Santo
do Dia (Auditório Santa Sabedoria) – 13/1/1969 –
2ª-feira [SD 179] – p.
Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) — 13/1/1969 — 2ª-feira [SD 179]
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Comentários sobre uma oração composta por São Luís de Montfort. A bonita invocação “ó Deus de meus pais”. Como devem recorrer à misericórdia divina os que têm tradição católica, os que têm escórias de protestantismo ou de cisma, os de sangue judeu e os que foram infectados pela Revolução.
“Deus de meus pais”: uma invocação a ser dirigida, a vários títulos, a Deus
Uma oração composta por São Luís de Montfort * A bonita invocação “Deus de meus pais” * Profundidade e beleza da invocação “Deus de meus pais” para os que têm uma tradição católica * Como os de ancestralidade não-católica, protestante ou cismática, devem também dizer “ó Deus de meus pais” * Como os de sangue judeu podem recorrer à misericórdia divina * Prece dos que têm escórias de protestantismo e de cisma * Como devem rezar os católicos que foram infectados pela Revolução
[Dom Mayer leu, a pedido, uma oração de São Luís Grignion de Montfort, em francês. Dr. Plinio passa a comentá-la em português.]
* Uma oração composta por São Luís de Montfort
Acontece o seguinte. Há um princípio de que as coisas supremas são sós na respectiva esfera, de onde há, por repercussão, uma dificuldade em que as coisas muito grandes coexistam harmoniosamente, por analogia. E há, sobre a face da Terra, entre outras, duas muito grandes nações que são a França, cujo idioma nós acabamos de ouvir, e a Espanha, que tem descendentes numerosos aqui no auditório. E talvez por causa dessa dificuldade de conviverem duas coisas muito grandes, parece que nas nações de língua espanhola, se negligencia o francês. De maneira que seria talvez oportuno reler o texto em português. Claro que os brasileiros, todos eles sabem francês como sua segunda língua, etc., etc. Nós aqui no Grupo temos entusiasmo pela cultura francesa, etc., somos profundamente afrancesados de espírito, de gosto, etc., etc., etc. Mas, enfim, por todas essas razões, pareceria indicado reler o texto para fazer um comentário.
Essa é uma oração, como disse D. Mayer, que foi ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort a uma freira. Seu texto é o seguinte:
Ó Deus dos meus pais, Senhor das misericórdias, Espírito de Verdade, eu, vermezinho da terra, prosternado diante de vossa divina Majestade, reconhecendo os benefícios infinitos que recebi de vossa divina Sabedoria, que perdi por meus pecados, confiando na promessa infalível que tendes feito a todos que abandonarem sem hesitar, ou melhor, a quem pedirem sem hesitar a Sabedoria, hoje vos peço, com toda instância possível, e a humildade mais profunda que me concedais Sabedoria.
Enviai, Senhor, essa Sabedoria que assiste de vosso trono, para assistir minha fraqueza, para esclarecer nossos espíritos, para abrasar nossos corações para trabalhar e sofrer de concerto convosco, para dirigir nossos passos e para encher nossas almas com os frutos de Jesus Cristo e os dons do Espírito Santo, pois que ela só concentra ou encerra dentro de si a totalidade de vossos bens.
Ó Pai de Misericórdia, ó Deus de todas as consolações, nós vos pedimos, portanto, o tesouro infinito de vossa Sabedoria pelas entranhas misericordiosas de Maria, pelo Sangue Precioso de vosso caríssimo Filho e pelo desejo extremo que tendes de comunicar vossos bens à vossas pobres criaturas. Ouvi a minha oração. Assim seja.
Esta oração é dividida, como os senhores podem notar, em três partes. Há uma invocação: ele se dirige a Deus e enumera uns tantos títulos que ele tem especialmente em vista quando pede a Deus as graças que ele vai pedir. Depois se passa para o corpo da oração, em que ele diz o que ele quer, e depois vem um fecho da oração, na qual ele explica porque ele espera ser atendido. São considerações por onde ele espera mover a misericórdia divina. São alegações que ele faz para tornar propícia a misericórdia divina para a petição que ele acaba de fazer.
* A bonita invocação “Deus de meus pais”
A invocação é essa:
Ó Deus de meus pais, Senhor das misericórdias, Espírito de Verdade.
