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(Auditório da Santa Sabedoria) (Auditório da Santa
Sabedoria) – 14/1/1969 – 3ª-feira – p.
SD (Auditório da Santa Sabedoria) (Auditório da Santa Sabedoria) — 14/1/1969 — 3ª-feira
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Supostas razões de simpatia e de antipatia. Revolução e Contra-Revolução, posse ou falta de sabedoria na raiz da simpatia e da antipatia. Como testar nossa dosagem de Contra-Revolução e como examinar nossas atitudes dentro e fora do Grupo. Ter solicitude, astúcia e savoir faire. Há ocasiões em que devemos encolher as “garras” contra-revolucionárias.
Simpatia e antipatia contra-revolucionárias
Supostas razões de simpatia e de antipatia * Razões de antipatia * O que são simpatia e antipatia * A Revolução e a Contra-Revolução na origem da simpatia e da antipatia * Conseqüência do “inimicitias ponam” * Alguns casos ocorridos com o Senhor Doutor Plinio * As raízes da antipatia e da simpatia: a falta ou a posse de sabedoria * Como testar nossa dosagem de Contra-Revolução * Um métier que “eu pretendo exercer melhor em morto do que em vida” * Como examinar nossas atitudes dentro e fora do Grupo * Não é “Apóstolo dos Últimos Tempos” quem não é apóstolo de tempo nenhum! * Evitar comentários idiotas e fazer análise contra-revolucionária * Ser solícito, ter a astúcia da serpente e savoir faire * Há ocasiões em que convém encolher as “garras” contra-revolucionárias * Uma jaculatória para quando tratarmos com algum filho das trevas
Ocorreu-me tratar no Santo do Dia de hoje um assunto que, conversando com uns e outros, veio à baila, e que me parece oportuno trazer à consideração dos senhores, e que é o seguinte.
Não é um Santo que eu vou comentar, mas é um ponto que diz respeito à santidade e que, a esse título, entra (de) dentro de nosso tema. Se nós fizéssemos agora aqui — os senhores podem estar certos [de] que eu não farei —, de um modo curioso, distribuíssemos uns papéis e fizéssemos o seguinte inquérito:
- Quais são as três ou quatro ou cinco pessoas com quem cada um dos senhores mais simpatiza no Grupo, e quais as razões dessa simpatia?
Depois, simétrico da dor deste vale de lágrimas:
- Quais são as três ou quatro ou cinco pessoas com quem menos simpatizam e por que menos simpatizam?
* Supostas razões de simpatia e de antipatia
Seria interessante ver que respostas viriam aos seus espíritos. Eu acredito que a primeira impressão seria de uma certa hesitação: “Definidamente, será que eu simpatizo tanto com cinco pessoas ou é uma simpatia difusa, confusa, profusa, genérica, que não recai muito especialmente sobre ninguém?”
É mais fácil a gente encontrar as pessoas com quem a gente simpatiza menos. Se aparecessem as pessoas com quem eu simpatizo mais, perguntar qual é a razão dessa simpatia, definir os motivos, quais são as razões.
Eu creio que apareceriam razões muito singulares e razões sobre as quais se poderia fazer uma apreciação, porque tudo quanto existe é sujeito a uma apreciação. Essas razões existem; logo, elas são sujeitas a uma apreciação. Eu creio que apareceriam razões sujeitas a apreciações muito várias. Seriam coisas assim: o olhar me parece leal; ou então, tem um aperto de mão firme; ou então, tem uma conversa engraçada; ou então, tem muito bom espírito; ou então, me ajudou; ou então, me admira, ou ao menos tenho a impressão de que me admira; ou então, me agrada, e eu fico muito flatté quando ele me agrada; eu apareço numa roda, ele imediatamente me dirige a palavra, ele nota muito minha presença.
