Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 30/1/1969 – 5ª-feira – p. 5 de 5

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 30/1/1969 — 5ª-feira

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Comentários sobre um cartaz marcusiano do CRUSP. A política não o mais importante na vida de um povo. O alcance histórico da atuação da TFP; ao evitar o divórcio e a Reforma Agrária, ela breca o progressismo. Recente artigo da “Folha” empurra a Revolução para trás. A Revolução odeia a ordem; o católico é conatural com a ordem.

Comentários sobre um cartaz marcusiano do CRUSP

Falsa idéia de que o mais importante na vida de um povo é a política * A TFP não tem força alguma junto ao povo? * O alcance histórico da atuação da TFP; evitando o divórcio e a Reforma Agrária, ela breca o progressismo * Com seu recente artigo na “Folha”, o Senhor Doutor Plinio empurra a Revolução para trás * Um cartaz marcusiano do CRUSP: abaixo a limpeza e a ordem; o que importa é a revolução * A Revolução é feita de ódio a toda ordem * O católico é conatural com a ordem

Hoje, dia 30 de janeiro, infelizmente não há santo em nosso calendário. Eu ontem empurrei de lado, porque não percebi que se tratava do meu artigo, o despacho da Agência Boa Imprensa, porque eu já tinha comentado anteriormente o despacho ordinário da agência.

* Falsa idéia de que o mais importante na vida de um povo é a política

A respeito do meu artigo, eu creio que não há muitos comentários a fazer. Os senhores sabem que há no ambiente que nos cerca, e na opinião pública em geral, uma certa dificuldade em compreender o verdadeiro alcance das atividades às quais nós nos entregamos. Essa dificuldade provém do fato de que a opinião pública, intoxicada pelos jornais e pelos meios de comunicação comuns, professa a idéia de que o verdadeiramente importante na vida de um povo é a política. E como a política é atuada pelos partidos políticos, o que há de verdadeiramente importante são os partidos políticos.

Em conseqüência, a luta dos partidos políticos entre si e os fatos que ocorrem dentro dos partidos políticos, as lutas das tendências opostas nos vários partidos políticos, aparecem para o grosso da opinião pública como o elemento de primeira grandeza no noticiário. Os [pelos] próprios fatos esportivos e culturais, o povo se interessa muito; os esportivos, os culturais incomparavelmente menos, mas não tomando tão a sério, não achando, no fundo, que têm a importância dos fatos políticos.

Dentro dessa visão, as atividades da TFP podem facilmente passar por secundárias, porque nós não entramos na luta partidária. Nós queremos influir nas idéias e nas instituições. Nós não temos meios para influir na formação de um governo, no recrutamento de uma câmara, etc. Em conseqüência, se tem a idéia estúpida de que nossa ação é uma ação de importância secundária.

* A TFP não tem força alguma junto ao povo?

Agora vamos examinar bem a coisa, reportando-nos à conversa curiosa (que) com Jaime Barbacena, Presidente da Câmara Federal, há dias atrás, e [de] que Dr. Plínio Xavier deu um relato ontem. Dizia o deputado José Bonifácio: “A TFP não tem força. O que tem é que o povo brasileiro é antidivorcista, o povo brasileiro é anticomunista. E a TFP movimenta essa força quando ela quer. De mudar as convicções do povo brasileiro, no entanto, ela não tem força nenhuma”… [faltam palavras] …forçar junto ao povo aquele que capta qual é a opinião do povo e orienta. Mudar a opinião do povo de um momento para outro, ninguém muda. Quem é que muda a opinião do povo assim, de um momento para outro? O Cristianismo, quanto tempo levou para mudar o espírito do Império Romano, para converter o Império Romano? De um momento para outro mudar, isso não é força, isso é magia.

* O alcance histórico da atuação da TFP; evitando o divórcio e a Reforma Agrária, ela breca o progressismo

É claro que nós não somos um círculo de mágicos. Agora, eu pergunto: para quem estuda a história de um país, o que é mais importante? É uma organização que evita o divórcio, que evita a Reforma Agrária; que evitando a Reforma Agrária evita as outras reformas de base, que serve de breque — pelo menos em grande parte — ao progressismo, e que evita, portanto, que o país mude de religião? É evidente que quem vê as coisas com um pouco mais de profundidade, percebe que essa interferência nas instituições tem um outro alcance histórico… [falta palavra] …e era preciso aproveitar uma ocasião para dizer isso. E isso foi dito no meu artigo.

