Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) – 15/1/1969 – 4ª-feira [SD 178] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) — 15/1/1969 — 4ª-feira [SD 178]

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O excesso de vitalidade e a preguiça prejudicam o raciocínio. Combater o temperamento à procura do equilíbrio. A admiração faz penetrar em nós o que admiramos e dá forças para a emenda. Considerar os extremos a que os defeitos podem levar-nos e combater o hábito de não prever o auge das conseqüências.

A luta contra o temperamento

O excesso de vitalidade e a preguiça prejudicam o raciocínio * Formas diversas de destempero * Cada um deve compreender o seu temperamento e procurar o equilíbrio * A admiração faz penetrar em nós o que admiramos e dá forças para a emenda * Considerar os extremos a que nossos defeitos podem nos levar * A preguiça nos homens ativos e nos inativos * Combater o hábito de não prever as conseqüências em seu auge

Devo responder a uma pergunta do Lauro, cujo só enunciado daria um Santo do Dia:

1º) Aquilo que ontem o senhor condenava, que era freqüente — e quão freqüente —, nós procurarmos as sensações e emoções pelo prazer gostoso de as sentir, de vibrar com elas, essa é exatamente a atitude “heresia-branca”, antípoda da atitude do contra-revolucionário que quer entrar, pela graça de Nossa Senhora, no Reino de Maria.

Queria, assim, pedir ao senhor que nos explicasse como se expunge esse defeito de alma, se a pessoa já possui a pré-disposição natural para isso, face a seu temperamento sanguíneo, em que os raciocínios, se os há, ficam apenas na superfície, não criam raízes na alma. São Tomás de Aquino tem, em Oração após a comunhão, uma frase que considera essa aberração: “Dai-me Senhor a perfeita quietude dos meus movimentos”, que eu creio que aí querem dizer impulsos, tanto carnais quanto espirituais. Como vencer, portanto, essa inclinação péssima que desfibra as almas?

* O excesso de vitalidade e a preguiça prejudicam o raciocínio

É positivo que muitas almas, muitas pessoas têm, por causa de constituição física, uma impressionabilidade maior do que outras, e que, por causa disso, elas são pessoas muito impressionáveis e que encontram na impressionabilidade uma dificuldade para construir um arcabouço racional. Mas não pensem que isso significa que essas pessoas tenham uma vida muito mais dura do que as outras. Porque as pessoas — para simplificar muito o quadro — que não são muito sanguíneas e muito emotivas, tendem para o contrário, que é uma forma de preguiça por onde elas não têm movimento nenhum e não têm nenhuma vontade de raciocinar. De maneira que, se de um lado o excesso de vitalidade desvia do raciocinar, de outro lado, o raciocínio é impedido pela falta de vitalidade, pela preguiça, pela modorra.

Eu conheci muita gente — eu seria mentiroso se afirmasse que ninguém desse gênero está dentro dessa sala —, eu conheci muita gente que não tem o hábito de raciocinar, por preguiça. Fica na pasmaceira lenta e descansada, sem analisar nada, sem pensar nada. Isso é uma falta de movimento interior. É um excesso de quietatio. Seria quase o caso de pedir, se a expressão não fosse pejorativa, seria quase o caso dessa família de almas pedir uma “inquietatio”.

Acontece que essa família de almas diverge inteiramente da outra, porque eu tenho visto gente que participa de ambas as coisas. Quando tem um pouco de vivacidade, é serelepe, e quando passa a vivacidade, cai na pasmaceira. Mas de um jeito ou de outro, a pessoa está errada. São os efeitos do pecado original. Esses movimentos de alma, eu creio que não são temperantes em ninguém.