Por que vêm as razões da antipatia? Ele nunca nota que eu estou presente numa roda; quando eu digo boa tarde para ele, ele responde sumariamente; ele, em tal ocasião, me fez uma brincadeira que tinha uma insinuação injusta e eu tenho um coração sensível e bondoso e, por isso, não esqueço os desaforos que me fazem. E umas coisas assim poderiam aparecer.
Eu estou vendo vários dos senhores tomar nota e eu elogio que tomem nota e, então, eu dou as perguntas:
- Quais são as cinco pessoas (mais ou menos) pelas quais eu tenho mais simpatia no Grupo?
Depois:
- Quais são as pessoas pelas quais eu tenho menos simpatia ou mais antipatia?
Então, eu estou dando algumas hipóteses para explicar a coisa: a pessoa me dá importância, a pessoa me admira, a pessoa me agrada, a pessoa me ajuda, a pessoa me edifica, me aconselha. Uma nobre razão de simpatia: a pessoa me aconselha virtudes difíceis, me aconselha virtudes que eu não teria vontade de praticar; ela me encontra e com uma diligência extraordinária me avisa e eu fico, então, muito grato [e] sinto uma simpatia… Seria uma nobilíssima razão para simpatizar.
Há razão má para simpatizar? Razão má, quer dizer; não é uma razão de si má, mas é a puramente naturalista, que para nós não pode pesar. É que a pessoa simpatiza comigo, eu noto que ela simpatiza comigo, eu então, simpatizo com ela.
* Razões de antipatia
A razão das antipatias é o contrário. É só pôr o “não”: não me admira, não me ajuda, etc., etc., me tem pouco caso, etc. Uma péssima razão para antipatizar: a simples presença dele me lembra umas tantas virtudes que eu não quisera praticar, ele costuma enunciar princípios que me desagradam porque põem uma luz num ponto dolorido de minha alma. Ele é um homem ruim, que me faz doer a alma. Quando eu estou com ele eu sinto uma dor de consciência… Veja como é um homem que não tem pena dos outros. Faz doer a minha consciência. Essa é uma péssima razão.
* O que são simpatia e antipatia
Então, eu agora pergunto: Qual é a verdadeira razão, para o católico, da simpatia e da antipatia?
Eu creio que, já em tempos remotos, tratei disso no Grupo. Mas, se eu não me lembro se tratei, é mais provável ainda que os senhores não se lembrem de que eu tenha tratado. De maneira que eu acho que posso tratar de novo.
Simpatia quer dizer: sofrer junto, sentir junto, padecer junto. “Sincor”, sincronismo, simpatia. É simpático comigo aquele que sente como eu, cujas dores eu sinto e que sente as minhas dores. É antipático aquele que não sente comigo, cujas dores eu não sinto e que não sente as minhas dores. Esse é o antipático.
Qual é a razão profunda e verdadeira das simpatias do católico, do bom católico, e máxime, do contra-revolucionário?
* A Revolução e a Contra-Revolução na origem da simpatia e da antipatia
Eu já vou falar de uma vez do contra-revolucionário, porque é a quintessência do católico. O contra-revolucionário verdadeiro é o contrário do revolucionário. Ora, nós sabemos por nossa experiência que o revolucionário, quando ele sente a Revolução na alma de um outro, ele simpatiza; e quando ele sente a Contra-Revolução, ele antipatiza. E que a coisa é de tal maneira que o verdadeiro revolucionário, por mais razões que ele tenha para simpatizar com o contra-revolucionário, ele não simpatiza se aquele homem é um contra-revolucionário.
