Reunião
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Reunião Normal ─ 7/2/69 ─ 6ª feira
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Refutação dos erros de quatro categorias de falsas direitas * Os erros filosóficos do Nazismo, Fascismo e Integralismo * Os burgueses acham que a Religião é um bom pretexto para combater o comunismo * A universalidade da Revolução é clara para os filhos das trevas e obscura para muitos filhos da luz * Por ser uma crise religiosa, a Revolução é necessariamente total * Por que a Revolução constitui um processo? * Para castigar os homens, a Providência não permitiu nem mesmo que santos extraordinários tivessem uma visão clara da Revolução * Foi concedida à America Latina uma “Graça Nova” análoga à que foi dada aos Francos * * Os defeitos do orgulho e da sensualidade se desenvolveram primeiramente e muito mais na alta sociedade e nas classes cultas
* As quatro correntes de opinião pública européia para as quais foi escrita a “RCR”
traçar aqui no quadro aquela classificação de posições olímpicas,em função das quais foi escrita a “RCR”. Eu pediria para alguém chegar ao quadro-negro e escrever…
Faça o favor. Se sai em castelhano não tem nada, porque o grupo é bilíngüe. Lembra-se de como era para pôr lá em cima: Idade Média? Aí está perfeito. Tem apagador aqui. Não, está bem.
Os senhores se lembram que a “RCR” foi escrita em função dessas quatro correntes de opinião e que ela correspondia ─ eu disse isso aos senhores muito mais desenvolvidamente em conferência anterior ─ ela correspondia à esperança de que, lida por essas correntes de opinião na Europa, onde essas correntes são muito definidas, ela pudesse mostrar a todas [as correntes] que os fragmentos de verdade que há entre elas, são solidários; e que, somados, dão para constituir o espírito da Idade Média, ou seja, o espírito ultramontano, que é o nosso espírito.
E, de outro lado, foi escrito também para mostrar os erros que essas correntes têm que as afastam ─ não são os mesmos em cada uma ─ que as afastam do espírito medieval e do nosso espírito. Era portanto uma tentativa de duas coisas:
Em primeiro lugar, incutir o espírito da TFP, que se fundaria depois, mas que já era o espírito do Grupo, era de incutir o espírito da TFP nessas correntes, e transformá-las eventualmente em outras novas TFPs. Isso era a primeira coisa.
A segunda idéia era de fundar novas TFPs com os elementos dessas correntes que não quisessem, se acaso as correntes não aceitassem, ao menos os elementos das correntes acompanhassem a nossa orientação. Ou com elementos estranhos a isso que tendo uma noção global do que é a Revolução e a Contra-Revolução, aderissem às nossas posições.
Então, se alguém de longe não lê, e quiser levantar o braço, eu posso ler o que está escrito aí. Então, está escrito aqui:
─ os monarquistas;
─ depois, os antigos fascistas e nazistas;
─ depois, os católicos militantes;
─ depois, a direita burguesa.
Essas são as quatro categorias às quais se dirigia a “RCR”, para lhes mostrar os erros e aproveitar alguns elementos aproveitáveis que existem dentro dessas várias correntes.
* O Sr. Dr. Plinio propõe refutar as objeções do público que se considera de direita
Bom, eu fiquei de fazer uma leitura aqui, uma análise da “RCR”, mostrando aos senhores, por contrastes, quais são as posições contrárias às várias posições que eu vou sustentando ao longo do livro. De maneira a ter uma espécie de pequena “anti-RCR”. Mas não é a “RCR”, vamos dizer a “anti-RCR” dos comunistas, a “anti-RCR” dos liberais. É a “anti-RCR” dos que têm pensamento afim conosco. E disso que se trata.
Quer dizer, eu não vou retraçar aqui o pensamento dos católicos, dos socialistas, dos liberais, não é disso; nem dos progressistas. É dos que são considerados pelo público, ou se têm mais ou menos na conta de direita. É esse ponto de discrepância que eu vou analisar aqui. Eu pergunto: está claro? Alguém quer me perguntar alguma coisa a esse respeito? Quem quiser, levante o braço.
Pois não.
(Sr. –: [Inaudível])
É isso, exatamente. É o que está aqui no quadro-negro.
Bom, eu deveria ter lido um pouco da “RCR” durante o dia para facilitar um pouco a exposição. Infelizmente, não tive um minuto disponível para isso. Com surpresa talvez para os senhores, a minha memória é tão má, que eu não me lembro bem como é que começa a “RCR”. Eu tenho tudo isso dentro da cabeça, mas a ordem que eu expus, como é que foi feita a exposição, eu não me lembro muito bem.
De maneira que eu vou ter que dar uma rápida vista de olhos na “RCR”, para depois acompanhar, fazer depois melhor o desenvolvimento. Eu pergunto aos senhores, se todos os que desejam “RCR” aqui foram atendidos, ou se é o caso de mandar vir mais. Os que não foram atendidos, levantem o braço.
(Sr. –: Aqui no fundo, faltaram vários, Dr. Plinio.)
Vários é? O Solimeo, Felipe, queria pedir ao Solimeo para ver se podia arranjar? Eu creio que se houvesse uns quinze para dar fartamente, seria o ideal.
Bem, a “Introdução”, os dois capítulos primeiros [são] tão pequenos [que mais] correspondem a uma preocupação esquemática. Vale a pena os senhores lerem os dois primeiros capítulos e o comecinho do terceiro. Eu creio que dará bem o necessário para acompanharem depois a minha exposição.
* Para monarquistas deformados, a crise do mundo contemporâneo é essencialmente política
Porque essa crise tem sua raiz na alma humana, quer dizer, é uma crise de caráter moral, de caráter espiritual.
Qual é, nessas várias correntes a diferença, em que ponto eles estão? É uma tese, naturalmente, que eu dou aqui. Depois eu vou demonstrar. Em que ponto de desacordo eles estão a respeito disso? O que é que contra isso pensam os monarquistas? Naturalmente, eu digo os monarquistas deformados. Monarquista deformado pensa o seguinte: a crise do mundo contemporâneo é uma crise política. Restaurada a monarquia, está tudo resolvido. A crise econômica, a crise cultural, a crise social, todas as crises estão resolvidas. Essa é a posição de monarquista errado.
A Pátria Nova professa essa idéia: que restaurando a monarquia no Brasil, tudo entra nos seus eixos. Está tudo resolvido. Portanto, basta fundar um partido monarquista.
Fundar uma organização como a nossa, que dá toda uma formação religiosa, filosófica, moral, espiritual, cultural e artística, é perda de tempo. É a aplicação concreta do erro deles. É perda de tempo.