É a primeira parte da invocação. É muito bonita da expressão: “Ó Deus de meus pais”. As outras, “Senhor das misericórdias, Espírito de Verdade”, são muito bonitas igualmente, muito sublimes, mas são muito conhecidas. Não haveria nenhum comentário especial a fazer. Mas o que significa aqui “ó Deus de meus pais”? A que propósito vem “meus pais” nessa invocação a Deus? Será que Deus é um pouco mais meu porque é Deus de meus pais? Ou será que eu sou um pouco mais de Deus porque os meus pais foram d’Ele? A que vêm os “meus pais” dentro dessa invocação? Essa pergunta se pode fazer tanto mais que eu creio que várias vezes essa fórmula existe na Escritura, o que quer dizer que o próprio Espírito Santo considera, afirma, ensina que a circunstância de Deus ser Deus de nossos pais é uma circunstância que torna Deus clemente, que torna presente a Ele, por assim dizer, uma circunstância que o aproxima especialmente a nós. E então, nós devemos analisar essas circunstâncias.
Essa pergunta é de um interesse especial para nós que somos, pelo menos na quase totalidade aqui do auditório, de nações latinas, de nações, portanto, que com travancas e tropeços, com infidelidades e misérias, entretanto permaneceram dentro do aprisco da Santa Igreja Católica, e que, portanto, podem a muitos títulos se dizer filhos de várias gerações católicas. Então, podem dirigir-se a Deus, chamando-o “Deus de nossos pais”. Então, vamos perguntar por que essa invocação vale a pena mencionar.
Uma outra razão pela qual interessa muito essa consideração é porque há um palavreado progressista por aí contra o que eles chamam a “religião tradicional”, a religião que o indivíduo tem só porque essa Igreja é a Igreja de seus pais.
Eu me lembro de um “fassur” católico francês que veio me entrevistar durante a campanha e que me dizia: “Mas, enfim, o senhor não vai pretender que se o senhor tivesse nascido filho de chineses, o senhor seria católico? O senhor seria, a essa hora, budista”. E eu disse a ele: “Se eu recebesse as graças que eu recebi quando era menino, eu creio que teria partido à procura de uma Igreja que tivesse uma autoridade infalível para mandar em mim em última instância; e que eu teria acabado por encontrar essa Igreja. De maneira que não acredito absolutamente que o indivíduo esteja enclausurado na religião de seus pais, como também não acredito que só porque a Igreja Católica é a Igreja de meus pais que eu acredito nela”. Isso não é sério. Mas é de um certo peso que Ela seja a Igreja de meus pais. Por que então vem essa história de “Deus de meus pais”?
* Profundidade e beleza da invocação “Deus de meus pais” para os que têm uma tradição católica
Isso prestar-se-ia a uma gama de considerações que daria quase um Santo do Dia. Mas eu creio que se poderia dizer o seguinte: que o fato de que os pais da gente, com essas ou aquelas manchas, foram fiéis, pertenceram à Igreja Católica, representa para nós o acúmulo de uma determinada bênção. Porque se é verdade que existe o pecado original, e se é verdade que há pecados de família cujos efeitos se transmitem de geração em geração, é verdade também que há bênçãos de família que também se transmitem de geração em geração, e que os méritos dos pais de algum modo beneficiam os filhos. De maneira que quando uma pessoa nasce de uma longa progênie católica, essa pessoa pode dizer validamente que acumula sobre a cabeça uma série de bênçãos de muitas gerações que repousam em paz na Fé de Nosso Senhor Jesus Cristo, que expiraram osculando o Crucifixo, que invocaram o nome de Deus para os principais atos de sua vida, etc., e que há aqui uma espécie de sedimentação de bênçãos, há uma espécie de acúmulo de bênçãos que é verdadeiramente para nós uma maravilhosa [falta palavra] e uma razão de alegria.