Tomem, por exemplo, um revolucionário que gosta muito de arte, que em arte tem até opiniões conservadoras, que gosta muito de pessoas que conversem bem, que gosta muito de pessoas finas, que gosta muito de pessoas que [o] recebam em sua casa e que gosta muito de pessoas que em sua casa lhe dêem bons licores, bom whisky e bom conhaque para tomar. Tomem um contra-revolucionário que gosta muito de música, que conversa muito bem, que seja muito fino, que receba o revolucionário em sua casa, e que lhe dê licor e isso e aquilo para tomar, que realiza todas as condições de simpatia. O verdadeiro revolucionário não gostará desse contra-revolucionário, apesar de haver as razões para ele gostar. Apesar de ele gostar de qualquer revolucionário que apresente essas qualidades, porque aquele é um contra-revolucionário, ele não gosta.
Outro exemplo: imaginem um aluno que gosta de professor vivo, atualizado na matéria e eloqüente. Ele é um aluno revolucionário, tem um professor contra-revolucionário, vivo, inteligente, eloqüente, atualizado na matéria; ele não gosta do professor, apesar de o professor ter tudo para ele gostar, porque o professor é contra-revolucionário.
A prova palpável, de furar os olhos, de arrebentar, que os senhores têm disso é o Grupo tomado como um todo. O Grupo tem tudo para que todo o mundo goste dele: o Grupo cultiva, o Grupo instrui, o Grupo moraliza, o Grupo forma, o Grupo defende.
Por que tanta gente que ataca aquilo que atacamos e que louva aquilo que louvamos, não gosta de nós? É porque nós somos contra-revolucionários.
Há uma pergunta: [será] por isso que são muito poucas as vocações contra-revolucionárias provenientes de vertente psicológica?
* Conseqüência do “inimicitias ponam”
Não, isso cobre todas as vertentes. Não é só a psicológica, em todas as vertentes isso se dá. Esse fato é um fato quotidiano, de observação corrente. Esse fato se prende ao que São Luís Maria Grignion de Monfort desenvolve, quando ele fala do “Inimicitias ponam”. Ele diz que Deus disse: “Eu porei inimizade entre tu e a serpente — entre Nossa Senhora e a serpente, Nosso Senhor e a serpente —, entre a descendência tua e a d’Ela.” Quer dizer, há alguma coisa na alma do verdadeiro contra-revolucionário por onde ele é inimigo do revolucionário porque é revolucionário. Não vão juntos, não afinam em nada.
A recíproca é igualmente verdadeira: há alguma coisa na alma do revolucionário com que o contra-revolucionário não afina; não vão. Os senhores compreendem: “Eu porei inimizades…” Quer dizer: “Eu farei uma guerra entre ti e a serpente, entre a tua descendência e a d’Ela”. Qual é a descendência da serpente? Só se pode tratar de uma descendência espiritual. Qual é a descendência do demônio? O demônio não tem descendentes, porque ele é incapaz de gerar. Quer dizer, é uma coisa figurada, são os que têm o espírito dele e seguem a mentalidade dele. Então, reciprocamente, a descendência de Nossa Senhora é a descendência espiritual. Nós não descendemos fisicamente de Nossa Senhora, não temos essa honra. Ela só teve um Filho, e de uma concepção virginal.
É uma duplicidade de famílias de almas mortalmente inimigas e irreconciliáveis. E São Luís Grignion diz muito bem que Deus, tudo o que faz, faz bem feito. Ele só pôs essa inimizade, mas essa inimizade é uma inimizada que é feita por Ele e, portanto, bem feita, eterna, perfeita, completa enquanto inimizade, com todas as notas da inimizade arquetípica e indestrutível. Daí decorre que entre o verdadeiro revolucionário e o verdadeiro contra-revolucionário, há uma inimizade fundamental.
(Sr. –: O que o senhor chama um verdadeiro contra-revolucionário?)
O revolucionário verdadeiro se deve chamar aquele indivíduo que tem verdadeiramente um apego consciente ou subconsciente aos últimos princípios da Revolução, que se deu a esses princípios. Quer dizer, as opiniões dele podem ser semicontra-revolucionárias, mas ele é um revolucionário. O semicontra-revolucionário é um revolucionário.
