Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 27/12/1968 – 6ª feira [SD 268] – p. 7 de 7

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 27/12/1968 — 6ª feira [SD 268]

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Hebdomadário “Le Monde” noticia TFP * O Sr. Dr. Plinio apreciou muito a história do Patinho Feio, narrada em francês * O Patinho Feio na sua família: símbolo do contra-revolucionário dentro do mundo revolucionário * Sendo desprezado pelos seus, o Patinho Feio partiu, mas viu que o mundo fora não era melhor, mas mesmo assim acreditava que acharia alguém como ele * Um dia, o Patinho Feio foi encontrado quase morto no gelo, sendo socorrido: figura da Providência que encontra o ultramontanável * O Patinho Feio, já crescido, encontra um lago com diversos cisnes nadando: figura de alguém que encontra o Grupo

dizer aos senhores que os meus horários de Santo do Dia estão um pouco retardados porque eu tenho tido necessidade de sair muito tarde do jantar, ou melhor, daqui para jantar, porque estou numa série de reuniões para a implantação de alguns serviços, sobretudo na Comissão do Movimento. E isso me obriga, durante alguns dias, a levar a reunião mais tarde, razão pela qual também o expediente aqui com os senhores, à tarde, fica singularmente sacrificado.

Mas é por muito pouco tempo. Eu creio que logo depois do Ano Bom o expediente volta a ser o que normalmente era.

* Hebdomadário “Le Monde” noticia TFP

Por causa disso, também eu vou dar um Santo do Dia relativamente rápido, mas não sei… Primeiro contar aos senhores que esteve me visitando anteontem, ou trás-anteontem, já não me lembro bem, um repórter francês de uma cadeia de jornais franceses do interior e que também escreve para um dos maiores jornais do mundo, um dos maiores jornais franceses do mundo, que é o “Le Monde”, em Paris.

Esse homem veio, declarou que ele estava montando uma reportagem sobre a crise religiosa brasileira, sobre a situação brasileira, e que achava que a reportagem não podia ser completa se não tivesse também uma reportagem sobre a TFP, razão pela qual ele vinha nos procurar então.

Um verdadeiro monstro, não preciso dizer isso aos senhores. Mas, em todo caso, é muito interessante ver como os jornais de longe vêm já dando notícia sobre a TFP, como a irradiação da TFP vai longe.

Dr. Fábio acaba de me contar que ele tem em mãos um número do “Le Monde” com uma referência à TFP. É longa a referência, Dr. Fábio?

(Dr. Fábio: Não, é curta.)

Então chegue aqui e dê para eu ler. Os dois auditórios, acho que gostariam de saber.

(Dr. Fábio: Foi por pura curiosidade que eu entrei num restaurante com o Plinio e em frente há uma livraria estrangeira, então nós compramos isso. Eu disse: “Eu vou ver se há algo sobre a TFP”. Abri e havia.)

Mas isso é que é um senso devinatório, hein? Bem se louva a sagacidade Vidigal. Ele cheirou no ar.

(Dr. Fábio: É o seguinte, é um artigo, Dr. Plinio, que chama-se: “Le point de non retour”, sobre a Revolução brasileira. Então vem relatando uma série de coisas.)

Le point de non retour”?

(Dr. Fábio: É, de “non retour”.)

É o ponto para trás do qual não se vai, não é?

(Dr. Fábio: Vem relatando uma série… eu não li inteiro, eu li em diagonal. Vem relatando uma série de coisas, dá uma cronologia muito bem dada, desde a Revolução de 64 até agora. E um dos dados da cronologia é a expulsão daquele padre francês. E vem relatando o que foi o golpe, depois fala da reação que começou a surgir, das pessoas que foram presas, da Frente Ampla, do clero, de D. Hélder Câmara. Depois diz que o governo, ao mesmo tempo que começou a combater Marx, Lenine, Mao-Tse-Tung, Che Guevara, começou também a combater aqueles clérigos que não queriam aceitar as resoluções do Concílio Vaticano II.)

Sei.

(Dr. Fábio: Depois fala do CCC, diz que o CCC é totalmente nazista, e depois diz:)

De fato, as organizações como a CCC, que não é senão uma extensão da Mão Blanca da Guatemala, e a puritana Sociedade pela Defesa da Tradição, Família e Propriedade, aumentaram ainda singularmente a sua audiência perto do governo Costa e Silva nas últimas semanas.

