Santo do Dia – 28/2/69 – 6ª feira . 8 de 8

Santo do Dia — 28/2/69 — 6ª feira

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A austronáutica é feita num ambiente de pura técnica com menosprezo dos aspectos espirituais * As altas velocidades, se não compromentem a saúde física, podem comprometer a saúde psíquica * A diferença entre afundar 500 metros na terra e descer a mesma profundidade nos abismos do mar: o que pensar do escafandro? * “Se fosse possível fazer esqui aquático vestido mais ou menos como um beduíno do deserto, não ficava um lindo exercício”? * Natação e banho de mar: O que pensa nosso Pai e Fundador sobre estas atividades * O exercício físico é bom quando a gente pode transcender daquilo que está fazendo: nadar mais com o intelecto do que com o corpo * O que pensa o Senhor Doutor Plinio sobre o esqui na neve * “A equitação é uma coisa esplêndida, desde que praticada com espírito guerreiro”

* A austronáutica é feita num ambiente de pura técnica com menosprezo dos aspectos espirituais

Eu me volto para as perguntas que me foram feitas por vários rapazes aqui. A segunda pergunta a tratar é a seguinte:

Se o senhor pode explicar o que tem de revolucionário, na linha do igualitarismo e da anti-sapiencialidade, os astronautas?

Dizer que os astronautas enquanto pessoas tenham algo de revolucionário, é natural que tenham, porque todo o mundo de hoje é revolucionário. Mas não é tanto, eu creio, a pergunta não incide tanto sobre a pessoa, quanto sobre a astronáutica. E seria talvez perguntar, o que a astronáutica em si mesma considerada, tem de revolucionário? Creio que é isto.

Eu já disse [de] passagem outro dia que a astronáutica é feita num ambiente revolucionário, quer dizer, num ambiente de pura técnica, de pura realização material, com menosprezo dos aspectos espirituais que dão a esses astronautas o seu mais belo sentido.

Quer dizer, ninguém procura descrever as maravilhas que um astronauta pode desvendar, ninguém procura chamar a atenção para o lado belo que pode haver no fato de um homem ou de dois homens ou cinco homens estarem vagando pelos espaços tão distantes da Terra. Enfim tudo o que envolve a astronáutica atual, não é senão afirmação do materialismo, quando rigorosamente falando podia não ser.

Agora, a astronáutica enquanto tal, é revolucionária?

O que podemos dizer da astronáutica é o que podemos dizer da aeronáutica. A astronáutica, muito mais do que a aeronáutica, cultiva as velocidades vertiginosas.

Eu mostrei outro dia que as velocidades vertiginosas têm qualquer coisa que não é humano. Eu sei que essa palavra humano, pode servir quase como coringa para explicar tudo. “Não é humano”, está colado a uma etiqueta equivocada e condenada a uma coisa.

O que é que quer dizer humano aí?

Eu compreendo bem que essa palavra precisaria de uma longa especificação e talvez de uma conferência, que eu faça numa sexta-feira, para que se entenda bem o que é que se quer dizer por “humano”.

Eu vejo por exemplo, às vezes, Maria de Ágreda ─ cujo carteio com Filipe IV eu estou lendo ─ escrever a Filipe IV a seguinte palavra, para dizer que o rei tinha se interessado pela saúde dela: “Quis vossa Majestade humanar-se a ponto de saber da saúde dessa sua serva”. Os senhores vejam como essa palavra “humano” tem aqui um lindo sentido, não é verdade? Que é muito diferente do sentido dos humanistas.

Quantos equívocos pode haver em torno da palavra humano, como da palavra liberdade, igualdade, fraternidade e outras coisas do gênero; e que filigranas seria preciso elaborar para a gente fazer todas as distinções necessárias!

* As altas velocidades se não compromentem a saúde física podem comprometer a saúde psíquica

Bem, em todo caso, se as velocidades terrenas tem qualquer coisa de inumano, a velocidade astronáutica tem qualquer coisa de inumano também. É só a gente ver o cuidado com que os cientistas sondam a saúde dos astronautas antes de ir e antes de vir, para ver como eles tem consciência de que uma tão alta velocidade pode comprometer a saúde.

Se não compromete a saúde física ─ e isso parece demonstrado ─ não comprometerá a saúde psíquica? Isto é uma coisa para discutir. Como é que vão ser os netinhos dos astronautas? Isso é uma questão para estudar. O futuro dirá, eu ponho todas as minhas reservas a respeito do assunto.

