Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 3/3/1969 –
2ª-feira – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 3/3/1969 — 2ª-feira
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Tendência da hagiografia de não tratar de santos que foram nobres ou soberanos. A falsa idéia de que uma vida de alto nível constitui ocasião próxima de pecado. Um passo muito grande na ascenção é “megalogênico”. Cargos proporcionados ao indivíduo não causam “megalice”.
Santa Cunegundes: a vida requintada favorece a virtude ou o vício?
Tendência da hagiografia de não tratar de santos que foram nobres ou soberanos * A falsa idéia de que uma vida de alto nível constitui ocasião próxima de pecado * Um passo muito grande na ascenção é “megalogênico” * Cargos proporcionados ao indivíduo não causam “megalice”
Hoje [1º?] de março é festa de Santa Cunegundes, Virgem, Imperatriz do Sacro Império Romano-Alemão:
Ela guardou perpétua virgindade com seu esposo, Santo Henrique, com o qual entregou-se de corpo e alma às obras de piedade, às vigílias e às mortificações. Com a morte deste, retirou-se para o convento de Kaffungen que fundara. Faleceu em 1040 e foi canonizada em 1200, por Inocêncio III. Século XI.
* Tendência da hagiografia de não tratar de santos que foram nobres ou soberanos
O Dr. Fernando nos estudos que está fazendo [sobre a?] [a respeito da] Idade Média, Cluny, etc., ele [diz?] [disse] muito bem que há toda uma tendência da hagiografia, dos que escrevem livros de santos, etc., de não tratar da vida [de?] [dos] santos que foram nobres, [por exemplo?] [ou] que foram soberanos na Idade Média. Há uma exceção para São Luís que foi um tal sol de grandeza que nem todos os abajures da “heresia branca” puderam diminuir a irradiação da luz dele. Mas quanto aos outros santos, por exemplo [essa] Santa Cunegundes, nós encontramos legiões de biografias, [e] algumas delas muito boas, muito úteis para a vida espiritual, sobre santos que foram padres, santas que foram freiras, ou então santos leigos que ficaram pobres, que viveram como [Santo?] [São Bento] José Labré, no último da mendicidade, o que é muito edificante, muito bom, e eles que roguem por nós. Mas [a biografia?] [o haver hagiografias] de santos como esses, absolutamente nunca.
Os senhores imaginem que nós, por exemplo, lançássemos no mercado a biografia de Santa Cunegundes; todo o mundo pensaria, inclusive por causa do nome, que se tratava de uma santa que foi cozinheira, [então ia comprar]; mas se contasse que ela foi imperatriz, já não compravam, porque não é inteiramente santa, uma imperatriz. Uma imperatriz gozou tanto da vida que levou uma vida tão mundana, aproveitou tanto das coisas da existência terrena, que não pode ter sido inteiramente santa. Isto não é verdade.
Há gente que [tem?] [teria] inclusive um certo escrúpulo, um certo remorso, e isto me leva a fazer um pequeno comentário a respeito deste ponto. Esse comentário abrange, de fato, uma coisa um pouco mais larga, porque esta vivência mais ou menos todo o mundo tem. Se bem que [teoricamente nem todas?] as pessoas possam [teoricamente] não concordar [inteiramente?] com isto, eu creio que mesmo nos auditórios cheios de doutrina e de piedade, diante dos quais eu tenho a honra de falar, umas vivências dessas existem, e uns escrúpulos desta natureza existem, e eu tenho a impressão de que isto se prende também a uma outra coisa. [Quer?] [Os senhores querem] ver o reflexo disto?