(Sr. –: Essa inimizade é irracional, ou melhor, é racional? A pessoa não precisa pensar para ter essa inimizade?)
A pessoa precisa conhecer que o outro é revolucionário, o que conhece, às vezes, por simples instinto, ou melhor, por simples indícios. A partir do momento em que conheceu, essa inimizade é como que instintiva, mas justificada pela razão. O indivíduo depois, raciocinando, encontra os motivos justos para isso.
(Sr. –: Digamos que o senhor, entrando num ambiente, a pessoa não conheça o senhor, e seja um verdadeiro revolucionário. Ele antipatizaria com o senhor, mesmo antes de raciocinar e tentar fazer uma idéia de quem é o senhor?)
* Alguns casos ocorridos com o Senhor Doutor Plinio
Eu conheço vários casos assim. Eu ouvi o caso de uma pessoa que disse isto: “Plinio Corrêa de Oliveira? Eu não conheço, mas esse nome me causa um mal-estar.” Como há uma outra coisa muito engraçada, que é uma pessoa que me viu tomar o avião em Buenos Aires, um aviãozinho pequeno, para vir para Porto Alegre, e fez um comentário de simpatia, de alguém que compreendia a fundo quem era eu, sem nunca me ter visto.
(Sr. –: [Observação sobre um acontecimento ocorrido no aeroporto de Porto Alegre.])
Foi o Brizola. Depois o senhor mesmo [verificou] que foi o Brizola. Eu vinha andando ao longo dos balcões para toma o avião e o Brizola vinha em direção oposta, mas eu não sabia que era o Brizola. Ele passou perto de mim e acendeu uns olhos sinistros, que pareciam um farol de automóvel e [que] depois apagou. E o José Costa, creio que o senhor e eu estávamos juntos e estranhamos. Depois, o José Costa foi verificar, etc.: era o Brizola, que era o governador do Estado naquele tempo. Agora, não é garantido (de) que o Brizola não soubesse quem era eu. Já tinha havido um episódio dele comigo, mandando me chamar no Hotel Glória, altas horas da noite, se eu podia ir falar com ele. Eu recusei, etc., e (que) nunca ficou claro se era um equívoco ou não.
((Sr. –: …na “Folha”, que até hoje repete o seguinte: que não conhece o senhor, crê que o senhor pode ser um bom homem, honesto e tudo, mas que ele o odeia. Odeia, gratuitamente, mas odeia e não tolera.)
Os senhores vejam… Aí há fatos bem evidentes. Então, o que significa isso que o revolucionário e o contra-revolucionário se odeiam tanto?
* As raízes da antipatia e da simpatia: a falta ou a posse de sabedoria
É que, quem é revolucionário, ou melhor, o tema Revolução, essa falta supina de sabedoria que é ser revolucionário, domina de tal maneira o homem que ele julga tudo segundo esse critério. O amor fundamental à sabedoria, que é ser contra-revolucionário, domina o homem de tal maneira que ele julga tudo segundo esse critério também.
A conclusão é a seguinte: [é] que no verdadeiro contra-revolucionário as antipatias são em razão da dosagem de Contra-Revolução que ele nota no homem. Nessa proporção, ele tem raiva. Quer dizer o seguinte: um contra-revolucionário no trato com um revolucionário, na medida da dosagem de Revolução que ele nota no homem, ele simpatiza.
(Sr. –: Como a gente deve analisar alguns fatos, por exemplo, que aproximam as pessoas independente do problema “Revolução e Contra-Revolução”? Por exemplo, pai e filho têm uma relação… O pai gosta do filho independente disso. Se ele sabe que o filho é contra-revolucionário, ele começa a odiar esse aspecto do filho, mas ele pode dizer que odeia o filho enquanto pessoa? Como a gente analisaria isso? Entre irmãos, também.)