(Dr. Fábio: Quer dizer, nas últimas semanas antes do golpe.)

A senhora do chefe de Estado, ela mesma assinou uma petição dirigida ao Vaticano, reclamando a limpeza dos elementos da esquerda na Igreja Católica brasileira. Os grandes jornais de informação do Rio e de São Paulo se lamentam que na véspera do golpe de 14 de setembro, que a polícia, tão pronta em prender centenas de estudantes, ignorava as atividades dos comandos da extrema direita.

(Dr. Fábio: Depois fala do escândalo Parasar, etc., aí muda de assunto.)

Il écrit: a puritane Sociedade Tradição?

(Dr. Fábio: Isso aqui, Dr. Plinio, é o “Le Monde” hebdomadário, não é o diário. Do dia 12 ao 18. Quer dizer, foi antes da entrevista com o senhor.)

É, certamente.

(Dr. Fábio: Quer dizer que agora sai uma nova…)

Uma outra lavada. Porque é contra. O senhor pode ter certeza que é contra nós.

A revista “Realidade” também publicou uma reportagem sobre o Carlos Prestes e depois uma entrevista com uma série de pessoas sobre ele. Um repórter que foi levado de olhos vendados, toda uma história que acho que é tudo mentira, o Carlos Prestes está simplesmente em algum apartamento em algum lugar. Bem, e um dos entrevistados exatamente era eu.

Certamente dava uma … [inaudível]… naturalmente, o último dos entrevistados, não é? Mas, enfim, era entrevistado.

Nós fazemos como as plantas: nós crescemos de baixo para cima. Nós começamos por estar fora da revista, depois somos os últimos, depois vamos para a capa da revista. Isso vai assim gradualmente.

* O Sr. Dr. Plinio apreciou muito a história do Patinho Feio, narrada em francês

Bem, eu passarei a fazer o Santo do Dia. Mas o Santo do Dia é sobre um tema muito inesperado. É o seguinte: eu gostaria de saber quantos dos senhores aqui precisamente conhecem a história do Patinho Feio, como é a narração. Porque eu não conhecia. Eu fiquei conhecendo esse primor de pequena apresentação em francês, que o Dr. José Fernando encontrou numa livraria, e que tem ilustrações muito curiosas. E depois resumida a história com aquela precisão francesa que entra até nisso: não tem um pormenor inútil para se compreender a história.

Do lado de cá, quais conhecem a narração da história, levantem o braço? É mais do que eu supunha.

Do lado de cá, quantos conhecem a história, levantem o braço? Também é mais do que eu supunha.

Porque tem o seguinte: essa história do patinho feio parece que é a narração de um Andersen, um coisa qualquer assim, um gênio qualquer lá da Dinamarca, qualquer coisa assim, e o texto provavelmente é dele traduzido para o francês.

O que é impressionante é que, eu não sei que intenção o homem teve ao inventar o caso, até nos pormenores do caso, a gente tem uma espécie de narração que é uma fábula, que é uma espécie de parábola para mostrar ao ultramontano o erro que ele comete ao se envergonhar de ser ultramontano, mas que é uma coisa fantástica. Os menores detalhes, se se pode usar a palavra, os mais insignificantes pormenores da narração concorrem nesse sentido e fazem da narração, nesse sentido, um primor, um verdadeiro mimo.

Eu pergunto como é que os senhores preferem — a narração é muito rápida: que eu a leia inteira e depois faça o comentário parte por parte, ou preferem interrompendo?

Porque, se não fosse tão tarde, era muito mais interessante eu ler inteira e depois então perguntar a esse e àquele do auditório qual é a relação com o nosso caso. Mas eu receio que o Santo do Dia em que eu anunciasse que ia fazer isso ficasse muito vazio. De maneira que eu só poderia fazer isso por surpresa.

Ou preferem que eu faça isso num outro dia?

(Sr. –: Já.)

Já?

Olha a coragem do Dr. João Sampaio. Ele está lá, diz que é para fazer para cá. E ainda vem ficar em pé aqui para ver.