Bastaria que nós todos trabalhássemos pela monarquia e por mais nada. É uma posição, como os senhores estão vendo, profundamente diferente da nossa. Para nós o problema é religioso, é filosófico, é cultural, é social, é político, é econômico, tem um mundo de aspectos, mas o aspecto fundamental é o aspecto moral e religioso. E por isso nossa obra é uma obra fundamentalmente moral e religiosa, apesar de cívica.
* Os erros filosóficos do Nazismo, Fascismo e Integralismo
Bem, qual é o erro dos ex-fascistas e ex-nazistas a esse respeito? Eu já tive ocasião também de desenvolver isso. Os fascistas e nazistas acham que o fascismo e nazismo, sobretudo no nazismo está mais claro, no fascismo não é tanto, que o nazismo é uma cultura nova, que toma o homem inteiro.
Se quiserem, é uma filosofia nova. Se quiserem, é até uma religião nova. Pode ser tudo isso junto. E que é preciso realmente resolver a crise contemporânea mudando o homem completamente, e de todo. Os integralistas pensavam assim também. Plinio Salgado, no livro dele “A Quarta Humanidade”, que era uma espécie de “RCR” do integralismo, ele sustentava essa tese, que houve a humanidade politeísta, primeira humanidade; a humanidade monoteísta, segunda humanidade; a humanidade atéia, terceira humanidade. Quarta humanidade, o integralismo.
Quer dizer, é uma nova religião, em função da qual se estruturará um outro homem e uma outra civilização. Está claro no livro dele. Um livro afim com o dele, que é o “Quarto Império”, de Plinio Salgado, de Gustavo Barroso, que era outro líder integralista, sustenta a mesma tese. O Quarto Império é o império do Plinio Salgado. É uma quarta era da história da humanidade. Então, qual é o nosso ponto de atrito com eles? Eles concordam com esse ponto inicial… [inaudível] …inteiro, etc., etc.
O atrito vai aparecer mais adiante: é que para nós a solução é a solução católica. Para eles é uma solução filosófica, laica, panteísta, gnóstica. Está claro isso ou alguém quer perguntar algo? Quem quiser levante o braço.
* Para certos militante católicos, a solução da crise religiosa não traz a resolução para as outras crises de ordem social
Bem, depois nós temos a posição dos católicos militantes. A posição dos católicos militantes ─ o grosso deles, não cada um, é claro ─ a posição dos católicos militantes era a seguinte: a crise contemporânea não é uma crise fundamentalmente religiosa. Há uma crise religiosa, e separada [desta], há uma crise política, uma crise econômica, uma crise cultural, etc., etc. A crise religiosa é mais importante, porque faz com que os homens percam o Céu e mereçam o Inferno.
Então, ela é mais importante, porque os efeitos dela são eternos. Mas não é verdade que resolvida a crise religiosa as outras crises se resolvam na sua raiz. Há um efeito benéfico da religião sobre os outros campos da atividade humana. Isso existe. Mas é apenas um efeito indireto e, vamos dizer, relativo.
A crise política deve ser resolvida pelos políticos; a Igreja não entra em política. A crise econômica pelos economistas. A crise da arte deve se resolvida pelos artistas. Não tem nada que ver com a Igreja. O que é que a Igreja tem que ver com a arte? Só uma coisa: não saírem nudismo nos quadros e nas pinturas. Desde que não saia nu, o resto está perfeito. Pode fazer uma Igreja com a torre enfiada no chão e o teto no ar, desde que não tenha uma figura nua, está perfeito. O resto são coisas humanas, contingências etc., etc.
Depois, outro ponto de desacordo já está meio insinuado aqui, vai aparecer mais adiante: para os católicos militantes a vida humana estar ordenada bem não é de grande utilidade para a salvação das almas. Por exemplo, a arte enquanto arte estar bem ordenada, isso não é uma coisa muito útil para a salvação das almas. A economia estar bem ordenada não é muito útil para a salvação das almas. O que é útil para a salvação das almas é ir a igreja, ouvir os sermões, participar das associações católicas e fazer apostolado. São coisas inteiramente separadas.
Os senhores dirão: mas eles se preocupavam com a questão social. É verdade. Mas era do ponto de vista da aplicação de um mandamento da lei de Deus. Não era com a idéia de que bem estruturada a sociedade ela salvasse as almas. Era um mandamento que era preciso cumprir. É preciso não roubar, então é preciso dar ao patrão o que pertence ao patrão e ao operário o que pertence ao operário.
(Sr. –: [Inaudível])
Eles negavam mais ou menos tudo. Mais adiante nós vamos ver quanta coisa eles negavam. Um apostoladinho que você verá, provavelmente, restos em Curitiba: um Apostolado da Oração, Filhas de Maria, Ação Católica, já então progressista e horrorosa e outras coisas assim. Isso está claro, a posição dessa gente, ou alguém quer me perguntar algo? Quem quiser, levante o braço.
* Os burgueses acham que a Religião é um bom pretexto para combater o comunismo
Bem, a posição dos burgueses. A posição dos burgueses eu já descrevi da outra vez, não é o caso de entrar em pormenores. A religião é uma espécie de bom pretexto para combater o comunismo. Porque o comunismo quer acabar com a religião, então a gente quando não quer perder os bens da gente, diz: cuidado, olha que o comunismo vai acabar com a religião! E salva os bens da gente.
Os senhores conhecem em tourada o que se faz com o touro: o touro vem em cima do toureiro, ele põe um pano vermelho assim e o touro, estupidamente, vai em cima do pano. Bem, e o toureiro fica de lado. Assim, para o povo seria o seguinte: olha aqui, olha aqui está a religião. O comunismo vai em cima da religião, tira o corpo de lado. O povo chifra o comunismo porque o comunismo é contra a religião. E salva o dinheiro do banqueiro. É esse o jogo. Então aqui está afirmada a primeira das nossas teses:
É uma crise do homem inteiro, e uma crise que o pega em suas maiores profundidades que são religiosas. Nisso nós entramos em choque com essas várias tendências. É um início de refutação dessas várias tendências.
(Sr. –: [Inaudível])
Eles querem, de fato, uma modificação da humanidade inteira. Mas numa tendência, numa filosofia panteísta e gnóstica. Além do que expliquei várias vezes, que em matéria de comunismo eles acham que é só… [inaudível] …e nós não estamos de acordo.
(Sr. –: [Inaudível])
Na concepção nazista seria o povo, führer, que é o povo alemão, impondo a ordem alemã ao mundo inteiro, guiado por um alemoníssimo, que era Hitler e depois dele, por testamento, Rudolf Hess. E depois, de testamento em testamento, iria um outro alemão, para governar o mundo.