Faça-me a pergunta no fim, que eu respondo com gosto. Se isso é verdade, então, é verdade o contrário. Se Deus fez uma inimizade dos contra-revolucionários e dos revolucionários, então, ele criou uma amizade entre os contra-revolucionários entre si. E a gente encontrar uma dosagem de Contra-Revolução numa outra alma, nos leva a ter uma simpatia eminente para com aquela outra alma, na proporção dessa dosagem, mas que não é uma simpatia artificial, é uma simpatia verdadeira no sentido etimológico da palavra. A gente sente com aquele; as dores dele a gente carrega; as alegrias dele a gente experimenta; a gente é um com ele. Essa é a alma verdadeiramente contra-revolucionária.
Como os revolucionários são também assim, em certo sentido. Quer dizer, eles não se amam verdadeiramente, eles têm uma solidariedade em face da Revolução, que faz, às vezes, de amor: a solidariedade dos cúmplices. Um membro daqui desse auditório contou-me, mais de uma vez, que num lugar por aí, e o filho estava junto, viu encontrarem-se… [falta palavra] …e os dois se abraçaram e deram uma gargalhada cúmplice, mas “gargalhadona canalhona” e depois, se despedirem. Inimigos, etc., etc., etc., mas têm, no fundo, aquela cumplicidade que é o símile da simpatia. Não é uma verdadeira simpatia, mas é o símile dela.
* Como testar nossa dosagem de Contra-Revolução
Então, agora está aqui um modo de nós compreendermos uma porção de coisas. Primeiro, a nossa própria testagem de Contra-Revolução e de Revolução. Até que ponto é densa a dosagem de Contra-Revolução em nós? É na medida em que nós simpatizamos com os contra-revolucionários, no sentido próprio da palavra, [e] na medida em que nós somos alérgicos com os revolucionários. Nessa medida é que somos revolucionários ou contra-revolucionários.
Em que medida — começa agora a resposta à pergunta do Capitão Poli — nós somos contra-revolucionários? Na medida em que os revolucionários são alérgicos conosco; na medida em que os revolucionários são alérgicos comigo, nessa medida eu sou contra-revolucionário.… [faltam palavras] …poderão simpatizar comigo. Eles só me odiarão se eles perceberem que a Contra-Revolução é o próprio fundo de minha mentalidade, e o é em tudo. Aí, eles me odiarão. Às vezes, serve para nos explicar o seguinte. Certa pessoa pode me dizer: “Na minha família, no lugar onde eu trabalho, tem muita gente que é revolucionária e que gosta de mim de verdade. Mas, isso é porque eu sei sorrir, eu sou amável, sou jeitoso, eu sou “seu ligação”[?], faço pequenos favores. Eu não tenho aquela empáfia de Dr. Plínio. Eu não tenho aquela seriedade do Dr. Plínio. Eu sou muito plástico, muito gentil, eu sou como uma… [ilegível]. Então, acontece que as pessoas simpatizam comigo”. Eu digo: “Meu caro, é verdade isso? Examine-se bem porque… [ilegível] …se eles notassem a Contra-Revolução até o fim de sua alma, eles simpatizariam com você?”
* Um “métier que eu pretendo exercer melhor em morto do que em vida”
Aqui está a questão para o exame de consciência. É doído, não é? O que eu estou dizendo aqui, é doído, mas é para doer que eu estou dizendo, porque eu sou “ruim”, eu faço doer certas coisas a vocês. Eu sou o “lobo mau” que desmancha prazeres, etc. Este sou eu. Os senhores vieram ouvir esse homem. Nossa Senhora os chamou para isso. Então, estou aqui “estragando” a vida das pessoas, dizendo as coisas desagradáveis, etc. É o meu métier, [que] eu pretendo exercer melhor em morto do que em vida.