* A falsa idéia de que uma vida de alto nível constitui ocasião próxima de pecado
A idéia de que haver classes sociais de um alto nível, que levam uma vida de grande estilo, é haver ocasiões próximas de pecado, de mundanismo para o mundo de gente, de maneira tal que, em última análise [a?] [uma] organização hierárquica e muito requintada das classes sociais é uma ocasião [próxima?] de pecado, [e] é uma coisa que faz mal. No fundo, o mais virtuoso seria se todas as pessoas [tivessem] um nível de vida assim bem medianozinho, [como?] de matéria plástica, de um apartamento com uma sala que serve de sala de jantar e sala de estar ao mesmo tempo, uma cozinha com alumínios e ladrilinhos, uma geladeira, porque sem isso não se vai ao Céu hoje em dia, uma geladeira, naturalmente, e depois [então] dois ou três quartinhos. [Isto?] tudo limpinho, arranjadinho, etc., [no?] [e tá] o suficiente para a virtude, mais que isso já é luxo e corre o risco de fazer perder as almas.
Não é verdade que se não os senhores, pessoas que os senhores conhecem aqui dentro, têm tendência a pensar assim? Não é verdade [que?] [que senão] pessoas que os senhores conhecem aqui dentro, pessoas que [os senhores] conhecem lá fora, têm tendência a pensar assim? E não é verdade que se eu, de repente, adotasse os métodos [usados a respeito] de Itaquera, eu estou preparando um jornal [falado] substancioso a respeito de Itaquera e [de] muitas outras modificações [no?] [dentro do] Grupo, progressos que estão havendo no Grupo, aulas de música, [1 palavra rasurada], etc.
Então, não é verdade que, à maneira de Itaquera, eu dissesse aos senhores: quem [dos senhores] concorda que [é bom que] haja santos que [sejam] imperadores e imperatrizes como Santa Cunegundes e Santo Henrique? Todo o mundo levantaria o braço. Se [perguntasse?] [eu dissesse]: quem dos senhores justifica [por?] [por meio de] argumentos que isto não conduz ao mundanismo, e quais são os argumentos adequados para isso? Os braços que se levantariam seriam bem menos numerosos. Eu creio não fazer juízo temerário achando que esses braços seriam bem menos numerosos.
* Um passo muito grande na ascenção é “megalogênico”
Então [se] como justifica isto? Os argumentos vivenciais a gente não refuta só teoricamente, a vivência nasce de um estado de alma interior e a gente precisa antes elucidar a doutrina que está em vivência para depois mostrar qual é o modo de, [ilegível] [no que] [é] que essa doutrina é errada. E a doutrina que está em vivência é a seguinte:
Imagine eu, “x”. Um “x” qualquer sentado neste auditório, um “x” mais “x”, mais venerando, mais ilustre, mais respeitável, sentado neste auditório, que se imagina de repente Imperador do Sacro Império [Romano] Alemão e imagine então, [por exemplo,] a cena da coroação. O Imperador [sobe?] [depois de] proclamado e eleito pelos eleitores, vem revestido de uma túnica de tecido de ouro e de prata, com a coroa imperial na cabeça, sai no balcão do edifício de [1 palavra rasurada] [Romer] em Frankfurt e vai para uma praça onde está cheio [de?] [o] povo. Ele tem ao lado dele um saco de ouro ele então pega o ouro a mancheias e joga para o povo e o povo então se curva e apanha as moedas. E vivat [vitam?] [æternorum?] Rex et Imperator noster!
Depois é o sininho do alto do Romer que começa a tocar, toca prolongadamente e daqui a pouco começam a tocar os sinos em toda a Alemanha, de proche en proche, e depois em toda a Europa. “Eu fui eleito Imperador. Olha que bonito. Bem. Depois, das fontes começa a jorrar vinho, começa a brotar leite, o povo começa dançar, os “Te Deums”se fazem ouvir nas igrejas, prepara-se o desfile em que eu vou desfilar a cavalo, levando o gládio com um homem que leva diante de mim a rédea de meu cavalo. Eu tenho aqui o gládio da justiça, tenho o escudo da fortaleza, para defender a Cristandade; a coroa do Império na minha cabeça, estou revestido de relíquias, sou quase uma relíquia, eu próprio. Dos terraços, as melhores famílias da aristocracia me aplaudem, eu dou uma volta [na?] [pela] cidade e [depois?] vou jantar [depois] na sala de banquetes do [1 palavra rasurada] [Romer.] Para mim, uma mesa no alto, em cima de vários degraus, um dossel, os nobres que me servem de joelhos, os nobres mais altos do Império se ufanam de me trazer uma carne cortada e se ajoelham no momento de oferecer. Depois, bem abaixo, as sete mesas dos sete eleitores, cada um com sua corte, cortes subsidiárias da minha, desdobramentos do meu manto.” Como é esse negócio?
