Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará)
– 2/1/69 – 5ª feira – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará) — 2/1/69 — 5ª feira
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A maior beleza de Chenonceaux está em ter sido construído junto às águas do Loire * A genialidade do espírito francês, ao justapor harmonicamente elementos opostos, fez de Chenonceaux um castelo encantador * Uma séria reserva a ser feita a Chenonceaux: ele tirava do homem daquela época a apetência do Céu * Um dos homens mais ricos da Europa sente-se pequeno para morar em Chenonceaux
* A maior beleza de Chenonceaux está em ter sido construído junto às águas do Loire
Propriamente para, sobretudo para a “geração nova”, eu creio que o verdadeiro modo de dar esse castelo...
Se alguns de vocês quiserem ficar aqui para olhar melhor, é à vontade.
...o verdadeiro modo de dar esse castelo seria o seguinte: não de permitir que os senhores fizessem uma longa statio diante do castelo, e em que ele se desgasta um pouco, porque todas as emoções desgastam, eu creio que nós sabemos bem disso, mas seria fazer o seguinte, correr um pano e, de repente, levantar o pano. Porque aí há uma espécie de palpitação, há uma espécie de sensação violenta. Esse castelo produz assim, um primeiro uhhh! assim, um primeiro inebriamento.
Disseram-me — Dr. Paulinho e Dr. Arnaldo parece que sabem grego e podem confirmar ou desmentir a hipótese — que entusiasmo quer dizer “cheio de Deus”. E seria, então, uma espécie de entusiasmo nesse sentido: “ahhh!”, uma coisa assim, uma espécie de sensação de algo de extraordinário que viu, de maravilhoso que viu, e que é a impressão que esse castelo dá à primeira vista.
Agora, qual é a razão do feérico que esse castelo tem? O que os senhores podem notar no castelo de interessante é o seguinte: os senhores imaginem que ele fosse um castelo em terra, e que aqui em vez de passar este rio, passasse uma estrada poeirenta comum; que esse material fosse marrom e que aqui por debaixo pudessem passar carroças, automóveis, etc., etc. Os senhores não têm a sensação de que o castelo perdia, pelo menos, cinqüenta por cento? Ou não chegam a ter essa sensação?
(Sr.—: Oitenta.)
Bem, os senhores estão vendo bem o que é que esse castelo explora. Ele é um castelo muito bem construído, muito bonito…
Eu tenho impressão de que vocês vêm mal; algum de vocês … você quer ainda passar por aqui Roberto ou você, Daniel, qualquer coisa? Se quiser… eu acho que cabe mais gente aqui.
É muito bem construído, muito bonito o castelo e eu vou mostrar, daqui a pouco, tudo quanto ele tem de elegante.
Mas o que particularmente esse castelo explora é o seguinte princípio: que todas as coisas que se refletem na água ganham em beleza.
Porque dos quatro elementos — a teoria grega dos quatro elementos não tem nenhum valor científico, mas ela tem, por assim dizer, um valor sensitivo, quer dizer, de fato, para se pegar e para ver há quatro elementos: o ar, a terra, o fogo e a água — a terra é terra-terra; os três outros elementos são mais bonitos do que a terra. Não é verdade que o fogo é mais bonito do que a terra? Não é verdade que o ar é mais bonito do que a terra? Não é verdade que a água é mais bonita do que a terra?
Entretanto, o que a água tem de especialmente bonito é que tudo quanto nela se reflete ganha em beleza. Ela não se reflete em nada, e tudo quanto nela se reflete ganha em beleza; e debruçado sobre ela, aquilo que nela se reflete toma um caráter de beleza celeste, de beleza de sonho, de beleza irreal, de mundo das maravilhas, para dizer tudo numa palavra só, de paraíso perdido.
A gente tem uma sensação paradisíaca vendo as águas plácidas do rio Loire correrem, tão plácidas, tão brancas, tão, tão marcadas pelo azul do céu, e os senhores perceberem aqui o castelo que se reflete, dando uma imagem de si mesmo sobre a água. A gente vê que a maior beleza do castelo é essa idéia originalíssima de o construir em cima de uma ponte, de maneira tal que ele, por assim dizer está como um cisne em cima da água. Isto é um castelo cisne. Poderia servir de símbolo da Casa de Pedra, de tal maneira sua natureza císnica aparece aqui.
Ele flutua todo leve sobre a água, ele é uma fantasia, uma coisa irreal, é um sonho.
