Renião Normal – 5/2/1969 – p. 13 de 13

Reunião Normal — 5/2/1969 — 4ª-feira

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Princípio do amor à Perfeição I

Na RCR, eu sustento o seguinte: que se deve fazer uma distinção entre a forma de governo monárquica e o espírito monárquico. A forma de governo monárquica não existe necessariamente em todos os povos. Pode haver circunstâncias políticas, sociais, culturais ou outras, que explicam que, por exemplo, no Sacro Império Romano-Alemão ou na Itália do tempo da Idade Média, algumas cidades não fosses monárquicas. Fossem repúblicas burguesas ou repúblicas aristocráticas.

Mas, uma coisa é a forma de governo, outra é o espírito. O espírito monárquico consiste, pode-se definir da maneira seguinte: é a mentalidade da pessoa que admira a monarquia, que tem simpatia pela monarquia; que não só a considera como em tese, sendo a forma de governo melhor do que as outras, mas que por causa disto, tem uma espécie de afinidade de alma com tudo quanto é monárquico.

O espírito monárquico eu sustento na RCR que é um elemento fundamental, característico e indissociável dos outros elementos do espírito católico. Enquanto a forma de governo monárquica, pode existir ou não existir, conforme as circunstâncias do lugar.

Assim, nós vemos na Idade Média, por exemplo, as cidades que eram Repúblicas aristocráticas ou Repúblicas burguesas. Essas cidades não tinham hostilidade nenhuma de princípio com as monarquias existentes naquele tempo. Pelo contrário, coexistiam com essas monarquias perfeitamente e as monarquias com aquelas cidades. Porque todos tinham espírito monárquico, se bem que considerando que a forma de governo monárquica, para estas cidades em determinadas circunstâncias, não era a melhor forma de governo.

Nesse sentido nós podemos dizer que até o começo da Revolução – quer dizer, até o Protestantismo – a Europa toda, salvo algumas exceções, como por exemplo alguns traços do movimento das Comunas na Idade Média, que foi muito mau, a Europa toda, com algumas exceções, teve espírito monárquico. Por quê? Porque ela era católica. Essa é a tese que eu desenvolvo na RCR. Essa tese, nunca ninguém ousou desmentir, porque ela é, em tudo quanto há de mais católica, tudo quanto há de mais autenticamente católico. Mas, é uma tese que não é dita, não é proferida nos ambientes católicos. De maneira que nós, de vez em quando, devemos voltar a essa tese. E a razão pela qual eu dizia uma vez a Dom Pedro Henrique: que eu considero o ideal monárquico visto assim, nessa luz, uma coisa tão importante, que se eu soubesse que o mundo vai acabar daqui a dez minutos, [e] eu tivesse a meu lado o homem que tem ódio ao princípio monárquico, eu tentaria convertê-lo à monarquia. Não para que daí nascesse um homem para daí apoiar uma ordem de coisas, pois o mundo vai acabar, mas é porque é uma obra de apostolado; é aproximar uma pessoa de Deus. E com essa perspectiva que eu faria esse proselitismo monárquico.

(Sr. Afonso: Por que o senhor explicaria, se o mundo acabasse, que o princípio monárquico… [faltam palavras] …e não que Deus existe e que a Religião católica é verdadeira?)

Não. Eu suponho um que já fosse católico. Porque é claro que é muito mais importante explicar para ele a Religião do que ensinar a monarquia. Mas eu digo: se eu estivesse com um católico que fosse republicano, que tivesse ódio à monarquia, antes dele morrer, eu tentaria fazer dele um monarquista.

(Sr. Martin: Não entendi bem. A República de Veneza na Idade Média, deveria ter sido transformada em monarquia?)

Não, eu não disse isso. Eu disse: você toma concretamente uma República da Idade Média. Vamos dizer, aquelas cidades flamengas, dos Países Baixos. Elas eram cidades que eram governadas, a maior parte delas, por burguesias. Mas com participação dos operários, que votavam e tudo o mais. Estas cidades eram cidades que coexistiam perfeitamente bem com as monarquias, e reciprocamente. Porque cada uma tem suas condições próprias. Mas elas admiravam o princípio monárquico, que é uma coisa diferente. Agora, se tivesse continuado a Idade Média, elas teriam continuado a ser repúblicas. Quer dizer, eu não estou, portanto, aqui sustentando que todos os países devem ser monarquias. Eu estou sustentando que todo mundo deve ter o espírito monárquico, o que é uma coisa diferente.

(Sr. –: No Reino de Maria poderá existir?)

Ao menos assim, vamos dizer para estados de pequena extensão territorial, eu não tenho nenhuma dificuldade em admitir, ao menos para isto.

(Sr.- : …[inaudível]…)

Ela é inferior, mas ela não é ilegítima, ela não é contrária à moral. Quer dizer, é uma forma de governo menos boa, mas que para determinadas circunstâncias pode ser melhor. Há uma porção de coisas assim na vida concretamente, que são menos boas, mas que para certas circunstâncias são melhores. E assim é a república. Quer dizer, para certos países, para certas circunstâncias, pode ser melhor.

