje eu creio que valia a pena consagrar um comentário a cada uma. A primeira delas é a instituição das Capitanias no Brasil.

* Se os donatários das capitanias tivessem vindo morar no Brasil, o país teria se aristocratizado e se cultivado muito mais do que foi

Os senhores sabem que os reis de Portugal tomando em consideração a imensidade do território brasileiro, e a impossibilidade em que se sentia a coroa de dar um aproveitamento imediato e urgente ao território nacional, resolveram constituir no Brasil o regime feudal.

Deram ao regime feudal um aspecto especial. Eles dividiram o Brasil em Capitanias, cada capitão era um senhor feudal de Portugal, era um nobre de Portugal, que recebia como feudo essa capitania e que usava no Brasil o título de capitão-mor.

Então dividiram o litoral brasileiro em partes, e as principais famílias de Portugal receberam capitanias.

Agora acontece que, por uma infidelidade à sua missão, essas famílias nobres, quase todas, não mandaram pessoas para residir no Brasil, e com isso essas terras ficaram abandonadas e incultas, e com o tempo a Coroa de Portugal foi resgatando essas capitanias e reincorporando ao domínio real.

A idéia do rei de Portugal era uma idéia muito boa de dois lados. Em primeiro lugar era aproveitar a iniciativa privada, e, em segundo lugar, vindo para o Brasil capitães-mores, homens de famílias nobres, eles constituiriam, nas várias partes do território nacional, pequenas cortes, pequenos feudos como, muito tempo depois, fez o Conde João Maurício de Nassau Ziguen, quando ocupou Pernambuco e instituiu uma verdadeira corte em Pernambuco, da qual falam com embevecimento os escritores revolucionários.

Eles se embevecem, com o luxo e com a corte de Maurício de Nassau, porque ele era protestante e representava a Revolução.

Mas o que Nassau fez, os nobres de Portugal poderiam perfeitamente ter feito. E então, em vez de nós termos um Brasil povoado, em grande parte, por gente das classes mais modestas, e as vezes até por sentenciados, um Brasil que custou para se elevar na linha da cultura e da educação, nós teríamos um Brasil que muito cedo se teria aristocratizado, se teria diversificado, sem perda de sua unidade dentro da Coroa de Portugal, e nós teríamos tido uma série de pequenas dinastias nacionais florescendo, cada uma delas como a Casa de Nassau tentou florescer em Pernambuco.

A prova de que isso não é um sonho é que essas duas capitanias que, de todas essas capitanias, duas foram ocupadas pelos respectivos titulares ─ foi a capitania de Pernambuco, foi a de São Paulo… a de São Vicente que chamava ─ ambas essas capitanias prosperaram. As duas famílias vieram para cá e ambas essas capitanias prosperaram, foram mesmo as duas capitanias que prosperaram dentro do regime colonial.

Os senhores vêem, portanto, que se o sistema tivesse sido aceito teria dado grande resultado.

Os senhores vêem aí a decadência da nobreza, habituada não mais à vida dura e à luta, mas à moleza e ao luxo na Corte. E os senhores vêem aí essa grande verdade histórica: As elites nunca são derrubadas, elas caem. Quando alguém consegue derrubá-las é porque elas já amoleceram previamente, senão elas não seriam derrubadas.

Os senhores vêem aí, como uma lição, de como havia ainda sabedoria política entre os reis de Portugal, mas como a decadência moral torna inútil toda sabedoria política. Regime sábio, quase não foi aplicado, quase não foi para frente.

* O modo mais requintado de combater a Religião é tirar da mente dos homens a capacidade de se reportar a Deus através da desigualdade

Quanto ao começo da Guerra da Vendée, muitas pessoas têm… cabe também um comentário de caráter religioso, que eu definiria assim: Os senhores estão vendo que está dito aqui que os vendeanos se levantaram em defesa do trono e do altar, aliás, na ordem hierárquica, em defesa do altar e do trono na luta contra a Revolução Francesa.

Alguém poderia perguntar o que é que faz aí o trono ao lado do altar?

Os estudos da RCR, e depois do MNF, tornaram isso inteiramente claro. A Revolução Francesa foi uma revolução irreligiosa, anti-cristã por dois lados. Primeiro porque diretamente ela queria eliminar a Igreja e tentou fazer isto. Fez adorar uma mulher seminua como deusa razão em Notre Dame de Paris etc., primeiro ponto. Mas em segundo lugar porque o programa político da Revolução Francesa era um programa irreligioso, é o programa do estabelecimento da igualdade completa entre os homens, é uma idéia intrinsecamente anti-religiosa.

Esta idéia da igualdade completa entre os homens não é uma idéia sobretudo política, nem sobretudo econômica, nem sobretudo social, ela é uma idéia sobretudo religiosa, é uma idéia irreligiosa, ela é antes de tudo uma afirmação de ateísmo.

Em que sentido ela é uma afirmação de ateísmo?

O líder comunista italiano muito em voga hoje, Mariano … [ilegível] …, num trabalho que eu li, esclarecia isto. Ele dizia o seguinte: Que os homens têm a idéia de Deus porque eles têm diante de si as desigualdades na sociedade humana. É porque um homem vê um que é aluno e outro professor, um que é pai e outro é filho, um que é governador e outro é governado, um que é chefe de seção e outro que é funcionário pouco graduado, um que é general, outro que é soldado raso, um que é nobre, outro que é plebeu, um que é rico, outro que é pobre e assim por diante, os homens concebem, diz ele, a idéia de uma desigualdade e, concebendo essa idéia de desigualdade, são levados à idéia de um ser supremo que reúne em si toda espécie de superioridade possível. E, então, das desigualdades existentes o homem deduz a idéia de Deus, infere a idéia de Deus.