* Formas diversas de destempero

A gente diria, de uma primeira vista, que as pessoas de uma origem nórdica são mais temperantes a esse respeito. É um puro engano. A tendência do nórdico é de montar num silogismo, como uma bruxa em um cabo de vassoura, e subir: lá vai, como um foguete. Ele está raciocinando? Está. Mas o que ele está raciocinando? […?] …a crítica da razão pura, de Kant. Os senhores sabem mais ou menos, numa ultra-simplificação, porque Kant não é tão simples assim, ele se perguntou — e eu acho isso profundamente germânico — se existia algo que não fosse ele; e se tudo que existia fora dele não era ele, uma imaginação produzida por ele, e que ele seria idêntico com o espírito absoluto e universal, que cogitava as coisas, que pensava as coisas, e o resto é a relatividade das coisas, é o resto do mundo. De onde, cada alemão está para o resto dos alemães como a Alemanha está para o resto do mundo. É uma espécie de regra de três, feita mais ou menos assim.

Os senhores estão vendo que, em última análise, é um outro destempero de outra natureza. Mas o pecado original destempera todo o mundo. Verbi gratia, a Renascença com os italianos. Aquela mania do empolado, da bolota, da coisa hiper… Faz um candelabro; na ponta tem um nenezinho fazendo uma proclamação eterna. Aquele nenê de metal não há quem destrua. A gente fica desanimado. Quinhentos anjinhos fazendo uma algazarra em torno de Nossa Senhora, que não tem eira nem beira. Todos gorduchinhos, cheios de barriguinhas até nos olhos, nas caras. Cada povo tem seu destempero.

* Cada um deve compreender o seu temperamento e procurar o equilíbrio

Então, a resposta que se deve dar a isso é a seguinte. Realmente, as pessoas de temperamento sanguíneo têm as dificuldades enunciadas aqui, mas outras pessoas têm outras dificuldades. Que o grande problema aí consiste em que cada um, com objetividade e com serenidade, procure compreender no que é que seu temperamento cria uma dificuldade em relação às suas próprias sensações. Que procure entender isso. E que procure reconhecer o que tem de ruim e procure lamentar, e procure admirar o oposto. O oposto, evidentemente, não é o exagero oposto, porque um exagero nunca é o contrário de outro exagero. O contrário de um exagero é o equilíbrio; procure admirar o equilíbrio.

* A admiração faz penetrar em nós o que admiramos e dá forças para a emenda

E por que eu digo isso? É porque tudo aquilo que nós admiramos nos entra dentro da alma. Não tem remédio. Aquilo que nós admiramos penetra em nós; penetra mais profundamente ou menos profundamente, mas penetra. Não é possível nós admirarmos algo que não penetre em nós. Portanto, o que nós temos que fazer é conhecer algo de ruim, conhecer o oposto, o bem, e admirar esse bem. Com a admiração, aquele bem entra em nós.

Então, nós devemos ter uma admiração pelos temperamentos que são equilibrados — mas o equilíbrio não significa mediania —, que levam à última perfeição a qualidade oposta aos nossos defeitos. Esses temperamentos nós devemos admirar, ou as pessoas que venceram e que são assim por virtude. Isso nós devemos admirar. Assim nós teremos a possibilidade de depois adquirir essa virtude.

Por exemplo, vamos dizer, alguém que, por temperamento, seja muito volúvel e que esteja continuamente como um passarinho: voando de um galho para outro, etc., etc., nas cogitações, nas atividades, etc. O que esse deve fazer? Deve conhecer que é assim. Depois deve entender o que isso tem de ruim, mas entender racionalmente. Depois, deve admirar o oposto; procurar ver alguma pessoa que leve a continuidade e a estabilidade ao auge de sua perfeição, prestar atenção naquilo e admirar. É só depois dessa admiração ser séria que a gente encontra forças para se emendar.

Os pressupostos sacrossantos de toda emenda estão bem entendidos? Sem isso não há emenda séria. Ninguém tem coragem de corrigir seus defeitos sem isso.