(Sr. –:.. [inaudível]…)

Nem isso se pode dizer tanto assim. Porque deve haver uma certa variedade no Universo. Agora, quando nós estudamos a História das monarquias européias, quer dizer, das monarquias católicas, que eu considero profundamente diferentes das monarquias não católicas, nós vemos o seguinte: os historiadores falam a respeito do rei. Então, o reinado de tal rei, depois o reinado de tal outro rei, ele fez isso, aquele fez aquilo, outro imperador fez aquilo, etc.. Mas quando a gente considera, por exemplo, cem anos ou duzentos anos de uma monarquia, a gente nota uma coisa curiosa: que há uma espécie de descolamento, de defasagem entre a ação do rei e a ação do trono, ação da coroa. A gente vai ver, em geral são – ou com freqüência – são reis medíocres, às vezes reis ruins, um ou outro grande rei, como é mais ou menos a porcentagem dos homens. E que os homens, na sua maioria são medíocres, alguns não prestam e outros são extraordinários. E que esta série de reis acaba fazendo um governo que tem uma espécie de continuidade. Que a gente examinando cada reino, parece que não existe. Comparando um reino com outro anterior, a gente não nota essa continuidade. Mas a gente vê no conjunto, existe uma obra da dinastia. A gente vê uma obra da coroa, que é uma obra melhor e mais profunda do que a obra individual de cada rei. E a instituição monárquica fazendo ao longo de, por exemplo, duzentos anos, algo que é muito maior do que cada rei fez, do que os reis fizerem. Então, o que é esta coisa da instituição monárquica diferente do rei? E o que é verdadeiramente a essência e a medula das monarquias católicas Ocidentais? O que é, em última análise, neste sentido da palavra, uma monarquia?

(Sr. –: Isso seria nos atos do governo ou em imponderáveis?)

Isso em última análise até nos grandes [fases?] do governo.

Por exemplo, você pega a história da França e você analisa o modo pelo qual os reis da França governaram. A gente vê que eles pegaram um território fragmentado e uniram esse território. E de outro lado, dilataram, com tendência para chegar aos seus limites naturais: os Pirineus, os dois mares – Mediterrâneo e Mancha, Mar do Norte – depois, Alpes e Reno. A gente vai analisar as políticas daquelas reis, folheie qualquer historiador, eles declararam guerras pelas razões mais variadas possíveis, que não tinham nada a ver com esta intenção. Ao longo dos séculos, a gente vê claramente que eles realizaram esta intenção. Quer dizer, há uma espécie de pensamento que se propaga ou se prolonga através deles e que, de algum modo, não era o pensamento individual deles. Agora, como se explica isso? Você toma, por exemplo, o incremento do fausto na corte francesa, o incremento da pompa solene e grave da etiqueta espanhola. É uma coisa que a gente vê que ao longo dos séculos os reis da Espanha ou de França fizeram. Mas, a gente vai ver qual o papel de cada rei nisso, é imponderável. Mas acabou sendo.

Então, o que é isto que se distingue do rei e que é obra da coroa? É obra do trono, é obra da dinastia? Mas que não é, a não ser em medida muito fraca a obra daqueles indivíduos. O que é isto? Como se explica isso?

É uma tentativa de explicar isso e de uma porção de coisas como isso, que eu gostaria de fazer com a intenção de ver se a explicação é clara ou se, pelas perguntas que os senhores me fizerem, eu devo montar mais cuidadosamente ainda a explicação. Quer dizer, os senhores vão me servir um pouquinho de teste.

Par nós compreendermos o problema, nós devemos começar por passar a esponga sobre o problema: não pensar nele. E pensar numa outra ordem de coisas completamente diferente. Tomar a coisa do ponto de vista metafísico. Nós, na linguagem corrente, temos dois sentidos da palavra perfeição. Os senhores dirão: ali está uma rosa perfeita. O que está insinuado, está dito nesta expressão? O que quer dizer aí “rosa perfeita”? Está insinuado que é uma rosa que, tanto quanto possível, tem todas as qualidades que uma rosa possa ter. Quer dizer, é uma espécie de rosa das rosas. Se nós dissermos também: Nosso Senhor Jesus Cristo foi perfeito, eu digo que Ele tinha em si todos os graus e modos de perfeição que podem caber numa mera criatura, na humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, pela Sua união hipostática com Deus, Ele formava uma só pessoa com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que é a perfeição. Porque Deus não é perfeito, Deus é a Perfeição.

Mas nós temos um outro sentido da palavra perfeito, que eu quero fixar mais agora, e que é o seguinte: quando a gente leva a um joalheiro um brilhante e pede para ele examinar, a gente pode dizer: “O senhor faça o favor de examinar esse brilhante para ver se ele tem uma trinca ou uma jaça?” O joalheiro poderá pôr aquela espécie de óculo especial que eles põem, examina o brilhante e restitui dizendo: “Não, ele é perfeito.” Quando ele diz: “Não, ele é perfeito”, ele não quer dizer que esse seja o mais belo brilhante que possa existir. Nem que seja um brilhante que tenha todas as qualidades que um brilhante possa ter. Ele está apenas dizendo que é um brilhante que não tem nenhum defeito próprio ao brilhante.

Nós vemos, portanto, que a palavra perfeição comporta dois sentidos distintos na nossa linguagem corrente. Num sentido, é o cúmulo de todas as qualidades. Em outro sentido é apenas o ter em grau suficiente aquilo que é próprio à natureza desse ser e não ter nenhum defeito oposto à natureza desse ser. Por exemplo, um brilhante que não tem jaça e não tem trinca, é um brilhante perfeito por quê? Porque tem as qualidades próprias a um brilhante. Não tem defeito oposto à clareza e à integridade do brilhante. Mas não quer dizer que ele tenha todos os graus possíveis e imagináveis de perfeição. Enquanto, em outras vezes, a palavra perfeição se diz de uma coisa que tem todas as qualidades possíveis. Aliás, propriamente só pode-se dizer de Deus. Porque só Deus é perfeito. Mas, por analogia, se diz às vezes de alguma coisa terrena.

(Sr. Jaymier: A perfeição de Nossa Senhora como seria?)

