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Capítulo Minor (Sede de Itaquera) — 1969

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Capítulo Minor

... [faltam palavras] ...E o próprio da TFP é de visar continuamente em tudo à perfeição. Nós não podemos nos satisfazer com o satisfatório. A palavra satisfatório, de algum modo e sob um certo ponto de vista deveria ser cancelada de nosso vocabulário porque as coisas satisfatórias para nós não satisfazem.

Ou nas coisas essenciais nós chegamos ao exímio ou nós não servimos a Nossa Senhora como Ela merece ser servida. Nós não servimos a causa da Contra-Revolução como as circunstâncias postas pela Providência exigem que essa causa seja servida.

Nós somos tão poucos, os adversários são tantos, são tão imensos. Se nós deitarmos nesse serviço todo amor que nossa causa merece, acontece como conseqüência necessária que nossa causa não chegará à vitória que nós queremos. Ou será uma vitória muito menos brilhante do que aquela que ela merece alcançar. Quer dizer, é preciso que com isto nós nos ponhamos inteiros. E para nós nos pormos inteiros é preciso nós querermos fazer esse serviço com perfeição. E esta perfeição consiste no que nós estejamos completamente integrados nas nossas finalidades e na nossa doutrina.

E para nós estarmos integrados nas finalidades gerais e nas finalidades de cada campanha, para nós estarmos integrados na nossa doutrina é imprescindível que nós demos um passo a mais do que o passo até aqui dado.

O passo até aqui dado nos proporcionava uma visão de nossa doutrina que poderia parecer uma silhueta. Os senhores sabem que diferença há entre um vidro transparente e um vidro fosco. Um vidro fosco deixa coar o suficiente de luz para que a gente estando num quanto escuro e havendo vidro, não havendo diante de nós o vidro e de outro o quarto aceso nós vejamos passar a sombra de uma pessoa, a silhueta de uma pessoa.

Nós podemos dizer que uns pelos outros nós conhecemos a silhueta da doutrina do Grupo. Mas dizer, que nós conhecemos a figura da doutrina do Grupo com todos os seus pormenores e exatamente nós não podemos dizer.

Isto é verdade da doutrina do Grupo enquanto doutrina, é verdade enquanto doutrina da ação. Nós temos toda uma teoria da ação. Nós temos toda uma teoria da ação, e também a esta nós conhecemos como uma silhueta. Se os senhores quiserem, nós conhecemos como alguém conhece uma sala de teatro quando pega o binóculo e não ajusta bem a forma de visão de cada um. Percebe-se bem, vê o palco, vê a platéia, frisas, camarotes, percebe-se mais ou menos se o teatro está cheio ou está vazio, mas não se vê a coisa que se vê com a perfeição como quando o binóculo está ajustado.

Ora, o que é que é esse ajuste de binóculo? Este ajuste de binóculo é um conhecimento tal que só se pode adquirir pelo estudo sério e metódico. E para nós fazermos este estudo sério e metódico é preciso nós tomarmos o hábito de conviver com os problemas doutrinários. De fixar prolongadamente a nossa atenção nas questões doutrinárias.

Esse hábito poderia e deveria ter sido adquirido ao longo destes tantos anos em que nós caminhamos juntos nas veredas de Nossa Senhora. Mas a realidade é que ele não foi adquirido.

O resultado é que nós não podemos senão fazer um esforço para recuperar o tempo perdido. E esse esforço se realiza através de imersões prolongadas dentro do mundo da doutrina, não há outro meio.

Essas imersões como a que os senhores fizeram aqui importam num abandono provisório de todas as preocupações que habitualmente nos atraem tanto que por causa delas fugimos das doutrinas.

Depois que todas essas distrações estão afastadas de nós, nosso espírito não tem outra coisa com que se entreter senão com a doutrina, e então se fixa mais facilmente sobre a doutrina. E é esse hábito de fixação doutrinária que se trata de adquirir .

Os senhores já estão vendo o que é que isto quer dizer. Essa fixação não pode ser adquirida só por esses dias que os senhores passaram aqui. Ela tem que ser adquirida por várias imersões destas. Isto pressagia portanto, e se as circunstâncias nos permitirem eu convidarei os senhores para vários Capítulos desses. Até que se transforme para nós numa segunda natureza tomar um assunto doutrinário e lê-lo, e nós o leiamos então com interesse.

Mais do que com interesse, com paixão. Porque é só por meio desse tirocínio que se chega a ter a vivência – já que estamos falando para as gerações de vivência dupla. Primeiro: que nada é mais real do que a teoria; segundo: nada é mais prático do que a doutrina. Eu dou aqui as palavras teoria e doutrina sentidos iguais.