* Considerar os extremos a que nossos defeitos podem nos levar

Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, se eu olho meus defeitos de frente, é muito duro para mim”. Eu digo: “É verdade, mas mais duro é ficar dentro deles”. Porque nada nos faz sofrer tanto quanto nós jazermos de modo inglório no desprezo de nós mesmos, por causa de nossa mancomunação com nossos defeitos. Isso é o pior. E a política com nossos defeitos consiste em olhá-los inteiros até o fim. Não ficar no meio-termo, não adianta. É um nunca mais acabar. Os nossos defeitos são ociosos em grande parte por causa do extremo a que podem nos levar. Se nós não consideramos o extremo a que eles podem nos levar, nós nunca nos corrigimos.

Indiquem-me um defeito qualquer: a pretensão. Se eu imagino que a pretensão pode arrancar de mim apenas uma pequena vaidade superficial, eu não a odiarei inteiramente. Eu devo compreender que a pretensão, por sua natureza, é um defeito tal que, em primeiro lugar, todo homem, por nascimento, é pretensioso; e, segundo, todo defeito que o homem tem por nascimento é profundo, cavam raízes no fundo de sua alma; terceiro, portanto, por um lado que, talvez, não se possa imaginar, eu pago necessariamente um enorme tributo à pretensão, desde que eu consinta nela. Logo, pagar um enorme tributo quer dizer: “Farei péssimas ações por causa da pretensão”. Se eu não conhecer quais são as péssimas ações a que minha pretensão pode me levar, eu não a odeio como devo e nem me corrijo dela.

(Sr. - : [inaudível])

É bem exatamente isso. O resultado é que eles já estão dentro do abismo, porque esses, no fundo, são marcusianos e são tudo o mais, de algum modo.

* A preguiça nos homens ativos e nos inativos

Outro defeito para exemplificação: a preguiça. A preguiça, todo o mundo tem, inclusive os homens ditos ativos e não preguiçosos. Os senhores sabem qual é a definição de um homem trabalhador por natureza? É um homem que tem preguiça de esforço interior. Isso é a definição do trabalhador. Os senhores sabem qual é a definição de um homem que não é trabalhador? É um homem que tem as duas preguiças. Não pensem que ele tem preguiça do esforço exterior e para o interior é um campeão. Isso não existe. Aplica-se o mesmo raciocínio. Nisso o indivíduo é profundo, o defeito é profundo. Se é um defeito nativo, é profundo; se é profundo, leva a um grande mal. Eu preciso conhecer o mal a que ele pode levar em mim. Eu preciso ver até o fim.

* Combater o hábito de não prever as conseqüências em seu auge

Os senhores querem que eu indique uma forma de preguiça? Eu não serei muito simpático aos senhores, mas é a milionésima vez que eu não serei muito simpático aos senhores. Numa geração dita “nova”, existe um hábito de nunca considerar as coisas ruins até o último ponto de seu ruim. Por exemplo, a pessoa adoece. O normal é que a pessoa se pergunte: “Qual é a pior conseqüência que essa minha doença pode trazer para meu organismo?” Não é uma pergunta muito do agrado da geração nova. Velames: “O médico disse…” Está bom. Mata, estropia, deforma, aboba, sujeita a um regime horroroso. O que acontece? Veja de frente. Por exemplo, começam uma propaganda de difamação contra nós. A pergunta é: “Se essa difamação chegar ao seu auge, que resultados produz?” Eu compreendo bem que pode não chegar ao auge, mas a gente tem que prever que conseqüência produz.

Uma pessoa, por exemplo, conversando, verificando que deu “nó” em alguém. A gente deve se perguntar se esse “nó” chegou a seu auge, o que pode acontecer para aquele alguém. É claro. Mas o preguiçoso que não faz esse raciocínio faz o contrário. Com alguma coisinha boa que acontece, ele gosta de se perguntar: “Se isso chegar ao seu auge, no que dá?”

[A continuação da reunião foi desgravada]

Auditório da Santa Sabedoria