Santo do Dia - 18/1/1969 - p. 9 de 9

Santo do Dia — 18/1/1969 — sábado

Nome anterior do arquivo: 690118--Santo_do_Dia_Sabado__a.doc

O positivista rejeita o raciocínio e confia apenas no controle imediato dos sentidos. O valor do raciocínio e as limitações do conhecimento pela experiência. Ver no Grupo a aliança entre o espírito teórico e o espírito prático. Como o Senhor Doutor Plinio passa da teoria para o concreto.

O valor do raciocínio e as limitações do conhecimento pela experiência

Mons. Gaume exalta o gênio dos Doutores da Igreja e o compara com o da cultura positivista * O positivista rejeita o raciocínio e confia apenas no controle imediato dos sentidos * Para o positivista, Deus é um mito; só vale o que é comprovado pela experiência * Limitações do conhecimento pela experiência * Traduzindo Mons. Gaume em linguagem contemporânea * O positivista voa como frango; o verdadeiro filósofo voa como o corvo ou a gaivota * O falso filósofo perde o contato com a realidade * Devemos ver no Grupo a aliança entre o espírito teórico e o espírito prático * Passar das idéias aos fatos concretos, voltar ao mundo das idéias e depois imergir na realidade e na luta * Um exemplo de como o Senhor Doutor Plinio passa da teoria para o concreto * Quem vive dentro do Grupo adquire mais sensibilidade para a percepção do mal

Amanhã, dia 18, é festa da Cátedra de São Pedro em Roma. Estamos na novena de Nossa Senhora do Miracolo.

* Mons. Gaume exalta o gênio dos Doutores da Igreja e o compara com o da cultura positivista

Sem muito nexo com a data, há, entretanto, um trecho de um livro de Monsenhor Gaume, que me pediram para comentar: o trecho é “O Sinal da Cruz”, de Monsenhor Gaume. Diz o seguinte:

Grandes homens chamo eu aqueles que pela elevação, profundeza e extensão de seu gênio, abraçam imensos horizontes no mundo da verdade; aqueles que conhecem as ciências, os homens e as coisas não superficialmente, mas nos seus princípios e nos seus fins, e na sua natureza íntima; aqueles que conhecem não só a matéria, mas também o espírito, que é invisivelmente superior à matéria; aqueles que não só conhecem o homem, mas também o anjo, não só a criatura, mas também o Criador; homens que sabem não só o que existe aquém do túmulo, mas também o que deve existir além dele; conhecem não um ou outro fato isolado, mas o conjunto dos fatos, não uma lei isolada, mas todo o sistema da Criação, donde fazem sair inesperadamente, luminares aplicações para o bem da humanidade. Eis o gênio, eis os Padres da Igreja. O homem que não abrange com sua vista mais do que uma lei secundária da harmonia universal, não merece o nome de gênio, porque não dizemos grande músico ao que não sabe tirar senão um único som de seu instrumento, mas aquele que harmoniosamente faz soar todas as cordas.

Monsenhor Gaume, evidentemente, teve aqui em vista duas coisas simultaneamente: ele quis engrandecer o gênio dos antigos Padres da Igreja e Doutores da Igreja e ele quis fazer um confronto também com a mentalidade dos homens que eram considerados geniais no tempo dele. Ele era um sacerdote francês do século XIX, do tempo em que uma forma de anticlericalismo ateu e rubicundo dominava a França, dominava a Europa, e em que se considerava gênio o homem formado de acordo com a cultura positiva. Muito desse espírito ainda existe hoje. Não é tão dominador, porque foi substituído por erros piores, mas ainda existe muito. De maneira que no paralelo conserva toda a sua atualidade, todo o seu interesse.

* O positivista rejeita o raciocínio e confia apenas no controle imediato dos sentidos

Eu vou descrever esse tipo de homem que, indiretamente, ele ataca aqui, porque através do ataque depois nós compreendemos melhor o elogio, o que é um sistema muito da “RCR” de apresentar as coisas: é ver primeiro a coisa errada, no que é errada, e por antinomia formar uma idéia completa do bem.

