Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 5/2/1969 – 4ª-feira – p. 5 de 5

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 5/2/1969 — 4ª-feira

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...para o Santo do Dia. Uma matéria seria um lindíssimo... uma ficha sobre um assunto que é lindíssimo. Eu não sei... a ficha deve estar bem feita, e são os mártires do Japão. Numa sala tão cheia de nisseis, o assunto não deixa de ter seu apelo.

Agora, outro seria este bom escocês que está aqui, esse tocador de gaita de fole, para europeização.

Eu pergunto qual dos dois os senhores preferem: são os mártires do Japão ou europeização?

Vamos ver assim, a esmo. Pró europeização, levante o braço.

(Sr. –: Les deux.)

Mas, les deux, não vai. O pessoal vai levantar a que horas amanhã?

Bem. Do lado de cá, quem é que prefere europeização?

Do lado de cá.

Mártires do Japão, vamos ver; do lado cá.

Mártires do Japão, vamos ver.

(Sr. –: ... [inaudível] ...)

É... É sei bem isso. Obrigado.

Eu não sei bem como avaliar.

(Sr. Umberto Braccesi: Não seria bom aproveitar que o quadro está aqui?)

É. E amanhã fazemos os Mártires do Japão, embora passe um pouco do dia, está acabado.

[Toca uma música com gaita de foles]

Este soldado aqui é um tocador de gaita de fole, provavelmente da guarda escocesa. [Defeito na gravação] uma tal variedade de objetos e de formas que a figura oferece à primeira vista, que vale a pena fazer uma descrição antes de se fazer uma análise.

Em primeiro lugar, os senhores estão vendo aqui os vários apitos — se assim eu ouso me exprimir — da gaita de fole. Ele toca sucessivamente nessas várias coisas e aqui está uma espécie de bolsa de ar que ele aperta por meio de uma... eu não sei como é que isto funciona, mas há alguma coisa que aperta aqui, e com isso o ar comprime e se descomprime; ele toca a música dele. Bem.

Agora, os senhores têm aqui uma espécie de tira ou de faixa que, como os senhores percebem vem daqui de trás e que percorre esta parte e amarra aqui e ainda tem aqui uma borla. E esse desenho é um desenho que tem uma certa relação, certa analogia com o tecido da saia dele. Porque este tipo de soldado usa saia, é uma saia chamada kilt, e meias compridas, com sapatos. De maneira que o traje é um pouco singular para olhos americanos, sobretudo para a “geração nova” o traje deve parecer um tanto singular. Bom.

Os senhores estão vendo que ele usa um paletó azul-marinho com uns galões prateados, um punho também com galão prateado, os senhores percebem o quepe dele que é todo de pele, alto — aliás, há quepes muito mais altos do que este — os senhores estão vendo aqui uma aigrette vermelha e aqui uma espécie de aba vermelha. De maneira que há uma espécie de jogo de [cores]… há aqui uma bolsa com umas peles penduradas, brancas. Eu suponho que isso seja uma bolsa, tudo leva a crer que seja uma bolsa.

Não é? O que que é Julio?

(Sr. Julio Ubbelohde: São pelos de cabra.)

Mas é puro enfeite? Não tem utilidade nenhuma?

(Sr. Julio Ubbelohde: Ah, sim. Uma bolsa para guardar…)

É. Então é uma bolsa mesmo…

[Risos]

Eu gosto da atitude dele, porque ele notou muito mais o lado decorativo do que o lado funcional. O lado funcional é inteiramente secundário. Bem.

Então, Julio acabou de explicar, esta parte aqui é de prata e essa parte aqui são peles de cabra.

O kilt escocês, como os senhores sabem, tem um desenho característico e que varia na Escócia de acorda com os clãs, quer dizer, as velhas tribos a que o indivíduo pertence.

Essa é a descrição do traje do homem. Agora, vamos passar para a descrição do homem.

Os senhores estão vendo que é um homem que, pelo jeito, eu atribuiria a ele mais ou menos uns 50 anos. Não sei se todos são da mesma estimativa do que eu, mas eu atribuiria a ele mais ou menos uns 50 anos, mas uns 50 anos que a gente poderia chamar 50 anos floridos, porque todo ele é bochechudão, coradão, um pão doce, não é? Satisfeitão… os senhores jeito dele sorrir, alegre e otimista, o bigodinho dele ligeiramente a la Kaiser, desce para cá e forma duas pontas assim; dir-se-ia quase um meninão, pelo jeito travesso, alegre, e saudável do homem.

No conjunto, sobre isso deve incidir o nosso comentário. Bem.