Quando eu [falo nessa?] [faço essa] descrição e figuro uma pessoa nessa situação, evidentemente eu crio uma tentação quase irresistível de “megalice” para uma pessoa, é claro. Logo, esse cargo é um cargo “megalogênico”; se a “megalice” é um pecado, é um cargo “pecatogênico”, logo é um cargo anticristão…
(…)
…não é verdade, então parece demonstrada a tese. Não é bem isso que está no nosso subconsciente? Não no de cada um dos senhores, mas [no] do seu vizinho, me parece que é. Bem, então, como a gente deve explicar isso?
Vamos apagar tudo, esquecer de tudo e levantar um outro problema.
Imaginem os senhores um “capiauzinho”, um “qualquerzinho” de um lugarejo qualquer perdido aí pelo fundo do Brasil. Imaginem os senhores que a gente dissesse para ele o seguinte: “Você vai deixar essa “roupeta” que você tem, e você vai pôr um paletó. Você vai pôr uma gravata, você vai por uma roupa de doutor, você vai se pentear e passar fixador no cabelo, e fixador perfumado, e com perfume francês, e você vai agora para a grande cidade que é São Paulo — que um capiau desses imagina como cidade de doutores, é o cúmulo da coisa gloriosa —, a maior cidade do Brasil, pelo menos a mais vasta cidade do Brasil, e você vai para uma sede no bairro, num dos bairros residenciais melhores de São Paulo. Essa sede é decorada com pinturas de pintores de museu. Nela os bronzes, os lustres, os veludos, as sedas, os jacarandás, são em profusão. As encadernações antigas magníficas nem se contam. O estandarte [é] vindo de uma cidade semiceleste, chamada Florença, cidade das flores, numa península [de] que você nem tem idéia, chamada Itália. Para você pensar como é grandioso, o Papa mora lá, é a última coisa de grande; você vai lá e se senta no meio dos doutores e ouve esse conferência, e quando você quiser, basta [você] fazer um sinal que o chefe [lá] pára tudo e responde o que você quiser [perguntar], não estoura ele também”.
O que a gente depreende disso? Que não deveria haver esta sede? Então, o que deveria haver? Segundo essa regra, deveria haver apenas choças, palhoças e bárbaros morando dentro, e não deveria haver mais nada. Nós percebemos por aí [como?] [quanto] esse modo de pensar é absurdo. O que nós devemos, então, entender de tudo isto? É uma coisa muito simples.
* Cargos proporcionados ao indivíduo não causam “megalice”
Santa Cunegundes, por exemplo, era uma princesa. Santo Henrique era um príncipe, e eles eram príncipes [no?] [do] tempo em que os príncipes eram ricos, estavam no poder. O poder [1 palavra rasurada] [era o] natural deles. Para um deles ser coroado imperador, era uma coisa natural, como [é] por exemplo, para um de nós, não sei, uma honraria qualquer, [por exemplo?] [vamos dizer,] receber uma condecoração. É uma coisa comum, como é comum para os senhores estarem sentados aqui. Viveram nesse meio, nasceram para isso, são primos de imperadores, são tios imperadores, são filhos de imperadores, terão descendentes imperadores, reis, etc. Para eles isso é natural, como [é] para nós natural [viver no] nosso meio, e aquilo que é próprio do meio da gente não “megaliza” a gente.