A perfeição de Nossa Senhora é uma perfeição relativa. Quer dizer, Ela tem no mais alto grau possível todas as qualidades próprias à criatura humana, sem nenhuma imperfeição, as qualidades naturais. E Ela tem todas as qualidades sobrenaturais que Deus criou, todos os dons da graça que Deus criou, os mais altos que uma criatura tenha. Ela tem. Mas Ela não é a própria perfeição, como Deus. Porque só Deus é perfeito. Para ser perfeito é preciso, por exemplo, ser eterno. Ela não é eterna. E daí para diante.

Eu só vou empregar agora a palavra perfeição neste sentido de uma coisa que não tem defeito. Que tem todas as notas de sua suficiência e não tem defeitos.

O que é próprio da perfeição vista assim é que ela é apenas um primeiro grau de toda uma escala. E que todas as coisas que existem comportam no seu gênero graus diferentes de perfeição. Nós temos, por exemplo, um brilhante que é perfeito – quer dizer – que não tem jaça nem mancha, mas nós temos brilhantes que têm perfeições muito maiores do que essa, porque são muitos mais claros, porque são até de uma cor azulada, que dá uma beleza maior ao brilhante, porque tem um tamanho maior, porque tem uma luminosidade interna muito maior, enfim uma porção de coisas, que são os predicados próprios do diamante.

Nós podemos dizer isto de tudo que exista. Em todas as coisas que existem, há graus de perfeição. E esses graus de perfeição são tias, que nós podemos imaginar naquela espécie um ser que tenha todos os graus de perfeição possíveis. Esta presença de todos os graus possíveis de perfeição naquela espécie nos dá a idéia da suma perfeição tendente, própria àquele tipo de ser. Assim, eu sei que o brilhante perfeito não existe. Mas eu posso imaginar um brilhante que tanto quanto possível seja um brilhante perfeito. Eu sei que um guerreiro perfeito não existe, mas assim como há muito guerreiros exímios que têm altos graus de heroísmo, de qualidades militares, eu posso bem imaginar um guerreiro que seja um guerreiro perfeito. Um navio perfeito não existe; mas eu posso vir a imaginar um navio com tais qualidades, que realize tanto quanto caiba no meu intelecto e no intelecto dos homens mais entendidos sobre navio, a imagem do navio perfeito.

O que é próprio a tudo aquilo que tem qualquer grau de perfeição, é tender com amor para a perfeição suprema da sua própria espécie. Dir-se-ia que tudo aquilo que existe tem uma espécie de apetência, tem uma espécie de desejo da perfeição no seu próprio gênero. Assim, por exemplo, vamos dizer, tomem Napoleão como a legenda o pintou. Eu não vou discutir o Napoleão da História. Mas a legenda pintou de Napoleão um general perfeito, um soldado perfeito. É próprio de todo soldado perfeito, embora em grau menor que de Napoleão, de considerando Napoleão, entusiasmar-se. Se pudesse, iria conhecer Napoleão, iria seguir Napoleão, iria lutar sob as ordens de Napoleão, pelo mero prazer que tem o bom soldado de se aproximar e de servir aquele que é o soldadíssimo. Porque o grau menor de perfeição sente uma atração por aquilo que é a plenitude de si mesmo. Pelo amor que ele tem a si mesmo, ele sente uma atração para a plenitude de si. Ele tem uma tendência para o auge de si mesmo.

Nós poderíamos dizer o mesmo num campo mais frívolo, mas talvez mais acessível. Continuamente, os jornais vêm publicando notícias das dez senhoras mais elegantes do ano. Eu duvido muito dessas classificações. Eu acho que é impossível dizer quais são as dez senhoras. E depois isso assim, num sistema métrico decimal. Por que as mais elegantes não são doze num ano e cinco no outro? Eu nunca consegui compreender isso, mas enfim, é bobagem de revista americana, de vez em quando publicam as dez senhoras mais elegantes do ano. E depois, é sempre a mesma coisa. É uma ou duas atrizes, um ou dois modelos dessas alas de costureira, uma ou duas pessoas da nobreza e o resto é preenchido por nouveau-riche. Está feito o estoque das celebridades do ano. Mas eu não discuto as coisas. O que eu digo é o seguinte: se nós pusermos, por exemplo, num baile, numa festa, a gente diz numa festa cheia de senhoras elegantes: “Chegou fulana, que é uma das dez mais elegantes do mundo.” As senhoras mais elegantes da festa, mais ou menos discretamente vão procurar ver esta. Não é por inveja – pode entrar inveja – não é pelo desejo de imitar – pode entrar um desejo de imitar, entra também – além dessas razões a atração que a menos elegante sente de ver a plenitude da elegante. Porque a coisa menor tende para a perfeição no seu gênero, tende para conhecer a sua própria plenitude. É um movimento natural e um movimento sadio. É um movimento legítimo.

Esse movimento tem na física uma expressão. É a atração que a matéria exerce sobre a matéria. Mas de tal maneira que a matéria mais densa é maior. Em via de regra, exerce essa atração sobre a matéria menor. É exatamente que a coisa menor tende a colar na maior e tende a desembocar na maior. Tende a identificar-se com ela, tende a servi-la. Tende por quê? Por causa deste princípio: que aquilo que é perfeito tende para o mais perfeito. E tende por seu próprio movimento para o supremamente perfeito. Quer dizer, este é o movimento que, de um modo ou de outro existe no universo inteiro. É preciso saber interpretá-lo para compreendê-lo, mas existe de um modo ou outro no universo inteiro e que nós podemos então admitir como também explicável no homem. O homem, quando ele age segundo as regras retas de sua natureza, de seus instintos, sua razão, ele tende para aquilo que é mais perfeito do que ele. Ele tende para a perfeição de si mesmo. Ele tende para conhecer os homens mais perfeitos do que ele, para se entusiasmar com esses homens, para aderir a eles, para servir a eles. Esta é uma tendência contínua de todos os homens, enfim. E um princípio, portanto, que pede para ir de grau em grau até uma perfeição suprema. É o princípio que explica a vassalagem.