Quais são as posições erradas diferentes destas. É que o homem que quer conhecer a realidade precisa deixar a solidão, deixar o livro e começar a tratar com uma porção de outras pessoas. Esta é a posição falsa, muito freqüente nas gerações que se seguiram a minha… [faltam palavras] …

(Sr. –: Dr. Plinio a realidade dentro do Grupo não seria para conhecer, dentro do Grupo, não fora.)

A mesma coisa se dá dentro do Grupo. O indivíduo está estudando, está rezando, se tem outros pertencentes ao grupo que estão conversando numa sala ao lado, a sensação dele é que a realidade está naquela sala onde se conversa. Que ali está se elaborando algo de novo que ele não sabe. E que ou ele está ali presente, ou a vida do Grupo anda e ele fica à margem. Ele perde o automóvel.

E então a mesma tentação que então já não é de ir - eu estava imaginando a sede sozinha - mas imaginando a sede cheia, a primeira tentação não é de ir para a Praça, mas é de ir para sala onde está se conversando. Porque assim ele fica sabendo da última pilheira, ele fica sabendo da última novidade, ele fica metido num fluxo de amigos influentes e ele portanto por causa disso entra na vida.

A teoria não é a vida, é um papel impresso. A vida é o fato concreto que se desenvolve à margem dele enquanto ele está estudando.

Bem, É claro que o livro não contém a vida inteira. É claro que para a vida é preciso o livro a realidade palpável. Eu não preciso insistir com os senhores para pegarem na realidade palpável – ao menos a grande maioria dos senhores não preciso insistir – eu preciso insistir para pegarem na teoria, porque a tendência é fugir da teoria imaginando que nela não há nada da vida. Ora, é falso.

A teoria verdadeira, a teoria bem apanhada, a teoria não livresca, a teoria como no Grupo procuramos fazê-la não é algo de fossilizado fora da vida, mas é o suco da vida.

O suco do processo revolucionário está na RCR por exemplo. O suco do que os Grupos Proféticos estão pretendendo fazer ou não fazer, isto está nos documentos que os senhores acabam de estudar, nos comentários que os senhores acabam de ouvir.

É indispensável complementar com a vida. Mas não adianta nada esta vivência se ela não for possantemente completada por uma teoria.

Bem. Eu disse outra coisa. Que nada é mais prático do que a doutrina.

A posição errada é a seguinte. Que a prática é feita de experiência, que a experiência é feita de fazer e que portanto a reflexão não adianta para a experiência, o que adianta é fazer. A reflexão é até o contrário da experiência, é o não fazer.

Bom. Que a experiência é feita de fazer entrar pelos olhos. Mas que não há experiência verdadeira sem que além do fazer tenha uma reflexão, isto ainda é mais evidente.

Que a experiência é um fazer, entra pelos olhos. Mas que a experiência não é só um fazer mas é uma reflexão sobre aquilo que se fez é ainda mais claro.

(Sr. –: O senhor dá mais importância à reflexão do que à experiência, numa hierarquia?)

Dou mais importância à reflexão do que à experiência incondicionalmente, considerando embora experiência indispensável, e gravemente indispensável. E quanto mais alto é o nível da atividade a que a gente se dedica, tanto mais a reflexão é mais importante do que a experiência. Eu vou daqui a pouco dar um exemplo. … [faltam palavras] …

Dois exemplos papáveis do que eu estou dizendo num Laboratório. Os senhores imaginem num Laboratório de Pesquisas Atômicas. Está…são dois homens trabalhando. Um servente que está limpando o chão do Laboratório, porque a pesquisa vai sucessivamente sujando. Vamos dizer que o chão desse Laboratório esteja limpo de hora em hora.

Está um cientista fazendo uma experiência para aperfeiçoar uma bomba atômica. O servente para ser bom servente suas reflexões sobre seu minúsculo metier, ele saberá como pegar a vassoura. Ele saberá naquela sala por onde é melhor começar a limpar, enfim, se ele for um bom servente ele tem mil pequenas reflexões que fazem da limpeza dele uma limpeza ideal. Ele sabe que ácido é melhor do que outro ácido para tirar tal mancha etc., etc. Ele tem mil reflexões modestas.

Agora, o sábio que está fazendo a experiência, ele também experimenta, mas como a reflexão é mais importante do que a experiência que ele está fazendo. A experiência é apenas uma pista de pouso para a reflexão levantar. E o suco do trabalho do Laboratório é muito mais a reflexão sobre a experiência, do que é indispensável a experiência sem a qual não há laboratório. Aliás há médicos, há engenheiros aqui nesta sala e estão fartos de saber o que eu digo.