(Sr. –: [Inaudível])
Mas então para o Brasil.
(Sr. –: E do Brasil para a América?)
Ou para o mundo, se quiser, se der. Quer dizer, são megas. É à vontade. No papel da gente pode reivindicar o domínio do mundo. É uma questão de pôr mais tinta, não custa nada.
(Sr. –: [inaudível])
Não.
Seria preciso apresentar aos burgueses e dizer: “a TFP mostra que a religião é incompatível com o comunismo. E portanto, coloca numa trincheira, que é a mesma de vocês, muita gente que não tem propriedade”. Isso é que é. O que, aliás, é verdade. A TFP está longe de existir para isso, mas isso que eu estou dizendo é verdade.
* Todos os erros que existem fora da Cristandade não têm a malícia nem o dinamismo da Revolução
Bem, agora vem a segunda parte da coisa:
Essa crise é principalmente do homem ocidental e cristão, isto é, do europeu e de seus descendentes, o americano e o australiano; e é enquanto tal que mais particularmente a estudaremos. Ela afeta também os outros povos na medida que a esses se estende e neles criou raízes o mundo ocidental. Nesses povos tal crise se complica com os problemas próprios às respectivas culturas e civilizações e o choque entre essas e os elementos positivos e negativos da cultura e civilização ocidental.
A idéia que está expressa aqui é a seguinte: a Revolução é um fenômeno que arrebentou no ocidente. O paganismo não é um fenômeno igual à Revolução. O maometanismo, o budismo, o xintoísmo, o bramanismo, enfim, todos os erros que existem fora da cristandade não têm nem a malícia, nem o dinamismo da Revolução.
A Revolução é muito pior do que isso. Por quê? Os senhores tomam, o que que é pior, é um budista ou um católico que deixou de ser católico para ser budista? É claro que o apóstata é pior do que o que nasceu no budismo. O pecado do apóstata é maior. Bem, o católico que fica revolucionário é pior do que o homem que nasceu pagão.
Quer dizer, o pecado dele é maior, tem um dinamismo maior, leva mais fundo, leva mais longe, leva com mais força. Nós poderíamos dizer que há uma diferença do paganismo para a Revolução, como há da energia elétrica para a energia atômica. Quer dizer, o paganismo é ruim, é péssimo; como energia elétrica, é muito potente. Mas a bomba atômica é incomparavelmente mais potente do que essa energia que se obtém pelas quedas d’água e esses processos conhecidos.
Assim também a Revolução é muito pior. A Revolução nasceu nos países cristãos, é uma chaga dos países cristãos, porque é uma apostasia do Cristianismo, e ela se estendeu, através dos cristãos para os povos asiáticos e africanos. Esse é o papel da Revolução.
Bem, mas na realidade esses povos receberam do ocidente um mal maior do que aquele que tinha nas entranhas deles. Por exemplo, a China pagã imperial era má. A China comunista é muito pior do que a China pagã imperial. É o quê? É a inoculação do pecado do cristão no pagão. Isso é que está expresso aqui. Bem, a esse respeito, o que é que pensam essas correntes que estão aí?
* Bons missionários e homens intoxicados pelo espírito da Revolução foram para o Oriente nos mesmos navios, sob a bandeira do progresso
Em primeiro lugar, muitíssimos dos partidários dessas correntes nunca pensaram no problema. É um problema que nunca lhes ocorreu. Uma problemática que nunca lhes teve presente. Em segundo lugar, entre os que pensam nessas correntes, eles tem uma idéia curiosa: e é que o progresso ocidental representou um grande bem. O espalhar o progresso do ocidente representou um grande bem para esses povos, porque levou toda a cultura do ocidente: hospitais, faculdades, universidades organizadas, luz elétrica, telefones, oh bem-aventurança! isso não havia antes.
De maneira que foi muito bom. Quem é católico faz um outro raciocínio ainda: valeu a pena porque foram os missionários junto. E então, o século XIX foi um século de intensa propagação missionária. Um grande número de missionários se estendeu por toda a África, Ásia, etc., etc. Foi uma grande vitória missionária. O século seguinte também.
Nossa objeção ─ está aqui [nas] entrelinhas ─ nossa objeção é essa: sem dúvida, a extensão das missões foi um grande bem. Mas um bem muito menos dinâmico do que a extensão da Revolução. Nos mesmos navios que levavam o padre ─ no tempo que havia bons missionários ─ nos mesmos navios iam também os homens intoxicados com o espírito da Revolução. E a Revolução fez um mal muito maior do que o bem que a expansão missionária pôde fazer.
Resultado, houve mais mal do que bem. Eu creio que em nenhuma parte do mundo isso se averiguou com tanta clareza quanto na Algéria, na Tunísia e na Tripolitânia, no norte da África, e Egito. Por quê? Foram para lá muitos missionários. E foram revolucionários. A Revolução acabou escorraçando os missionários. E hoje aquilo está cheio de Revolução e não tem missionário nenhum. Tem uns farelos que restam de Religião.
Os senhores sabem que a catedral de Alger foi transformada em mesquita muçulmana?!
(Sr. –: [Inaudível])
Muitos deles, sim. Vamos admitir que alguns não. Ainda assim a vantagem foi muito menor do que a desvantagem. Ficou claro, ou não?
(Sr. –: [Inaudível])
Quer dizer, eles não lutaram contra a penetração da Revolução. Pelo menos isso se pode dizer. E não tendo lutado, o mal tomou conta. É o mínimo que se pode dizer.
* As Missões fracassaram e além do mais, serviram de elemento de penetração para a Revolução
Mas é preciso reconhecer que havia muitos missionários ainda direitos, com zelo apostólico e muitos deles morreram mártires. Quer dizer, no século XIX, em boa parte do século XX, pode-se dizer que o escol, uma parte do escol do clero ia para as missões. Mas a questão é que não agüentaram lá, ou melhor, não lutaram lá contra a Revolução. O resultado está no que se vê. Pois não, Gomide.
(Sr. –: [Inaudível].)
Não, não. Acho que explica por esse lado também. Pois não… é que os missionários não iam ser nocivos e, em última análise, serviam como um elemento de penetração no conjunto da coisa. É terrível essa visão, mas a prova os senhores tem aí. No que que deram as missões da China? No que que deram as missões da India? No que que deram as missões do norte da África? Parece que com os negros do sul do Saara, as missões conseguiram alguns resultados duráveis.
