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Reunião Normal — 28/1/1969 — 3ª-feira

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Espírito superficial e espírito metafísico

Comentário a artigo da revista “Miroir de l’Histoire”.

Aqueles que não forem dos Grupos de São Paulo que queiram ficar para assistir “Ambientes e costumes”, podem ficar.

Orações.

Despacho da ABIM, muito interessante, vale muito para fazer certo apostolado para nas mãos de uma pessoa ou outra fora do Grupo junto a quem a gente queira agir.

Eu vou entrar com um “Ambientes e Costumes” um pouco singular, um pouco “sui generis”, mas, afinal de contas, eu começo por aí. Esta revista aqui, que eu mostrei ontem aos senhores com a cara do De Gaulle, “Miroir de l’Histoire”, uma revista francesa, não é de nenhum modo uma revista que faça História cientifica, como hoje se entende História cientifica; artigos assim…Eu li um hoje: “Como é que se construiu os tetos das casas na cidade de Herculano”; “Como e que era o pão na Síria, no tempo de Antíoco, o ilustre”; qual era a cultura, como era a forma; “Quando é que o homem começou [a] usar rolha, e a importância do comércio da rolha no Mediterrâneo”; “sobre o desenvolvimento da cultura no Egito”. Essas coisas desse gênero, tudo com base econômica e fazendo da economia, evolucionista e materialisticamente, o nervo da História. Esta não é. Mas é uma revista que pode ser chamada cientifica num outro lado, é uma revista que deveria chamar-se “Os Sabores da História”, publica o que a História tem de saboroso, aquilo que não se apura por estatística mas se apura por senso, por bom senso, e mais ainda, por espírito , “finesse”, e todos os fatos são autênticos. Quer dizer, tanto quanto se pode dizer isso de uma revista histórica, são fatos comprovados, quer dizer, uma revista séria, do contrário eu não leria o trechinho que eu vou ler agora. Eu quero que os senhores acompanhem este trecho, fazendo a si mesmos a seguinte pergunta – é um trecho muito pequeno, de quatro linhas – “eu estou achando este fato interessante?” [É a] Primeira pergunta.

Segundo – “O que é que este fato tem de interessante?” Por que é que me interessou?

Eu depois vou dizer aos senhores o que é que tem de interessante na pergunta que eu estou fazendo. [Isto] Depois chega a minha vez de falar. Os senhores, por enquanto, fazem-se, portanto, estas duas perguntas. Eu passo a ler o fato. O fato é o seguinte.

Árvore contemporânea dos dinossauros.

Em Riga, capital da República da Letônia, na URSS, se encontra um ginco, árvore fóssil contemporânea dos dinossauros e cuja altura passa de 12 metros. Descoberto, cuidado e replantado há 80 anos, esta árvore se aclimatou e cada outono produz frutos não comestíveis, análogos às ameixas.”

Primeiro, o fato foi entendido? Ou alguém quer fazer alguma pergunta sobre a natureza do fato? Quem quiser fazer a pergunta, faça.

(Alguém de língua espanhola faz uma pergunta.)

Bem, é o seguinte: é uma árvore dos tempos antediluvianos, do tempo que havia dinossauros. Essa árvore foi encontrada no meio de escombros de fósseis antediluvianos e foi replantada, foi cuidada e replantada há 80 anos, diz a notícia, e ela está produzindo frutos em todos os outonos. Ela produz seus frutos é porque naturalmente a natureza frígida dela leva a frutificar mais próximo do frio. O outono da Letônia deve ser um outono muito rigoroso. Bem, dão frutos –diz a notícia – não comestíveis, mas que dão uma certa impressão da ameixa.

(Alguém diz que ameixa em castelhano é “ciruela”.)

Agora, os senhores acharam que a notícia apresenta algum interesse…imaginando que seja verdadeira, ela é uma notícia interessante ou não? – Primeiro ponto.

Segundo, que interesse apresenta?

Os que acharam que a notícia tem algum interesse, levantem o braço… Bem, agora, qual é o interesse que apresenta? Por que é que interessa? Qual é o interesse que tem dentro disso? Alguém poderia dizer o que é?

(Alguém responde algo.)

Pois bem, porque é interessante saber que uma árvore de antes de Noé pode dar frutos ainda hoje, contemporaneamente. O que é que isto tem de interessante? O que é que o espírito humano tira de dentro disso?

(Sr. Carlos Tejedor: Algo que morreu por castigo de Deus, e que agora volta a surgir…)

Não, porque a árvore não foi morta, ela quase que se poderia dizer que ela foi conservada, e depois não está provado que as grandes congelações foram castigos nem que tiveram nexo com o dilúvio.

