Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 30/12/1968 – 2ª-feira – p. 3 de 3

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 30/12/1968 — 2ª-feira

Nome anterior do arquivo: 681230--Santo_do_Dia_2__a.doc

Interpretando o toque de recolher * A paz do sofrimento * Alegria e paz na resignação e na derrota * Integridade da dignidade na solidão e no abandono

* Interpretando o toque de recolher

...porque vai ser o comentário do toque de recolher, tocado, creio, pelo Felipe, não é? Não sei. Ou pelo Floriano, não sei bem por quem. Bem, eu estava dizendo do outro dia que o toque de recolher militar tocado em fanfarra é, para mim, o símbolo, ao mesmo tempo, de duas coisas afins e muito diferentes, que são: o repouso católico e a dignidade católica dentro da derrota. Porque o toque tem qualquer coisa ­— e os senhores ouvirão daqui a pouco e entenderão aí a interpretação que eu pretendo fazer dele ­— o toque de recolher tem qualquer coisa da resignação crista. É uma coisa que se afirma alto e que vai depois aos poucos e aos poucos diminuindo, mas diminuindo sempre com uma dignidade tal que não termina num sussurro, mas a gente tem impressão de que aquele leitmotiv do toque vai subindo cada vez mais alto no céu, e que é por causa disso que ele vai ficando cada vez mais distante e se ouvindo menos. De maneira que quando chega o último ponto, a gente tem impressão que ele se recolhe nos esplendores do Padre Eterno. Quer dizer, é uma coisa que paira tão alto e deixa a Terra, mas deixa para voltar. Há, numa insistência com que ele repete os toques anteriores, é como quem diz: “Eu agora, no meu expirar, eu estou tão alto, estou tão alto, que nenhuma vicissitude terrena me toca. Nada mais me atinge, nada conseguirá me ferir. Eu, na minha derrota, pairo acima de tudo, e me recolho numa ordem superior de valores, me recolho nos esplendores do Padre Eterno, até o momento em que eu volte”. Há uma espécie de promessa de voltar um volveré — dos carlistas, que é uma coisa empolgante nesse toque, na última clarinada.



* A paz do sofrimento

Bem, também o mesmo do repouso. O repouso deve ser entendido, o toque enquanto interpretar o repouso, é o verdadeiro repouso católico, quer dizer, o repouso que não é a prevalência do animalis homo sobre o spiritualis homo. Não é um jogar de carnes no chão, ou na cama, para se refocilarem como se fosse no chiqueiro. Mas é o espírito que se coloca lentamente, gradualmente dentro do seu próprio repouso, que é um recolher-se também ele num santuário interior, numa ordem superior e interior de coisas, numa ordem religiosa de coisas que é aquela parte interior de nossa alma onde está a graça de Deus que nunca nos abandona. Numa e noutra coisa, nós compreendemos algo que é muito difícil ao espírito moderno compreender, e que vem a ser a paz do sofrimento, a dignidade e a resignação da dor ante o sofrimento e a derrota.

* Alegria e paz na resignação e na derrota

Essas não são coisas que representem um inferno, uma tristeza sem limites, uma coisa horrorosa, mas pelo contrario, nelas há mais tranqüilidade, há mais suavidade, há mais doçura e mais força do que na alegria dos pagãos. Como no repouso do católico há mais atuação, há mais atuosidade do que no repouso dos pagãos. O católico verdadeiro pode dizer: meu corpo dorme, mas meu coração vigia. Quer dizer, a minha vontade vigia, minha inteligência vigia; algo em mim não se entrega, algo em mim continua rezando. Eu faço vigília até quando durmo, porque algo em mim está continuamente unido a Nossa Senhora.