Mas também aí penetrou muito a Revolução. Mas, enfim, alguma coisa durável. Mas, no total, o esforço missionário rendeu muito pouco. Está claro isso, ou alguém quer perguntar alguma coisa?
* A tese de que a crise universal está sobretudo radicada no Ocidente é aceita pelas bases e negada sorrateiramente pelas cúpulas
Bem, então nós temos, vamos dizer, a tese, o primeiro elemento da tese fundamental, que é que é uma crise contemporânea, radicada sobretudo no ocidente, isso está enunciado aqui. Não está demonstrado. Está enunciado. Por que não está demonstrado? Qual é a técnica da “RCR”? Eu não poderia fazer todo um tratado profundo. Eu não tinha tempo para isso. Precisaria consagrar a vida toda para isso, para fazer um tratado.
As coisas mais ou menos evidentes, que um grande número de leitores aceitavam, eu afirmei. E, o que é curioso é o seguinte: essas duas afirmações assim, como eu fiz, podia muita gente pensar de um modo diverso. Mas dizer claramente, não. É coisa pensada, meio, pela maior parte do público, pensada meio à socapa quando pensavam.
De maneira que uma simples afirmação bastava para levar as bases dessa corrente. Porque nas bases dessa corrente não se negava isso. Nas cúpulas agia-se como se esses meus princípios fossem falsos. Mas nas bases não se negava. Eles tinham medo de cristalização. Uma simples afirmação levava para arrastar as bases. Esse lado tático está claro, ou querem que eu explique algo?
(Sr. –: [inaudível])
Por exemplo, D. Luís que morou na Alemanha. Um monarquistazinho de base, médio, alemão, ele não nega esses princípios aqui. Ele tem isso mais ou menos como evidente. Mas a direção do partido monarquista nunca diz isso a ele. E até em algumas coisas que publica, insinua o contrário. Isso é também, não a todos, porque o movimento nazista é péssimo, o movimento fascista é péssimo, mas em algumas pessoas iludidas pelo movimento nazista ou fascista, integralistas brasileiros, nacionalistas chilenos, argentinos, uruguaios, muita gente de base pensa exatamente o que está escrito aqui.
Mas, nas cúpulas trata-se do problema como se isso não fossem assim. O mesmo se poderia dizer dos católicos militantes e dos burgueses também. Como o livro era feito, sobretudo para arrastar as bases, o simples enunciado bastava. Está claro ou não? Bem, vamos adiante.
* A universalidade da Revolução é clara para os filhos das trevas e obscura para muitos filhos da luz
Agora vem então os caracteres dessa crise. Eu tratei da crise, mostrei que era uma crise do homem, mostrei que é uma crise do homem ocidental e cristão. Agora, os caracteres dessa crise.
Por mais profundos que sejam os fatores de diversificação dessa crise nos vários países hodiernos, ela conserva sempre cinco características capitais: 1) é universal; 2) una; 3) total; 4) dominante; 5) processiva.
Eu depois explico o sentido de cada um desses caracteres.
1) A universalidade dessa crise:
Essa crise é universal. Não há hoje povo que não esteja atingido por ela em grau maior ou menor.
Aqui é uma coisa dolorosa. Mas a idéia da universalidade da Revolução é muito clara nos filhos da Revolução. Ela é obscura naqueles que são mais ou menos filhos da Contra-Revolução. Vamos dizer, voltando aos monarquistas.
Os monarquistas europeus… aqui no Brasil não existe um problema monárquico, mas na Europa existem ainda muitos partidos monarquistas, etc., e como o livro foi em grande parte escrito para a Europa, vale a pena insistir sobre os monarquistas. Entre os monarquistas europeus, eles sabem que o comunismo é um movimento universal; eles sabem que a Revolução Francesa se estendeu, estendeu seus frutos pelo mundo inteiro; mas eles não têm idéia de que por isso é preciso fazer uma aliança de todos os monarquistas, para restaurar as monarquias no mundo.
Que é o que seria natural. Porque se o movimento que as derrubou todas é universal, a restauração delas supõe um concerto universal para derrubar esse movimento. É uma coisa evidente. Isso é a idéia que menos eles têm. D. Luís que viveu em círculos monarquistas na Baviera, deve ter notado uma coisa que o pouco que eu passei na Baviera me pareceu assim. Os monarquistas bávaros, que constituem um dos redutos mais fortes da monarquia na Alemanha, não pensam na monarquia a não ser na Baviera. Nem na Alemanha inteira pensam muito. Não sei se isso é assim, ou não.
(D. Luís: Exatamente, Dr. Plinio, exatamente.)
Não existe. Olhem os senhores, ou melhor, os senhores vêem, a Baviera é uma parte da Alemanha. Nunca poderiam restaurar a monarquia, se não restaurasse na Alemanha inteira. Mas a obtusão deles é tão grande que eles não pensam num trabalho sério pan-alemão.
* O “bornesismo” do Yves de Pontfarcy ─ O papel hipnótico e a solidariedade dos chefes nazi-fascistas sobre suas bases
Bem, eu contei aqui esse fato que me apunhalou: o Yves de Pontfarcy, monarquista francês, eu perguntei a ele se ele tinha contato com os carlistas espanhóis, que são os monarquistas mais radicais da Espanha. Não, não. Alí, colado na Espanha. E depois, na Europa, viaja-se muito.
─ Não, não.
─ Mas, como Yves? Nós mandamos vir você para cá para termos um contato com um bom católico ultramontano no Brasil, você nunca foi à Espanha?
─ “Não. Les espagnols ne nos intéressent pas: os espanhóis não nos interessam.
Espanhóis, para nós, não são senão des messieurs qui dansent très bien: senhores que dançam muito bem. Está acabado. É a mentalidade de todos eles. Os senhores viram D. Luís falando da Baviera. Bom, aqui, afirmando a universalidade da crise, nós nos opúnhamos a esses.
Bem, entre fascistas e nazistas não se pode propriamente dizer a mesma coisa. Eles tinham uma solidariedade, mas era uma solidariedade mais oculta do que oficial. Isso é indiscutível. Bem, mas daí não se segue que as bases tivessem essa idéia de solidariedade. As bases tinham uma idéia vaga dessa solidariedade.
(Sr. –: [Inaudível])
Sim, é.
Se as bases conhecessem a solidariedade, compreenderiam, pelo menos, a idéia de que a Contra-Revolução deve ser universal; que as direções não dizem para as bases.
(Sr. –: [Inaudível])
Não, porque cada um quer hipnotizar completamente a respectiva base em favor do respectivo führer e do respectivo chefe. Não quer que a atenção da base se disperse em outra coisa.