Os senhores precisam, sobretudo, considerar esse castelo de noite. Uma noite bonita de luar, os senhores podem imaginar essas janelas todas acesas — aqui tudo, as mansardas, tudo aceso — os senhores podem imaginar uma festa aqui dentro, os risos, a música, os perfumes, as luzes que tremem no rio que corre, e os senhores devem ter a sensação de uma espécie de nau em que se leva uma vida de elevação, de requinte, de distinção, de nobreza, de grande classe; em suma, uma vida completamente diferente da vida contemporânea.
Se há algo que é o contrário de um arranha-céu “moloch”, de uma coisa, “bam!”, escarrapachada no chão, se há algo de contrário ao cimento armado, é bem exatamente isto, que parece não ter base, que parece flutuar completamente no ar.
* A genialidade do espírito francês, ao justapor harmonicamente elementos opostos, fez de Chenonceaux um castelo encantador
Agora, a partir desta idéia, a qual eu creio que pelo menos a maioria dos senhores será sensível, os senhores analisem quanta harmonia foi posta pelo espírito francês dentro disso.
Os senhores percebem que o castelo é feito, constituído por três elementos distintos.
O primeiro elemento é propriamente a ponte. Os senhores estão vendo que há uma ponte em cima da qual se construiu um castelo.
Então, depois os senhores têm o segundo elemento que é um castelo… há uma parte maciça, que contrasta com essa, porque enquanto esta é muito leve — é tão leve que se a gente imaginasse o castelo chegar até aqui, perdia a graça — esta ainda é medieval. Os senhores estão vendo as torrezinhas agudas — é um período de transição entre a Renascença e o medieval — as torrezinhas agudas que flanqueiam o castelo e que dão ainda idéia de uma velha fortificação.
Os senhores vêem o contraste entre estes arcos tão diáfanos e tão leves de um lado, e depois essa base pesada aqui, onde, entretanto, se tem a impressão que passa água. Mas é uma água que a gente tem impressão que sai das masmorras, que banha prisioneiros e provoca tormentos, que provoca umidades com lagartixas, com rãs, com mofo. Aqui é uma espécie de reino tenebroso; olhem essas janelinhas para que porões ou para que cárceres tremendos dão acesso, não é verdade?
Quer dizer, pousando no rio e imergindo nos tormentos, algo ao lado das delícias. E esse misto de firmeza, estabilidade e delicadeza forma um contraste harmônico de qualidades opostas que exatamente acentuam o encanto dessa parte. O sólido disso ainda acentua o encanto dessa parte, não é?
Esta chaminezinha tem um papel extraordinário. Os senhores querem ver? Imaginem o castelo sem essa chaminé. Vários dos senhores sorriram, porque a gente sorri, não é? Que papel pode ter uma chaminé numa coisa, não é? Mas é o quê? É que essa chaminé é uma espécie de ponto final vivo e agudo para dar a entender que o castelo acabou. E altaneiro. Ela tem uma função extraordinária aqui.
Bem, aqui o castelo não toca na terra. Os senhores vêm que ele se prolonga por uma ponte levadiça que chega à terra. E aqui, como uma espécie de último eco do castelo, um torreão, que deve ser o resto de uma velha fortaleza medieval, sólido, atarracado, grande e que leva a sensação de estabilidade ao último ponto.
Então, os senhores têm estabilidade máxima, estabilidade média, leveza diáfana.
Os senhores estão vendo os três elementos sucessivos que dão um encanto ao castelo, que explicam a beleza.
Os senhores querem ver o castelo perder muito? Imaginem sem essa torre de cá. Não é verdade que fica faltando algo? Não é? O que é que fica faltando? É um imponderável. O castelo fica leve demais, ele fica sem graça. Para pagar e resgatar tanta leveza é preciso este murro em cima do chão, não é?
E é exatamente nisso que está a inteligência do espírito de medida do francês. O espírito de medida do francês todo mundo costuma dizer que consiste na simetria. Isso é para os bobos. A simetria é um dos modos pelos quais os franceses externam sua capacidade de medida. Aqui os senhores estão vendo qual é a medida: leveza, leveza, leveza, está bom: compensa a leveza com isto daqui.
Bem, agora outro contraste: ao pé disto, que bem pode ser uma masmorra ou um arquivo, os senhores encontram um jardim esplêndido. Eu não sei se os que estão de longe chegam a ver o jardim. É um quadrilátero (talvez eu me retirando um pouco, não é?), é um quadrilátero com desenhos em vegetação, lindíssimos, com aquela grama esmeraldina da Europa, que aqui não se conhece.