Alguém me perguntará: “Mas é só isto, o senhor não tem nada a dizer, o senhor não tem nada a dizer pela hipótese lançada pela Ana Catarina Emerick e por outras pessoas abalizadas de que os astros sejam habitados por demônios, e então ir a esses antros de demônios não será uma coisa revolucionária?”

Eu digo: aqui é preciso andar também com muito cuidado. Pode-se dizer que algo há, mas o que há? Eu vos lhes dar noutro sentido: segundo muitas pessoas abalizadas ─ e eu teria uma extraordinária inclinação para me colocar entre elas ─ o demônio [está] no centro da terra, daí se deve deduzir que a espeleologia, quer dizer, o estudo das grutas, abismos e cavernas é uma coisa demoníaca? Eu responderia desde logo: em si não. Os senhores estão vendo que “em si não” há um qualquer cheirinho meio esquisito que evidentemente fica colado na coisa.

O que não quer afirmar que não importa em dizer que é demoníaco descer para uma gruta ou caverna adentro. Então seria demoníaco ir visitar as catacumbas. Mas quer dizer que algo cheira a algo nisto que não tem nada de ruim e há coisas que são assim. Então eu as deixo como elas são, quites a num Santo do Dia ou num sábado à noite também nesse ponto entrar em aprofundamentos maiores.

Exatamente aqui está a questão, eu insisto, há muita coisa que em si não tem nada e que se pode fazer com toda consciência, mas que tem algo de esquisito embora não seja intrinsicamente ruim e acabou-se, não tem mais nada que dizer.

Vamos dizer por exemplo, certos remédios de farmacopéia antiga. Pega unha de gato, mói, mistura com raiz de tulipa, coloca três dias no raio da lua quando ela está no seu minguante, depois agita quinze vezes para direita, quinze para esquerda, mistura de novo com caldo de arroz e toma. Bem, alguém me dirá: “Isso não tem nada de cabalístico?”

Eu estou farto de saber, depois eu digo: é um pouco esquisito. O amor aos matizes leva [a] dizer: não tem mesmo nada, mas que é um pouco esquisito, é. Quem é que ousaria dizer que não é esquisito?

Bem, o que é que eu digo do submarino, o escafandro dos busos, a caça submarina, o nadar, o esqui na água?

* A diferença entre afundar 500 metros na terra e descer a mesma profundidade nos abismos do mar: o que pensar do escafandro?

[Comandire rege?], eu sou obrigado a ser inteiramente franco de maneira que eu digo a minha opinião ainda quando dentro dela pareça haver uma certa contradição. Aquilo que eu acho um pouco esquisito na pessoa se aprofundar pelos abismos da terra a minha franqueza manda dizer que eu não acho em a gente se aprofundar nos abismos do mar.

Será o meu fascínio pela água que me leva a esta transigência, esta tolerância? Por que razão é que descer quinhentos metros na direção da terra é uma coisa que não tem nada de esquisito quando se trata de uma mina e tem de esquisito quando se trata de uma caverna? E por quê é que descer um abismo muito mais temível, com monstros muito mais esquisitos no fundo das águas não será uma coisa esquisita também?

A pergunta me pega muito desprevenido para eu poder responder, a gente precisa ter calma e tempo para distinguir os matizes e eu precisaria…, há qualquer coisa aqui que eu precisaria ter tempo para responder. Mas para responder aqui de chofre, eu devo dizer [que] eu não vejo no afundar dentro do mar nada de esquisito.

Daí também eu não ver nada de esquisito no escafandro. Eu acho até digo um pouco mais, viu? Eu acho atraente ─ isso não é regra para nada ─ mas é que [se] isso fosse esquisito não me atrairia. Isto de algum modo tem um certo sentido: eu compreendo que o escafandro tem um aspecto muito esquisito, mas ele também vai para o reino das esquisitices, onde tem um polvo que tem uma bola de carne, braços e com o olho não sei de que jeito e que deita tinta e que tem aquelas ventosas e aquilo tudo, também não é nada demais que um homem desça vestido sem elegância.

Eu não vejo bem que o escafandrismo se pudesse fazer de chapéu de três bicos com plumas, com roupas de seda fazendo reverências no fundo d’água, até seria muito bonito se pudesse fazer, mas infelizmente talvez no paraíso celeste haja coisas dessas, no terrestre não há.