[faltam palavras] …de espíritos que tem não só o hábito da reflexão, mas há sede da reflexão. Não só a sede da reflexão mas uma profunda compenetração da necessidade da reflexão. Isto é a contra-revolução… [faltam palavras] ….

[faltam palavras] …E se o Reino de Maria tem que ser o Reino da reflexão e não pode deixar de ser. A Idade Média foi a era de reflexão, foi a era profundamente mais meditativa que houve na História. Se o Reino de Maria tem que ser o Reino de Maria tem que ser o reino da reflexão… [faltam palavras] …que tenha não só o hábito da reflexão mas a sede da reflexão, não só a sede da reflexão mas a profunda compenetração do primado da reflexão.

Ora, o que eu encontro no Grupo no seu atual estágio é um atraso ao hábito da reflexão. Esse atraso ao hábito da reflexão provém de uma falta de generosidade no fazer os sacrifícios que são necessários para a gente adquirir este hábito.

[faltam palavras] …violento. Quer dizer, uma meditação que é muito além do que a gente está habituado. Compulsório. Quer dizer, uma coisa que quando chega a hora de pensar a pessoa não pode fazer outra coisa, tem que pensar, tem que ler. Depois não tem outra coisa para fazer, não tem brinquedinho.

Bem. E terceira coisa coletiva. Eu não sei se para os hispanos americanos aqui presentes e os que não estão presentes o coletivo é tão importante do que para os brasileiros, ou para o abrasileirado. Brasileiros de origem portuguesa, italiana alemã, Síria, pouco importa. Todos são do gênero. Quando eles se sentem sozinhos começam a sentir uma desolação tremenda quando está todos juntos pensando eles tem uma consolação que é a seguinte: “Está acontecendo uma coisa junta aqui que é pensar, e ao menos não nos da os complexos da praça pública. Isto aqui é uma praça.”

Os senhores riem porque os senhores sentem a realidade da coisa. Nós estamos fazendo juntos a coisa, nós estamos fazendo algo, nós somos hipergregários, nós brasileiros.

Bem. E o resultado é que ou a gente põe… [faltam palavras] …porque sou brasileiro e sinto em mim. E há uma outra consolação, é de os senhores serem de lugares muito diferentes. Os senhores sentem que isto que está aqui vai repercutir em muitos lugares. Então dá uma espécie de consolação, “eu agora estou quieto, mas eu estou ajudando a acontecer numa porção de lugares, até o Oceano Pacífico vão cair respingos do que eu estou fazendo aqui. Bom. Então eu me consolo do meu isolamento”. Nosso supergregarismo encontra uma consolação nisso. Nesta sala assim apinhada etc. , nós nos sentimos consolados.

Então aqui está. E está estudado portanto um meio para nós pensarmos e nós nos habituarmos à reflexão.

Então. Primeira necessidade da reflexão é sabermos inocular a reflexão ao reino de Maira. Segunda necessidade já foi dita anteriormente, e é nós sermos membros… [faltam palavras] …capazes de refletir as nossas tarefas e executá-las refletidamente.

Agora, terceira vantagem da reflexão. É uma coisa incrível mas os senhores me creiam.

Vamos por a coisa debaixo de um ponto de vista que se pode chamar um pouco mega, mas eu vou por. Porque desde que haja vantagem para a causa de Nossa Senhora nós não devemos recuar diante de nada. Eu portanto vou por a coisa.

Pela graça de Nossa Senhora eu tenho sempre gente em torno de mim, e eu tenho um problema não é de atrair as pessoas mas é de conseguir um pouco de tempo para respirar.

Bom. Donde é que vem isto fundamentalmente? É uma coisa naturalmente que sem a graça não existiria. Mas fudamentalemente vem do fato de que eu reflito muito. E que cada vez que está comigo é porque houve alguma coisa nova.

Se eu começasse a repetir as mesmas coisas os senhores começavam a bocejar, babar, daqui a pouco estavam fazendo outra coisa. É a idéia de que estando comigo poreja sempre algo de novo ainda que seja na mais insignificantes das conversas, algo de novo sai, e isto é que atrai.

Qual seria a capacidade de atração do Grupo se em todas as nossas sedes os nossos Estados Maiores tivessem a incomparável atração da reflexão? E soubessem comunicar essa reflexão ao ambiente.

Os senhores estão vendo bem que o Grupo só crescerá na medida em que o seu ambiente estiver saturado de reflexão. … [faltam palavras] …

Se se passa da ferida para a infecção, se poderia dizer que podem vir depois outro fenômeno: brigas, rivalidades, amores próprios, divisão, em alguns por fim apostasia. É gangrena. O curso das coisas é este.

