Santo do Dia (Sala dos Alardos) – 28/12/1968 – sábado – p. 5 de 5

Santo do Dia (Sala dos Alardos) — 28/12/1968 — sábado

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Mártir da liberdade da Igreja. Suas relíquias são profanadas e destruídas. Ser odiado pelos maus é uma glória. Desejar batalhar contra a Revolução mesmo depois de nossa morte.

São Tomás Becket

Mártir da liberdade da Igreja * Suas relíquias são profanadas e destruídas * A Inglaterra protestante não era mais digna de conter aquelas sagradas relíquias *Ser odiado pelos maus é uma glória * Desejar batalhar contra a Revolução mesmo depois de nossa morte

...é uma data muito memorável... É uma data memorável também por causa de uma alma eleita que nasceu, que é o Dr. Eduardo de Barros Brotero, cujo aniversario é hoje.

Bem, essa data... Bem, amanhã é festa de um santo cuja biografia os mais velhos aqui conhecem muito bem — eu creio que alguns dos senhores também. Amanhã é festa de Santo Tomás Becket.

Eu quase não tenho coragem de fazer um comentário de São Tomás Becket. Eu quase que me sinto posto no papel do outro, e por mais rápido que seja o comentário, entretanto eu fico impressionado com a idéia de que ele é longo. Mas depois eu não poderei deixar de resistir, depois dele ter sido matéria de conferências e de estudos a respeito dele, eu... [faltam palavras]… repetir o que já foi dito. Mas como há mais de dez anos os senhores não ouvem falar de São Tomás Becket, eu suponho que alguma coisa de aproveitável possa sair, pedindo que São Tomás Becket nos ajude a isso.

O século XVI...

O comentário é uma notícia hagiográfica de Dom Guéranger no “L’Année Liturgique”:

O século XVI veio acrescentar algo mais à gloria de São Tomás Becket, quando o inimigo de Deus e dos homens, Henrique VIII da Inglaterra, ousou perseguir com sua tirania o mártir da liberdade da Igreja, até em seu esplendido relicário, onde recebia há quatro séculos as homenagens e a veneração do exercito cristão.

* Mártir da liberdade da Igreja

Então, aqui tem qualquer coisa de novo: é a post-história de São Tomás Becket, e da parte do autor da ficha houve muito tato com a questão. Levantem o braço, do lado de cá, os que têm uma vaga idéia de quem foi São Tomás Becket, para ver se eu devo dizer alguma coisa sobre a biografia dele. Os que têm uma idéia levantem o braço. É, quase todo mundo sabe algo a respeito de São Tomás Becket. Algo filtrou.

Bem, foi… [faltam palavras] …Também, a única coisa… [ faltam palavras].

Bem, São Tomás Becket foi, para os que não sabem, um bispo inglês da Idade Media, Bispo de Canterbury, que é a principal Sé Episcopal inglesa, que resistiu a varias medidas tomadas pelo rei da Inglaterra, no sentido de que [querer se?] apossar do governo da Igreja na Inglaterra. Ele queria dirigir a diocese de Canterbury, transformando o bispo numa espécie de lacaio mitrado. E, uma vez que o mais importante dos bispos e ingleses cedesse à tentação, era natural admitir que outros bispos menos importantes cedessem a essa tentação também, e que a Igreja na Inglaterra toda ela se transformasse numa repartição pública.

São Tomás Becket foi morto por ordem do rei da Inglaterra, na sua catedral; uma noite trágica, um morticínio trágico, etc., e ele foi mártir da liberdade da Igreja. Durante quatro séculos ele foi homenageado pelos ingleses, porque ele foi canonizado, e ele jazia num relicário esplendido na catedral de [Cantuaria?], de Canterbury, quando a Inglaterra caiu no protestantismo. O rei Henrique VIII da Inglaterra instituiu a Igreja Anglicana, que é, no fundo, uma seita protestante; e na qual se realizava o sonho ímpio dos antigos reis da Inglaterra. O rei Henrique VIII proclamou-se o chefe da Igreja Anglicana, com a administração também espiritual da Igreja Anglicana.

Os senhores sabem que os reis da Inglaterra, quando eles são coroados reis, na própria cerimônia da coroação existe um trecho em que eles são investidos no episcopado. De maneira que todos os reis da Inglaterra seriam, bispos verdadeiros, se as ordens conferidas pela Igreja Anglicana fossem verdadeiras. Há um trecho da coroação, do cerimonial da coroação, em que o rei é revestido dos ornamentos episcopais. Acontece que é tão artificial dizer que esse rei é bispo, e cria tais dificuldades teológicas a rainha bispa, como já mais de uma vez houve, que eles nem fotografam, nem cinematografam e reproduzem esse trecho, que está reduzido, no cerimonial, ao mínimo. Mas o rei da Inglaterra, depois de Henrique VIII, passou a ser investido na dignidade episcopal, numa espécie de presidência da Igreja da Inglaterra.

* Suas relíquias são profanadas e destruídas

Bem, a partir do momento em que o rei Henrique VIII se declarou separado de Roma e declarou-se chefe da Igreja da Inglaterra, ele tinha, naturalmente, que injuriar as relíquias daquele que tinha morrido para que esse fato não se desse. E então, ele mandou pessoas irem à sepultura de São Tomás Becket para profaná-la, etc., como aqui vem contado. E aqui, então D. Guéranger faz esse comentário: é uma glória a mais de São Tomás Becket que ele tenha sido, sua sepultura tenha sido profanada pelo homem nefando que separou a Inglaterra da Igreja Católica, que foi o rei Henrique VIII.

Bem, então, diz aqui:

Os ossos sagrados do bispo, morto pela justiça foram, arrancados do altar. Um processo monstruoso foi instituído contra o pai da pátria e uma sentença ímpia declarou Tomás criminoso de lesa-majestade.

Os senhores estão vendo que a coisa é ridícula. Fizeram um processo contra ele, de lesa-majestade, com os ossos arrancados do altar. E ele foi condenado, seus ossos foram condenados, para infamar a memória dele, e como se ele tivesse sido réu de lesa-majestade.

Bem…

Esses restos preciosos foram colocados sob uma fogueira e nesse segundo martírio, o fogo devorou os despojos do homem simples e forte, cuja intercessão atraia sobre a Inglaterra os olhares e a proteção do Céu. Também era justo que o país que devia perder a Fé por uma desoladora apostasia, não guardasse em seu seio um tesouro que não seria mais devidamente estimado. Além disso, a sede de Canterbury estava manchada. Cromwell sentava-se na cadeira dos Agostinhos, dos Dunstans, dos Lanfrance, dos Anselmos, dos Tomás e o santo mártir. Olhando ao redor de si não teria encontrado, entre seus irmãos dessa geração, senão João Fisher, que consentiu em segui-lo até o martírio. Mas esse último sacrifício, muito glorioso que fosse, não salvou nada. Desde muito, a liberdade da Igreja perecera na Inglaterra. A Fé, lentamente, apagar-se-ia.

* A Inglaterra protestante não era mais digna de conter aquelas sagradas relíquias

Os senhores estão vendo qual é o comentário que faz, muito a propósito, D. Guéranger. D. Guéranger mostra que era explicável esse processo monstruoso. Pelas suas próprias mãos, a Inglaterra protestante destruiu um tesouro que ela não era mais digna de conter. Ela se privou, pelo seu próprio crime, da presença das relíquias de um santo, que seria um intercessor ainda válido para evitar que ela caísse nos últimos degraus da apostasia. E com isso consumou-se até o fim o crime. E então ele comenta: além disso, a Igreja na Inglaterra não era mais digna desse tesouro. Todos os bispos da Inglaterra, com exceção do Cardeal João Fisher, apostataram. Todos eles, padres, freiras, etc., na sua quase totalidade, aceitaram a passagem para o protestantismo com uma passividade simplesmente indecente, vergonhosa, como aconteceu na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, em certas partes da Alemanha. Foram conventos inteiros, foram dioceses inteiras, populações inteiras que com a maior indolência, quando não com a maior alegria, deixaram a Religião Católica e se fizeram protestantes.

Então, diz bem o D. Guéranger: nesse país, todo feito de apostasia, se São Tomás Becket estivesse presente, com exceção do Cardeal Fisher, não teria encontrado um bispo decente. O resultado: era melhor que seus ossos desaparecessem. E está muito bem raciocinado.