A vassalagem é precisamente a dependência cheia de enlevo, cheia de admiração que o plebeu tem para com o senhor nobre, e que o senhor nobre menor tem para com o senhor nobre maior. É exatamente a tendência para o mais perfeito. Para o mais distinto. Os senhores vêem mesmo em nossa época de democracia uma coisa muito interessante neste sentido, que mostra como essa tendência está radicada no espírito humano. Ainda outro dia eu estava conversando com amigos mineiros, e eu, nas perguntas que fazia, eu via que em Minas isso tem toda a realidade, eu não sei no Rio como isso é, mas em São Paulo isso tem muita realidade. As zonas têm suas capitais e as capitais das zonas atraem as pessoas das cidades menores. Há cidadinhas que gravitam em torno de Campinas – Vinhedo, Lindóia, Amparo, outras assim – gravitam em torno de Campinas. E o bonito é ir a Campinas. O sujeito que é um craque tem um jeito de campineiro. Uma senhora que é campineira é a última expressão. Mas a campineira gravita em torno de São Paulo. Houve tempo em que o paulista gravitava em torno do carioca. Deveria gravitar em torno do brasiliense, mas Brasília – São Paulo precisa cair muito e Brasília precisa mudar muito para que seja possível um sistema de gravitação desse se realizar.

Em Minas, está cheio de capitaizinhas de zonas assim e com cidadinhas que gravitam em torno dessas capitais. Depois, tem umas outras maiores, e é claro que isto vai desembocar no ápice da pirâmide do universo, que é, como os senhores. bem sabem, não Washington, nem Nova Iorque, nem Paris, nem nada, mas é Belo Horizonte, como todos nós que estivemos em Belo Horizonte pudemos bem saber.

Então, por esse sistema gravitacional a gente vê que há uma tendência da cidade menos perfeita de conhecer a mais perfeita, viver da mais perfeita, sugar a mais perfeita. E é neste sentido que o Brasil inteiro presta homenagem à Bahia, a capital dos Vice-Reis, com um encanto que, do ponto de vista urbanístico – não digo da paisagem – nem sequer a Guanabara jamais chegou a ser.

Agora, os senhores me perguntarão: mas por que acontece que às vezes, o inferior implica com o superior? E há um atrito entre inferior e superior? É o atrito de algo que tem um defeito contra algo que tem uma qualidade. Não é o atrito do menos perfeito com o mais perfeito, porque esse atrito não existe, isso é sempre homogêneo. Mas é um atrito do imperfeito com o perfeito. Ou é porque o inferior tem uma imperfeição e por isso fica nodoso com o superior, ou é o superior que tem uma imperfeição e comete o crime de perseguir o inferior que é perfeito. Aí nós vemos que as brigas, entre maior e menor, as brigas legítimas que podem ocorrer não desmentem esse princípio de que o menor tende para o maior. Não desmentem também o princípio de que o maior tem uma necessidade vital de ter um menor para proteger e um menor que lhe deva falar e que o admire. Os senhores vêem muito isto na relação professor-aluno. O aluno se define como aquele que precisa aprender, mas o professor se define como aquele que morre se não tiver a quem ensinar. Há pessoas que tem uma necessidade de ensinar. Eu tenho conhecido em minha vida pessoas que nunca lecionaram, mas que são professorais. Eu tive um parente que era o maior conselheiro que pode haver. Ele a todo propósito dava conselhos. Eram uns desastrados de conselhos. Mas era uma vocação, para professor primário, que estava extraviada no todo de um comerciante. Ele a todo propósito dava conselhos, de Conselheiro Acácio. Parava e dizia: “Olha, acredita no que eu digo: bárábárá.” Eu via nele que ele devia ter sido professor primário de sua cidade. Ele cometeu o erro de entrar no comércio, até ficou rico no comércio. Mas passou a vida inteira com nostalgia com o alumínio, batendo assim com o pé no chão e que ele deveria lecionar. Até há muita gente, muita senhora professoral, que gosta de fazer declamações, etc., que se extraviou. Mas, a tendência professoral é manifesta em muita gente.

Como é que nós descrevemos uma senhora muito elegante?

Descrição superficial: é a senhora que se veste com muita elegância. Ou a senhora cujo modo de portar-se é muito elegante.

Descrição verdadeira: é isto, mais o seguinte: e que tem necessidade de comunicar elegância a outras mais elegantes que a imitem e que fiquem mais elegantes. Há uma necessidade de comunicar. E aquele que é superior, morre se não tiver isso.

Napoleão, tomado o Napoleão da legenda – eu não discuto o Napoleão histórico – se ele não tiver multidões de generais, capitães e de soldados para comandar, e que o admirassem, ele morreria como morreu em Sainte Hélène. Eu tenho impressão que em Sainte Hélène, mais do que do câncer, ele morreu de abafamento. Por quê? Porque ele era grande demais para aquela aldeia aonde o mandaram. Ele não podia respirar. Se o tivessem mandado, por exemplo, para a penitenciária de Paris, e que ele estivesse ali vestido com aquelas roupas, com aquelas darjas, mas fosse Paris e ele percebesse, para além dos muros, a polícia atirando no povo indignado que queria matá-lo, ele não teria falta de ar. Porque ele teria um ódio que seria a admiração com o sinal menos na frente. Ele respiraria. Mas se fossem por Napoleão; na ilha de Elba, Napoleão viveu, ele organizou uma corte – eu li o regulamento da corte dele – por quê? Porque tinha turistas que iam visitá-lo e ele se exibia para os turistas. Em Sainte Hélène não tinham turistas. Napoleão morreu com falta de ar. Eu creio que é uma coisa que o Dr. Edwaldo, que é médico devia estudar, porque eu acho que a causa verdadeira do câncer de Napoleão foi isso. Eu acho que essas coisas cancerizam. O fato do indivíduo ficar completamente dépaysè, completemente deslocado, sem ambiente, produz nele algo que dá alguma doença; se não for essa, dá outra qualquer, mas o sujeito se desmilingua, para usar a nossa linguagem baixa contemporânea.