Mas eu precisaria pensar por quê, mas eu devo responder com lealdade: eu não tenho a menor dificuldade em crer nisso, mas quando eu imagino o submarino que havia nos meus livros ilustrados de Julio Verne com o submarino largão, Belle Époque, com um óculo enorme de cristal, depois duas cortinas fazendo franja, depois tapete, uma cadeira dessas assim como se usava naquele tempo toda captoné e com aquelas franjas e bem estáveis e um homem assim com ar de senador da República Francesa olhando de dentro os monstros que desfilavam sem o tocar. Eu tenho a sensação de fascínio extraordinário e confesso que se me fosse dado fazer essa viagem eu iria com muito entusiasmo e tenho uma certa desconfiança que muitos poucos desse auditório não me acompanhariam.

É o meu modo de sentir a respeito do caso.

* “Se fosse possível fazer esqui aquático vestido mais ou menos como um beduíno do deserto, não ficava um lindo exercício”?

O esqui aquático. Eu tenho todas as reservas possíveis quanto ao esqui aquático, por causa dos trajes [com] que ele é feito. Ele exige trajes de uma leveza que eu considero incompatíveis com a moral. Agora se fosse possível fazer esqui aquático vestidos nos trajes leves, mais ou menos de um beduíno do deserto, não ficava um lindo exercício?

(D. Bertrand: Os grandes esquiadores, Dr. Plinio, vão de fraque e cartola sem se molhar.)

Bom, aí é um pouco diferente. Mas o esqui aquático em si o que ele tem de comum com a natação é uma coisa que a mim causa essa impressão, eu nunca fiz o esqui aquático, mas eu vejo bem o que é que ele é.

* Natação e banho de mar: O que pensa nosso Pai e Fundador sobre estas atividades

Natação. Quando eu era moço eu fiz muitas vezes banho de mar. Bom, banho de mar me restou a seguinte recordação: é uma coisa que a ser feita conscientemente ─ porque é preciso ser uma pessoa que entenda da coisa; põe um bobo e joga dentro d’água tanto faz não jogar, porque ele é um bobo. A coisa é outra.

Mas eu digo uma pessoa capaz de entender o que é o mar, capaz de entender o que é aquele barulho do mar, capaz de entender o que é aquela balotagem das ondas, capaz de entender o que é que é a natureza terrestre vista de dentro d’água, uma pessoa capaz de brincar com as ondas, de saber até onde também, onde deve mantê-las, a distância respeitosa para se não deixar arrastar por elas, uma pessoa que vai ao mar não para fazer heroísmos mas para fazer uma coisa completamente diferente que é a de se emergir um ambiente que tem toda uma ótica e toda uma perspectiva diferente do ambiente terrestre.

O mar para quem está dentro dele e que sabe sentir é como que um outro universo, e tomar o contato com esse universo em si não tem nada de mal, é até altamente expressivo, mas para quem o sabe degustar é de tal maneira gostoso que a gente tem medo deste super-gostoso e por não se deixar dominar pelo super-gostoso prefere não entrar dentro dele. Foi a razão pela qual muito antes de eu ser congregado mariano eu deixei de tomar banho de mar.

Eu me lembro sobretudo de um em que eu me senti de tal maneira eufórico dentro d’água e tão bem e tudo tão comme il faut, ao menos para os meus ajustes e meus modos de ser que depois eu compreendi que eu perderia a coragem de lutar e de viver se eu tivesse a possibilidade de recorrer a toda hora a um banho de mar. Ato de ascese individual, quem sabe muitos dos senhores degustam menos o mar, têm a natureza menos afim do mar como eu tenho.



Os senhores estão vendo que eu sou imensissimamente marítimo, para mim não é só olhar o mar que é uma delícia, mas eu estar no meu quarto de hotel e saber que se eu abrir a janela e lá está o mar já eu durmo melhor, de tal maneira o mar me diz, e é qualquer mar. O mar feio do fundo da baía de Santos, do fundo da baía do Rio ainda é um encanto e uma maravilha para mim, o mar para mim é uma coisa extraordinária.

Quem sabe para outros menos sensíveis a isso que serão mais sensíveis a outras formas da natureza, a outras belezas da natureza, não a esta, o mar não dê essa impressão, então este ato de ascese não ser necessário. Eu comunico aqui uma impressão individual.

Bom, sobre isto se acrescenta toda questão das praias, do nudismo, do mundanismo, etc., etc., que é tão tratado entre nós que eu tenho impressão que nem é o objeto da pergunta, eu tenho a impressão que a pergunta versa sobre o mar enquanto mar, sobre o banho de mar. Isso é o que eu teria para dizer.