(…)

Foi, em duas palavras, o que eu sustentei. E eu creio que não há nada de especial a me perguntar a esse respeito.

* Com seu recente artigo na “Folha”, o Senhor Doutor Plinio empurra a Revolução para trás

Os senhores dirão: “Doutor Plinio, o senhor espera mudar a face da Terra com esse artigo?” Não, também. Eu digo apenas que a Providência me pôs na mão um meio de escrever um artigo e que eu utilizo esse artigo do melhor modo que posso. Não vou além disso. Não sou um ingênuo. Não vou estar pensando que amanhã milhões de pessoas estarão pensando de modo diferente por causa do meu artigo.

Os senhores dirão: “Mas então, o que o senhor espera desse seu artigo, em concreto?” Espero com isso ter empurrado um pouco para frente os limites da Contra-Revolução e um pouco para trás os da Revolução. Daí eu me justificaria de ter nascido para ter feito um pouco de mal à Revolução e ter vivido sessenta anos, e eu já me daria por contente. Eu não sou pretensioso, ao menos nesse ponto, e me alegro com qualquer mal, por menor que seja, que possa fazer à Revolução. Isso para mim é um júbilo, uma festa. Esse júbilo o artigo me dá. Eu convido os senhores a participarem desse júbilo e acabou-se.

[Há uma pergunta.]

Não sei porque, de uns tempos para cá, minha irmã, a quem eu nunca pergunto — porque acho que a gente deve estar acima dessas coisas; a gente se põe muito de baixo, perguntando como é que repercutiu aquilo que fez —, tem dito que tem repercutido muito na sociedade. Ela tem falado de uma, de outra pessoa, desta ou daquela que tem elogiado muito esses artigos. Mas não sei mais nada.

* Um cartaz marcusiano do CRUSP: abaixo a limpeza e a ordem; o que importa é a revolução

Uma pessoa do Grupo viu um cartaz do CRUSP — é uma fonte diversa da de ontem à noite, portanto — em que estava escrito o seguinte:

Trabalhar num local onde se sabe onde está cada coisa, num local mais ou menos limpo, num local onde se possa viver em comunidade, isto é, onde você chega e encontra o que até ontem ainda estava aqui; mas no fundo, essas coisas são secundárias. A revolução é o que importa. Abaixo a limpeza e a ordem pequeno-burguesa!

[O Senhor Doutor Plinio pergunta se querem que ele leia de novo, e parece que muitos querem. A ssim, lê novamente.]

É um cartaz afixado no CRUSP. O CRUSP, para os que não são do Brasil, é um antro diabólico da Universidade de São Paulo. As pensões da Universidade de São Paulo são lá e parece-me que também a Reitoria é lá; restaurante também. As iniciais são [do]: Centro Residencial da Universidade de São Paulo. Está dito tudo. Lá está o seguinte cartaz, marcusiano:

Trabalhar em um local onde se sabe onde está cada coisa; trabalhar num local mais ou menos limpo e num local onde se possa viver em comunidade, isto é, num local onde você chega e encontra o que até ontem ainda estava aqui,…

Isso é apresentado como sendo o ideal, como sendo a coisa boa. Agora, sobre essa aspiração, vem um comentário:

mas no fundo essas coisas são secundárias.

Quer dizer, secundário que cada coisa tenha o seu lugar, que o local esteja mais ou menos limpo; é secundário que seja um local onde várias pessoas possam viver juntas, onde se encontram no mesmo lugar as coisas deixadas ontem. Isso é secundário, diz ele.

O que importa é a revolução.

Isso vem em letras garrafais.

Abaixo a limpeza e a ordem pequeno-burguesa!

Agora, nosso comentário sobre o fato. Dois comentários. Primeiro comentário: como eles entendem que a Revolução é uma coisa mais importante do que os meios para fazer a Revolução, ter em ordem um local, ter o local limpo, pode ser um meio para fazer a Revolução. Pode ser uma coisa agradável para quem faz a Revolução. Mas isto é secundário. Não tem importância. O importante é fazer a Revolução.