* Como examinar nossas atitudes dentro e fora do Grupo
Aqui poderia ficar, inclusive, um tema para uma manhã de recolhimento. Então, dividida em duas coisas:
- Dentro do Grupo, como é que eu estou? Eu simpatizo com os mais contra-revolucionários? Eu não tenho o direito de antipatizar com ninguém dentro do Grupo. Dentro do Grupo não se concebe antipatias. Mas eu sei discernir o que os outros têm de revolucionário, deplorar e sentir-me distante disso? Ou são aquelas tais outras razões minhas?: me admira, me ama…
Podem pegar aquela ladainha do Cardeal Merry Del Val: é porque me estimam, louvam, porque não sei o quê? Podem pegar aquilo, que está perfeito. Vai (de) “sob encomenda”.
- Fora do Grupo:
Os outros me tomam a sério como contra-revolucionário? Ou pensam que eu sou um bom rapaz que exagera um pontinho, mas não vêem em mim a Contra-Revolução? Não vêem em mim oposição ao erro deles?
Vamos dizer, um contra-revolucionário que está num meio “heresia branca”. O “heresia-branca” o que acha dele? Que é um outro “heresia-branca”, mas que exagera um ou outro ponto? Ou percebe que não; que são duas mentalidades opostas, e nota em mim uma censura contra ele?
Essas são perguntas que se podem fazer, que se devem fazer e às quais não é difícil responder.
* Não é “Apóstolo dos Últimos Tempos” quem não é apóstolo de tempo nenhum!
São as possibilidades — agora vem o fim — de a gente se tornar um “Apóstolo dos Últimos Tempos”. Porque não é “Apóstolo dos Últimos Tempos” quem não é apóstolo de tempo nenhum! Para ser “Apóstolo dos Últimos Tempos” precisa começar por ser apóstolo, ser servo do apostolado. O fundo do zelo apostólico é este: o de que os outros sejam como eu. Isso é que é o fundo do apostolado; que sejam como eu, por amor de Deus, porque sei que sou conforme a Deus. Isso é o fundo do apostolado. É o pesar de que os outros não sejam como eu. O tomar posição em face de todos, segundo isso, isso me dá psicologia, me dá zelo, me dá todos os modos de exercer o apostolado.
Às vezes, a gente fala com um membro do Grupo:
— Por que você não faz apostolado com fulano?
A gente tem a impressão de que a pessoa está acordando de um sonho:
— Ahn?! Apostolado?! Com aquele!?
Longo silêncio embaraçado [e] a gente, sorrindo:
— Então, por que não sai esse apostolado atolado?
— Nunca pensei nisso…
— Mas ele está ali e você nunca pensou em fazer apostolado?! Você se esfrega com ele todo dia, nunca pensou em fazer apostolado com ele?!
— Então, onde está esse “Apóstolo dos Últimos Tempos”?
A gente, para ser “Apóstolo dos Últimos Tempos”, precisa ser realmente da raça da Virgem, precisa odiar realmente a raça da serpente e precisa realmente amar nossos irmãos em Nossa Senhora. Isso é a substância do apostolado. Sem isso, o apostolado parece uma coisa do mundo da lua, impraticável… [faltam palavras].
E está terminado o Santo do Dia.
* Evitar comentários idiotas e fazer análise contra-revolucionária
(Sr. –: As pessoas que não têm contato com o mundo, por exemplo, que trabalham no Grupo e não vão quase para as suas famílias, etc… [faltam palavras] …como seria feito esse apostolado?)
Passa um playboy na rua, todo desgrenhado, descamisado, maluco. Que é que a pessoa sente? Indiferença? Uma simples sensação idiota de ridículo? Uma simples sensação física de nojo: “Aquele sujeito não se lava…”. Ou sente uma reação contra-revolucionária com aquilo?