Bem, uma interrupção, mais longe outro jardim. Bom, esse jardim é arranjado e penteado de tal maneira que não podia a natureza ser mais arranjada e mais governada do que está aqui. Em compensação, os encantos de uma arborização puramente silvestre se encontram para o lado de cá.
E os senhores têm mato, mato, mato e essa ilhinha cheia de mato.
Os senhores imaginem que aqui não tivesse mato, tivesse grama, já perderia o panorama. Quer dizer, tudo que parece espontâneo, foi estudado com uma sagacidade extraordinária para um efeito de conjunto. Mas com uma tal perfeição que a nação… a noção de harmonia nasce sem que a maior parte das pessoas possa dizer de onde ela nasceu.
O sumum do bonito, da harmonia…
Eu não posso ir mais para trás, ouviu?
…o sumum do bonito, da harmonia consiste, exatamente, em que a pessoa não possa precisar no que é que essa harmonia consiste. E preciso muita atenção e muita explicitação para a gente definir no que é que a harmonia está.
Aqui os senhores têm uma sinfonia de harmonias feita de um conjunto de coisas que dão esse primeiro entusiasmo, mas que depois resistem a uma longa visão. Por quê? Porque a análise dela satisfaz o espírito.
Não é uma sensação “marcusiana”, mas é uma sensação da razão, repentinamente satisfeita por algo de ótimo e que então repercute nos sentidos.
* Uma séria reserva a ser feita a Chenonceaux: ele tirava do homem daquela época a apetência do Céu
É inútil dizer aos senhores, que do ponto de vista ultramontano, haveria reservas a fazer a esse castelo que eu acabo de descrever tão esplendidamente. Como… — não, eu não descrevi esplendidamente — que eu acabo de descrever como tão esplêndido.
O castelo… a reserva que se deve fazer em relação ao castelo é a seguinte: é que ele, de tal maneira força e acentua a idéia da leveza e a idéia do prazer, sem nenhuma nota sobrenatural ao lado, que tira ao homem a vontade do Céu.
É ou não é verdade que se se oferecesse ao habitante desse castelo de viver cinco mil anos, ele aceitaria imediatamente? Se se oferecesse a ele de fazer o sacrifício do Tsuneo ele acharia que a gente está louco. “Como? Eu, dono de Chenonceaux oferecer minha vida por qualquer coisa? Eu não vou oferecer Chenonceaux por qualquer coisa. Logo não ofereço minha vida. Acabou-se, está compreendendo? Eu fico aqui”.
Quer dizer, o desejo de sacrifício, o recolhimento, a apetência de bens mais altos que os da terra, é quase excluída aqui.
Aqui se provoca a apetência dos mais altos bens da terra. Mas há qualquer coisa que fecha o caminho do Céu. Para quem vive na época de hoje, eleva. Para quem vivia nesta época, este castelo representava uma baixa de nível. Não sei se eu torno isto claro.
* Um dos homens mais ricos da Europa sente-se pequeno para morar em Chenonceaux
Bem, um fato apenas para terminar. Bem para cá — um lugar que estaria onde está aqui minha régua, meu bastonete —, bem, bem para cá existe (o “Catolicismo”, aliás, uma vez já publicou isso), revestido de heras — e eu vi com as heras bonitas da Europa: um tipo de hera que quando chega o outono vai ficando cor de vinho e cor de bronze, de maneira que a gente tem a impressão que se esmagasse aquela hera daria uma bebida deliciosa — bem, revestido dessas heras tem a casa onde moravam os empregados do castelo.
Os senhores sabem que este castelo não pertence a uma dinastia. Ele pertenceu aos reis da casa de Valois, se não me engano, e depois, com os confiscos da Revolução Francesa, uma coisa e outra, passou — vendas sucessivas, etc. — para um nouveau-riche, um fabricante de chocolate chamado Meunier.
O castelo está todo mobiliado e ele dorme na casa dos empregados, porque se sente pequeno demais para morar nesse castelo. E, entretanto, ele é uma das maiores fortunas da França e, portanto, da Europa.
(Sr.—: … [inaudível] …)
É um homem fabulosamente rico. É um “creso” francês.
Pois bem, ele sente que ele, ali dentro, faria o papel de um sapo dentro da gaiola do rouxinol.
[Risos]
Não é possível. Monsieur Meunier não pode morar aí, não é? E aqui está o aspecto… o último período e o último episódio histórico de Chenonceaux.
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Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará