Reunião Normal (Auditório da Santa Sabedoria) – 30/12/68 – 2ª feira – p. 13 de 13

Reunião Normal (Auditório da Santa Sabedoria) — 30/12/68 — 2ª feira

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Se a Revolução se mostrasse inteiramente como ela é, muitas pessoas se colocariam contra ela * Na “Bagarre” provavelmente ocorrerão guerrilhas urbanas e rurais, bombardeios atômicos, epidemias, manifestações diabólicas, e diversas formas de sofrimentos expiatórios e punitivos * O “Grand‑Retour” comportará a volta à plenitude da sabedoria, ou seja, toda a sabedoria de que a humanidade batizada é capaz * A virtude da sabedoria está muito relacionada com o Segredo de Maria * A hierarquia já foi vista por alguns como uma cascata de desprezos entre as pessoas, mas numa outra visão vê‑se que ela é uma cascata de amor * A questão do igualitarismo é, de todas, a que mais enfurece o homem, e o acirramento provocado por ele levará ao maior furor da História * A Igreja usa muitas exterioridades e símbolos, pois para o comum das pessoas a doutrina se exprime nas aparências concretas * A Revolução promoveu o igualitarismo muito mais mudando as tendências e os símbolos do que mudando as idéias explícitas * Quando o acirramento chegar ao seu ápice natural, ocorrerá o maior furor da História, e com ele virá o “Grand‑Retour”

* Em certo momento todas as pessoas perceberão a maldade da Revolução, e então muitas aderirão a ela; porém uma minoria ponderável se voltará para a TFP: será a hora do “Grand‑Retour”

Eu sei utilizar mal o quadro‑negro, mas poderia ir pondo uns apontamentos no quadro‑negro, para ir fixando o roteiro da reunião, se os senhores acham que seria interessante. Quais são aqueles que gostam de uma reunião que se faça com base no quadro‑negro, levantem o braço. Então, vou dando o assunto.

Eu disse aqui, numa reunião de sábado, que o grande fato que deveria despertar o Grand‑Retour era uma evolução tal da Revolução que, em determinado momento, todas as pessoas do mundo revolucionário ficariam vendo bem a Revolução considerada em seu aspecto global, e ficariam percebendo o sentido igualitário e anárquico da Revolução.

E [eu disse também] que quando o mundo todo percebesse isso, então se daria uma modificação no estado dos espíritos. Muitas pessoas adeririam inteiramente a esse mal. Mas uma minoria, que eu considero que seria uma minoria ponderável, não aderiria a esse mal. Ela [essa minoria] pelo contrário, caminharia para nós. E essa minoria assim seria a minoria que faria o Grand‑Retour, e faria o Grand‑Retour exatamente a propósito disso. E é por causa disso que teríamos depois então o Reino de Maria. O Reino de Maria seria feito pelas pessoas que assim se convertessem.

É claro que segundo essa concepção do Grand‑Retour, não seria só esse desvendar completo da máscara da Revolução que daria lugar ao Grand‑Retour, mas que outros fatos concorreriam para isso: sofrimentos, tormentas, aparecimentos de demônios, talvez alguns milagres também, etc., tudo junto concorreria para para isso. Mas o esquema, então, seria o seguinte:

A Revolução vai cada vez mais mostrando o seu caráter igualitário e mau;

Cada vez mais todos vão percebendo a unidade que há nisso e a importância do problema igualitário;

A partir do momento em que o problema igualitário for percebido em toda a sua extensão, ele é de uma tal natureza, ele mexe tanto com o homem, que a Bagarre tomará todo o seu gume por causa disso;

A partir desse momento também o pendão da TFP começará a atrair gente no mundo inteiro, porque será a hora em que os espíritos estarão preparados para o Grand‑Retour.

* É com a rejeição ao igualitarismo que se fará o “Grand‑Retour”

Eu não sei se essa tese está clara, e, se antes de eu dar a demonstração da tese, o enunciado da tese está claro. Esse enunciado tem um pressuposto, que eu formularia da maneira seguinte: por enquanto, no mundo atual, poucas pessoas percebem que o igualitarismo penetrou em tudo, não percebem até onde vai o igualitarismo, e vivem num estado de espírito híbrido que é, ao mesmo tempo, de namorar o igualitarismo e de ter medo dele.

De maneira que gostam das coisas portadoras do mau perfume do igualitarismo. Mas gostam um pouquinho. Quando esse mau perfume se acentua, as pessoas, em proporção diversa, começam a fugir, mas com o correr das gerações, a insensibilidade para o mau perfume do igualitarismo vai diminuindo e o número de pessoas apetentes vai aumentando.

Mas, em sentido oposto, recentissimamente, aparece um certo número de pessoas mais ou menos indiferentes ao problema igualitário e que por causa disso são mais tendentes a se horrorizar com o igualitarismo do que em amá‑lo. E é em parte com essas pessoas, em parte com aquelas que levadas pela visão completa do igualitarismo o rejeitarão, em parte com umas, em parte com outras, que se fará o Grand‑Retour.