* Ser odiado pelos maus é uma glória

Agora, os senhores vêm como se faz a história, de coisas que ninguém comenta e que ninguém conta. Essa execução póstuma de São Tomás Becket é uma coisa que quase ninguém fala. Até o nosso opera omnia, ao menos que eu me lembre, não contou isso, não é verdade? E, entretanto, nisso há uma verdadeira glória para o santo. Qual é a glória que tem para o santo nisso? É que ser odiado pelos maus é uma glória. Sofrer perseguição por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo é uma glória. E é uma glória que o exemplo que um homem tenha dado tenha sido tão magnífico, que os maus não conseguem violar os Mandamentos da Lei de Deus, sem primeiro destruir as relíquias que ele deixou. Isso é uma verdadeira glória. Quer dizer, ele, até depois de morto, era uma barreira. E foi preciso que essa barreira fosse removida, para que a caudal da heresia pudesse continuar. Ora, não há nada de mais belo do que um homem deitado no seu jazigo, inerte, posto na sombra da morte, ao menos quanto ao seu corpo, e que, entretanto ainda é uma tal sentinela que só se passa eliminando. É uma verdadeira beleza. Santa Teresinha dizia que ela passaria seu Céu fazendo bem sobre a Terra. São Tomás Becket, à maneira dele, fez isso. Ele passou quatrocentos anos fazendo bem sobre a Terra. O corpo dele era uma trincheira, era um pavor para os adversários. É ou não é isso? Isso é ou não é uma verdadeira beleza?

Eu me lembro de uma poesia que o Dr. Fernando me mostrou uma vez, de Louis Veuillot, a respeito de sua própria sepultura, em que Louis Veuillot dizia que a suprema alegria dele seria que as cinzas dele ainda incomodassem o adversário. Depois de ele até durante a vida dele, tão longe quanto possível, tivesse arrancado a mascara da hipocrisia. E eu me lembro também de uma coisa que o Dr. José Fernando me contou, depois Dr. Fabio e outros que passaram pelo Equador, me [?] confirmaram: Garcia Moreno, cuja morte nós comentamos algum tempo atrás, até hoje — não é, Dr. José Fernando? — não se sabe onde Garcia Moreno está sepultado. Só o arcebispo é que sabe. Fará disso o bom uso que os senhores imaginam. Só o arcebispo é que sabe onde está sepultado Garcia Moreira, porque conhecido o lugar de sua sepultura, de tal maneira seria ocasião de manifestação pró e contra dos equatorianos, que a paz pública, a paz podre desapareceria. Então é preciso que essa sepultura permaneça oculta. É um fiel imitador de Nosso Senhor Jesus Cristo, sinal de contradição e pedra de escândalo.

* Desejar batalhar contra a Revolução mesmo depois de nossa morte

Como eu gostaria de saber que não só a minha sepultura, mas a de cada um dos senhores, é um marco de divisão e de escândalo. Mas, mais, muito mais do que isso, eu gostaria de outra coisa: e eu sugiro aos senhores que peçam isso para si também; é que indo ao Céu, nos seja dado voltar continuamente à Terra para atormentar e perseguir os maus, confundi-los, passar descompostura, incutir terror, sugerir falsos planos e batalhar contra a Revolução de todos os modos possíveis e inimagináveis.

Eu gostaria de ser, se me fosse dado ser santo, ser um santo fantasma, que assombrasse todos os lugares, mesmo as lojas mais recônditas e mais íntimas, os presbitérios mais infectados, os lugares de conluio eclesiástico e civil mais malditos, me fosse possível penetrar ali e causar um terror inédito, tornar os homens lívidos, desconcertar os planos deles, jogar uns contra os outros, suprimi-los, fazer, depois de morto, tudo aquilo que em vida eu queria ter feito, eu quereria ter feito, mas que eu não posso fazer. Porque os senhores bem podem imaginar que se me fosse dado fazer isso agora, eu não acabava de pronunciar as palavras que eu estou pronunciando. Eu simplesmente me levantava daqui e ia fazer. Simplesmente eu não dormia, não descansava, eu não fazia nada. Se me dissessem: “Você, agora, saindo daqui, tomando um avião e indo para os montes Urais, pode… [falta palavra] …a Revolução”. Eu diria simplesmente, eu não acabaria a frase e diria simplesmente: onde está o avião? Bem, isso que nós queremos fazer em vida, nós devemos querer fazer depois de mortos. Bem, quem sabe se seria um lindo continuar do apostolado do Grupo, que todos nós, do Céu, continuássemos a deitar sobre esta Terra, essa e outras chuvas de rosas. Porque essa é uma magnífica chuva de rosas. Aqui está o comentário sobre São Tomás Becket.

Bem…

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