(Sr. Orontes: Aquele Santo do Dia que o senhor fez sobre o patinho feio, teria alguma razão nesse sentido aí ou não?)

Não, porque o patinho feio não é o superior que sente a falta do inferior, mas é o análogo que sente a falta de um análogo. É uma outra gama de fenômenos. É um gama horizontal, enquanto essa é uma gama perpendicular.

(Sr. Afonso: Como se poderiam aplicar todos esses princípios para um escravo de Nossa Senhora?)

Naturalmente, porque em relação a Nossa Senhora, no céu se dá isso. Nós nos enlevamos com Nossa Senhora, porque os menos perfeitos se enlevam e se encantam com Aquela que é a mais perfeita das criaturas, mera criaturas.

O que é um país…O que é o espírito monárquico, e o que é um país de espírito monárquico? O espírito monárquico existe quando num país existe um grande número de almas em estado de graça. Em um estado, portanto, que é um estado elementar de perfeição. Porque o mero estado de graça [é] um estado elementar de perfeição. Porque o mero estado de graça, um estado elementar de perfeição. E quando existem almas em estado de graça, essas almas, pela força do estado de graça, tem uma tendência para admirar tudo aquilo que é mais perfeito. Antes de tudo, a santidade maior. A Igreja de Deus, que é o símbolo, a mestra e a fonte de toda a santidade. Mas depois, em virtude mesmo desse princípio, a pessoa que está em estado de graça, que possui o verdadeiro estado de graça, esta pessoa tem uma tendência a gostar que todas as coisas que estão em torno dela ou que dependam dela, estejam dispostas retamente, segundo a ordem e segundo a sua natureza. Quer dizer, uma pessoa que está em estado de graça não gosta – como nós comentamos outro dia – do quarto de que gosta o comunista. Comunista gosta do quarto com tocos de cigarros no chão, com cusparadas no chão, com móveis quebrados. É isto e espírito do comunista. Eles conspiram bem dentro desse ambiente. Pelo contrário, nós detestamos isto. Em todas as revoluções igualitárias, os povos invadem os palácios e quebram. E saem contentes, quando deixaram tudo reduzido a cacos. Por quê? Porque lhes molesta imaginar aquilo bem arranjado. Se aquelas multidões entrassem em estado de graça, imediatamente o que elas deixavam eram de quebrar. Elas iriam consertar o que quebraram. Elas paravam na obra da demolição. Porque o fazer a desordem, o degredar, o estragar é inerente ao não-amor do mais perfeito. E portanto, há uma imperfeição, é movido por uma imperfeição.

Aquilo que é perfeito, pede uma perfeição maior. E por isso, num país aonde existe o estado de graça, como um fenômeno não de cada um, mas geral, em tudo se procura uma qualidade maior. E para tudo se procura uma categoria melhor e se está continuamente melhorando tudo. Não é para gozar a vida. Entra colateralmente um desejo de uma reta fruição das coisas. Mas a principal razão não é essa. A principal razão é o desejo de que as coisas sejam como elas devam ser. E porque o perfeito deseja ver a perfeição em tudo. É por um princípio de afinidade e de analogia.

(Sr. –: Num país em que houvesse muitos em estado de grande graça, isso tenderia a fazer abolir toda desordem?)

Ah, sim. Porque a ordem que é avessa a construir – a destruir quero dizer – o que está em ordem, é por isso mesmo propenso a destruir o que está em desordem. A ordem é amiga da ordem e inimiga mortal da desordem. Não há nada de mais demolidor do que demole, do que o construtor. Não há nada que põe mais a desordem no reino da desordem do que o amigo da ordem.

Daí acontece que se nós imaginarmos um país em que todos são ouvidos durante cem anos, durante duzentos anos, por esse movimento ascensional para uma perfeição maior – e é a história de Idade Média, impelida por Cluny e pelo desejo de sacralização que está nisso, que é isto; é um continente inteiro que vai se aperfeiçoando em tudo ao longo de vários séculos. Se nós imaginarmos isso, nós vemos o seguinte: que estas perfeições tendem a algo de centralizador. Depois, por necessidade, a idéia de uma corte e de um rei. O que é esta corte? E o que é este rei?

Esta corte é um lugar no qual se reúnem todas as perfeições, para a qual convergem todas as perfeições do reino. Não necessariamente para ali residir, mas para ali fazer o ponto de incidência de seu talento. É próprio a um país que tenha grandes poetas, grandes pintores, grandes escultores, grandes arquitetos, grandes literatos, grandes cientistas, grandes guerreiros, grandes estadistas, grandes diplomatas, grandes aristocratas, grandes senhoras de salão, é próprio a esse amor de perfeição, pensar num lugar de convergência de tudo isto. Aonde tudo isto se supere a si mesmo, encontrando-se e coexistindo. E é próprio a pensar então, num local aonde tudo isto coincide. E é próprio neste local, a pensar num homem que seja a convergência de tudo isto. Daí vem a idéia da corte, que é a convergência de todos os valores de um país e a idéia de um rei, que é a convergência de todos os valores da corte.