Bem, qual é a idéia que prevalecia no século XIX, como sendo a mais moderna, dos espíritos mais fortes, dos homens mais arrojados, eu quase ousaria dizer, dos homens intelectualmente mais elegantes? Era o positivismo. E o positivismo, para dar dele uma idéia muito resumida, muito accessível, o positivismo consistia no seguinte: que o indivíduo só acreditava naquilo que era positivo, mas admitindo como positivo aquilo que caía debaixo da ação de seus sentidos. De maneira tal que, por exemplo, eu acredito nessa cadeira porque eu a vejo e eu a toco.

Agora, já eu acreditar que a cadeira tem os predicados que meus sentidos indicam, também eu posso admitir. Mas quando há uma construção a respeito dessa cadeira, por exemplo, a respeito do valor simbólico dessa cadeira, do significado espiritual ou moral dessa cadeira, já um positivista faria as suas reservas. Ele consideraria que isso era uma posição pouco científica, de pouco valor, porque não cai debaixo de um juízo imediato e de um controle imediato dos sentidos. Para chegar até isso é preciso uma longa série de raciocínios. E, segundo o positivista, o raciocínio humano é uma coisa enfermiça, é uma coisa fraca; ele tem que viver gatinhando, conferindo com os fatos concretos. Se ele não conferir a toda hora com o fato concreto, ele perde a confiança em si mesmo, ele se sente desnorteado e a certeza desaparece de dentro dele. Vamos dizer, um positivista acreditará muito numa longa série de doutrinas, desde que sejam doutrinas de ciências naturais, que possam ser conferidas em laboratório. De maneira que o indivíduo conhece um fato de laboratório, tira uma conclusão e verifica depois, por outra experiência de laboratório, se o fato justifica a conclusão. Se o fato justifica a conclusão, então a conclusão é verdadeira. Se o fato não justifica a conclusão, mas ela depende apenas do raciocínio, de um silogismo, se é um silogismo muito próximo do fato originário, ainda se pode dar a ele um certo crédito. Mas já é um crédito menor do que se aquilo fosse comprovado pela experiência. Se é uma série de raciocínios, já não se acredita, porque o raciocínio é enfermiço, e quando ele não se apóia, sem referências, nas muletas dos fatos, ele cai no chão. Ele não pode caminhar a não ser apoiado nas estacas dos fatos, senão ele cai no chão.

Bem, essa posição, para um homem com uma formação filosófica boa, com uma formação doutrinária boa, essa formação é igual à miopia mais absoluta. Equivaleria a um homem dizer: “Eu só admito de verdadeiro aquilo que está bem próximo de meu nariz: “O que está um pouco mais adiante de meu nariz, eu já tomo como uma coisa errada, porque eu não confio na minha vista”. A resposta que se tem vontade de dizer é: “Bem, isso é lá com você, mas você deve reconhecer que a sua vista é excepcionalmente fraca. Reconheça que você é míope, que você tem outro defeito qualquer, porque você vê mal. Um homem com uma vista normal, vê, por exemplo, para além do auditório, muitos objetos e muitas coisas no Pátio da Santa Cruz. Se não é isso, a vista funciona mal”. A isso responderia um positivista: “Não, você se engana. Eu é que sou o espírito forte. Eu não faço poesia. Eu não tenho imaginação. Eu sou um colosso. Aquilo que não for a comprovação pela experiência, eu recuso desdenhosamente, porque eu tenho uma crítica acérrima e eu sou capaz de demonstrar como a gente deve desconfiar de qualquer coisa que não seja imediatamente os dados dos sentidos. De maneira que você é um débil, você é um poeta, você pensa que vê e você não vê senão as fantasias formadas na sua imaginação. Você poderá rir de mim dizendo que eu vejo pouco. Pelo menos eu não vejo as quimeras nas quais você se perde. Eu não enxergo senão diante do nariz, será verdade. Mas o que eu enxergo, eu enxergo e eu ando para frente com passo seguro”. Essa seria a polêmica entre o individuo positivista e o individuo que tem uma formação metafísica, quer dizer, que vai além do puramente físico, do puramente material e que cai debaixo da ação dos sentidos.

Eu não sei se uma distinção entre uma posição positivista e uma posição filosófica metafísica está suficientemente clara, ou alguns dos senhores gostariam de fazer uma pergunta.

(Sr. –: Dr. Plinio, as concepções religiosas ou positivistas, ou políticas, porque no campo político não é possível fazer experiências; são assim também na religião?)