Há uma certa indiferença diante do igualitarismo. O problema revela certa atonia. Há três categorias que eu faço figurar diante do igualitarismo: a primeira categoria seria daqueles a quem apraz o igualitarismo, [ou seja, que dele] gostam. Essa eu divido em duas categorias: aquelas que, gostando, têm uma apetência para um igualitarismo cada vez maior.

Quer dizer, à medida que a Revolução cresce, se acentua, elas vão tendo uma apetência para um igualitarismo cada vez maior. A outra categoria [é a] de pessoas que gostam, mas à medida que a revolução cresce vão tendo para o igualitarismo uma apetência menor, vão ficando impressionadas.

A segunda categoria é das pessoas que são contra o igualitarismo. Vamos dizer, não gostam. São os ultramontanáveis, os ultramontanos, enfim, uma pessoa que tem direção para nossa posição.

A terceira posição é das pessoas que são, vamos dizer, átonas em face do problema igualitário, não sentem o problema igualitário na sua carne. Dir‑se‑ia que nelas o processo igualitário morreu. Toda essa oposição entre igualitarismo e anti‑igualitarismo morreu. Mas, por causa disso, elas são tendentes a considerar com um certo bom senso a questão e, portanto, são um tanto ultramontanáveis.

Que diferença há entre esse e esse? É que esse foi picado pelo problema e tem antipatia. Esse é portador da tradições da Idade Média. Esse não é portador de nada, tem um mero bom senso.

[Esquema dado no quadro‑negro]

Categorias de pessoas ante o igualitarismo:

1º) as que gostam: a) gostam sempre mais

b) apetência vai diminuindo

2º) as que são contra (ultramontanáveis)

3º) as que são átonas (bom senso)

Onde se encontra isso aqui? Encontra‑se sobretudo numa camada popular muito baixa, e em pessoas dessa camada que vão se elevando para a pequena burguesia. O problema igualitário, ou nunca desceu até lá, ou morreu: não se sabe bem. Não sei dizer bem como, mas essas pessoas são meio indiferentes. Pelo menos aqui no Brasil.

Vamos dizer que a tese se compõe de um pressuposto que é o estado atual da opinião pública.

[Uma pessoa pede um exemplo de pessoas que não sentem o igualitarismo]

Eu dou dois exemplos diferentes: você pega certas pessoas a quem você diz, por exemplo, o seguinte: “Eu acho que a pessoa deve andar de paletó, gravata, e camisa direito”, e a pessoa se eriça toda. Ela fica toda arrepiada. Essa pessoa demonstra presença, pelo menos no seu subconsciente, de todos os preconceitos anti‑igualitários da Revolução.

Agora, você pega uma pessoa que está nessa categoria aqui, você põe o problema, esse problema para ela é novo, ela vai tentar situar‑se dentro do problema sem se irritar — ao menos no primeiro momento — sem se apaixonar, e considerando de modo tal que você percebe que ela não tem dentro de si, presente, todo o processo histórico da Revolução. Ela é alheia a esse processo histórico.

(OF: É possível haver uma pessoa com uma atonia em face de uma certa classificação de igualitarismo e um apego muito grande ao igualitarismo “tout court”?)

Pode haver. Mas são situações intermediárias, quando eu aqui estou analisando as situações típicas. Em todas as classificações assim existem as situações intermediárias.

Se os senhores quiserem a explicação completa então, nessas pessoas aqui a tradição da Idade Média está em decomposição rápida e a Revolução está num crescendo rápido. Nessas pessoas aqui, pelo contrário, a tradição medieval está num decrescendo lento, pelo menos num decrescendo mais lento do que é rápido o crescendo da Revolução. São velocidades desiguais. Nessa aqui ela está decrescendo também, mas ela decresce numa velocidade menor do que a rapidez com que cresce aqui. Aqui, não, é o contrário.

(Sr. –: Não pode haver crescendo nesse grupo?)

Pode, mas não é a situação típica, clássica. Nesses, é o contrário: a tradição medieval é, por algum título, mais forte do que a Revolução, e ela impõe uma espécie de freio ao processo revolucionário. Um freio mais ou menos circunscrito, mas impõe um freio. E aqui não há nenhuma das duas heranças históricas. É uma pessoa que está à margem dessa continuidade histórica.

* Se a Revolução se mostrasse inteiramente como ela é, muitas pessoas se colocariam contra ela

Esse, então, é o pressuposto, é a situação pressuposta pela tese. Agora, à vista dessa situação, a pergunta é: como é que essa gente reagirá em face da Bagarre? É uma situação presente e a gente pergunta, à vista de uma situação futura, como é que essa gente, que eu atualmente descrevo assim, reagirá? Essa é, vamos dizer, a nervura do problema.

Então, eu digo as seguintes coisas. Primeira tese: é uma tese de caráter psicológico e geral.

Primeira consideração: é que o problema igualitário, uma vez que a pessoa o fixe, seja obrigada a tomar posição perante ele, domina a pessoa inteira, como o problema princeps do homem. É o que esbarra bem na pergunta do Fábio. É preciso depois explicar em que sentido é o problema princeps.