Ainda outro dia eu estava lendo uma biografia de Bossuet, e eu via uma coisa espantosa, para a qual os homens contemporâneos estão pouco habituados: Há em Versailles, no parque de Versailles, uma alameda, que se chama até hoje Alameda do Filósofo. A razão dessa nomenclatura é porque de manhã Bossuet se encontrava lá com pessoas do clero, da nobreza e da plebe, intelectuais, que gostavam de estudar os padres e doutores da Igreja ao ar livre, na bela estação do ano, andando de um lado para outro. E formava uma chusma em torno de Bossuet. E que às vezes parava, e havia um jardinzinho trancado à chave, dentro do parque de Versailles, um bosquet, cujo porão era trancado à chave e a chave tinha o rei Bossuet, que Bossuet abria para todos sentarem em círculos e estudaram teologia. Quer dizer, pelo mesmo parque de Verssailles transitavam, portanto, teólogos estudando teologia, marquesas fazendo reverências, guerreiros que iam para a guerra, financistas que iam tratar no Conselho do rei das finanças do país e era a quintessência e o supra-sumo do país inteiro. E esta era a definição em cada país da corte deste país. Era ponto de convergência dos valores de todo o país.

Daí o fato de terem construído um personagem mais ideal do que real chame do rei. O rei era um personagem meio do sonho, construído por esta necessidade de perfeição e que era um modelo ideal que o próprio rei tinha que seguir, sob pena de perder o trono. A vida está cheia de modelos ideais destes. Por exemplo, cavaleiro. Nos dois sentidos da palavra: o homem de salão e o homem que anda a cavalo. Há um modelo ideal do homem que anda a cavalo, do qual todos os que querem entrar em equitação devem se aproximar. Esse modelo é meio indescritível, mas quem trata de equitação conhece este modelo. E é porque os que tratam de equitação aceitam esse modelo, que existe no mundo uma coisa chamada equitação. É o cavaleiro ideal, que não existe em nenhum lugar, mas que existe dentro da cabeça de todos os que vão andar a cavalo.

Bem, o diplomata. Todos nós temos uma certa idéia do que é o diplomata perfeito. Nós vemos que esta idéia modela os diplomatas que existem. De maneira que, com maior ou menor precisão, eles se aproximam, com maior ou menor perfeição, eles imitam um diplomata ideal. E na realidade, não é livre aos diplomatas se desligarem desse modelo. Eles têm que seguir esse modelo sob pena de cair do cavalo. Eles perdem a categoria de diplomatas. E [é] porque os padres estão deixando o modelo ideal dos padres que eles estão perdendo o prestígio aos olhos de milhares de pessoas. Porque o modelo ideal do padre, que todos aceitam, estão rompendo com esse modelo ideal.

O cavalheiro, homem de salão. Todos nós temos uma idéia do cavalheiro ideal. Nós sabemos, por exemplo, que é o contrário de um play-boy. Todo mundo que queira de algum modo ser um cavalheiro tem que se colocar nessa situação, sob pena de não ser um cavalheiro. Tudo está cheio desses modelos ideais. Toda a civilização vive desses modelos concebidos pela cultura de um povo e ao qual todo mundo tem que se ajustar.

Modelo do advogado. Outro dia estava o Dr. Haddad fazendo curativo e conversando. E a certo momento ele falou, ele usou uma fórmula protocolar assim, dessas mais comuns: “pobre amigo, não sei o quê”, depois ele disse: “Essas são formulas que usam dois advogados quando se encontram no Largo do Ouvidor.” A gente vê que é o tipo perfeito do advogado, antigo ainda, com anel com rubi, um chuveiro de brilhantes em volta, falando. E durante muito tempo só se pode advogar sendo assim. Esses modelos aliás, dominam a vida. E há profissões que ainda são dominadas por esses modelos ideais.

A marinha, por exemplo, muito mais do que o exército ou infantaria, não a cavalaria. Mas há um tipo dominante do almirante, que é muito mais definido hoje do que o tipo ideal do general, por exemplo. Há o tipo ideal do professor, por exemplo. E assim por diante. Se há tantos tipos ideais e se esses tipos ideais dominam tão profundamente milhões de homens, não há nada de espantar que haja um tipo ideal do rei. Que é o ideal do monarca perfeito, que é o homem pleno, idealizado pela alma de um povo. E que obriga o rei a ser daquele jeito. E em última análise, grande parte da continuidade dinástica e da grandeza das monarquias européias, foi feita do fato de se ter elaborado um modelo ideal, de rei Ocidental e Cristão, com um fundo de Carlos Magno presente em tudo, que todos os reis se sentiam na obrigação de seguir. De um modo ou de outro, o papel de rei que eles fizeram marcou a história deles, [mais] do que a atuação individual deles como rei. E que fez com que o modelo ideal do rei, tenha governado mais do que os reis de carne e sangue que governaram a Europa. E este modelo ideal de rei é produto do desejo de perfeição crescente de uma sociedade em estado de graça.

De maneira que então, o desejar este modelo ideal, o concebê-lo, o estruturar em torno dele a sociedade, isto é propriamente o espírito monárquico, que não é senão o apogeu do amor que as protenções menores tem pela suma perfeição. E, neste sentido, o espírito monárquico é idêntico ao espírito religioso. O espírito religioso é isso mesmo, transferido para a esfera de extraterreno, do metafísico, do sobrenatural.

