Santo do Dia – 3/1/69 – 6ª feira . 3 de 3

Santo do Dia — 3/1/69 — 6ª feira

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Se ir à Lua é mais do que descobrir a América, por que Cristóvão Colombo recebeu um prêmio maior do que o dos astronautas? * Quando se desbota em nós o senso do igualitarismo e do anti-igualitarismo há um desbotamento do ideal

* Os astronautas descobriram não um mundo novo como Cristóvão Colombo, mas um corpo celeste novo: a Lua

Bem, então vamos estudar um pouquinho o artigo. Uma vez que os senhores leram o artigo, os senhores devem ter notado que o artigo, reduzido ao que ele tem de mais esquemático, desenvolve a seguinte idéia: que esses astronautas revelaram competência, revelaram coragem, e que eles, portanto, podem ser comparados a Cristóvão Colombo, porque eles, por assim dizer, descobriram um mundo novo.

É verdade que eles ainda não tocaram na Lua, mas parece que tecnicamente a coisa está praticamente feita. E nós podemos dizer que eles fizeram mais do que descobrir um mundo novo, porque descobriram um corpo celeste, enquanto Cristóvão Colombo apenas descobriu um outro continente dentro desse globo.

De maneira que na comparação com Cristóvão Colombo não entra nenhuma megalice do ponto de vista da importância do feito deles. Agora, se eles, tanto quanto Cristóvão, fizeram um feito comparável a Cristóvão Colombo, é razoável a gente fazer uma comparação entre o prêmio que Cristóvão Colombo teve e o prêmio que eles tiveram.

Bem, então eu lembro no artigo que Cristóvão Colombo fez com os reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela um tratado, tratado aliás extenso, volumoso, tratado esse em que ele se reservava o vice-reinado das Índias, uma porção de coisas, poderes tais que alguns sustentam que os Reis Católicos nem sequer podiam cumprir esse tratado à vista da importância do descobrimento efetuado.

A importância do descobrimento excedia o que se imaginava e tornava o tratado inexeqüível. Eu não entro nos pormenores, mas enfim, é isso.

Então a pergunta é o que é que vão receber esses astronautas como recompensa. E a resposta à pergunta os jornais já dão: um deles devia ser promovido de um grau; era um major, ia para tenente-coronel, qualquer coisa assim. Os outros dois tinham sido promovidos há pouco por merecimento, e parece que há uma lei que proíbe várias promoções sucessivas por merecimento. Eles não podiam, portanto, ser premiados. Eles iam receber aquelas recepções norte-americanas a respeito das quais eu não me estendi muito no artigo porque o artigo tem de ser comprimido, mas que é passar por uma rua com arranha-céu de um lado e do outro, e onde uma série de homens pouco mais ou menos histéricos e mulheres, jogam aquele papel picado. E grita: “Oh, oh, oh”! É o triunfo. Bem, mas é preciso compreender que esse triunfo, e eles, num automóvel embaixo, agradecem.

* Se ir à Lua é mais do que descobrir a América, por que Cristóvão Colombo recebeu um prêmio maior do que o dos astronautas?

Bem, esse triunfo nos Estados Unidos tem sido concedido a um mundo de gente, inclusive desfile de atrizes. A propósito de qualquer coisa, no fim do ano, sem ser para ninguém, otimismo idiota, lá vai papel picado para a rua, porque o Ano Novo vai ser muito bom, não se sabe porquê. Porque o outro foi ruim. Todos já sabem que no outro ano eles vão jogar papel picado para o ano, porque esse foi ruim. É o espírito americano, com os depósitos, as jazidas inestimáveis de idiotices que ele comporta.

Bom, agora, portanto é um triunfo muito pouco significativo. E, então, a desproporção entre a recompensa de um ─ Colombo ─ e de outro ─ os astronautas ─ é uma desproporção flagrante. Donde então eu pergunto qual é a explicação para essa desproporção. E eu mostro que se nós estamos num, se foi justo, é assim, se foi justo ─ Isabel e Fernando de Aragão darem um emprego grande para Cristóvão Colombo, eles se conformaram com os hábitos do tempo.