Bem, então, os senhores têm aí as duas idéias da alegria e da paz na resignação e na derrota, e da alegria e da paz no repouso espiritual. Bem, o que é completamente diferente de um espírito, de uma forma do espírito revolucionário que eu não cesso de detestar em todos os momentos de minha vida, e cada vez que eu encontro qualquer manifestação dele, dessa forma: e que é o espírito norte-americano. Porque para o espírito norte-americano, o repouso é a imagem da morte. E o indivíduo só deve dormir quando ele cai de cansado de não poder agüentar mais. Ou então não consegue repousar e toma pastilha para dormir. Bem, mas quando ele cai então exausto, ele se resigna a dormir porque fora disso ele está trêfego e excitadamente acordado. Ele não gosta de dormir; ele não compreende o lado religioso e sublime do repouso.

O norte-americano detesta as coisas que terminam tragicamente: os seus filmes, os seus romances tendem, ou ao menos tendiam até pouco tempo atrás, para o happy end, para o desenlace feliz. Eles não compreendem o fim triste, o fim trágico, a derrota que suprema dignidade tem. Bem, me parece que esses valores estão muito bem simbolizados no toque de recolher. E por isso é que eu resolvi tocar aqui o toque de recolher. Bem, os senhores o ouvirão e é claro que eu não terei o mau gosto de interromper. Ouviremos em silêncio. Terminado, eu talvez possa fazer mais um rápido e pequeno comentário.

[Ouve-se o toque de repouso.]

Os senhores viram como é, para os que têm ao menos uma sensibilidade de interpretação musical, podem ter visto como é a coisa. Quer dizer, é um toque muito forte, muito cheio de idealismo, mas com uma espécie de melancolia. Há uma tristeza nele e uma forma de doçura, de que só as almas que sentem pena sabem dar testemunho. Bem, ao mesmo tempo, os senhores estão vendo que começa mais forte e termina bem suave, mas numa espécie de suprema dignidade e termina inteiro; de maneira que se tem a impressão de uma coisa que acabou; a gente tem uma impressão de uma coisa que se evolou, que paira em outras regiões e não desce mais. Descerá depois. É alguma coisa imortal que se recolheu provisoriamente nos esplendores do Padre Eterno e depois voltará. Mas aí os senhores sentem toda a paz, toda a serenidade do sofrimento.

* Integridade da dignidade na solidão e no abandono

Os senhores imaginem agora um campo de batalha juncado de cadáveres. Os senhores imaginem o último general, no meio do último pelotão que toca um sinal para os que estiverem vivos ainda se retirem. Os senhores imaginem um crepúsculo, desses crepúsculos com sol vermelho, cor de sangue… É assim que os senhores devem ter a coisa. O saber retirar-se no seu infortúnio com tanta dignidade é incomparavelmente mais do que o triunfo que vão ter os astronautas, entrando em Nova York com papel picado, mulheres com bandeira americana e ambiente de ice and soda e tudo quanto pode existir e quanta porcaria. Bem, por que? Porque ser aplaudido pelos homens é uma coisa que pode ser bela; muito mais bonito é se estar em tal relação com Deus que na completa solidão, no completo abandono, a pessoa realiza a integridade de sua dignidade; apenas em face de Deus e no seu infortúnio e fica em paz. Aí é um comentário daquela palavra da Escritura que se aplica a Nosso Senhor como a Nossa Senhora: Eis na paz a minha amargura amaríssima. Eis na paz a minha amargura muito amarga. Eu estou sofrendo, mas eu estou na paz, na minha dignidade.

O isolamento do “ultramontano” também tem muito disso, do patinho feio de que eu falava outro dia aos senhores: perseguido, negado, escorraçado, rejeitado de todos, mas digno e sabendo que ele é o que ele é, e que Deus, do alto do Céu o coroa de glória. Não sei se depois dessas palavras gostariam de ouvir mais uma vez o toque, ou dão por ouvido. Os que gostassem de ouvir focalizando sobre tudo o campo de batalha, tenham a bondade…

saber que essa glória não é muito mais do que recolher palmas e… essa vulgaridade toda? Então isso nos sirva de uma lição de despretensão, não é? E com isso, meus caros, muito obrigado. Que Nossa Senhora os ajude. Vamos rezar.

*_*_*_*_*

Auditório da Santa Sabedoria