(Sr. –: Dr. Plinio, se fosse possível ler em francês, depois em português, porque isso para quem entende francês tem uma tal música…)

Minha pronúncia francesa é péssima, a maior parte não entenderia. Eu achava melhor ir traduzindo para o português, e já de uma vez.

Bem, eu pergunto: querem a leitura corrida e depois o comentário, ou leitura interrompida com comentários dos senhores, ou preferem os senhores não fazerem comentários?

Eu consulto os interessados: comentários desse auditório ou não? Inclusive gente que não é de São Paulo seria interrogada, não é?

Bem, os que desejam comentários do auditório levantem o braço. Deixa eu ver um pouquinho. Eu felicito os que levantaram o braço. Levantem de novo.

Balanço total: o Jaime, os dois sobrinhos do Arruda e mais uma mão corajosa ali, Paulo Rocha, Adauto. Não tinha visto o Adauto. Onde está o Adauto? Levanta a mão. É, qualitativamente é muito. Quantitativamente é muito pouco.

(Sr. –: E aqui, o senhor não consulta ninguém?)

Então eu consulto quanto ao comentário daqui. Os que querem fazer o comentário, daqui? Os que querem fazer o comentário, aqui, levantem o braço. Dr. João Sampaio.

Mereceria bem eu fazer um comentário só com os que levantaram o braço. Irmos para uma sala e fazermos uma rodinha. Hein, Adatuto?… Não se fala dialeto piracicabano aqui, hein? Linguagem dura, não! O José Fernando não gosta.

* O Patinho Feio na sua família: símbolo do contra-revolucionário dentro do mundo revolucionário

O verão está no seu mais forte. A mamãe pato estava no seu ninho, estava chocando seus ovos. De repente, ela ouve um ruído ligeiro e as cascas dos ovos estão quebradas, e delas saem os mais bonitos patinhos do mundo. Todos adoráveis, amarelos e cheios de penugem. Todos, exceto um.

É ou não é a solidão do contra-revolucionário? Só ele é que não tem penugem, não é amarelo, é o feio dentro do mundo revolucionário.

Esse não só é mais gordo do que os outros,…

Como acontece a certos contra-revolucionários.

mas ele tem uma cor cinzenta feia. Mamãe pato se lamenta: “Que mal fiz eu ao céu para ter um filho tão feio?”.

Que mal fiz eu ao céu para ter um filho ultramontano?

Quanto aos seus irmãos e irmãs, eles se recusam de um modo méchant a brincar com o patinho.

É ou não é verdade que o isolamento no recreio, nos brinquedos, porque os outros são revolucionários?

O pobre patinho se sente muito infeliz. Sempre só, pois que seus irmãos o rejeitam e que os animais da fazenda igualmente o expulsam gritando: “Vai embora, feinho, nós não queremos saber de você”.

É ou não é o ultramontano perseguido pelos revolucionários? “Ninguém quer porque você é diferente dos outros. Nós não queremos saber de você porque você é diferente. Você não tem o jeito dos outros. Você escapa à regra geral. Portanto, você é diferente”.

Ele decidiu partir, mas não soube para onde ir.

É ou não é o membro do Grupo antes de encontrar o Grupo?

Ele queria simplesmente deixar o inferno em que vivia. “Aqui na fazenda eu sou demais, ninguém gosta de mim”, pensava ele tristemente.

* Sendo desprezado pelos seus, o Patinho Feio partiu, mas viu que o mundo fora não era melhor, mas mesmo assim acreditava que acharia alguém como ele

Helás! O mundo fora não era melhor!

Ele encontrou um cachorro que o perseguiu. Apavorado, ele se refugiou atrás de um tronco de árvore. E, fugindo, ele chegou diante de uma choupana mal arranjada. Ela era habitada por uma mulher velha, pelo seu gato sábio e sua galinha. Essa galinha era feia, tinha patas baixas e sua dona a tinha chamado, por isso, Patas Curtas, mas ela punha ovos de ouro. A velha tinha bom coração e adotou o patinho feio.

É ou não é a situação do ultramontano que encontra, de vez em quando, um velho esmulambado que tenha pena dele? Quer dizer, é uma velha chamada Pata Curta que tem pena dele e que faz para com ele alguma coisa de bom.

Mas o gato estava ciumento. “Você sabe, pelo menos, fazer as costas abauladas como eu sei?”, miou ele com desprezo.