Os grandes ministros, os grandes generais, os grandes vencedores, os que prestavam à causa pública um grande serviço, esses recebiam uma paga muito grande. E aquilo começa então…(…)

O fato tem, o fato é real, em primeiro lugar. Agora, em segundo lugar, o fato tem várias explicações. Uma explicação que é preciso dizer desde logo é a seguinte: eu, se quisesse, eu poderia ter tornado tudo isso que eu disse mais claro do que está dentro do artigo.

Eu não tornei mais claro porque convém deixar essa contradição perambulando sob a forma de mal-estar no subconsciente do leitor, em vez de explicitar inteiramente. Porque é mais psicológico por uma série de razões deixar a dúvida meio incubada no espírito do leitor, do que rasgar o véu completamente.

Eu poderia ter…, isso que eu disse eu poderia ter formulado com muito mais incisão no artigo. Minha intenção foi de não pôr tão incisivamente. É portanto compreensível, que um leitor não veja a coisa com a clareza com que eu disse aqui.

Mas a questão é o leitor fora, outra questão é o leitor dentro do grupo. Do leitor dentro do grupo se deveria esperar isso. E como você diz bem, isso ocorre assim porque o leitor dentro do grupo não tem a sensibilidade bastante viva para o problema revolucionário.

Bem, e não tem, em última análise, porque o que joga aqui é a questão da igualdade. E o problema igualitário com todas as suas ramificações e nervuras, não diz tanto para nós quanto deveria dizer.

* Quando se desbota em nós o senso do igualitarismo e do anti-igualitarismo há um desbotamento do ideal

Se nós fôssemos mais anti-igualitários, nós seríamos muito mais sensíveis a toda a problemática e perceberíamos muito mais depressa.

Você percebe bem que o que está aqui é um artigo atacando uma posição igualitária, em nome de um pensamento anti-igualitário, de um ideal político e social anti-igualitário. Se nós tivéssemos esse ideal muito vivo nós logo no enunciado do problema perceberíamos o que estava em jogo.

Então, há um desbotamento de ideal por um desbotamento de um senso que é exatamente esse senso do igualitarismo e do anti-igualitarismo. Quando nós recebemos a vocação, recebemos esse senso muito vivo. Mas esse senso nos coloca em choque com o mundo, e faz de nós os patinhos feios do mundo, de acordo com o Santo do Dia do patinho feio que eu dei alguns dias atrás.

E muitos, de tal maneira se acovardam e se cansam diante da idéia de serem patinhos feios que o problema perde a graça para eles. Eles preferem não pensar. E aqui está a questão.

Eu dou a coisa sob um outro aspecto, talvez me torne mais claro. Os autores que escreveram sobre a guerra de 14-18 contam que dos dois lados, quer dos alemães e seus aliados, quer dos franceses e seus aliados, ao declarar a guerra, as tropas marcharam para o front com entusiasmo, tambores, clarins, etc., etc., e as famílias ao lado, flores nos fuzis dos soldados, etc., farda das bonitas que ainda usavam no começo da guerra, etc., não havia aviação. As artilharias estavam longe, não havia perigo de um bombardeio imediato, era uma festa.

O choque dos soldados foi quando eles se pilharam na trincheira e viram aqueles buracos horrorosos, úmidos, cheios de barata, fome, chuva, sujeira ─ porque não se podia tomar banho ─ e dias e meses na lama, e às vezes na doença e no reumatismo. Aí o amor à Pátria tomou outro colorido.

Bem, às vezes, no começo da nossa vocação, as coisas têm o aspecto de uma passeata. Depois chega a hora em que Nossa Senhora pede à gente: “Entre nas trincheiras da impopularidade”. “Eu vou tomar atitude e vou ser mal visto! Isso por quê? Porque eu quero participar do que Nosso Senhor sofreu. Porque Ele foi esbofeteado, eu quero ser esbofeteado, porque Ele foi calcado aos pés, eu quero ser calcado aos pés por amor a Ele. Aqui estou eu, eu quero enfrentar essa luta!”

E começa a coisa. E começa o isolamento,o sentir-se diferente dos outros, os ditinhos, aquela campanha toda da máfia que envolve a cada um. Não há um dos senhores aqui que não tenha sido envolvido pela campanha da máfia. Resultado, vem uma atitude… [ilegível] …em que o problema perde a graça por causa disso. Eu não sei se me exprimi bem ou não. Bem…

(…)

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