* A falta de solidariedade entre os católicos prova o quanto não há entre eles a noção da universalidade da crise revolucionária
Bem, agora, nos católicos militantes. Os senhores tomem toda a América Latina. É um bloco católico enorme. No tempo, entre os católicos anteriores ao progressismo, nunca se organizou uma ação intercontinental católica séria. Vivia tudo isso desmilingüido, jogado por aí. Mesmo na Europa, uma cooperação séria entre católicos de um país com outro não havia. A idéia de que há um fenômeno universal contra o qual eles tem que lutar, não havia.
Bem, as bases burguesas nem se fala: otimistas, bobas, achando que não há perigo comunista, e que quando aparece no seu próprio país, a polícia, naquele país, liquida o caso.
(Sr. –: [Inaudível])
Não, eles acham que há uma certa crise, uma certa propagação universal do comunismo, mas que essa universalidade não tem profundidade, não é uma coisa que resulta das mesmas causas. Eu dou a você uma idéia, você entenderá bem.
Para a maior parte dos burgueses, a partir do momento em que o comunismo tenha caído na Rússia, acabou-se. Porque então não entra mais propaganda no país, no Brasil, e não há mais comunismo no Brasil. Eles não entendem que o comunismo é uma lepra que nasce do próprio corpo brasileiro, como dos outros, e que essa ação vinda de fora apenas ajuda. Isso não entendem; que é o que eu afirmo, quando digo que a crise é universal.
(Sr. –: [Inaudível])
É isso, é isso. Eles sabem que o comunismo é universal, porque [está] no mundo inteiro, isso eles sabem. Mas eles não acham que deva ser combatido em plano universal, porque acham que as raízes não são profundas, não têm importância. Bem, está claro isso ou não?
(Sr. –: [Inaudível])
Vem, mas você precisa ver de que natureza é o perigo. É um perigo que entra no país dele de dentro para fora, de fora para dentro. Não é um perigo que exista dentro por causa das condições internas do país. Compreendeu?
(Sr. –: Dr. Plinio, aqueles partidos comunistas muito organizados, como [inaudível])
Favoreciam, porque era uma coisa vinda de Moscou, que soprava de Moscou, artificial, portanto.
* A unidade da Revolução é um ponto de discrepância particularmente duro em relação às falsas correntes, mas perfeitamente irrefutável
Bem, agora a idéia de que é una. Aqui entra mais duro o ponto de discrepância.
Quer dizer, não é uma coisa só que existe no mundo inteiro, mas é uma só coisa. São coisas distintas. Então, qual é a tese? A tese que eu sustento aqui é a seguinte:
Não se trata de um conjunto de crises que se desenvolvem paralela e autonomamente em cada país, ligadas entre si por algumas semelhanças mais ou menos relevantes.
Quando, essa é a posição burguesa, sobretudo. Mais ou menos todos pensam isso, mas sobretudo a burguesa. São crises parecidas, que dão em vários países, mas…
Quando ocorre um incêndio numa floresta, não é possível considerar o fenômeno como se fossem mil incêndios autônomos e paralelos, de mil árvores vizinhas umas das outras.
É evidente. Eu não vou dizer, por exemplo: lá naquele mato ─ vamos dizer que haja um mato com três mil árvores, e que esteja pegando fogo em três mil árvores. Eu não vou dizer o seguinte:
─ Olha, há três mil incêndios em cada uma das árvores da floresta; é uma tolice.
É um incêndio só. Se há uma mesma crise no mundo inteiro, é uma crise só. Quer dizer, é uma refutação que eu dou a eles, depois… salta aos olhos. Ninguém pode resistir a esse argumento, tão simples.
A unidade do fenômeno combustão exercendo-se sobre a unidade viva que é a floresta, e as circunstâncias de que a grande força de expansão das chamas resulta de um calor no qual se fundem e se multiplicam as incontáveis chamas das diversas árvores, tudo enfim, e contribui para que o incêndio da floresta seja um fato único, englobando numa realidade total os mil incêndios parciais, por mais diferentes, aliás, que cada um desses seja em seus acidentes.
Quer dizer, numa árvore pode ter pegado fogo inteiramente, numa outra menos combustível o fogo pode ser mais lento, pode acontecer de tudo. Mas é um incêndio só. Assim também essas mil revoluções e crises que há no mundo, pelo mesmo argumento são uma crise só.
* A ausência de Estados oficialmente católicos prova a unicidade da Revolução
Quer dizer, é um argumento que eu dou para achatar a posição dessa gente. Não sei se está compreendido o argumento, ou se alguém quer me fazer uma pergunta.
A Cristandade ocidental constituiu um só todo, que transcendia os vários países cristãos, sem os absorver.
Realmente, antigamente a Cristandade era um todo, que tinha na cúpula o Papa e o Imperador do Sacro Império Romano Alemão, e foi esse conjunto que pegou fogo. De maneira que é um incêndio só.
Nessa unidade viva se operou uma crise, que acabou por atingi-la toda inteira, pelo calor somado e, mais do que isso, fundido das sempre mais numerosas crises locais, que há séculos se vêem interpenetrando e entre-ajudando ininterruptamente. Em conseqüência a cristandade enquanto família de estados oficialmente católicos, de há muito cessou de existir. Dela restam como vestígio os povos ocidentais e cristãos, e todos se encontram presentemente em agonia sob a ação desse mesmo mal.
Quer dizer, a Cristandade sempre foi definida como a família dos povos que professam oficialmente a Religião católica. Não há mais quase povo que professe oficialmente a Religião católica. Parece que a Argentina ainda professa, não é? Não é isso? A Igreja Católica lá é a Religião de Estado, não é?
(Sr. –: O Presidente tem que ser católico.)
O presidente tem que ser católico. Bom, no Chile eu creio que já é laico o Estado, ou não? Peru e Colombia o que é? Laico ou católico? É católico. Mas na Europa, quase, tirando a Espanha, um ou outro país, quase tudo, enfim, no mundo inteiro quase todos esses estados não são mais oficialmente católicos. E mesmo essa realidade da religião oficial no Chile, não, no Chile não, na Argentina, no Peru, na Colombia, é uma realidade mais decorativa do que real.
De maneira que, praticamente, a Cristandade morreu. Restam uns povos católicos, mas os Estados não são mais católicos, as nações não são mais católicas. Mas o que é que levou a isso? Foi um só mal, foi uma só doença que produziu uma mesma ruína. Então, a Revolução é, além de universal, una. É a mesma. Está claro isso, ou não?