Para nós compreendermos essa farda… esse uniforme, nós temos que compreender o seguinte: que ele é um uniforme profundamente regional. Ele nasceu de circunstâncias regionais. Nasceu de uma indumentária regional, e tem uma certa nota de extravagância à primeira vista, que todas as coisas muito caracteristicamente regionais têm. Quer dizer, são certas coisas que, num certo panorama, numas certas circunstâncias se explicam bem, e em outras circunstâncias ficam completamente fora do lugar. Os senhores imaginarem, por exemplo, esse homem marchando na Escócia montanhosa, fica muito bem; ele parece feito para galgar montanhas. Se os senhores imaginam esse homem tocando isto na pampa lisa e rasa da Argentina, ele fica completamente inexplicável. Ele deve ser visto no seu quadro, no seu ambiente, a Escócia brumosa, a Escócia montanhosa, a Escócia do gim, a Escócia do whisky, a Escócia dos lagos, mas tendo ainda as suas tradições. Uma Escócia que, por estar colocada muito ao norte da… do continente europeu, da ilha britânica, fica um pouco longe dos grandes ventos daquilo que se convencionou chamar civilização, e por isso, uma Escócia que ainda tem importantes restos de civilização. Precisamente porque os ventos da pretensa civilização quase não pousam lá.

Neste ambiente de guerra, feito de proeza, guerra feita de façanha, que era como esses homens combatiam. Não era guerra cerrada, em linhas, em fileiras, como depois se tornou, mas isso nasceu em uma época ainda da guerra em que a façanha era mais importante do que a arma de fogo. Nesse ambiente, esse homem tocando corajosamente a sua gaita de fole para estimular os outros para irem para a frente, incutindo heroísmo pelo toque da gaita de fole, soprando com vigor, expondo-se às intempéries, expondo-se às balas, tocando para frente esse homem é um magnífico espécimen daquilo que um povo em determinadas condições, pode dar.

O que se tira do escocês é isso. E não é pouca coisa, porque isso é um padrão magnífico. Um padrão magnífico do que?

Se a gente vai ver por trás, esse homem que é um guerreiro, é um combatente, a gente presta atenção nele, nota que ele é um militar, e um militar autêntico. E esses homens, com essa gaita de fole, combateram assim durante a Segunda Guerra Mundial, hein. Em muitas batalhas com a gaita tocando. Ele é um militar autêntico.

Os senhores notam nele, entretanto, uma espécie de otimismo; é impossível não notarem que ele marcha alegre, como para a vitória. É o otimismo da pessoa que acha que não vai lhe suceder nada na guerra? Não é. Não é um otimismo idiota como aquele. É uma figura risonha. É a figura risonha da aeromoça? Então, no que que este homem é otimista? O que que o otimismo dele diz? Por mais incrível que seja, é uma atitude vivencial que é um resto de fé. O que está expresso no rosto dele é o seguinte: combater é uma grande coisa; é realizar uma grande vida, ter participado de uma grande guerra. O homem alcança uma forma de plenitude quando ele é um herói, expõe a sua vida por uma causa. Ainda que seja para eu ser ferido, ainda que seja para eu ficar inválido, ainda que seja para eu morrer, em lutar, e em ter sido corajoso, eu me realizei.

E é por isso que tem essa cara de homem que acabou de tirar loteria. E a loteria dele não é a do homem que ignora o perigo, mas é a do homem que caminha para o perigo e que compreende que o enfrentar o risco, enfrentar o perigo, matar ou morrer, bem, que isto realiza um grande destino, que isso realiza uma vida. E que é mais importante isto, e que a alegria de ter feito isto e de ter feito isto, do que levar uma vida cômoda, de ter um automóvel, de ter boa saúde, de ter tudo mais. Tudo pode acontecer para esse homem na hora que ele marcha: ele pode morrer, ele pode ficar cego, ele pode ficar estropiado, ele pode ficar desses paralíticos que passam a vida inteira numa cadeira de rodas, ele pode ficar num hospital de sangue, entre a vida e a morte um tempão, ele pode ficar louco, tudo pode acontecer para ele, mas ele marcha para a frente com uma espécie de resolução: a guerra é isso, a luta é isso, a vida é isso, e ela vale a pena de ser jogada num grande lance. Aqui está meu lance, aqui estou eu,aqui está minha coragem.

Essa atitude de alma desse homem, eu a estou enunciando em termos laicos, porque infelizmente, a mentalidade desses homens protestantizada inteiramente é uma mentalidade laica. E eu não acredito que eles vejam algo além disso. Mas, eles chegaram a ver isso, e esse equilíbrio mental e esse equilíbrio emocional foi realizado neles, numa época em que se tinha fé, em que a fé explicava essa posição da alma e dava para essa posição da alma um fundamento que sem fé não existe. Porque sem fé, esse fundamento não existe. No fundo a gente pode perguntar para um miserável deste o seguinte: se a fé… se não existe uma outra vida, você acha que você se realiza ficando estropiado? Você acha que você se realiza ficando cego? É só andar um pouquinho pelas ruas de Paris, por exemplo, e portanto, de Edimburgo ou de Londres também e ver os mutilados de guerra.