O que torna um individuo “mega” é ele abocanhar algo que é muito acima de seu meio. Esta sala está cheia de advogados; me respondam os senhores: quem é de nós que fica “mega” porque é advogado? Precisa, inclusive, estar meio détraqué para ficar “mega” por ser advogado. Quem é [que é] “mega” por ser engenheiro? [Por ser], capitão vá lá, a coisa [é] diferente, manda em homens, tem uma espada, dá berros, a coisa é “megalizante”. Mas qualquer outro cargo é um cargo [a] que [a pessoa] está habituada, não “megaliza” ninguém, é o normal.
Quem é que — um de nós — que [vai?] [sai] com a respectiva família à rua e fica “mega” por causa do papai e da mamãe? Meu pai e minha mãe, essa é boa, aqui [está a] questão. Eu sou filho deles e então vou me “megalizar” de mim mesmo? Não [vou?] [preciso] me “megalizar” deles, não é verdade?
Quer dizer, aquilo [em que?] [onde] nós fomos habituados não é “magalogênico”, logo não é “pecatogênico”. E é muito mais fácil um carroceiro de Chiririca que [fica?] [fique] prefeito de uma cidade pequena, satélite de Chiririca, ficar “mega” de [ser?] [ficar] prefeito, do que Santa Cunegundes ficar Imperatriz do Sacro Império Romano-Alemão, porque é um pulo para o qual ele não está habituado.
Agora é claro que [se] eu que não sou príncipe, não sou imperador, não privei com príncipes e imperadores, pelo menos com príncipes e imperadores no poder — príncipes e imperador[es] de iure, com imensa honra para mim, com [imensa] simpatia, sim, mas “megaliza” muito menos. Eu que não privei com a Rainha Juliana, com a Rainha Elisabeth, com nada disso, de repente me vejo coroado Imperador do Sacro Império: é uma tal mudança de perspectivas que para eu, “x”, pode constituir uma “megalice”. [E?] [Mas] porque o passo é muito grande.
Então, a conclusão que se tira disso não é a seguinte, que seria a conclusão errada: “não deve haver esses cargos”. A conclusão é outra: “normalmente e –– salvas exceções que sempre devem haver –– normalmente, e salvas as exceções, os cargos devem ser proporcionados ao individuo e ao meio em que ele nasceu, como o grão é proporcionado [ao?] [para] o bico do passarinho. Esse é o grande princípio, e assim se evita a “megalice”. Essa é a grande explicação.
Os senhores [me] dirão: “Está bem, mas deste que o senhor imagina que, por exceção, chega a um grande cargo, ele não fica ‘mega’?” Se ele for um homem de grande capacidade que mereça essa ascensão, ele tem muito menos possibilidade de ficar “mega” chegando ao cargo, porque ele se sente numa tal ou qual proporção com o cargo e não fica espantado, não tem a vertigem das alturas, de maneira que, então, se confirma por aí a nossa famosa tese de que convém que haja uma hereditariedade nas classes sociais. Convém que os cargos altos sejam confiados de costume às pessoas das classes altas, convém haver exceções para as pessoas de classe mais modesta que apresentem [um] valor relevante e que sirvam de sangue novo para as classes antigas. O mérito deve ser premiado. Quanto ao mais, cada um continue no andar onde nasceu ou suba um degrau, [ou] dois ou três. Eu lhes garanto que subindo três degraus ninguém tem [a?] vertigem das alturas, eu lhes garanto que [dessa?] [por essa] forma anda tudo direito.
Esta é uma meditação [de?] [sobre] como Santa Cunegundes não teve a vertigem das alturas ficando Imperatriz do Sacro Império Romano-Alemão. Com isto está concluído o Santo do Dia. Vamos rezar.
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Auditório da Santa Sabedoria