(Sr. –: [Inaudível])
* Por ser uma crise religiosa a Revolução é necessariamente total
Por exemplo, na Europa. Entre 1789 e 1914, quer dizer, entre o começo da Revolução Francesa e o começo da I Guerra Mundial, vamos dizer, 1918, o fim da I Guerra Mundial, houve quase ininterruptamente pequenas revoluções, aqui, lá e acolá, não é que todas elas foram modificando a Europa, republicanizando a Europa.
De maneira que hoje em dia a Europa só tem seis monarquias, não é? Bem, esse fenômeno é um mundo de pequenas revoluções, ora num país, ora noutro, ora noutro, ora noutro, mas é uma só Revolução. Entendeu?
É total ─ Considerada num dado país, essa crise se desenvolve numa zona de problema tão profundo que ela se prolonga ou se desdobra, pela própria ordem das coisas, em todas as potências da alma, em todos os campos da cultura, em todos os domínios, enfim, da ação do homem.
Quer dizer, essa crise abrange tudo, por ser religiosa. O religioso é o fundamento de tudo. Isso todos esses negam. Prof. Fedeli.
(Sr. –: [Inaudível])
Ah, sim. É o que eu descrevia do Yves, por exemplo. Quer dizer, nem tem que descrever o erro deles que os senhores estão vendo qual é. Bom, ela é portanto uma crise una, universal, total.
* A Revolução é como um polvo cujos tentáculos garantem-lhe a dominação total
Bem, depois diz-se que ela é dominante. O que está escrito aqui não vale a pena ler, os senhores preferem ler e depois eu comentar, ou preferem que eu leia alto e depois comente, ou os senhores preferem que eu dê simplesmente o resumo? Os que preferem que eu leia alto e depois comente levantem o braço. Deixa eu ver: um, dois, três, quatro. Os que preferem simplesmente um resumo levantem o braço. Bem, o que está dito aqui é o seguinte:
Que essa crise é tão profunda que ela domina todos os acontecimentos. Quer dizer, tudo que se passa de maneira a servi-la. Ela é como um polvo que entra em tudo e que governa tudo. Tudo a serve. Essa observação de D. Mayer, por exemplo, que eu achei sempre uma observação muito pitoresca e muito viva, a respeito da diocese de Campos, que nos lugares aonde não chegava o ônibus havia um certo espírito de tradição. Bastava chegar lá a linha de ônibus que o espírito de tradição desaparecia completamente.
Os senhores vêem que até os meios de locomoção enquanto tais servem. Quer dizer, não há nada que não sirva à Revolução. Os senhores acompanham a história dos últimos cento e cinqüenta anos, por exemplo, para não ir mais para trás, os senhores podem me perguntar qualquer coisa que tenha acontecido que não sirva à Revolução, fora da história da Igreja, porque dentro da Igreja muitas coisas se passaram contra a Revolução, e eu posso apontar aos senhores: não há o que não tenha servido à Revolução.
Não sei se algum dos senhores tem curiosidade de me perguntar algo, mas eu posso mostrar em tudo. Quer dizer, nos campos mais diversos da atividade humana, ou aquilo servia à Revolução, ou a Revolução entrava naquilo para só ela monopolizar o proveito daquilo. Mas, em tudo a Revolução venceu.
(Sr. –: Dr. Plinio, o senhor poderia explicar um pouquinho melhor qual a diferença entre total e dominante?)
Total é uma coisa que abarca tudo. Dominante não só abarca, mas dirige. Penetrar em tudo é uma coisa. Dirigir é outra. Aliás, é preciso notar o seguinte: que esses conceitos, cada um deles prepara para o outro, para fazer com que o leitor não se assuste muito. Falar que é una, o susto não é tão grande quanto dizer que é universal. Depois, dizer que ela é total, depois dizer que ela é dominante. Alguém falou aqui?
(Sr. –: [Inaudível])
Não, está, isso pode-se considerar fora da história da Igreja. Eu chamo história da Igreja, por exemplo a definição do dogma da infalibilidade papal, do dogma da Imaculada Conceição, o progresso da mariologia, as aparições de Lourdes, as aparições de Fátima, a extensão da comunhão, da piedade eucarística no mundo inteiro, a expansão das Congregações Marianas; até meados do reinado de Pio XI, houve, vamos dizer, até o começo do reinado de Pio XI houve uma série de vitórias internas da Contra-Revolução na Igreja. E depois começou um recesso; chegou até onde nós estamos.
(Sr. –: [Inaudível])
Tudo servia à Revolução.
(Sr. –: [inaudível])
* Por que a Revolução constitui um processo?
A Revolução tratou de me comprar, não é? Em várias ocasiões tratou de me comprar, não é? Quer desligar um pouco aí?
(…)
… agora vem a parte que eu julgo mais difícil de entender, e onde o nosso desacordo com essa gente é mais profundo, e é dizer que a Revolução é processiva, ela constitui um processo.
O que nós podemos chamar um processo? Por exemplo, o perecimento é um processo. Como é que se define o crescimento de uma árvore, por exemplo, ou do corpo humano, ou de uma associação ou qualquer coisa? É um todo, vamos dizer, o corpo humano, é um todo.
Ele tem uma vitalidade. Essa vitalidade está em expansão. Porque ela está em expansão, ela atua sobre o corpo e vai pondo nele modificações. Essas modificações são por etapas que se ajudam umas às outras, de maneira a chegar até a maturidade. Então, o que é, qual é a noção de processo? É a atuação por etapas de uma causa que produz vários efeitos, e esses efeitos se somam, ou se multiplicam, para chegar a um fim. Isso se chama um processo.
Se os senhores quiserem, a decomposição de um cadáver é um processo também. Quer dizer, a vitalidade cessou, e então processivamente vai se dando uma decomposição, que contagia o corpo inteiro e os primeiros efeitos se somam aos segundos para produzir os terceiros, e daí por diante, até decompor o cadáver inteiro. Seria um outro processo em sentido inverso. Isso é um processo.
Então, o que está dito aí é que a Revolução é um processo. No que é que nós entramos em contraste com essa gente aqui toda. Monarquistas: contraste, a Revolução, a monarquia caiu por um golpe de Estado, deve ser restaurada por um golpe de estado.
* A infantil concepção reacionária de certos monarquistas ─ “A noite dos tambores silenciosos”
Nós tínhamos um amigo, que muitos dos senhores conheceram, era um…
(…)
Ele dizia: “olha, quem resolve esse caso é a espada”.
Ele ficava em pezinho, com um ar flamante, ele era plutôt baixo, mas nessa hora ele ficava baixo. Bem, ele dizia: “é só um militar resolvido tirar a espada ─ eu acho que ele ainda acreditava na espada como arma de guerra ─ tirar a espada e desembainhar. Viva o rei! Vamos fazer a monarquia! Ah, todos os políticos fogem. De maneira que é obter alguns militares e a gente restaura a monarquia. Restaura a monarquia, restaura tudo. Logo, com alguns militares tudo se resolve”.