Por exemplo, hoje eu vi uma senhora sumamente sinárquica, uma senhora de uns quarenta e cinco anos, mais ou menos. Ela estava com uma espécie de tailleur, pano de segunda ordem, muito bem cortado. Estava com o cabelo louro, penteado pelo meio, muito bem dividido, muito bem penteado; tudo de segunda. Poderia dizer que até o cabelo era de segunda, mas tudo bem arranjado. Era o tipo da pessoa sinárquica, revolucionária, auto-suficiente. Ela estava assim na casa dela, a uma pequena distância de mim, vendo passar a rua. Lembrou-me uma frase de Elliot: “Bela dona, senhora dos rochedos e das situações”. Ela estava ali, dona de tudo. Mas, se tocasse a campainha na casa dela, ela ficava aborrecida, porque viria estragar a situação dela. Olhando assim… eu senti ali a Revolução… [faltam palavras] …ou fiz algum comentário interior idiota? “Que tailleur bem cortado! Que senhora bem cuidada!” Para um contra-revolucionário é um comentário interior que, a ficar só nisso, é perfeitamente idiota.
(Sr. –: [Uma pessoa parece que pede uma orientação; não se ouve bem]… [faltam palavras] …ao observar o apostolado intenso que os protestantes fazem… [faltam palavras]. Alguém diz: “Você está fazendo um apostolado protestante”.)
* Ser solícito, ter a astúcia da serpente e savoir faire
Nosso Senhor disse no Evangelho que os filhos da luz são menos astutos que os filhos das trevas. Ao mesmo tempo, ele recomendou que tivéssemos a astúcia da serpente; a inocência da pomba e a astúcia da serpente. Isso quer dizer que cada vez que somos astuciosos, devemos nos sentir filhos das trevas? Não, pelo contrário. Que alguns modos de ser dos filhos das trevas, puramente operacionais e executivos, podem servir de modelo para nós. São Luís Grignion usa muito isso no Tratado da Verdadeira Devoção, quando ele diz: “Tanta gente, por um simples rufar de tambor, ou um simples apito, se reúne por causa de dinheiro, por causa de glória, etc., etc., e, entretanto, para Vos servir ninguém, etc.” Ele elogia aí a solicitude com que os filhos do demônio acorrem para as coisas do demônio.
(Sr. –: O que me confunde é que ele deve ter um móvel interior para fazer… [faltam palavras] …que na parte exterior, visível, se confunda. Nós temos um móvel interior voltado para Nossa Senhora. Eles têm um outro móvel que produz efeitos semelhantes aos dos contra-revolucionários. Não poderia num contra-revolucionário, haver o mesmo problema: um certo móvel interior semelhante aos protestantes?)
Não, porque o móvel do protestante é semelhante ao nosso, com sinal menos na frente. É preciso, naturalmente, distinguir o seguinte: há uma insistência protestante, uma parlapatice protestante, uma falta de tato protestante, que não é a do católico. Um católico, quando é insistente, não é daquele jeito. Quando ele fala, não parlapata, e quando ele insiste, não amola. O católico tem o savoir faire, tem a coisa que o protestante não tem. Não vamos confundir. Mas a pertinácia protestante — para falar uma palavra que desapareceu do vocabulário mais novo, mas que diz muita coisa; o som dela já é assim — a protérvia dos hereges —, essa protérvia deve servir para nós de uma espécie de antiexemplo, num certo sentido da palavra. Não sei se agora está claro.
(Sr. –: Ao tratar com um revolucionário para tentar conseguir alguma coisa dele, adianta dizer coisa simpática, etc., ou como é que fica isso?)
* Há ocasiões em que convém encolher as “garras” contra-revolucionárias
“Para levantar dinheiro para as campanhas de donativo de ‘Catolicismo’, como é que a gente faz, Dr. Plinio?… Se a gente chega lá e esfrega nele a Medalha Milagrosa, será que sai donativo?” Em termos mais diretos, parece que a pergunta é essa, não é?