* Para o positivista, Deus é um mito; só vale o que é comprovado pela experiência

Por causa disso, Deus para ele não existe. Não está provado. É um mito. E todas as religiões são mitos. Agora, quanto à política, ela só vale na medida em que ela é comprovada pela experiência, pelas estatísticas, pelos inquéritos sociais, etc., etc., aquilo que é o “olhômetro”. Quer dizer, uma pessoa que entra e que pelos imponderáveis de uma situação se dá conta de como é essa situação, isso o positivista recusa.

Por exemplo, um positivista de boa lei teria horror de uma psicologia à maneira dessa que conversando com meus amigos eu faço. Dizer: eu não sei por que imponderável da cara de fulano, ele tem tal estado de espírito. Se ele tem tal estado de espírito, como ele fez tal gesto, tal estado de espírito com tal gesto indicam tal outra situação. E como isso se deve julgar assim, ele deve ter mais outra situação. E lá vai, lá vai, lá vai. Ele teria horror a isso. Ele me diria: “Perdão, onde está o teste? Isso é uma construção que você está fazendo. ‘Ambientes, costumes, civilizações’, isso é uma construção arbitrária.” Onde está a prova? O que não tem prova não vale nada. Política também.

Se eu governasse, eu governaria, o senhor está vendo bem, com muito desinteresse pelas estatísticas e com muito gosto pelos impalpáveis, pelos imponderáveis, etc., etc., não é? Mas um positivista diria: “Isso é um poeta! Pior ainda, é um poeta tirano que quer moldar o mundo a ferro e fogo, segundo as fantasias dele — Torquemada, está compreendendo? Inventou um sistema religioso, aderiu a um sistema religioso e mata quem não aceitar a poesia dele. Eu quero o fato”.

Não sei se está claro. Mais alguém queria perguntar alguma coisa?

* Limitações do conhecimento pela experiência

Bem, então, qual é a conclusão disso? É que… Como a experiência — sobretudo a experiência vista cientificamente — revela, na melhor das hipóteses, revela com muita clareza pedaços da realidade, mas não revela a realidade inteira. Quer dizer eu, pela experiência, posso conhecer leis da Física pela experiência, e posso conhecer muito bem. Mas se eu me aprofundar um pouco mais na própria Física, a experiência já fica na noite dos fatos e eu já não sou capaz de uma explicação mais profunda. Como em todas as outras ciências naturais, exatas, eu só posso partilhar conhecendo fragmentos de coisas; na Medicina, em todas as outras há fragmentos esplendidamente iluminados e logo, junto, coisas desconhecidas e por detrás trevas.

Então, o espírito positivista, com a tal luz dele, fica extraordinariamente limitado, extraordinariamente borné, porque ele só conhece tijolinhos esparsos da realidade. Seria um pouco como se diante desse quadrado aqui eu fosse capaz de ver, com uma clareza estúpida, três ou quatro desses quadrados, e no resto trevas. Eu tenho pedacinhos.

* Traduzindo Mons. Gaume em linguagem contemporânea

Bem, então, Monsenhor Gaume… [falta palavra] …de uma época que julgava que esses homens eram gênios, ele dá a réplica. E a réplica está escrita numa linguagem tão tipo século XIX que eu não ouso relê-la de novo, porque eu tenho impressão que é outro português para os ouvintes que têm a paciência de me ouvir. Portanto, em vista de reler o Monsenhor Gaume, eu vou procurar me exprimir numa linguagem um pouco mais contemporânea, porque eu não pretendo também que minha linguagem seja muito contemporânea. Mas vou “contemporaneizar”, tanto quanto eu possa, minha linguagem, para chegarmos a uma idéia comum.

Monsenhor Gaume diz o seguinte: eu não nego que aquilo que o homem possa conhecer pela experiência, ele deva conhecer; eu não nego que sempre que é possível confirmar pela experiência algo que se conheceu pelo raciocínio abstrato não se deva pedir essa confirmação, porque tudo quanto é capaz de completar uma certeza ou de acentuar uma certeza já completa, tudo isso é interessante. Mas eu nego que o homem que admita como única fonte do conhecimento a experiência, que esse homem seja um gênio. Eu afirmo que o gênio é muito mais do que isso. Então, aí ele vem dando o que é o gênio.