De que reflexão se trata. De uma reflexão das coisas à luz da fé, à luz da RCR. Talvez eu faça amanhã uma conferência sobre o que é que é a RCR. Como aproveitar a RCR para refletir, para raciocinar? É possível. Eu não sei se terei tempo, se haverá meios, se o horário dos senhores permitirá etc.,etc., mas é possível que eu faça essa conferência.

Bem. Os senhores têm aqui a razão pela qual este Capítulo Minor tomou este caráter. É para que os senhores capitulares façam um primeiro esforço e saiam daqui com a alma orientada para a reflexão, para a sisudez, para o recolhimento, para a gravidade, para a dignidade, para um estado de alma por onde se faça tudo sapiencialmente, é para a Sabedoria.

Isto são grandes jornadas de Sabedoria, grandes dias de Sabedoria. E esta sabedoria supõe esta disciplina compulsória dados os antecedentes que nossa falta de generosidade acumulou.

É por isso também que eu quis convidar aqui entre os capitulares alguns que não são propriamente cúpulas de grupo, mas que são pessoas que tenham um desenvolvimento intelectual mais avantajado e que podem servir de modo inestimável para impregnar a vida do grupo deste gosto da reflexão. Isto é o primeiro sentido desses dias que os senhores tiveram aqui.

Os senhores verão daqui a pouco, isto com aplicação que eu vou fazer. Eu vou procurar correr um pouco no que eu vou dizer agora. Eu vou passar a aplicar o que eu acabo de dizer da reflexão para a campanha que vai ser feita. Eu vou apresentar a situação como ela se passa. … [faltam palavras] …

Nós podemos vir a ter os heróis prodigiosos, nós podemos ter os guerreiros fabulosos. Eu digo: meus caros, sem o hábito da reflexão eu não acredito em herói durável e guerreiro durável.

Os senhores compreendem então porque é que eu digo que isto aqui pressagia – isto meus caros, ainda que seja duro para os senhores, eu até acho que não é duro, os senhores vão sair daqui com a alma muito mais leve do que entraram e sem nenhuma comparação, embora esses dias possam parecer duros. Isto aqui pressagia o hábito do Grupo. Na medida em que as circunstâncias permitirem, eu quero fazer isso com a equilibrada freqüência que essas coisas comportam.

Quer dizer, não é a toda hora, mas com uma freqüência equilibrada. Porque acho isto indispensável para nós nos transformarmos.

Bem. Alguém me dirá: “Mas Dr. Plinio, o senhor quer este grau de reflexão também para as bases do Grupo? O senhor quer este grau de reflexão para as pessoas que às vezes tem uma inteligência menor até do que a média”?

Eu digo o seguinte: “Inteligência? Eu zombo de ti! Eu escarneço de ti! O importante para o homem não é ser muito inteligente. O importante para um homem é que ele ame refletir. O homem que ama a reflexão feita à luz do sobrenatural, este homem ama o que D. Chautard chama oração: “A oração é a elevação da mente a Deus.” Isso é oração. Elevação da mente a Deus.

Não é só dizer, é também, é eminentemente dizer Padre Nosso, Ave Maria, etc., mas não é só. Está muito longe de ser só.

Bom. Esta graça da oração é uma graça especial que é preciso pedir, e que estou chamando aqui de um termo terreno, profano, reflexão.

Bem. E muitas vezes a reflexão e ou a oração dos menos inteligentes é muito mais abençoada e traz mais luzes do que a dos mais inteligentes. E portanto eu volto a dizer: “inteligência, eu escarneço de ti, eu tripudio sobre ti.”

Alguém dirá: “Mas como assim! Eu fico atônito!” Eu digo: “Eu disse para ficar atônito! Eu disse para isso!”

Por que? Porque é verdade que a inteligência é no meio humano muito bom para a gente exprimir, para a gente andar nas vias da oração. Mas o sobrenatural é tão mais importante, e S. Tomás de Aquino fez muito mais sendo Santo do que sendo inteligente para sair a Suma Teológica.

(Sr. –:Então a virtude da Sabedoria do Grupo tem que ser totalmente do lado sobrenatural, pelo lado da reflexão.)

A reflexão feita na base das raças específicas da nossa vocação. Quer dizer, quem refletir sobrenaturalmente – não apenas na base da doutrina católica genericamente considerada – mas com as luzes que ela toma dentro de nossa vocação, esse alcançará a graça da reflexão. Isso seria o possível tema de uma possível conferência minha sobre a luz da RCR, que ou seria a conferência de amanhã, ou seria a conferência do próximo Capítulo minor que nós façamos.

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Sede de Itaquera