Então, diz ele, o modo de extirpar da mente dos homens a idéia de Deus é criar um mundo completamente igualitário, onde não haja nenhuma desigualdade e onde, portanto, não haja esses termos de comparação que, de ponto em ponto, levam até a consideração de um Deus supremo.

Então, diz ele, combater a religião é uma tolice. Tentar matá-la transfixando-a com uma espada é uma asneira. É preciso tirar-lhe o ar. Tirando o ar ela morre, morre por inanição. Morre sem que se tenha tocado nela para fazer a menor violência, simplesmente ela cessa de respirar e cessando de respirar ela cessa de viver.

E qual é o modo de tirar o ar à religião? É esse: Deixa funcionar, mas cria uma tal igualdade dentro da Igreja e fora da Igreja que pela igualdade de todas as coisas o homem nem tem condições para conceber exatamente uma idéia de Deus.

Os senhores estão vendo que é um modo de perseguição religiosa mais requintado do que o antigo, mais fino do que o antigo, não tem a bestialidade das turmas ébrias que entram dentro das igrejas, que quebram os altares, as imagens, que profanam os tabernáculos, que fazem imundícies no recinto sagrado, que matam os ministros de Deus, mas é uma coisa diferente. É simplesmente criar condições para tornar ao espírito humano dificílimo conceber a idéia de Deus.

Agora, o que é que se deve pensar dessa atitude desse comunista?

* O papel dos superiores em relação aos inferiores é ser como que deuses para eles

Deve-se pensar que em termos ela é rigorosamente conforme à doutrina de São Tomás de Aquino. São Tomás de Aquino diz exatamente que as desigualdades entre os homens, como outras desigualdades na natureza, são imagens das desigualdades que vai do Criador para as criaturas e que todo ser superior, enquanto superior, é para nós uma imagem de Deus. Ele nos mostra algo da infinita superioridade de Deus. De maneira tal, diz ele, que o papel dos superiores em relação aos inferiores é fazer às vezes de Deus em relação aos inferiores. Quer dizer, não de serem adorados como Deus ─ eu lhes contarei daqui a pouco uma frase soberba de Bossuet a esse respeito ─ mas é de serem como que figuras de Deus, pela bondade, pela generosidade, pela moralidade, pela força, pela energia, eles fazerem como Deus faz.

Neste sentido, neste sentido se pode dizer que eles são imagens de Deus, eles são como que, como que, como que, como que ─ põe uma galáxia de “como ques” ─ deuses, neste sentido da palavra.

Como se pode dizer de uma imagem de Nossa Senhora que ela é como que Nossa Senhora presente entre nós. Quer dizer, uma imagem de Nossa Senhora não é senão um boneco de pau ou de pedra, mas pode dizer como que, não é isto?

Neste sentido se pode dizer que os superiores são com que Deus presente entre nós.

Bem, é verdade que não é, a demonstração da existência de Deus não está só nisto, que há outras provas da existência de Deus, mas é cômodo para o homem conceber como seria Deus por esses mil exemplos que Deus mesmo criou de si. E por causa disso precisamente é que os homens devem, se eles têm um espírito religioso, ser amigos de todas as hierarquias, amigos de todas as desigualdades proporcionadas e conformes, de todas as desigualdades que tenham propósito, que não sejam contrárias ao direito natural.

Bem, então, a gente compreende que ser contra a Revolução Francesa não é só ser contra a política péssima, anticlerical da Revolução Francesa, mas é ser contra a Revolução Francesa ainda que ela não tivesse uma política diretamente anticlerical e péssima. Daí vem bem a nossa concepção do problema religioso. O problema religioso… [ilegível] … nós é unido pelas suas… [ilegível] …, na questão social.

A questão social é uma questão, antes de tudo, religiosa, e é problema da igualdade e da desigualdade entre os homens. A gente compreende o significado desse levante contra a Revolução Francesa.

Os senhores me dirão: Bom, mas a Igreja ensinando tudo isso ela não correrá o risco de não dizer aos poderosos as palavras fortes que é preciso dizer para que eles exerçam bem o seu poder?

Então eu me lembro aqui no momento que eu falo disso de um sermão de Bossuet diante de Luiz XIV ─ eu mencionei isso há poucos dias atrás aqui ─ Bossuet pregava diante dele e falava a respeito do rei e dos grandes da Terra, e ele, então, mostrava isso, han! han! han! mais ou menos, o que eu estou dizendo, mas com aquela retórica fabulosa que ele tinha, e ele dizia: “Enfim ─ diante do rei, sentado no seu trono, o rei mais poderoso da Terra ─ enfim, vós sois deuses!” Isso naturalmente causou uma espécie de suspense na Capela porque, como “sois deuses”? E ele depois disse: “O deuses de carne e de sangue, de poeira e de lodo, tende cuidado porque vós sereis julgados!” Estava dito.

Luiz XIV não pestanejou, ouviu, e estava tudo falado. É o que eu digo também: São deuses de carne e de sangue, de poeira e de lama, serão julgados, é verdade, mas são algo à maneira de, são imagens de Deus. Aboli-los é fazer a obra do ateísmo. Aqui está muito resumidamente o Santo do Dia.

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