Em termos mais simples, ele diz o seguinte: o próprio do gênio não é conhecer pedacinhos. Se os senhores quiserem, eu estou vendo muita gente tomando nota, quem sabe se Dr. Paulo Eugênio quer acender a luz aqui ao lado; eu acho que facilita. Uma vez que estamos acima na base da experiência dos dados diretos, ao menos se eu não consigo fornecer luz intelectual, eu ao menos forneço luz elétrica…

Bem, então, o gênio o que é que é? Dado que eu sei que a realidade comporta muito mais do que aquilo que a experiência revela, dado que eu sei que o próprio da inteligência humana é abarcar a realidade no seu todo e não apenas em pequenos quadradinhos, o próprio do gênio é ter uma idéia global da realidade. É, portanto, pelo raciocínio, destilar dos dados fornecidos pelos sentidos um número enorme de certezas que não procedem imediatamente deles. Isso é, em última análise, a idéia. De maneira tal que o gênio, então, admite que tem bastante força para com suas asas se sustentar no céu dos raciocínios, que em última análise são baseados sobre fatos conhecidos e conhecidos pelos sentidos. Mas raciocínios de raciocínios, e raciocínios já não testados pela experiência, mas cuja concatenação é o valor lógico… Eu posso, então, me sustentar nesses céus, longamente, voar alto, e dessas alturas ver blocos inteiros de realidade e ver até a realidade total. Isso são os Padres antigos da Igreja. Eles eram filosóficos, eles eram teólogos. Eles, então, conheciam Deus, eles conheciam as leis que regem o universo, conheciam o sentido profundo do universo, conheciam o espírito que são coisas que o positivista nega.

* O positivista voa como frango; o verdadeiro filósofo voa como o corvo ou a gaivota

Então, isso implica em dizer que o positivista é um “poca”, é um homem de vistas próximas, é um obtuso e, no fundo, um preguiçoso. Por que é que é um preguiçoso? Porque é preciso ter coragem para deitar asas e voar. E o [pestardão?] que a toda hora está querendo olhar para a realidade, no fundo é um bicho-preguiça dos ares. Ele pousa a toda hora. Frango voa assim, frango voa assim. Ninguém negará que frango voe. Mas é vôo breve e é preciso pôr os pés sobre algo dentro em breve. A águia não. A águia toca um vôo enorme. Para usar um exemplo mais acessível a nós, pobres paulistanos, que temos uma terra cheia de corvos, corvo voa diferente do frango. Não há nenhum dos senhores paulistanos que não tenha se deliciado, quando pequenos e durante as aulas, em ver corvos voarem em horizontes azuis. E o vôo do corvo, nesta terra sem águias, pode nos servir de exemplo, não é? O corvo voa alto. Ele não precisa pousar pé em terra, não é verdade? E depois, quando ele percebe a carniça, ele desce certeiro, não é?

A gaivota é magnífica, não é? Os senhores já devem ter visto isso no litoral, não é? Ela sobe, sobe, sobe; quando a gente pensa que ela não está percebendo mais nada, que ela está distante da realidade, ela, de qualquer maneira, percebe um peixe no fundo d’água. Pega o peixe no lugar onde o peixe vai passar, não no lugar onde o peixe está no momento em que ela o vê, mas no lugar onde o peixe vai passar, não é? Isso seria o espírito filosófico. Sobe, sobe, sobe; quando a gente pensa que ele está completamente destacado de qualquer realidade, ele baixa sobre um fato concreto. Do alto de sua realidade ele pega aquele fato concreto no bico e o leva para cima, palpitante de vida, não é? Esse é o espírito filosófico. O frango, pesadão, cacarejante, preguiçoso, não é? Guia-se pelo positivo: “Ah! não! Eu só vôo nas alturas onde meus pés podem pousar. Vê lá se eu sou bobo, de repente eu caio”. A gente diz: “É verdade, você é frango… Só não venha me dizer que você é gênio. Diga que é ‘poca’. Use uma carapuça de ‘poca’”. Eu sou ‘poca’. Está bom?” Então, faça sua “poquice” à vontade, não me amole. Não venha dizer que você é gênio. Sobretudo não venha perturbar meu vôo, dizendo que eu estou voando em ares onde não se vê nada, porque de repente eu me precipito sobre você, e você há de ver como é que eu vôo!] Esse é o vôo do verdadeiro filósofo.

* O falso filósofo perde o contato com a realidade

Qual seria o falso filósofo, quer dizer, o extremo oposto do positivista? Seria a gaivota tonta, que sobe, sobe, sobe e depois não vê mais nada. Não pesca nada e não tem nenhum contato com a realidade. Em muitos livros de filosofia eu tenho essa sensação de gaivota tonta. Porque quando eu vejo, não o que está escrito, e às vezes é bom, mas eu vejo a cabeça do sujeito que escreveu, eu percebo que ele perdeu o contato com a realidade, completamente. Ele não sabe onde é o barbeiro dele, não sabe nada, não sabe o gosto de uma comida, ele não sabe o último acontecimento do dia. Ele é como uma criança: de repente é preciso levá-lo da cama pela mão, porque ele está fazendo silogismos. Isso é uma outra caricatura, abominável, como toda caricatura, menos abominável do que o positivista. Porque ao menos ele tem o bom gosto de entre dois disparates procurar o mais diáfano! Já é qualquer coisa. Entre os dois disparates, ser gaivota tonta — mas que conhece pelo menos o valor de abrir as asas, fica tangendo lá pelos ares, no fim está morrendo de fome —, e a galinha, eu acho que ainda a gaivota tonta tem mais prestígio para mim. Isso é o Monsenhor Gaume reduzido a termos muito prosaicos, mas que eu creio inteligíveis.

* Devemos ver no Grupo a aliança entre o espírito teórico e o espírito prático

Nós deveríamos tirar alguma conclusão disso?

Eu acho que sim. Nós somos membros do Grupo, e se nós quisermos de algum modo, debaixo de algum ponto de vista, comparar o Grupo a alguma coisa parecida a uma Ordem Religiosa, nós podemos dizer que o verdadeiro religioso procura conhecer tudo segundo o espírito da Ordem a qual pertence. Quer dizer, ele procura, quando vê uma coisa abstrata, conhecê-la como ela é em concreto na sua Ordem Religiosa e como a sua Ordem Religiosa opera. Então, por essa forma, ele tem um conhecimento integral da coisa, passando muito do alto para baixo. Os senhores tomem, por exemplo, um homem que é jesuíta, um pobre jesuíta dos dias de hoje. Bem, os senhores imaginem que ele queira saber o que é subtileza. Como é que ele deve fazer? Deve ler, num dicionário, ou num tratado de moral, o que é subtileza? Os tratados de moral hoje em dia são tão pouco subtis, que não tratam mais da subtileza. São feitos, em geral, por gaivotas tontas. Mas digamos que haja um tratado de moral que cuide disso. Eu acho que sim, que ele faz muito bem, mas que ele nunca terá um conhecimento completo do que é subtileza se ele ficar nisso, sem exemplos concretos. Então, ele precisa ver exemplos concretos. O que é que ele deve fazer? Estudar a subtileza de Talleyrand? De Metternich? Ou estudar a subtileza dos jesuítas da grande época, que davam rasteiras monumentais nos protestantes, davam golpes extraordinários, subtis, no público, subtis no confessionário, subtis em tudo quanto faziam? Abriam um livro do Padre Antônio Vieira, que às vezes não é senão uma cascata de subtilezas, e banhar-se naquelas subtilezas para ter idéia do que é subtileza. Para um jesuíta, as melhores graças que ele tem para estudar o que é subtileza, ele terá estudando subtileza na Companhia de Jesus.

Bem, vamos dizer, um beneditino que queira saber o que é música sacra. O melhor que ele tem é estudar música sacra dos beneditinos. Para isso ele tem uma plenitude de graças que até um franciscano, normalmente, não terá. Nós, no Grupo, devemos procurar estudar como é que são essas coisas no Grupo e como é que, segundo o espírito do Grupo, se dá essa aliança entre o espírito teórico e o espírito prático, entre a grandeza de concepções na ordem doutrinária e depois o senso da realidade. Nós devemos procurar estudar isso no Grupo. Como é que o Grupo faz isso?

Não sei, se está claro o que eu acabo de dizer, ou se quereriam perguntar alguma coisa.

Quer dizer, como é o modo que temos de tomar — não abstratas, de não bancar a gaivota tonta — onde é que para essas gaivotas passa o peixe? É num rio chamado Grupo. Aí encontram o peixe.

[Pedem que o Senhor Doutor Plinio dê exemplos concretos.]

* Passar das idéias aos fatos concretos, voltar ao mundo das idéias e depois imergir na realidade e na luta

Não há nada de mais concreto, por exemplo, do que a campanha na qual os senhores tomaram parte, contra o progressismo católico. Foi um fato concreto e foi um fato vitorioso. Até hoje nossos adversários se arrastam pelo chão, deitando sangue e babando ódio por causa do êxito dessa campanha. Quer dizer, um fato concreto. Bem, agora, como é que ao conceber esse fato concreto se juntaram a teoria e a prática?

Eu vou pôr muito rapidamente toda a teorização e depois pego, passo isso na prática. Eu creio que é como que o senhor pedia; não era mais ou menos isso? É isso? Bom, primeiro a teorização, todo um mundo de idéias a respeito… [falta palavra] …e de como a Igreja Católica deve ser. Idéias, muitas vezes, em nosso espírito até meio subconscientes, nascidas do senso católico. Bem, essas idéias, como idéias que são, ou ensinadas ou implícitas por via de lógica em nosso espírito, idéias, muitas vezes, da mais alta Teologia, Filosofia, em todo caso idéias doutrinárias. Bem, agora, vêm pessoas que, na prática, dizem coisas que chocam essas idéias. Como nós não estamos murados no mundo das idéias, mas estamos ligados à prática, quando uma pessoa diz algo em muita consonância com essas idéias, ou em muita discrepância quanto a essas idéias, nós marcamos a pessoa. E a pessoa em muita consonância procuramos atrair. A pessoa em muita dissonância nós procuramos pôr de quarentena. O senhor está vendo que é passar do mundo das idéias para o mundo dos fatos, que são as opiniões dos homens. Não mais as idéias concebidas em tese, mas como é que elas vivem na cabeça desses ou daqueles homens com quem nós temos contato.

Bem, agora depois de percebermos que tais e tais homens discordam de nós em tais e tais pontos, nós passamos para o mundo das idéias de novo. Se eles discordam de nós em tais e tais pontos, esses pontos em que eles discordam provavelmente são concatenados entre si, porque o homem é um ente lógico. Então, eu quero saber qual é a doutrina deles. E levo para o mundo das idéias, tirado dos fatos, uma concepção de caráter doutrinário. Essa concepção é: tem tal doutrina assim. E vem a refutação, na ordem da doutrina, dessas idéias: essas doutrinas são erradas por isso, por aquilo, por aquilo outro. Bem, novo contacto com essa gente, fricção, quer dizer, imersão na realidade, fricção, deliberação: Fá-los-ei calar. Quer dizer, vou combatê-los. Eu vou organizar um combate contra eles para eles não poderem espalhar essas idéias. Nós vamos partir para uma guerra ideológica. Os senhores estão vendo que já é partir da realidade, não mais para a ação, ou melhor, partir da doutrina não mais para a ação, mas para essa forma supereminente da ação que é a luta. É uma forma sublime de ação. Vou lutar contra eles.

Aparece agora outro problema. Como lutar? Como é que se luta contra eles? Então, uma teoria da ação. Luta é isso, é aquilo, faz-se assim, assim, assado. Novamente volta para a prática: esses métodos concebidos teoricamente pegam com eles, como eles são? Ah, não. Eles fazem assim, é preciso ajeitar assim, é preciso ajeitar assado. Da teoria da luta nasceu uma estrategia prática e um programa de luta. Quer dizer, um programa de ação e ação concreta. Entrou-se na realidade de novo.

Bom, de um programa de luta passa-se para uma outra coisa: está bem; é a hora de luta? São as circunstâncias. Vem o lado prudencial. Quer dizer, o programa está bom; é hora de executar o programa? Já vem mais uma série de teoria sobre a hora certa. Depois, a verificação, na prática, se é a hora certa. Quando chega a hora certa, o método certo, a gente dá uma pancada e quebra. Daí um pouco o ritmo das campanhas da TFP. Cada dois anos nós saímos com uma. O resto do tempo estamos, aparentemente, fazendo nada. Quietos, sérios, reunião, etc., teoria, recortezinho de jornal, quando a gente vê a hora de Nossa Senhora, não é? É o jeito, a gente cai em cima, está tudo pronto. Estão prontas as teorias, estão prontos os argumentos, está pronta a teoria da ação, está pronta a teoria da hora, está preparada a ação, está escolhida a hora, pam!: lá vai o golpe. Está acabado.