Daí os senhores terem o seguinte – eu não sei se os senhores prestaram atenção na rainha-mãe da Inglaterra. Eu seria capaz de fazer um Santo do Dia a respeito desta rainha-mãe e da rainha-mãe anterior. A rainha-mãe anterior é uma Wurtemberg inteiramente modelada, segundo o modelo ideal da rainha-mãe do século XIX. Ela é a encarnação da rainha- mãe. Aliás, muito pitoresca. Ela parou em certa época da vida e nunca mais mudou de moda e continuou impávida, até o fim. Sempre grandiosa e respeitável, isso não tem dúvida. Apesar de ser até uma princesinha secundária. Mas ela entrou no papel dela, assumiu o papel dela, e acabou-se. Tomam a atual rainha-mãe, ouvi dizer que é a campeã na piada. Nada mais desdourante do que uma rainha campeã na piada. Mas, uma nobre inglesa que trata com ela, fará diante dela a mesma reverência que faria diante da outra rainha-mãe, ou que faria diante da atual rainha, que é verdadeiramente um rainha com physique du role. Por quê? E porque não faz diante desta mulher ou daquela mulher, mas é diante de uma rainha ideal. Diante do qual se faz a reverência, ainda que aquela rainha concreta não corresponda à rainha ideal. E toda a corte funciona em torno de umas abstrações: de que a rainha real é igual à rainha verdadeira. O que obriga, de fora para dentro, a rainha verdadeira a se modelar de algum modo segundo a rainha real. E é isto que fez com que a Europa fosse governada por uma figura de abstração, por um ideal que se tornou vivo. E que não realizou inteiramente a não ser em poucos reis, e que era o rei.

Então aqui vem a idéia do que é um rei e vem a idéia do que é o espírito monárquico: é uma emanação do desejo do que é menos perfeito, mas tem defeito, daquilo que é mais perfeito. E seria então uma justificação das objeções também que se faz contra a forma de governo monárquico. Dizendo que o filho do rei pode ser bobo. Não é preciso que ele seja inteligente. É preciso é que ele tenha recebido essa cunha, essa marca e que ele funcione de acordo com isso. É preciso que ele seja o rei in abstrato. Isso é que se quer.

Os senhores querem ver a prova? Dom Bertrand não me leve a mal do que eu vou dizer. Dom João VI e Dom Pedro II. Dom João VI era um homem pouco culto, eu não sei mesmo o que ele lia. Ele ia às peças de teatro, dormia durante as peças de teatro e de vez em quando se acordava e perguntava: “Os bêbados já se casaram?” Quer dizer, é um modo de perguntar se a peça já tinha acabado. Se não se casavam, ele voltava a dormir. De vez em quando ele comia frango com a mão. Os senhores pegam… [faltam palavras] …Dom João VI era modelado segundo a figura do rei do Ancien Régime. E a gente olha para o jeitão dele, ele era um rei. Era verdadeiramente um rei. Olham para o modo dele governar – o que se diz da administração no tempo dele, era uma tristeza: sujeira no Rio, no tempo dele, um horror. Ele vivia também pingado de manchas, era um homem muito desleixado. Ele foi um político muito fino. Ele fundou um mundo de coisas importantes no Rio. Por outro lado, as poucas coisas que restam dele no Rio, têm um charme, têm uma graça, têm uma distinção que emana do fato do que ele ainda era um rei segundo aquela matriz antiga que vivia nele, muito apesar de muita coisa dele.

Tomem Dom Pedro II, que está muito mais próximo de nossos dias. Imperador órfão. A gente vai ver o empenho dele, era de ser tão pouco quanto possível um monarca. De quebrar tanto quanto possível a imagem ideal do monarca. Era um homem que mandou pedir licença, mandou avisar a Victor Hugo que tinha chegado a Paris. Victor Hugo mandou dizer a ele que não ia visitá-lo, porque não visitava ninguém primeiro. Ele então mandou dizer que ia visitar o Victor Hugo. Victor Hugo falou um pouquinho com ele, e entrou a netinha do Victor Hugo no escritório. Victor Hugo disse à menina: “Cumprimente aqui Sua Majestade, o Imperador do Brasil.” Dom Pedro II tem essa tirada: “Não minha filha, nesta sala só há uma majestade: a do talento.” Pedro II quando esteve em Londres recusou um convite da rainha Vitória para comparecer à Corte, porque tinha de comparecer de culote. Ele dizia que era contrário à época, mas foi à sinagoga assistir a um ofício religioso judaico. Os rabinos choravam de emoção, porque desde o tempo da dispersão de Jerusalém, era a primeira vez que uma fronte coroada de entrava numa sinagoga.

Resultado: apesar da inteligência de Dom Pedro II, da cultura – pelo menos bem culto ele era, não era tão inteligente – ele não comunicou aquela grandeza, aquela graça às suas coisas. É que ele estava fora daquela marca, daquele timbre inconfundível que incindia sobre Dom João VI. O coitado pensou que com isso ele prolongava a monarquia; ele apressou o fim da monarquia. Os súditos o chamavam “Pedro banana”, quer dizer, o “Pedro não rei”.

Aqui então os senhores estão vendo um pouco qual é o desenvolvimento e qual é o fim, o papel último da monarquia. Ressalvada sempre a idéia de que a monarquia não é a única forma de governo legítima e que pode haver países que por essas ou aquelas razões, tenham repúblicas. Mas que, neste sentido da palavra, devem ter espírito monárquico.

Pio XII dizia isto muito bem: que uma democracia impregnada de espírito cristão, essa democracia precisa ter algumas instituições de alto espírito aristocrático. Equivale a dizer mais ou menos a mesma coisa.

(Sr. –: Não entendi bem qual é a marca segundo a qual o rei se liga à imagem ideal. E, se só alcançará isto reis santos.)