Eu estou me lembrando, uma vez que eu entrei com Dr. Fábio num restaurant da Avenue Champs Élysée, eu estou me lembrando de um mutilado de guerra que entrou também. Era um cego conduzido, provavelmente, por sua esposa. Vinha ele naquelas trevas, zambando, o coitado não podia fazer outra coisa, a mulher com um ar exausto. Os dois arrastado os pés, ela por uma avenida que ela não estava admirando e ele por uma avenida que ele não via. Ela arrastou ele como um bonecão para dentro do restaurant. Ele sentou-se e começou a tomar uma cerveja. É o único prazer que podia ter, porque ele não via nada, não via nada. Não se tocava música neste restaurant, era chupar cerveja. Enquanto ele estava chupando a cerveja, a mulher com uma cara de exausta, um pouco quem dizia: “quem é que foi dependurar este cego nas costas?” E ele com uma cara de um homem que estava dando graças a Deus por ter uma cerveja para chupar, para sentir alguma coisa, para viver em algo. Era isto; era um espetáculo trágico. Sem a fé católica, valia a pena renunciar esse estado florescente e ficar cego? A saída, uma vez que a fé não é verdadeira, a saída não é “pernas para o que te quero”? quando a pessoa pensa um pouco detidamente nos resultados da luta? Bem.

Entretanto, a gente vendo a coisa de outro lado, percebe que nesta atitude laica, a única razoável diante do laicismo, que era de fugir, fica então a vida: você não morre. Não morre, vai viver. Vai viver para que? Porque, se a gente tira heroísmo da vida, o que é a vida? Uma sucção de cerveja?

Nós não somos cegos, o que é que nós tiramos da vida se nós não tivermos um ideal? Não tiramos nada. O que é que é a vida? Não é nada.

Quer dizer, posto o absurdo, do absurdo se segue tudo. Posto que Deus não exista e que a Religião Católica não seja verdadeira, as atitudes mais díspares são ao mesmo tempo as mais razoáveis e as mais estúpidas. A gente percebe que há algo de razoável na atitude dele, a gente percebe que se não fosse a fé católica essa atitude seria estúpida. Isto é um equilíbrio que vem em função de razões que datam da era católica e que depois se laicizaram.

Agora os senhores coloquem isto em função da doutrina católica e os senhores vejam como a posição desse homem fica razoável. Se Deus não existe, morrer é realizar-se ou é liquidar-se; se Deus não existe, ficar estropiado, não é a maior das idiotices.

Mas, se Deus existe e se a gente enfrenta estas coisa por amor de Deus, por amor da causa católica, por amor do seu país, quando o país esta empenhado na guerra e a gente deve defender o seu país porque também é uma virtude católica. Se essas coisas se põem assim, então que beleza e que magnífica realização. Então como é fato que a gente deve ir para a frente, porque quem se expõe se realiza; como é fato que a gente deve estar risonho diante do adversário e risonho diante do perigo, porque se nós morrermos é um holocausto para Deus Nosso Senhor e nós morremos verdadeiramente mártires. A gente compreende este estado de alma em função das raízes da fé católica. As raízes da fé morreram, mas este estado de alma ainda continuou nas vivências, mais ou menos como uma trepadeira da qual a gente corta o pé, mas ela durante algum tempo ainda, os botões que estão nela se abrem. As flores ainda estão verdes. Isto aqui é um resto de fé católica.

Se os senhores tomassem um verdadeiro católico indo de encontro ao adversário com razões católicas, ele teria uma cara menos divertida do que tem esse homem. Ele teria a cara mais séria, mas ele teria a mesma alegria, ou mais. Teria ainda mais paz e ainda mais coragem, porque algo aqui, apesar de estar laicizado, nos fala do verdadeiro heroísmo católico, da verdadeira alegria com que legiões inteiras de homens podem caminhar para a morte, podem caminhar para o perigo, podem caminhar para a invalidez, satisfeitas, porque estão cumprindo o seu dever.

Aí, se meu raciocínio foi claro, eu não sei se eu conseguir ser claro, se meu raciocínio foi claro, aí os senhores compreendem como a gente deve utilizar as coisas da tradição para formar uma verdadeira idéia do que é a Igreja. Porque, embora esse homem não seja católico, ele tem uma atitude que é filha da Igreja, que séculos de civilização católica geraram. E há aqui uma espécie de comentário vivo do heroísmo que muito livro de leitura espiritual não dará.

Se eu disser para os senhores: “meus caros, chegou a hora de correr o risco, chegou a hora da invalidez ou da morte, arrisquemos nossa vida, vamos pensar nos mártires do Coliseu”. Os senhores sentem que são levados a um heroísmo tão militar como vendo essa figura aqui? Essa figura não acrescenta algo de vivo a esta frase? Não entrou uma certa “heresia branca” que, quando a gente pronuncia os melhores conceitos, açucara e adoça o que a gente ia dizer, de maneira que a realidade não aparece dentro? A mim me parece que sim.

E assim há mil coisas da tradição católica que já não são vistas com espírito católico, mas que, uma vez interpretadas com espírito católico, são um magnífico comentário das próprias coisas católicas. E assim, a tradição nos ensina a sermos católicos .

Isso seria o comentário que eu teria a fazer.

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Auditório da Santa Sabedoria