Segundo: uma verificação: é que a Revolução tende, ou melhor, a Revolução até aqui tem incubado a sua tese em afirmações implícitas. Ela tem afirmado sua tese implicitamente, em situações, em formulações, etc., etc. No grosso da maioria das vezes ela formula sua tese implicitamente. Raras vezes ela formula explicitamente.

3º ponto: a Revolução sabe porque faz isso, e sabe porque faz. É porque a revelação total, explícita e total. É preciso, então, acrescentar algo à tese anterior; ela faz isso implicitamente e fragmentariamente. A formulação explícita e total produziria, nessa área aqui, uma renversement no fenômeno revolucionário. Nessas duas categorias ela produziria uma reviravolta no processo revolucionário.

Nessas pessoas que estão à margem do processo revolucionário, elas engajariam no processo contra‑revolucionário. Grande número dessas, talvez a grande maioria, colocadas claramente diante do processo revolucionário total tomariam posição contra. Por isso a Revolução não o faz.

(OF: O segundo seria o Grupo.)

O grupo que não gosta. Esse se acirraria ainda mais contra a Revolução. Por exemplo, não é verdade que para os senhores fez bem saber que existe o marcusianismo? Fez bem para o Grupo. Foi uma confirmação de nossas teses e acirrou nos senhores a posição. Se realmente isso é assim, então vamos lutar ainda com redobrada força.

(Dr. Borelli: Qual a diferença de reação do terceiro grupo com… [inaudível].)

Diferença na prática. É que quem é portador da tradição medieval, que é essa aqui, com mais vigor do que restos de Revolução que tem, esse, com muito mais rapidez, encontra o ideal oposto. Esse aqui tateia, hesita, etc. Se ninguém desfraldar esse ideal, ele fica numa reação incerta, minimalista: “isso eu não quero”.

Mas então, o que quer? Enquanto esse, e mesmo esse, que tem as antíteses Idade Média e Revolução no fundo da cabeça, optam logo pela Idade Média.

(Sr. –: Como é que a pessoa chega a uma dessas três categorias? Na primeira, por pecado de omissão (?), ou melhor, pecado de Revolução, e ela gosta do igualitarismo; e a terceira, que é indiferente, como ela chega a isso?)

Eu tenho a impressão, sem ter inteira certeza, de que concorrem para isso vários fenômenos. Um fenômeno é as pessoas serem de uma classe popular tão modesta, que no ambiente da casa esses problemas não entram pelo menos de um modo vivo, profundo, estável, etc., etc.

Em segundo lugar, alguns ambientes onde há carência de consistência doutrinária para qualquer coisa, mas já de pessoas mais cultas. Criou também uma espécie de atonia. Eu tenho a impressão de que o norte‑americano está nessa posição.

(Sr. –: Então, haveria uma parte culposa, mas uma parte, por exemplo, gente muito modesta, não teria… [inaudível] propriamente?)

Não, não se poderia falar em responsabilidade, a não ser remotamente, por alguns lados, em alguns casos.

(Sr. –: [Inaudível].)

Poderiam fazer um renversement aqui, no sentido de que o processo revolucionário se extinguiria e a Idade Média tomaria a parte de cima, quer dizer, tomaria o domínio na categoria, se você quiser, do semi‑contra‑revolucionário. Nessa categoria, os restos de Revolução murchariam e a influência medieval se tornaria dominante.

Nessa terceira categoria, verossimilmente, muita gente considerando a revolução no seu total, diria: “isso eu não quero, tal coisa não vai assim, etc., etc., protesto”; se viessem a conhecer o nosso pendão, muito adeririam. Passariam para a categoria superior. Daqui para cá.

(Sr. –: [Inaudível].)

Não é pequena, porque o de cima, em certo sentido, muito mais rapidamente atinge nossa posição. Mas os de baixo, como não fizeram o pecado de Revolução que foi feito em muitos da categoria de cima, às vezes se convertem com mais pujança e com mais inocência. De fato, são efeitos, na prática, muito nuancés.

O terceiro princípio que eu tinha enunciado aqui: faz isso e sabe porque faz, a revelação é explícita e total. Traria uma reviravolta, traria um caos dentro desse processo.

Quarto: já tem sido muito dito aqui, entretanto, ela vai sendo obrigada a revelar‑se. Já tem sido muitas vezes dito aqui, porque a cabeça anda mais depressa do que a cauda, etc., não vou externar isso. Ela tem sido obrigada a revelar‑se.

Quinto: De onde, antes mesmo da Bagarre, está havendo algo como da revelação explícita e total. Então, a pergunta é a seguinte: esses são dados que dizem respeito ao processo revolucionário, ainda como ele está correndo agora? Não é mais o processo revolucionário considerado aqui, em seu aspecto normal, mas que perturbações ele está sofrendo desde já por causa dessa semi‑revelação explícita e total. Então, fica clareada a questão para a pergunta que está aqui em cima, para a Bagarre. A Bagarre, como será?

(Sr. –: […inaudível].)