A marca é algo que entra no indivíduo, resultante do ambiente em que ele está, das exigências desse ambiente a respeito dele, da modelação, da educação dele desde pequeno para satisfazer esse ambiente e por fim, algo de hereditário que acaba passando com isso. Isto é a marca. Você tome, por exemplo, eu cito a monarquia de Versailles, não porque foi o auge das monarquias, mas é aquela com que o público brasileiro está mais familiarizado, por causa das exemplificações. Você tome a galeria dos espelhos de Versailles; você imagine um rei que entra na galeria dos espelhos precedido de um alabardeiro que bate três vezes no chão e diz: “Messieurs, le Roi!” E todo mundo faz uma reverência. Aquela reverência impõe a ele uma atitude ainda que ele não queira. Ele não pode fazer uma dessas caras de play-boy, porque não é possível. Porque há um princípio de reciprocidade, um princípio de osmose, uma coisa qualquer que imponha que isto não seja assim. Ora, toda vida de um rei é modelada de tal maneira que a toda hora, se solicita dele, pela exigência da corte, que é a exigência do país, uma atitude que o modela e que de fato constitui a marca dele. Acrescentando que os reis eram educados para isto, e que a educação desde pequenos os fazia tais, acrescentando o que há de hereditário nisso, a gente pode compreender… Depois, o que há de Providencial, de predestinado, os senhores se lembram certamente aquele trecho da Maria de Agreda sobre os Habsburg e os senhores compreenderão a junção dessas coisas para constituir a marca.

Agora, de outro lado, é fora de dúvida que os reis perfeitos foram os reis santos, embora a Providência tenha dado de vez em quando a reis não santos a missão de exemplificar de modo mais sensível à grandeza real num ou noutra ponto. Isso me pode conceber. Filipe II é o exemplo excelente neste sentido. Filipe II é mais provável que não tenha sido um santo, eu não excluo a possibilidade de ter sido um santo, mas é mais provável que não tenha sido um santo. Mas aquela majestade inerente a ele, que ainda seria maior se ele tivesse sido um santo, é uma graça que Deus lhe deu para ele ser o protótipo da majestade segundo a alma hispânica. Vamos dizer que Filipe II foi o espanhol, o espanholíssimo, foi Filipe II.

(Sr. –: O profetismo da dinastia teria alguma relação direta com isso?)

É uma relação direta. É claro que Deus suscitou estirpes para isto, que mereceram ou não mereceram depois continuar. Mas que havia uma unção, uma graça, uma coisa qualquer ligada a isso.

(Sr. Alejandro: Essa imagem moral seria mais santa que os próprios reis santos?)

Não é de se excluir. Pelo seguinte: mesmo um santo de altar pode não realizar a plenitude da santidade para a qual ele foi criado. E é possível que uma nação nunca tenha chegado a ter mesmo entre os seus reis santos, o rei perfeitamente santo que ela inalava. Inteiramente impossível, não é.

(Dr. Eduardo: Esse próprio rei santo não pode ter sido, tido uma graça de ser santo, mas não naquela plenitude de que a realeza pedia, e portanto tão santo quanto devesse ser, mas não tendo atingido esse ideal?)

Perfeitamente. Por exemplo, não ter sido chamado para ser o homem que realizaria o ideal de santidade de sua monarquia e que não correspondeu antes ou depois dele, perfeitamente.

(Sr. - : Os Papas, por exemplo…[faltam palavras] …)

É.

(Sr. Cristian:… [inaudível] …)

Essa imagem real forma-se por mil processos que variam de povo para povo. Às vezes, essa imagem forma-se num povo de alta apetência de perfeição, mesmo nas camadas mais populares, pela lenda. A lenda cria uma imagem de rei deformando a história de um rei, para satisfazer o desejo que o povo tem de um rei que seria de um certo jeito. Mas esta imagem entra para a cultura e entra para o ambiente dos reis e obriga o rei a ser assim. Quer dizer, quando não é hagiografia, é a lenda; e às vezes, a hagiografia e a lenda ainda se completam. Por exemplo, a respeito de Carlo Magno, a famosa lenda de que ele foi até Jerusalém, com seus doze pares, sentou-se na mesa onde Jesus Cristo se sentou com os Apóstolos e fez um discurso, não sei o quê. Que exprime o anseio da realeza perfeita do homem medieval, que entretanto Carlos Magno encarnou, pelo menos em larga medida. Em alguns pontos, de tal maneira, que parece que ninguém o igualou. Outras vezes, não. É um rei que aparece e que de repente detona num povo o ideal que esse povo ainda não tinha. É muito variável esse processo de elaboração. Mas, em geral, é assim: o ideal começa a nascer, alguém explicita até certo ponto, o ideal se acentua e há uma espécie de emolação entre o ideal e as figuras que vão se realizando. Vão subindo até um auge impensável.

(Sr. Alejandro: Essa concentração da virtude e das perfeições como se põe do ponto de vista espiritual? A Igreja, etc..)

Essa é emanação da Igreja. São emanações do estado de graça. E portanto, vivem da Igreja e para a Igreja, para o serviço da Igreja. Quer dizer, essa concepção que eu dou é, portanto, a mais religiosa que imaginar se possa.

(Sr. –: E quanto à organização da Igreja, que também é monárquica, como se dá essa concentração em escala paralela, de poder espiritual e poder temporal?)

O poder espiritual paira acima do temporal. E é a mais alta, na sua esfera própria, embora, expressão desse ideal que o homem possa ter. Há uma certa unidade, sim. Mas essa unidade, sendo uma unidade não elimina as esferas próprias e acaba não abrangendo inteiramente a outra esfera. De um Papa, o espírito piedoso dos católicos nunca exigiu que tivesse aquelas formas de majestade próprias a um rei na sua pessoa. Mas, mais bem as formas de majestade próprias a um teólogo, a um mestre, a um santo. Sem que um Papa devesse ter a majestade de um Filipe II ou de um Luís XIV em [nada?]. Que é uma majestade um tanto temporal, e portanto, com temporal menos alta que a do Papa, mas específica.