Houve uma preferência gratuita de Deus para que essas estirpes fossem fixadas, de um modo tão especial, na Fé. Houve depois uma bondade d’Ele para conservá-las — não só inicialmente — mas conservá-las depois na Fé. E com isso houve uma espécie de amor de que os nossos — “grossíssimo” modo — não desmereceram; uma vez que, “grossíssimo” modo, continuaram a crer. E essa bênção, acumulada através de gerações, é como um vinho precioso que vai acumulando qualidades cada vez melhores ao longo dos tempos. De maneira que realmente tem um verdadeiro sentido o fato de nós podermos chamar Deus “o Deus de nossos pais”, de nós podermos chamar a Igreja Católica, a “Igreja de nossos pais”. É um longo conúbio de almas, através das gerações, que a gente evoca, para obter misericórdia de Deus. E é claro que isso inclina, de fato, a misericórdia de Deus.
Para nós que somos da TFP, vemos aqui um dos aspectos do valor do fator “tradição”. É um aspecto sobrenatural, mas é um aspecto que tem uma importância profunda, e até, debaixo de um certo ponto de vista, uma importância capital, ao qual se junta um outro aspecto. É fora de dúvida que uma longa hereditariedade católica modela a educação de uma pessoa nas suas mais últimas fibras, para que a pessoa fique católica. Napoleão, que era um “fassur”, mas que de vez em quando dizia verdades, dizia que a educação de uma criança começa duzentos anos antes dele nascer. Eu acho que duzentos é muito pouco. Se ele falasse quinhentos, ele estaria talvez próximo da verdade. Mas, em todo caso, os senhores compreendem que o princípio que ele põe em realce é que é uma tolice imaginar que, quem educa a criança, são os pais, porque quem educou os pais indiretamente está educando a criança. Mas se isso é verdade, quem educou os avós está também educando a criança. E nós podemos subir aí pela cadeia das gerações indefinidamente. Não é só a educação, mas há qualquer coisa de transmissão hereditária que é imponderável, mas que existe. Há uma doçura católica, há uma leveza católica, há um idealismo católico, há uma força católica que vai marcando os temperamentos ao longo das gerações, e que, de algum modo, plasma as pessoas em suas últimas profundidades para eles serem capazes desses primeiros reflexos católicos, dessas primeiras reações católicas que as almas católicas desde o berço dos seus maiores, verdadeiramente têm.
E é por causa disso que nós nos apresentamos a Deus mostrando-Lhe essa alma na qual ele colocou tais profundezas de Catolicismo, tais oceanos de Catolicidade e agradecendo, alegamos isso:
“Nós somos portadores, Senhor, de uma tradição imensamente preciosa que no plano sobrenatural e no plano natural faz de nós filhos eleitos vossos que se beneficiaram mais largamente ainda do que outros do Sangue que derramastes do alto da Cruz, das lágrimas que Vossa Mãe chorou por nós ao pé da Cruz. E assim, como portadores dessa tradição, revestidos dessa tradição como Jacó se revestiu da pele de cabrito para merecer a bênção do seu pai, nessas condições, nós vos imploramos: tende pena de nós, ó Deus de nossos pais”.
Vós vedes que aí há muita profundidade e muita beleza. E a gente compreende, portanto, que São Luís Grignion de Montfort tenha aberta a sua oração com essa invocação: “Ó Deus de nossos pais”.
* Como os de ancestralidade não-católica, protestante ou cismática, devem também dizer “ó Deus de meus pais”
Por outro lado, entretanto, eu devo dizer que isso não deve desanimar nem um pouco aqueles que não têm uma hereditariedade integralmente católica nas veias, aqueles que são portadores de um sangue protestante, de um sangue cismático, de sei lá que outros sangues, num auditório tão mesclado de sangue israelita, de sei lá quantos sangues, num auditório tão etnicamente mesclado quanto esse, porque nos planos de Deus tudo é bonito. A fidelidade é bonita, o arrependimento é bonito. Se é lindo ser fiel como São João Evangelista, é lindo ser convertido como São Pedro. E uma conversão que teria feito Nosso Senhor superexaltar de alegria era a conversão de Judas, se Judas tivesse aceito as enormes graças que com certeza lhe foram dadas. De maneira que devemos dizer a Deus também isso: “Ó Deus de nossos pais: aqueles que têm uma ancestralidade não-católica, uma ancestralidade protestante, uma ancestralidade cismática, devem dizer:
“Ó Deus de meus pais, ó Deus que fizestes essa maravilha de fazer com que essa longa cadeia de gerações católicas das quais eu provenho antes do miserável cisma que separou a minha estirpe de vossa Igreja sagrada, antes da heresia abominável que destacou os meus ancestrais da vossa Igreja sacrossanta, eu me apresento a Vós, revestido da condição de católico; eu reato com aqueles pais de outrora; eu retomo àquela união cujo desfazimento tanto Vos fez sofrer do alto da Cruz, e em mim uma gloriosa tradição revive”.