* Na “Bagarre” provavelmente ocorrerão guerrilhas urbanas e rurais, bombardeios atômicos, epidemias, manifestações diabólicas, e diversas formas de sofrimentos expiatórios e punitivos

Aqui é o processo revolucionário. Eu estou dizendo que já está havendo uma como que explicitação verbal, ou melhor, uma explicitação total agora. Então, antes da Bagarre, o que já está acontecendo, em virtude de uma certa explicitação? Isso me ajuda a responder a pergunta — essas duas interrogações deviam ser a mesma coisa — que é o que será durante a Bagarre.

(Sr. –: [Inaudível].)

A composição é a seguinte: aqui é o quadro do processo revolucionário, sem tomar em consideração os reflexos que vem produzindo nele, de um modo relativamente recente, essa revelação explícita e total. Aqui é o quadro do processo revolucionário em vista dessa como revelação explícita e total que nele se está dando. Aqui então, isso me ajuda a responder a pergunta como será dentro da Bagarre.

Para responder a essa pergunta — como a coisa acontecerá durante a Bagarre — eu tenho que tomar em consideração os seguintes dados: eu tenho que perguntar como será a Bagarre. Então, eu simplesmente faço aqui uma equação: a Bagarre seria: guerra internacional mais guerra revolucionária — quer dizer, guerrilhas, etc. — urbanas e rurais.

Na guerra internacional os senhores podem colocar bombardeio atômico e tudo o mais quanto possam desejar, mais epidemias como conseqüências da guerra bacteriológica.

Em rigor, poderia caber aqui, mas são coisas que nosso espírito concebe [em] separado. Mais, transformações cósmicas eventuais, decorrentes de bombardeios atômicos e coisas dessas, e castigos da Providência. Mais, acirramento da questão igualitária. Aqui estamos no nosso ponto.

A questão religiosa entra aí. O acirramento do problema igualitário — e entra aí todo o problema religioso — mais infestação diabólica — discos voadores entram na infestação diabólica — tudo isso [é] igual à Bagarre. Seria uma fórmula para exprimir a coisa.

A Bagarre é um acontecimento que comporta todos esses fatos. Esse acirramento é que dará a guerra, a guerra revolucionária e as suas conseqüências. O furor da guerra virá dessa excitação.

(Sr. –: Questão religiosa… [inaudível].)

Questão igualitária, na qual faço resumir a questão religiosa. Aqui está, então, a definição do que é a Bagarre.

(Sr. –: Questão religiosa e, dentro da questão religiosa a questão igualitária?)

Não. É o que eu vou expor daqui a pouco, respondendo à pergunta do Fábio. A questão igualitária é o clou da questão religiosa. É o que a questão religiosa apresenta de muito vivo para a maioria dos homens. Não para cada feitio de espírito, mas para o grosso dos feitios de espírito. Talvez para todos seja uma coisa que se possa pretender.

Eu digo agora: o que é o Reino de Maria? O que é o Grand‑Retour? Para dizer a coisa bem positivamente, o Grand‑Retour é a recuperação, ou melhor, vamos dizer o seguinte: sofrimentos expiatórios sobre o homem mais sofrimentos punitivos. Ou se os senhores quiserem, a função expiatória do sofrimento e sua função punitiva do sofrimento, que são coisas distintas.

Vamos dizer, em vez de sofrimentos expiatórios e sofrimentos punitivos, sofrimentos corretivos. Vamos colocar o P: pedagógicos. O sofrimento, enquanto o homem expia é uma coisa; enquanto corrige, é outra coisa.

* O “Grand‑Retour” comportará a volta à plenitude da sabedoria, ou seja, toda a sabedoria de que a humanidade batizada é capaz

Mais a revelação, um fator que eu definiria assim: a manifestação, a explicitação total da Revolução mais outro fator: as manifestações sobrenaturais, manifestações preternaturais. Mais a consagração do Mundo ao Coração de Maria, etc., etc., da Rússia, enfim, Fátima. Tudo isso junto produz numa parte das pessoas engajadas naquele processo anterior, ou das que vão se engajar durante a Bagarre, produz então a volta à plenitude da sabedoria.

Essa plenitude concebida como uma plenitude major, quer dizer, mais do que a Idade Média. Mais ainda, concebida como uma plenitude total. Quer dizer, é toda a sabedoria de que a humanidade batizada é capaz. Isso, então, é o Grand‑Retour. Esses acontecimentos, considerados nos seus efeitos sobre as almas que se converterem, produzem o Grand‑Retour.

(Sr. –: Considerando a Revolução como um losango, aquele primeiro fenômeno, aqueles primeiros itens que o senhor pôs na pedra e os cinco que o senhor pôs depois, podem ser considerados… [inaudível] …base do losango… [inaudível].)

Poderia ser. Seria a Revolução e o Grand‑Retour.

(Sr. –: E esses dois… [inaudível] …que o senhor disse, a “Bagarre” e o “Grand‑Retour”, seria como que o cruzamento de dois losangos…)

Se você quiser argumentar com losango, você tomaria assim: aqui você poderia calcular o século XV, em que começa a Revolução e que chega em determinado momento à sua plenitude histórica. Não a plenitude que ela poderia ter se vencesse, mas a plenitude histórica, e que será no momento em que se dê o Grand‑Retour. Aí a Revolução decresce até dar a plenitude da sabedoria, o Reino de Maria.