* Um exemplo de como o Grupo passa da teoria para o concreto

Há de ser, por exemplo, a campanha do divórcio e é na Rua Barão de Itapetininga. E é lá e não vai por menos; chega e dá certo. É lá. A gente pegou, “assina, contra o divórcio…”, não sei se o quê… eu exemplifiquei como é que nós, do Grupo, então fazemos nessa alternativa de vôos que tocam muito alto no horizonte da doutrina e descem depois no mais tangível da realidade. E então a gente não recua diante do problema mais concreto, como é o fuste do estandarte. Está acabado. E qual é a madeira mais barata. Pronto, está acabado. E se pau de cabo de vassoura pintado disfarça. Isto depois de ter pensado nas coisas mais estratosféricas, não é? Isso é o espírito do Grupo. É esta intercomunicação entre a mais alta realidade, a mais alta doutrina e a realidade mais terra-a-terra, mais miúda. Isso é o espírito do Grupo. É uma espécie de arco-íris que vai de uma ponta a outra da realidade; da alta Metafísica, da Teologia, até os pontos concretos. Aí os senhores têm um exemplo concreto de como o Grupo faz.

[Há uma pergunta, bastante longa, mas não se entende muita coisa.]

* Quem vive dentro do Grupo adquire mais sensibilidade para a percepção do mal

Eu traduziria uma coisa material, já que estamos numa noite de positivismo, e depois traduziria para uma coisa espiritual. Os senhores imaginem alguém que vive dentro da sombra. Por exemplo, aqueles mineiros ingleses que vivem nas minas, grande parte da vida. Eles diriam: “Eu, para conhecer bem a luz, eu precisaria morar na luz. Eu, de dentro das minhas sombras, não consigo ver bem a luz. Eu não consigo, quando chego à luz, perceber bem a luz”. A resposta é o contrário: o perigo é eu cair para a sensibilidade, para a luz. É talvez ver os fenômenos luminosos com uma acuidade que a vista humana quase não suporta. Porque a privação nos torna o contraste mais sensível. Bem, por analogia, nós vemos o seguinte: os santos mais puros, que viveram nos ambientes mais recatados, eram aqueles que tinham maior noção do mal que há na impureza, e eram aqueles que melhor percebiam até os menores pingos de impureza, quando entravam em contato com eles.

Quando nós moramos nas nossas sedes enlevadamente, com uma preocupação de uma residência não-física, mas metafísica, se se pudesse dizer, abusando dos termos, mas dentro do Grupo procurando conhecer a instituição do Grupo, a doutrina do Grupo na realidade palpável da sua vida de todos os dias, nós ficamos muito mais sensíveis à percepção das coisas do mal quando andamos na rua, ainda que seja no pequeno trajeto que possa ir do Alcácer para a Martim Francisco, por exemplo, do que uma pessoa que vive no mundo. Se fosse lícito dar uma prova, talvez eu servisse de prova, porque me parece que eu não sou ingênuo e que eu conheço razoavelmente o que se passa fora. Ora, eu vivo dentro. Eu tenho impressão de que se eu deixasse o meu observatório sagrado, a minha finura de observação perderia muito.

(Sr. –: E como seria uma gaivota agitada?)

Uma gaivota agitada? Aliás, uma gaivota sem distância psíquica? É isso é? Se eu imaginar uma gaivota que sobe ao ar, não pelo gosto do ar, nem pela vontade de pegar o peixe, mas pela vontade de ser admirada pelo pessoal que está embaixo na praia… Devo continuar ou não devo? Essa gaivota começa a dar piruetas de acordo com os aplausos de baixo. Em certa hora, pergunta ela onde está o peixe, ela já nem sabe porque está voando em cima da cidade. Os aplausos são da molecada que nunca viu uma gaivota tão fora do lugar. Essa seria a gaivota sem distância psíquica.

*_*_*_*_*



?