(Sr. –: O senhor crê que no Reino de Maria haverá escafandro e se tomaria banho de mar?)

Daqui a pouquinho eu falo disso, quando eu falar no esqui na neve.

(Sr. –: Para fazer esqui aquático é preciso usar motor?)

O esqui aquático participa dos inconvenientes da super-velocidade, ele pode produzir uma embriaguez do vento parecida com a embriaguez do mar, para certas mentalidades. Então, talvez possa pedir a alguns uma ascese, mas também uma coisa individual.

(Sr. –: No esqui a pessoa tem uma espécie de barrilete e faz pressão com trinta, quarenta metros e depois vai abaixando, isso parece avião.)

É das tais coisas, veja a embriaguez do vento que isso pode produzir é uma coisa que eu acho que para quem tem a segurança nisso deve ser agradável. Agora, que para muitas pessoas se recomendaria uma espécie de ascese a esse respeito, eu creio que sim. Que [é] a ascese que o super-gostoso ainda quando honesto pode produzir.

(Sr. –: [inaudível].)

* O exercício físico é bom quando a gente pode transcender daquilo que está fazendo: nadar mais com o intelecto do que com o corpo

Eu acho que aqui não há absolutamente censura a fazer na coisa em si sempre feitas as ressalvas das super-delícias. Para dar um depoimento pessoal, eu deveria dizer que isso seria um super-horror porque o exercício físico que ao meu ver a gente faz tendo de prestar atenção no que está fazendo perde a graça.

Porque o que é agradável nesse gênero de coisas é a gente poder transcender aquilo que está fazendo e a gente fazer…, ao mesmo tempo faz a coisa [e] faz a metafísica da coisa. Estar no mar por exemplo para ir pegar um peixe que está embaixo [de] uma concha isso eu deixo para os profissionais, mais nadando com a cabeça e com o intelecto do que com o corpo. Também o vento é altamente sugestivo de mil coisas, não é verdade?

Agora, o esporte que a gente vai, vai, como é [quebra lá?]. Para pessoas que tem agilidade física da qual eu sou completamente desprovido eu compreendo que isso possa ser um derivativo, eu posso até compreender mais que uma pessoa possa ter a embriaguez de lutar contra as ondas e de tomar jeitinhos contra elas e de se equilibrarem em cima delas.

Será um feitio de espírito que pode existir que eu não desdenho, eu estou falando assim com ar de horror porque eu me imagino nessa emergência, mas eu não desdenho, é uma coisa como outra enfim.

* O que pensa o Senhor Doutor Plinio sobre o esqui na neve

O esqui na neve. Aí com esqui na neve eu sou um pouco mais reticente, porque o esqui na neve supõe a vertigem de precipícios pelos quais a gente se joga abaixo, supõe uma certa coragem, supõe um certo domínio de si.

A neve é um elemento belíssimo, nobilíssimo, estar posto dentro da neve, é uma coisa estupenda. Mas aquilo tudo, exceto para umas naturezas muito privilegiadas, aquilo tudo não será uma coisa que força a natureza humana e não há uma porção de esquiadores que vão porque é moda, loucos para acabar a temporada porque ficam com o coração disparado depois que saltam aquela história?

Eu acredito bem que sim, mas aí se vê como é colateral a objeção que eu tenho de fazer e como ela tem aí muito de subjetivo também. Porque uma pessoa que tem uma natureza privilegiada que se equilibra muito bem, que faz, que sente, que desenvolve todas as suas potências de equilíbrio e de destreza de encontro aos abismos e que portanto possa fazer isso sem pecado e temeridade, se gosta, que faça!

(Sr. –: O esqui na neve exige movimentos muito sensuais?)

Isso eu nunca prestei atenção.

(Sr. –: Exige sobretudo movimento de carreira.)

Bom, aí seria uma coisa para considerar, isso eu nunca vi e nunca notei.

(Sr. –: Tudo isso, a natureza privilegiada se vê para pessoa normal fora do grupo ou para pessoa do grupo?)

Não, a natureza privilegiada é de uma pessoa que tenha recursos pessoais superiores aos comuns e que portanto pode fazer um esporte que supõe uma destreza superior ao comum. Eu compreendo que alguém me pode dizer: “Mas isso a gente treina e se treina desde menino fica sabendo!”