Cronologicamente falando, o losango não é assim, mas o losango é assim, depois fecha para cá muito rapidamente. É quase uma linha reta, quase não tem ângulo. A Bagarre vai gerando o Grand‑Retour. À medida que um vai afinando, o outro vai se produzindo.

(Dr. Borelli: [Inaudível].)

É. O pecado é tão grande que depois só pode vir o fim do mundo.

(Dr. Borelli: Então, não haveria possibilidade de haver no Reino de Maria algo mais…)

Não, o Reino de Maria é o que a humanidade foi intencionada a dar para Nosso Senhor quando fundou a Igreja. Portanto, tudo quanto ela podia dar. É uma plenitude da Igreja, antes de tudo o mais, do que da humanidade.

* A virtude da sabedoria está muito relacionada com o Segredo de Maria

(Sr. –: A virtude da sabedoria está muito relacionada com o Segredo de Maria?)

É evidente.

(Sr. –: […inaudível] a virtude da sabedoria é o conhecimento do Segredo de Maria?)

Eu suspeito, porque não conheço o Segredo de Maria. Algumas coisas me dão vislumbres do Segredo de Maria, mas não conheço, infelizmente, devo dizer da minha vergonha, mas não conheço. Eu não posso fazer chantagem.

Me pareceria muito arquitetônico e, portanto, provável — mas por provável não quer dizer certo — que no Segredo de Maria nós vamos ter uma certa noção de relação entre ser e ser, quer dizer, entre Deus e as criaturas, e as criaturas umas com as outras, que dá uma visualização tão anti‑igualitária, e ao mesmo tempo tão harmônica do universo, e tão impregnada de afeto, que a malícia do igualitarismo depois se torna muito maior.

Pondo a nu de modo muito mais excelente, tomando em consideração a ordem da graça mais do que a da natureza, as relações entre Criador e criatura, e criatura e criatura, etc. O clou da Bagarre é o acirramento.

(Sr. –: [Inaudível].)

Não seria propriamente um acirramento, mas é que um dos lados acirrados eliminaria o outro e chegaria à plenitude de si mesmo. O lado anti‑igualitário chegaria à plenitude de seu próprio acirramento, de sua própria radicalização, se você quiser.

(Sr. –: O senhor não poderia dizer um pouco como seria?)

No MNF nós tocamos nisso de passagem algumas vezes e eu creio que tem relação com o Segredo de Maria, mas mais do que isso eu não posso dizer. Basta eu dizer que acho que tem relações com o Segredo de Maria para você entender que é muito misterioso. É o oposto do igualitarismo.

Mas é uma coisa por onde… não pense que é o seguinte: uma coisa tão anti‑igualitária que deixa os igualitários nocaute. Não é isso. É uma coisa de um lado tão anti‑igualitário que os deixa nocaute, mas de outro lado revela tais vínculos e uma tal solidariedade entre toda a ordem do criado, que a mentira de que a desigualdade é fragmentária, isola e é má, explode.

* São Luís Grignion de Montfort, muito anti‑igualitariamente, põe Nossa Senhora acima de todas as criaturas, mas também mostra nEla uma imensa intimidade com as almas

Eu dou a você uma coisa por onde você vê bem. São Luís Grignion de Montfort no “Tratado” põe Nossa Senhora acima de todas as criaturas, mais do que alguém… quer dizer, ninguém poderia ir mais longe do que ele vai. Portanto, a desigualdade entre Nossa Senhora e as criaturas fica ali afirmada do modo mais extremo. Se você quiser: mais paroxístico que se possa conceber, de um lado. Mas, de outro lado, é verdade também que ele fala de uma ação interna e misteriosa de Nossa Senhora nas almas, que dá a Nossa Senhora uma intimidade com as almas que é a maior que possa haver. Donde você vê que, por assim dizer, o auge da desigualdade e o sumo do amor e da benignidade se interpenetram, se osculam.

Então, a desigualdade rejeita a calúnia igualitária, de que ela é o repúdio, de que ela recusa, ela é o desprezo, para mostrar que ela é o amor. Agora, é misterioso, ao menos para mim, tudo quanto isso se contém. Mas um pouco aí se pode ver… [inaudível] o endeusamento de Deus.

E no conceito de alienação, que o marxista odeia, entra o clou, porque em relação a Deus quem dá tudo como que se diviniza. Isso a gente vê que se liga de algum modo com o mistério de Maria. Não julgue, portanto, o seguinte: que haveria uma síntese entre o igualitarismo e a desigualdade. Isso seria uma aberração.

Não é uma síntese. É a desigualdade inteira e no duro, mas mostrando que ela não merece a censura de que ela é a rejeição, de que ela é o desprezo, de que ela é o abandono etc., etc. Sendo que ela é o contrário. Uma compreensão mais profunda.