* Como os de sangue judeu podem recorrer à misericórdia divina
E se fosse o sangue judeu que estivesse nas veias de alguém, poderia dizer mais do que isso:
“Senhor, Vós não tendes saudade de vosso Povo Eleito? Vós não tendes saudade daquela nação ingrata que Vos matou, que Vós dispersastes, mas para a qual Vós prometestes a conversão nos últimos tempos? Aqui está um que volta e que volta para vos pedir um pouco da primogenitura de outrora, volta para pedir perdão. Vós, que recolhestes o filho pródigo não acolheis especialmente o filho eleito pródigo, o filho predileto pródigo? Não restaurais nele toda a vossa predileção?”
* Prece dos que têm escórias de protestantismo e de cisma
Há, portanto, uma porção de razões para nós invocarmos, a vários títulos, a misericórdia divina, junto com a oração de vigilância contra-revolucionária:
“Meu Deus, se é belo reatar agora esta ligação com as gerações de outrora, é também verdade, ó meu Deus, que na minha alma ficaram escórias dos erros dos meus pais; ficaram escórias de protestantismo — e é uma coisa tremenda levar escórias de protestantismo, e o que caracteriza a escória de protestantismo é a “quadratura” e o naturalismo. Ficaram escórias de cisma.”
E o que caracteriza o cisma dos orientais é quase o oposto disso: é uma tendência para um sobrenatural sensível, para um sobrenatural emotivo, para ver em tudo manifestações palpáveis e concretas de sobrenatural e ver em tudo milagres, quase que imaginando um Deus que é obrigado a rasgar os Céus a toda hora, para a todo momento estar se manifestando de um modo sensível, de um modo que se possa intuir, que se possa ver quase face-a-face. E por aí, com uma propensão enorme para acreditar nos ludíbrios do demônio em vez das verdadeiras graças de Deus, desde que dêem o prazer de um contato com algo que está fora da natureza. E então dizer:
“Ó Deus, Vós sabeis que o cisma depositou na minha alma essa pobre tendência, e que eu Vos devo pedir que introduzais na minha alma maculada esse amor ao equilíbrio, à objetividade, por onde se ama e deseja o sobrenatural, mas por onde, de outro lado, não se está imaginando ver o sobrenatural a todo o momento segundo as regras que são contrárias à vossa sapientíssima economia.”
* Como devem rezar os católicos que foram infectados pela Revolução
Nós que temos origem católica, que somos, por assim dizer, católicos de quatrocentos anos, nós também não teremos alguma coisa a dizer? Nós não carregamos escórias liberais? Há uma coisa mais pessimamente hereditária do que o liberalismo? Nós não devemos dizer a Deus que nós trazemos para Ele a continuidade de uma Fé, mas de uma Fé poluída? Poluída por concessões para com um erro metafísico e moral oposto à doutrina católica? É todo o espírito da Revolução. E nós devemos pedir a Ele também:
“Ó Deus de meus pais, Deus que não quereis que o arbusto partido se rompa, nem que [se] extinga a lâmpada, a mecha que ainda fumega, vinde em meu socorro e fazei desse molambo de católico, infectado do espírito da Revolução, um católico contra-revolucionário integral.”
Aí está a oração de São Luís Grignion da qual apenas eu comentei uma palavra, mas é que havia tais avenidas que partiam daí, que eu não resisti à sedução de os comentar aqui com os senhores. Então, aqui está a oração de São Luís Grignion conjugada com aquela vigilância contra-revolucionária de que eu vos falei na última reunião.
É muito bonito nós falarmos de nossos pais. Sejamos vigilantes em relação a eles. É muito bonito nós falarmos de nossos avós, porque em geral nossos avós foram mais “entrosados” do que nossos pais. Então, não há um bater de peito nesse ponto? Não há um perdão para pedir pela família e um perdão para pedir sem “familiosa”? Aqui ficam algumas considerações as quais eu espero que V. Excia. Revmª. conceda a chancela da ortodoxia.
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Auditório Santa Sabedoria