Eu abrevio um pouco; o lado interessante é saber que a vida pode resistir latente durante tanto tempo em condições tão hostis. É evidente. Bem, agora, porque é que interessa saber por que é que a vida pode permanecer latente durante tanto tempo, em condições tão hostis? O que é que isto apresenta de interessante? Esta, a pergunta mais profunda…Patrício…

(Sr. Patrício Larrain responde.)

É uma bonita comparação, é uma bonita analogia com o “Residuum Revertetur”, mas é uma comparação metafórica que sai um pouco do campo. Dentro do próprio campo, o que… Querelo…

(O Sr. Querelo dá sugestão de resposta relativa ao fenômeno da preservação da vida por congelamento – uma aplicação ao homem.)

É uma consideração que pode vir. Se se congelasse um agonizante, sustando o processo da morte, se ele poderia resistir… Mas acontece que um agonizante, com um tratamento assim, provavelmente morre.

Bem, a consideração mais profunda é a gente achar interessante ver como a vida em si, é uma coisa durável. Isso é o que está no fundo. E porque é interessante ver como a vida, em si, é uma coisa durável? No fundo disso há um interesse metafísico: é ver a importância, a durabilidade, a resistência, que o ser criado, enquanto tal pode ter. E o último ponto de interesse que ocorre aí, que a pessoa não sabe explicitar, é o interesse de caráter metafísico. Não sei se fica bem claro que é esse na ordem própria do assunto, é essa linha mais interessante. Ou alguém quer me perguntar algo? Quem quiser, levante o braço. Viano.

(O Sr. Carlos Viano fez uma pergunta: “Aonde quer chegar o Sr.?)

A consideração interessante aqui é a gente ver como a vida pode durar na natureza vegetal; portanto, a potência da natureza vegetal. Por que é que é tão interessante verificar a potência da natureza vegetal? Para ver o ser enquanto tal, como é potente, a gente diria que aquilo que é, e sobretudo o que é vivo, não é tão durável assim. Não é isso o raciocínio que está no fundo? Isso se diz, é claro, não do ser enquanto tal, eu disse “ser enquanto tal” apenas para facilitar a exposição, mas como o ser criado pode ser potente, pode ser resistente. Não se imaginaria que pode existir uns seres contingentes como nós com tal grau de força, de durabilidade, de resistência, é o que está no fim da consideração. Quer dizer, uma consideração de ordem metafísica. Está claro?

(Algum argentino faz uma pergunta – consideração.)

Sim, é verdade, mas a ressurreição do corpo é uma ação milagrosa. A coisa pode sentar-se (?), a coisa concorre um pouco de outro lado. É que verificando que a vida é tão poderosa assim, a gente verifica a possibilidade… a gente verifica a densidade e a força do ser vegetal, quando a gente teria a impressão que o ser vegetal não tem essa durabilidade. Se isto é assim quer dizer que cabe na condição de ser material criado e nós também somos seres materiais de uma durabilidade que a gente não imagina. E esta é uma consideração de ordem metafísica, compreendeu?

(A pessoa faz outra pergunta.)

É uma consideração que em última análise leva à idéia de como é magnífico o que existe e, portanto, de como é magnífico o Criador, é a última consideração, é a magnificência do Criador, a grandeza de Deus, não é?

(Dr. Paulo Brito faz um aparte.)

De onde viria uma consideração para a Ordem do Universo muito interessante, porque os seres minerais talvez se conservem mais do que os vegetais, não é? Por exemplo, o “Pão de Açúcar” é provável que tenha durado mais do que sta coisa, não é? E que fique até o fim do ano… até o fim do mundo. Ou até ao fim do ano, não? É perfeitamente questionável nos dias de hoje, não é?

Bem, aí os senhores estão vendo um pouquinho, o que é que é o espírito superficial e o que é o espírito metafísico. O espírito superficial lê uma coisa dessa e pensa só o seguinte: “Gozado”, e vai para frente. O espírito metafísico é o que – pelo menos de um modo confuso – sente um problema mais fundo dentro disso, e fica meio pensativo com isto. O espírito superficial é dissipado, é bobo, é moderno; o espírito metafísico é recolhido, é tradicional, é ….É onde eu queria chegar.

(Dr. Viano faz uma pergunta.)

Não. Em geral o que acontece é que o espírito metafísico, quando o homem tem cultura suficiente para explicitar, deve então procurar explicitar; quando não tem, aquilo fica dentro do espírito, mais ou menos confusamente, mas dizendo algo. Uma das maiores riquezas que há na alma do homem, são as coisas implícitas, que não foram explicitadas, mas que tem uma espécie de fecundidade extraordinária. O espírito metafísico mesmo assim, mesmo em seus rudimentos, é uma fonte de riqueza para a alma. Não é obrigado todo mundo a explicitar. Deve explicitá-lo apenas no grau ou nas condições de sua cultura.

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