A resposta é a seguinte. Há ocasiões em que, por exceção — mas são ocasiões excepcionais — o contra-revolucionário deve saber deitar uma certa ilusão aos outros, não se fazendo revolucionário, mas encolhendo suas “garras” contra-revolucionárias. Vamos dizer, por exemplo, que eu estivesse preso num campo de concentração nazista, ou comunista, que Deus me livre! Eu não ia chegar, para conseguir fugir, para o sentinela e dizer para ele: “Salve Maria!”, “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!” Ele dava uma coronhada e me matava. Quer dizer, eu tenho que usar, numa situação excepcional, de um método excepcional. Eu terei que me fazer doce, dar um sorriso para ele [e] perguntar para ele quantos filhos ele tem, não sei, amolecer o homem pelo lado que ele possa ser amolecido e que não seja um começo de conversão. Porque eu não posso imaginar, senão muito excepcionalmente, que eu vou converter um guarda nazista de campo de concentração. Mas isso deve ser uma atitude excepcional, o que não impede, que eu, na minha normalidade, tenha uma carga tremenda de Contra-Revolução.
(Sr. –: Pode-se dizer que em todas as coisas que se precisar de um “fassur”, de um revolucionário, seja louvável essa tática?)
Não, desde que ela passe a ser um modo de ser habitual, já não é louvável. Que a gente faça isso excepcionalmente é louvável, ou que uma pessoa, numa situação muito excepcional, seja levada a fazer habitualmente. Mas, é sempre na linha das exceções.
(Sr. –: …corretores, por exemplo.)
O exemplo não está mal achado. É preciso vender. Aquilo está lá e é preciso vender. A título excepcional, em sua vida, durante algum tempo, habitualmente você deve fazer isso. Mas, então, com cuidado interior de preservar o seu espírito.
(Sr. –: Depois que o revolucionário antipatizou, não tem mais jeito?)
É difícil. Eu sei, por experiência própria.
(Sr. –: Naquelas conferências sobre… o senhor disse que havia já uma terceira camada de gente que não se manifesta a respeito do problema do igualitarismo. Com relação a saber se a pessoa é revolucionária ou contra-revolucionária, existe essa terceira gama de gente, inteiramente descolorada, desbotada e que tem por baixo uma outra coisa, mas que não se sabe o que é predominante?).
Existe uma certa categoria de gente, em geral vinda de meios muito primitivos, muito incultos, que por causa disso, na temática da família, não entrou nem a Revolução, nem a Contra Revolução. Então, pode ter uma geração, às vezes, até duas, em que essa temática não entrou.
(Sr. –: Portanto, quando o ódio começa a se manifestar, ele não tem toda a violência.)
É, exatamente.
(Sr. –: [Pergunta praticamente incompreensível, formulada em castelhano.])
Nesse caso, a gente tem que disfarçar e não incutir temor. Porque se a gente incutir temor, não ganha terreno. A natureza nos dá exemplos. Há horas em que o gato encolhe suas garras e fica com os bigodes todos assim; há outras horas em que ele avança. Assim temos que fazer nós.
Em uma ou outra ocasião, sem muito êxito, eu já tenho feito isso também.
* Uma jaculatória para quando tratarmos com algum filho das trevas
(Sr. –: O senhor poderia indicar uma jaculatória de oração para que a gente rezasse quando fosse tratar com algum filho das trevas, para justamente não encolhermos a garra demais?)
O próprio da jaculatória é ser rápida. A jaculatória inteira seria: “Dignai-Vos, Senhora, fazer que eu Vos louve”. Ou melhor: “Dignai-Vos fazer que eu Vos louve, ó Virgem Sagrada. Dai-me forças contra os vossos inimigos”. Quem tem o sabor do latim… eu posso ditar em latim, porque, queiram ou não queiram, isso em latim tem outro sabor. “Dignare me laudare te, Virgo Sacrata. Da mihi virtutem contra hostes tuos”. Mas pode ser apenas a segunda parte: “Da mihi virtutem contra hostes tuos, Virgo Sacrata”. Basta isso.
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Auditório da Santa Sabedoria