* A hierarquia já foi vista por alguns como uma cascata de desprezos entre as pessoas, mas numa outra visão vê‑se que ela é uma cascata de amor

Nas vésperas da Revolução Francesa houve um padre “fassur”, revolucionário, Abbé[inaudível] …que definia a ordem social do Ancien Régime como uma cascata de desprezos. O rei esguicha desprezo no príncipe; o príncipe no duque, e vai daí de desprezo em desprezo até o plebeu, que recebe as cataratas plenas do desprezo.

Essa é bem a visão igualitária do que seja a hierarquia. É a crítica que o igualitário faz à hierarquia. Nessa outra visão, ver‑se‑ia que é bem o contrário, e que a desigualdade bem entendida é o sumo do amor. Não é a cascata do desprezo, mas a cascata do amor. Aqui está exatamente a diferença das duas posições. Portanto, isso não tem nada de uma síntese. É um desmentido completo. Me horrorizaria a idéia de uma síntese.

Isso tudo dado, os senhores estão vendo que o fenômeno central é esse aqui: no fenômeno Revolução‑Contra‑Revolução é esse acirramento que produz o Grand‑Retour. As próprias manifestações diabólicas, ou manifestações angélicas — que aliás, aqui deveria figurar também em rigor — são ordenadas para produzir esse fenômeno: uma opção entre a Revolução e a Contra‑Revolução, entre a Idade Média, a sabedoria, afinal de contas, que é hierárquica, e a Revolução, que é igualitária.

Eu acrescento mais: isso é a causa de tudo isso. A Revolução provoca tudo isso por desespero, por causa daquele fenômeno anterior que eu já falei, que a cabeça está andando mais depressa do que a cauda, o processo está se deteriorando etc.; ela não tem remédio senão desencadear a Bagarre.

* A questão do igualitarismo é, de todas, a que mais enfurece o homem, e o acirramento provocado por ele levará ao maior furor da História

A Bagarre é provocada pelo desespero diante desse início de acirramento, que eu descrevi, que já está havendo. Porque o acirramento é a causa disso por duas razões.

Primeiro, porque isso tudo, as guerras, guerras revolucionárias, e terremotos, e epidemias, etc., são provocadas para destruir uma ordem de coisas que ela, em conseqüência da deterioração do processo revolucionário, não conseguiu.

Em segundo lugar, porque o furor particular dessas guerras vem do furor da questão igualitária. São duas questões distintas. Eu sustento que a questão igualitária é, de todas, aquela que enfurece mais o homem. Aqui é que eu vou entrando na tese propriamente: é a questão que enfurece mais o homem e que por causa disso quando essa questão estiver dominando todos os espíritos eles terão chegado o maior furor da história.

Esse acirramento vai ser, portanto, o maior furor da História. Não sei se vocês se lembram de um editorial do “Estado” que falava exatamente isso: a Revolução que está em germe na Sorbonne, essa Revolução vai transformar os homens muito mais do que a Revolução Francesa. O “Estado” até dizia que se os homens se cumprimentam com a mão direita, vão se cumprimentar com a mão esquerda. Até a isso chegará

Eu não cito o “Estado” como um dogma, mas apenas para citar uma voz muito diferente da minha, que diz a mesma coisa que eu digo. Isso é bem verdade. Mas se você imaginar tudo quanto é seqüela que vem com isso: as reformas de base, portanto, a expropriação, o estabelecimento de uma sociedade efetivamente igualitária de todo em todo, a supressão das grandes administrações, a supressão do Estado como poder público, o paredón e essas coisas todas…

Quer dizer, você está considerando como se houvesse só as atuais mudanças e não as grandes que vêm.

Então, aqui os senhores têm o maior furor da História, e aqui entramos então no âmago do assunto, que eu não farei senão esboçar, que é a afirmação: se uma vez que tudo gira em torno disso, é a afirmação da seguinte tese, a respeito do igualitarismo:

1ª tese: o problema igualdade‑desigualdade é um problema metafísico, que se enuncia assim: considerado o ser enquanto ser é um bem que haja igualdade, ou é um bem que haja desigualdade? É o problema.

2º ponto: Esse problema é o próprio problema da existência de Deus, porque, no fundo, se é um bem que haja igualdade, então um Deus transcendente é um bem; nós sermos criaturas é um bem; nós sermos limitados — porque toda criatura é limitada — é um bem; nós termos o nosso fim fora de nós é um bem; nós termos sido feitos para servir é um bem. Portanto, obedecer e tudo o mais, que está ligado ao servir.

Ou, em outros termos, nós sermos, por natureza, alienados, é um bem. O que é o alienado? É o pertencente a outrem, a um alheio. Isso é um bem. É o oposto.

* Todo ateu, no fundo é panteísta

Agora, em sentido contrário: se a igualdade é um bem, a solução boa é o panteísmo. Quer dizer, tudo é Deus, ou seja, Deus não é nada. Naturalmente, eu estou simplificando muito o assunto: o ateísmo ou panteísmo.

No fundo o ateu é panteísta. Quando ele diz que as coisas foram causadas por si mesmas, ou que elas nunca foram causadas, ele admite que elas são idênticas com uma espécie de força divina.