Isso eu bem sei, até lá morreu Neves mas a questão é saber se é uma natureza feita para treinar desde menino. Porque um dos erros que há hoje em matéria de pedagogia é entender que o menino é um ente de matéria plástica, que a gente treinando desde menino fazer qualquer coisa, ele fazendo bem, aquilo está bem feito. Tem toda a natureza dele, aquilo violenta ou não violenta ele, como é que é a história, eu acho que a coisa não é tão simples.

Bom, agora eu acho que para quem se entrega a uma causa como nós é muito perigoso estar se metendo nessas coisas porque pode ficar dominado por isso, maníaco por isso, viciado por isso. Aí é outra questão. Eu estou tomando a coisa como me é posta enquanto tal. Bom, eu creio que nessa ordem de perguntas há mais nada.

* “A equitação é uma coisa esplêndida, desde que praticada com espírito guerreiro”

A equitação e o salto de obstáculos, que direi? Eu acho que a equitação é uma coisa esplêndida desde que praticada com espírito guerreiro. Para extirpar de equitação o espírito mundano ela precisa ter o espírito militar. Ela praticada com espírito militar, não ser um balé dançado com o cavalo, junto com o cavalo, mas ser uma coisa em que o homem e o cavalo dão o que tem eu acho uma beleza.

Há aqui um livro na biblioteca chamado “L’Alemagne Moderne”, que eu folheava quando eu era pequeno e que tinha muitas fotografias dos uniformes do Império Alemão e tinha uma fotografia que até não é das maiores e representava uma carga de cavalaria de Exército do Kaiser. É uma maravilha! Os cavalos mais voando do que andando, aqueles homens com aquelas couraças, com aqueles elmos de metal, com os sabres nus, a única coisa que me doía é pensar que aquilo podia ir contra a França, porque quanto ao resto eu não teria palavras para dizer o meu entusiasmo por aquilo.

Nunca fui muito hábil em questões de equitação. Uma vez até lá na fazenda do Dr. Paulo eu cai do cavalo espetacularmente mas a culpa era da fazenda que não amarrou bem a barrigueira do cavalo, a culpa não foi minha.

Bem, fora disto eu nunca dei para equitação, mas que eu acho uma maravilha, eu acho.

E com isso meus caros está terminado o Santo do Dia que tem o defeito de ter sido muito mais uma extravasão de impressões minhas pessoais do que um comentário objetivo inteiramente doutrinário. Mas esse defeito não é propriamente um defeito, eu quis comunicar aos senhores um pouco do sabor que coisas dessas podem ter, como é que se pode ter o gosto e o sabor de coisas dessas. E vou lhes dizer porquê.

(F. Siqueira: O senhor ficou de falar se no Reino de Maria haveria escafandro.)

Há uma coisa. Sobre todas essas coisas que eu estou dizendo pesa uma hipoteca. É uma tênue hipoteca, mas ela pesa e a coisa é seguinte: nos tempos em que havia restos ainda vivos e palpitantes de Civilização Cristã, as pessoas não compreendiam e não apreciavam a beleza de certas coisas que depois começaram a compreender e apreciar.

Por exemplo, antes da Revolução Francesa muito poucas pessoas apreciavam o mar. Eu me lembro ter lido a carta de um padre confessor de Luiz XIII que foi exilado pelos superiores ─ aliás injustamente, porque cumpriu o seu dever ─ ele dizia a um amigo de Paris: “Eu estou aqui relegado a uma residência de nossa Companhia na Bretanha, lugar tão ermo e tão selvagem que basta lhe dizer que da janela do meu quarto se avista o mar”.

Bem, o gosto de contemplar os precipícios cheios de neve da Suíça, a beleza das auroras e dos ocasos sobre a neve, coisa a que eu sou sensibilíssimo, os antigos não tinham, não conheciam.

Eles chamavam aquilo…, os memorialistas, diante da Revolução quando tinham de atravessar a Suíça, eles diziam que tinham passado por caminhos perigosíssimos junto a abismos medonhos que eles tinham arrepios, etc.

Bem, a noventa e nove por cento de possibilidade de que isso fosse atraso deles, mas há um por cento de possibilidade de haver algo de revolucionário na posição oposta, de maneira que esta pequena hipoteca eu devo fazer em virtude da servidão que nós devemos ter para com os antecedentes da Civilização Cristã, de maneira que aí fica esta interrogação.

Bem, com isso, meus caros, vamos rezar.

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