Aplicação para nós: o importante é fazer a Contra-Revolução. Ainda que não tenhamos meios para fazer a coisa, a não ser na desordem e na sujeira, nós devemos fazê-la, porque o que importa é a Contra-Revolução. É a simetria das teses.

* A Revolução é feita de ódio a toda ordem

Segundo comentário: os senhores vêem que entra por debaixo uma espécie de antipatia contra a limpeza, antipatia contra a ordem, que no final eles chamam de ordem pequeno-burguesa. Ora, eles estão desejando o proletariado, é claro que “pequeno-burguesa” é uma expressão injuriosa nos lábios deles. Então, eles dizem: “abaixo a ordem pequeno-burguesa”. Por que isso? Porque o pequeno-burguês, pelo fato de que não é rico, o conforto dele consiste em ter tudo em ordem e tudo limpinho. O recurso de quem tem só um palito e um copo d’água, é ter o palito limpo e o copo d’água em cima da mesa.

Havia antigamente um ditado muito bonito, que eu creio que os senhores não conhecem mais: “A limpeza é o luxo do pobre”. Por onde o pobre tem luxo é em ter uma plenitude de limpeza. Eu sempre achei essa uma bonita expressão.

Por que a Revolução, no fundo, tem raiva de cada coisa em seu lugar? E por que ela tende para a sujeira e para a desordem? Porque é natural. A Revolução é a plenitude do caos. Ela é feita do ódio a toda ordem.

* O católico é conatural com a ordem

Contra recíproca: é que nós devemos amar toda forma de ordem e que, assim como o revolucionário deve tender a trabalhar na sujeira e na desordem, nós devemos tender a trabalhar no asseio e na ordem. Não é só porque ela é um meio para chegar aos nossos fins, mas é porque ela nos é conatural. Ela é a expressão normal, é a expressão correta, coerente, das nossas idéias, de nossas tendências, de nossa posição metafísica e religiosa.

Os senhores querem uma prova interessante disso? Os senhores procurem todos os quadros, em todos os tempos — exceto da arte moderna — representando a Sagrada Família. O instinto piedoso de todos os tempos representa o interior da Sagrada Família muito pobre, mas muito limpo e com todos os objetos em ordem. Ninguém, por exemplo, representaria — desde o santinho mais simples que se distribua na porta do Coração de Maria até o quadro mais alto da Idade Média — ninguém representaria um quarto de Nossa Senhora com o Menino Jesus, por exemplo, um quarto onde houvesse uma cadeira caída no chão. Porque se reputa incompatível com o espírito que reinava na Sagrada Família um móvel caído pelo chão, descuidadamente deixado lá, “zuppado” lá. Isso é o instinto piedoso de todos os tempos. Os senhores percebam: é cada objeto colocado num lugar e posto direitinho, asseado, limpo. A própria manjedoura, os bichinhos em ordem, enfileiradinhos, dando bafo quase como um sistema de foles no Menino Jesus; Nossa Senhora muito composta com o véu, com o manto muito direito; São José muito direito, sem nada de aristocrático; mas nada, nada de proletário e nada de desordenado, nada de revolucionário.

Isso é o instinto de todos os séculos, mostrando como é que devem ser as coisas católicas. Elas devem ser feitas em ordem. Daí o fato de nós devermos amar a ordem, todas as formas da ordem, inclusive a que esse demônio aqui chama vilmente de “ordem pequeno-burguesa”. Pode ser que essa ordem exista entre os pequeno-burgueses. Então ela é virtude dos pequeno-burgueses, e nós amamos todas as formas de virtude; portanto, também a dos pequeno-burgueses. Acabou.

Moral do caso: o “zuppi” é anticatólico. Acho que os estrangeiros não sabem o que é “zuppi”, mas perguntem que logo vêm borbotões de explicações. O “zuppi” — a história da palavra… quem é especialista é o Dr. Plínio Xavier — é contrário ao instinto de ordem do verdadeiro católico.

Mas, apesar disso, quando o católico é obrigado a trabalhar na desordem porque não tem remédio, ele não pára como um protestante idiota, mas ele continua a trabalhar, dizendo: “Pouco importa. O que vale é a Contra-Revolução”.

Assim, está feito nosso Santo do Dia.

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Auditório da Santa Sabedoria