Os senhores sabem aquele jeito que o gato tem de fazer com as costas, não é?

Você sabe ao menos pôr um ovo?”, glugluzou a galinha. E o pobre patinho feio não sabia nem pôr ovos nem fazer aquela coisa.

É como o menino que não sabe dizer palavrão e não fazer nenhuma das aventuras da Revolução. Então, ele fica desapontado.

Desde que a velha saiu, que protegia o homem, o gato deu um arranhão no patinho e a galinha lhe deu uma bicada. Com as lágrimas nos olhos, ele foi obrigado a sair.

Agora vejam a coisa endereçada, a vocação para o Grupo que aparece.

Deve existir em algum lugar do mundo um pássaro que seja como eu”, pensou ele. E andou longamente pelo mundo à procura de outros iguais.

Mas não é impressionante? É o ultramontanável ou o ultramontano à procura de iguais e que anda pelo mundo até encontrar finalmente o Grupo.

Sabem, os pormenores, a evolução toda é tão parecida com a história de um bom menino ultramontano, que é uma coisa que a gente não sabe quase o que dizer.

* Um dia, o Patinho Feio foi encontrado quase morto no gelo, sendo socorrido: figura da Providência que encontra o ultramontanável

Ele tinha crescido, nem por isso tinha ficado mais bonito, e ele sequer se parecia mais com um pato. Ele era cada vez mais diferente de tudo.

Um dia, fazia um frio enorme e um homem o encontrou no gelo. Ele estava completamente enregelado e quase morto. O homem quebrou o gelo com precaução e o colocou debaixo de sua capa.

É a Providência que encontra o ultramontanável, então o ultramontanável isolado, quase enregelado, quase morto, e o traz para dentro do Grupo.

Os senhores vão ver o resultado.

Ele o trouxe para sua mulher, que o colocou numa banheira bem cheia, dentro de uma linda cesta. De manhã, as crianças chegaram para brincar com ele. Assustado, porque toda a vida tinham sido ruim para com ele, ele caiu dentro de uma leiteira.

Quer dizer, ele nem acreditava que alguém pudesse ser bom para com ele. Ele então caiu dentro de uma leiteira.

À vista de tanto leite estragado, a mãe de família também se zangou. Ela gritou injúrias contra ele e pegou num objeto para espancá-lo. Aterrorizado, ele sai correndo para evitar os golpes. E o inverno para ele correu lenta e tristemente.

* O Patinho Feio, já crescido, encontra um lago com diversos cisnes nadando: figura de alguém que encontra o Grupo

No começo da primavera seguinte, ele chegou diante de um lago onde lindos cisnes nadavam graciosamente.

Aí é que propriamente — eu não estava bem lembrado da história — ele encontra o Grupo. Aquilo foi uma ilusão de ter encontrado o Grupo; agora é que ele encontra.

Quando ele os viu, ele não pôde conter as suas lágrimas. “Como deve ser agradável ser tão belo”, pensou ele. E ele então se meteu dentro da água. Ele tinha ficado um cisne lindo.

Ao longo de suas desventuras, ele tinha ficado um cisne lindo, um perfeito ultramontano.

Como ele estava alegre de ser belo e, sobretudo, de ter enfim encontrado irmãos.

Está terminada a história do patinho feio.

Eu nunca pensei que um conto de Andersen pudesse dar num Santo do Dia. Mas os senhores estão vendo que, com pequenas adaptações, é um mimo isso tomado como a história do trajeto do ultramontano até encontrar o Grupo e até ele perceber a sua verdadeira beleza espiritual, compreender que a Revolução é o mundo dos patos e que ele é um cisne, e na companhia dos cisnes perceber que existe um direito à vida para ele.

Aí os senhores estão vendo tudo o que Nossa Senhora fez para nós, para nos trazer para o Grupo. E aí os senhores têm mais um pequeno elemento para amarmos mais a fundo a nossa vocação.

Com isso está terminado o Santo do Dia e numa noite dessas em que eu chegue mais cedo, eu pretendo fazer uma conferência em que os senhores estejam presentes também, e é maior, a respeito de um ponto de doutrina. Hoje nós vamos encerrar porque eu cheguei mais tarde.

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