Quer dizer, é uma concepção infantil, mas muito freqüente. Freqüente também nos integralistas. Golpe de estado, domina a situação, impõe o integralismo e está acabado, e está tudo feito. Fazem um marcha. Os integralistas viviam disso, eles tinham uma cerimônia chamada “noite dos tambores silenciosos”, em que o Plinio Salgado reunia, nas várias sedes integralistas, com a luz velada, uns batedores de tambores, que rufavam o tambor baixinho: bam, bam, bam. Nesse caso medida muito prudente porque não chamava a atenção dos vizinhos, nem dava complicação com a polícia.
E então com esses tambores silenciosos que representavam os mil passos dos futuros brasileiros que iam tomar conta do poder, porque a coisa era assim. Bem, então, nesse estilo ele proclamava ressurrecto o Brasil por mercê do futuro golpe de estado integralista.
* “A noite dos punhais compridos”!
O Plinio Salgado belga ─ porque em cada país houve um Plinio Salgado, só um, porque era feito de propósito ─ o Plinio Salgado belga se chamava Leon Degrelle. O Leon Degrelle tinha “a noite dos punhais compridos”. Punhais, nessa época hein?!, que era a noite terrível, que os comunistas já tinham decretado. Só faltava marcar data, em que todos sairiam de seus antros para fazer o morticínio dos burgueses nas suas camas.
Então, era preciso viver pronto para a noite dos grandes punhais. Então, para o belga, essencialmente caseiro, gostando de proteção, de segurança, muito zangadão quando se atreve alguém a violar sua segurança ─ não é Dr. X? ─ para o belga era uma imagem ideal para suscitar o homem para a luta: preparar-se para a noite dos longos punhais.
Então havia bandidos que pulam com o punhal e o belgão que tem uma arma e aí, reconciliados os flamengos e valões, pela primeira vez na vida, estão prontos para atirar no primitivo bárbaro, quão terrível, que avançava com seu punhal compridão. É assim.
Bem, havia coisas assim na Alemanha, havia na Itália, havia por toda parte. Quer dizer, o golpe de estado havia de dar vitória a eles. Na Itália foi o golpe de estado que deu vitória ao Mussolini. Golpe de estado um tanto operístico, naturalmente, sem caráter trágico do golpe de estado alemão; fizeram-se alguns crimes, os fascistas mataram, por exemplo, o pai de Paulo VI. Mussolini fez isso: tomou conta do poder. [Facios, balilas?], marchas, porretes e remédios, drogas como que tóxicas tremendas para quem estivesse em desacordo, fugiu todo mundo que não estava contente, ele ficou dentro de casa com os submissos e os contentes.
* “Faccia feroce”… “Ferocissima”!
Então, marcha dramática. Os senhores conhecem a história: quando as legiões fascistas marchavam diante de Mussolini postado no balcão do Palácio de Veneza, quando chegavam a uma certa distância do Mussolini, o chefe da tropa gritava: Faccia feroce ─ quando chegava perto do Duce ─ ferocissima! Depois [que] passavam o Duce, naturalmente eles se distendiam, e muito latinamente continuavam a parada…
(…)
… acreditava muito, acreditava nada. Era uma coisa, uma chanchada.
Bem, isso obedecia à idéia de que a Revolução tinha nascido de golpe de estado, e que ela iria vencer por meio de golpe de estado.
(Sr. –: [Inaudível])
Está muito bem perguntado, mas de acordo com as nossas concepções ─ pode sentar-se ─ numa espécie de deterioração processiva da Revolução, que chegará ao auge com a Bagarre e que prepara assim o Grand-Retour. Mas há uma espécie de anti-processo nas entranhas do processo. Bem, então vem a noção…
(…)
… eles tem uma ou outra afirmação, uma coisa assim. Para nós, não. Está na própria substância da des-religiosização.
(Sr. –: [Inaudível])
* A Providência para castigar os homens não permitiu nem mesmo que santos extraordinários tivessem uma visão clara da Revolução
Eu acho que essa proporção foi falta de correspondência por certo. Agora, que de outro lado a Providência também cruzou os braços diante do fenômeno, cruzou. Porque a gente vê muitos santos no século passado, santos extraordinários, de que nós não somos dignos de beijar os pés e que, entretanto, não tiveram essa concepção.
(Sr. –: [Inaudível] )
Isso. A Revolução, a Contra-Revolução não é propriamente processiva porque a Revolução é processiva. A Contra-Revolução é processiva porque tudo quanto existe de profundo e de grande na natureza se faz por processos. E como a Contra-Revolução tem que ser profunda, ela tem que ser processiva.
Agora, há uma segunda razão, é que a Revolução sendo… mas é uma razão menor, a Revolução tendo sido processiva, a Contra-Revolução tem que ser processiva também.
(Sr. –: Dr. Plinio, por que a Providência não [suscitou] santos para combater a Revolução de modo claro?)
É. A pergunta pode ir mais longe: por que não os fez ver? D. Bosco, por exemplo, tem a famosa visão do cavalo alado, que nós comentamos aqui. Até que ponto D. Bosco viu a Revolução? Não se sabe também. Eu tenho impressão de que a Providência, para castigar os homens emudeceu a respeito disso.
Bem, então vem a noção do processo que os senhores conhecem bem. A noção do processo vem, a respeito, em primeiro lugar, na Idade Média. Aí eu cito, depois da Idade Média, eu falo da decadência da Idade Média, do protestantismo, da Revolução Francesa e do comunismo. Bom, mas eu não historio o processo como nós o vemos.
Quer dizer, sendo um duplo processo, um processo religioso, quer dizer, uma decadência religiosa, e também uma transformação da sociedade temporal, sob o bafejo de dois defeitos: o orgulho e a sensualidade. O orgulho e a sensualidade produziram a irreligião, a dúvida, o ateísmo, produziram também o igualitarismo. E o igualitarismo, por sua vez, tende para a irreligião.
Quer dizer, são coisas que se encontram, que se concentram. E isso dá na conferência das três revoluções, que eu creio que os senhores, mais de uma vez ouviram. Quer dizer, eu creio que não é o caso de dar aqui a conferências das três revoluções. Os senhores querem me perguntar algo sobre essa parte, ou não? Dr. Fernando.
(Sr. –: [Inaudível])
Sei, sim, sim. É isso sim.