Muitos ateus se exprimem assim: Deus não existe, ou seja, Ele é a natureza. Ou então a matéria [é] eterna e incriada. Acaba, no fundo, sendo uma forma de panteísmo. O marcusianismo também. Tudo isso é panteísmo líquido.

Terceiro ponto — e aqui entram desdobramentos um pouco maiores — é o seguinte: a)… Ou melhor, a terceira tese é a seguinte: o modo pelo qual o problema de Deus, que é o problema central de todas as cogitações humanas, mais morde o homem, é o problema da igualdade. Quer dizer, não é a única formulação do problema de Deus. Mas é o modo pelo qual ele mais morde o homem. É o problema da igualdade. Essa é a tese.

Então, o primeiro ponto é: o problema da igualdade é a mesma coisa que o problema de Deus, que já foi visto. Segundo ponto, Deus se manifesta aos homens de dois modos: de um lado, pela Revelação e Tradição. Quer dizer, pela Bíblia, pela Tradição e pelo Magistério. De outro lado, pela Criação.

Acontece que pela Criação, quer dizer, tanto numa coisa como na outra, o pressuposto de tudo é a existência de um Deus transcendente. Nada disso poderia ser como é, se não houvesse um Deus transcendente. Nós poderíamos dizer que a idéia de um Deus transcendente está incubada, está implícita, está subjacente em todas as partes da Revelação, da Tradição e do Magistério em que ela não está explícita.

Sempre o pressuposto é esse. Os senhores podem me dar um ponto qualquer da doutrina católica, o pressuposto que é um Deus transcendente.

Agora, na natureza também, tudo são parábolas, tudo são fatos sensíveis que à maneira de parábolas, à maneira de contos, à maneira de símbolos, nos fazem sentir a transcendência de Deus. Depois entro mais a fundo nisso na próxima vez. É melhor dar aqui o esquema geral.

Então, beira o caráter parabólico, se quiserem, de todos os conhecimentos que temos a respeito de Deus, da transcendência divina. A expressão não é boa, mas fica assim até uma melhor definição, até uma melhor explicitação.

c) O espírito humano, que é incapaz de metafísica, seria o princípio da metafisicidade de todos os espíritos. Metafisicidade de todas as mentalidades.

Vou explicar o que é. Parece, à primeira vista, que a imensa maioria dos homens, é incapaz de metafísica, é incapaz de fazer um raciocínio metafísico, ou de se interessar por um raciocínio metafísico. Isso parece, à primeira vista. Mas é porque a maioria dos homens não faz metafísica em abstrato, faz metafísica no caso concreto.

Eu vou dar um exemplo, [e] os senhores entenderão bem. Se uma pessoa, por exemplo, vê a rainha da Inglaterra passar na sua pompa. O caso do baiano, por exemplo, que não sei quem me contou, é o caso de um baiano que saiu correndo atrás da rainha. No caminho, ele tanto se moveu e tanto pintou, que lhe caíram os óculos. Ele continuou a correr.

Então, alguém disse a ele: pára para pegar os óculos. E ele disse: “não, eu prefiro de qualquer jeito ver a rainha; mais vale a rainha do que os óculos”. Os senhores estão vendo o que é: ele ia atrás de um valor que à primeira vista era um valor estético, ou era um valor político. Mas no fundo não era. Ele queria ver uma coisa diante da qual ele exclamasse: que beleza! Ele queria ver uma transcendência.

Sem perceber, ele estava fazendo metafísica. Vamos dizer, um aluno que entra e vê um professor que sobe à cátedra com dignidade, com distinção: faz continuamente metafísica. Isso explica porque Nosso Senhor falou tanto em parábolas, isso é uma explicação dentro disso. É porque os ensinamentos abstratos o homem comum pega no caso concreto.

* A Igreja usa muitas exterioridades e símbolos, pois para o comum das pessoas a doutrina se exprime nas aparências concretas

Em segundo lugar explica porque a Igreja usa tanto as exterioridades, tantos símbolos. É porque exatamente a doutrina se exprime nas aparências concretas, para o comum das pessoas. Por exemplo, uma coisa mínima: os senhores sabem que no tempo da Igreja constantiniana a mitra era alta. D. Sigaud tinha dificuldade, em certos púlpitos dotados de dossel, de falar, porque a mitra batia no alto do dossel.

O movimento litúrgico pleiteia a mitra pequena, com um mundo de pretextos históricos, dos quais o mais engraçado é o que eles insistem mais: que primitivamente a mitra era pequena. Aí vale a tradição. Na realidade, é evidente que uma mitra grande dá uma maior idéia da importância do papel do bispo do que uma mitra pequena. E é evidente que a mitra é um símbolo de desigualdade e de grandeza, que o tamanho do símbolo aumenta a idéia de uma como que transcendência, ou de uma transcendência, conforme tomarem o sentido da palavra que, no fundo, coloca o problema: é bom haver transcendências, ou não?

De maneira então que a tese é que por isso o Evangelho, por isso a Igreja fala por meio de símbolos.

* A Revolução promoveu o igualitarismo muito mais mudando as tendências e os símbolos do que mudando as idéias explícitas

Outra tese: por isso é que a Revolução igualitária se fez muito mais mudando as tendências e os símbolos, do que as idéias explícitas. A Revolução tendenciosa, a Revolução foi muito mais tendenciosa do que sofística, porque os espíritos acompanham muito mais a coisa na mudança dos símbolos e das parábolas, do que na coisa abstrata.

Eu insisto e pretendo insistir sobretudo quanto a esse ponto, para afirmar, quanto a esse ponto, o seguinte: o modo pelo qual a questão da transcendência morde mais o homem é o problema da desigualdade, portanto, problema supremamente mordente porque se prende com a sensação mais viva que o homem tem: é a sensação do seu próprio eu.

A sensação mais viva que eu tenho, a experiência mais imediata é do meu próprio eu. O que me falta, o que não me falta, o que eu sou, o que eu não sou, o que eu tenho, o que eu não tenho, eu sou o tema em que minha atenção mais facilmente se concentra, e os problemas que caem em mim são os problemas que mais me doem, que mais me pegam, etc. etc.

Ora, no fundo, sob mil aparências, no fundo do problema meu está a aceitação de que outros sejam mais do que eu. Primeiro, a aceitação de que eu não seja tudo, daí a aceitação de que os outros sejam mais do que eu. Daí o outro problema: se é bom que alguém seja mais do que alguém. Mas é desenvolvido a partir do meu próprio eu. Então, acontece que todas as parábolas e todos os símbolos que mexem com esse problema, me tocam supremamente.

Agora, na letra E, viriam as objeções: parece que tudo isso é falso. Até para agir de um modo inteiramente correto, a gente deveria dizer: antes da letra E viria a grande conclusão: este problema é mesmo o supremamente mordaz, ou mordente.

Depois, viria a objeção, e a objeção é uma coisa que salta aos olhos: se isso fosse assim, em torno de mim todo mundo se interessaria por esse problema. Ora, quando eu procuro tratar dele, ninguém se interessa. Logo, isso não é assim. A resposta é muito simples: se você procura tratar in abstrato, ninguém se interessa. Porque o homem não é um metafísico explícito, não é um filósofo. In concreto, é.

Quer dizer, qualquer coisinha que a gente diga de anti‑igualitário, para as pessoas que estão engajadas no processo, irrita sumamente. Logo, interessa, qualquer coisinha.

* Quando o acirramento chegar ao seu ápice natural, ocorrerá o maior furor da História, e com ele virá o “Grand‑Retour”

Imaginem, por exemplo, que fôssemos fazer, por exemplo… Agora me ocorreu minha ultima conferência no Instituto de Engenharia. Imaginem se eu começasse assim: eu quisera que para fazer uma conferência à altura do tema que eu vou tratar, essa sala fosse ouro, ou melhor, essa sala fosse de ouro, suas colunas fossem de rubis e de brilhantes, que o chão fosse de platina e que luzes celestes e sinfonias maravilhosas enchessem essa sala.

As pessoas todas ficavam nodosas. Não adiante dizer que era só porque era um chavão, porque não é só porque é um chavão. Porque eles mesmos gostam muito de outros chavões. Por exemplo, se eu dissesse: “eu quisera que aqui estivessem todos os pobres e todos os sofredores da terra para conosco celebrar o Natal”, eles achariam uma beleza. É um chavão também. É até um chavão muito mais surrado do que o outro. Hoje em dia é.

Mas é porque eles sentiriam, nessa apetência de maravilhoso, a apetência de materiais transcendentes, e ficariam furiosos. É qualquer coisa. Se eu dissesse para alguém: “estou arranjando um jeito com um grupo de Minas, de arranjar pedras semi‑preciosas de uma grande beleza, para recamar uma parede de nossa sede, com um processo de iluminação maravilhoso que fará dela a parede mais aristocrática que imaginar se possa”. Os encarregados de nossas finanças podem estar descansados, eu não estou pensando nisso. Se eu dissesse isso, é ou não verdade que muita gente ficava com vontade de destruir essa parede?

Por quê? Porque essa parede é um símbolo que os irrita. Portanto a questão está presente por toda parte. Basta apresentar a questão nos termos em que ela se apresenta aos espíritos. Bastaria alguém propor para a Universidade de Brasília isso aqui, já não digo para o laboratório de anatomia, mas para a sala magna da reitoria das grandes aulas da Universidade de Brasília, para ficar completamente desconsiderado, mais do que se tivesse cometido um crime.

Então, é ou não é verdade que isso causa ódio? Logo, isso já interessa, o acirramento existe. Se o acirramento existe e se ele é o maior que se possa imaginar, quando ele chegar ao seu ápice natural nós teremos o maior furor da história. Quando nós tivermos o maior furor da história, nós teremos, ao mesmo tempo, o estalar daquele processo e teremos o Grand‑Retour. E aí vem a explicação do Grand‑Retour.

Então, me restava dar essa parte que ficou aqui e que, se Deus quiser, veremos segunda‑feira.

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