* Foi concedida à America Latina uma “Graça Nova” análoga à que foi dada aos Francos ─ A Hispano-América é mais ultramontanavel que o Brasil
Mas há mais: é que América Latina ─ isso nos levaria um pouco longe ─ mas é positivo que entrou uma espécie de graça nova; como a graça que os francos tiveram foi uma graça diferente ─ entenda a palavra diferente entre aspas, naturalmente ─ da graça que agonizava no Império Romano do ocidente. Isso é preciso muito considerar.
(Sr. –: Eu estava considerando somente…)
Ah, bom, aí sim…
(Sr. –: [Inaudível])
Eu, no princípio, acreditava que fosse a Europa, porque eu não conhecia os países de língua espanhola. E o Brasil me parecia muito difícil de tomar a nossa posição. Foi quando eu primeiro fui à Europa, depois fui à Argentina, que eu voltei da Argentina dizendo para os meus amigos o seguinte: o futuro da expansão do nosso grupo não é a Europa, é a América Latina. Porque na Argentina eu vi como era toda a América espanhola. Muito mais ultramontanável do que a América portuguesa, ou seja, o Brasil.
(Sr. –: [Inaudível])
Ah, não tem. E são idéias completamente soterradas, tão verdadeiras que nunca ninguém ousou negar. Ainda hoje eu soube do caso de uma família em que o rapaz tinha a “RCR”. Pode sentar-se. O rapaz saiu do grupo e a família levou a “RCR” para ser examinada por um bispo. E um bispo dos mais progressistas: D. Jaime Coelho, Bispo de Maringá. Devolveu dizendo que não tinha uma palavra contra a Doutrina Católica.
* Os defeitos do orgulho e da sensualidade se desenvolveram primeiramente e muito mais na alta sociedade e nas classes cultas
Aí a explicação é muito complexa. Pode sentar-se. Vamos dizer, esses defeitos de orgulho, de sensualidade que geraram o espírito de Revolução, eles, por uma série de circunstâncias que eu mais ou menos desenvolvo aqui, esses defeitos se desenvolveram primeiro na alta sociedade e nas classes cultas para depois atingirem o povinho, razão pela qual foi aí que se encontraram primeiro os homens que… [inaudível] …circular para a primeira trama… [inaudível] …e que contra os seus próprios interesses trabalhavam para derrubar a ordem de coisas em que eles estavam.
Como o senhor vê hoje grande número de empresários que são comunistas, que favorecem as reformas de base contra o seu próprio interesse. Então o senhor compreenderá porque é que se vê, nos períodos das monarquias decadentes muitos… [inaudível] …representantes da nobreza, pertencentes à nobreza e ocupando lugares no governo. Agora, quanto a decadência da… [inaudível] …hoje é uma decadência apenas ilusória.
O organismo chamado… [inaudível] …está muito decadente, mas é porque ele deixou moribundas… [inaudível] …de quinta classe, para poder se esconder por detrás. Há… [inaudível] …que não tem loja, com prédio, com nada disso e essa é muito poderosa. De maneira que não se pode falar numa… [inaudível] …senão numa espécie de… [inaudível] …quinta classe, de aparência. Entendeu? Afonso.
(Sr. –: […inaudível])
Como se pode o quê? Eu não entendi.
(Sr. –: Qual é a relação entre essa… da pessoa frente a “RCR” com…)
Acontece o seguinte: essas pessoas ─ pode sentar-se ─ têm algumas idéias, vamos dizer, nesses setores há algumas pessoas que por força da coerência devem ter idéias anticomunistas ou até contra-revolucionárias. De maneira que ali se pode encontrar algumas pessoas sensíveis a uma reação.
(Sr. –: [Inaudível])
* A Europa está tão esclerosada que um movimento contra-revolucionário no Velho Continente só se pode esperar através de um milagre
A “RCR” teve uma divulgação minúscula na Europa, por causa de uma série de fatos que eu historiei aqui em conferência anterior. As cúpulas sorriram: “Muito bem, etc., muito interessante” e arquivaram. Entendeu?
Agora, eu acho que o europeu de hoje está de tal maneira esclerosado que ele, ainda que leia e concorde, ele não sai dos hábitos mentais dele. Eu tenho muito triste opinião das possibilidades de uma Contra-Revolução na Europa de hoje. Porque a Europa, o que na Europa não é contra-revolucionário, é tão esclerosado, mas tão esclerosado, tão morto, que eu acho [que sem] um milagre [não é possivel] sair qualquer coisa de dentro disso. Dr. Viena.
(Sr. –: [Inaudível])
Por que eu não fiz?
(Sr. –: [Inaudível])
Pois não. Os europeus, os de direita dessas correntes nunca fizeram uma objeção. “Não, é muito bem, muito interessante, etc., etc.,” sabotagem. Agora, porque não agreguei um esquema da história da América Latina, é por uma razão: é que a América Latina a história da América Latina é tão fluida, que é muito difícil reduzi-la a um esquema. Ela é, inclusive por causa de nosso espírito latino-americano muito menos categórico do que o espírito europeu. Reduzi-la a um esquema é muito difícil. Nós podemos dizer que nós tivemos, nós nascemos já em Revolução, porque nós nascemos depois da Idade Média.
O que para a Europa correspondeu a Revolução Francesa vê-se dentro dos nossos movimentos de independência nos quais nós passamos do Ancien Régime para a Revolução Francesa. Não é isso? E essa passagem foi mais violentamente países de língua espanhola, que passaram diretamente para a república, do que no Brasil, que passou, transitoriamente, para uma monarquia constitucional, para com muito mais tarde vir a ser república.
E que agora nos encontramos à frente da terceira revolução, que é o comunismo. Mas é um esquema muito menos rico, muito menos sugestivo de idéias, do que o esquema da história européia.
(Sr. –: [Inaudível])
Não, vale inteiramente. A palavra igualmente, não; mas tem analogias sérias. Quer dizer, se não for uma obra da graça grande dá para a gente recear. D. Luís.
(D. Luís: A Revolução na América Latina tinha também muito menos a destruir, do que na Europa.)
Ah, também muito menos. Por isso mesmo também o ímpeto da passagem do Ancien Régime para o regime representativo foi muito menor, queimou muito menos, quebrou muito menos.
(Sr. –: [Inaudível])
Como? Não houve. Também houve reações ultramontanas. A única coisa que é parecida com movimento ultramontano na América Latina, ou as únicas duas coisas são: a reação de D. Vital e algo em torno de Garcia Moreno, não é? Bom, eu creio então, meus caros, que nós podemos ficar hoje por aqui. Vamos encerrar a nossa reunião.
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