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Santo do Dia -- 25/12/68 -- 4 Feira -- [SD 134]

Comentário sobre o Dispersit Sunt

O cântico que vamos ouvir agora tem alguma coisa de profético e diz respeito ao [mesmo?] tempo, à vida espiritual do indivíduo e à história da Cristandade. Ele lamenta um declínio de caráter espiritual, mas como os senhores verão pelo texto que eu lerei daqui a pouco, ele apresenta, de outro lado, algo que é o declínio da Cristandade com a Revolução.

O texto é o seguinte:

Como se obscureceu o ouro, como se mudou a sua bela cor!

Aqui é a lamentação: como é que tal alma tão amada e tão eleita, como é que tal alma tão chamada e tão querida, perdeu aquele ouro inicial de uma vocação, aquele ouro inicial de sua fidelidade plena e esse ouro, que era rutilante, se foi obscurecendo até se tornar preto? [Mas?] também se pode perguntar da civilização cristã. Como aquele ouro da Idade Média, como aquela rutilância da Idade Média, aquela nobreza da Idade Média foi aos poucos se obscurecendo, até dar início à Revolução? Depois continua:

Como foram espalhadas as pedras do santuário pelos ângulos de todas as praças?

Os senhores estão vendo que a metáfora representa outra ruína. Não é mais o ouro que perdeu o seu brilho, mas é o santuário no edifício sagrado. O edifício digno, altivo como costumam ser os santuários que foram destruídos e todas as suas pedras foram espalhadas por todos os cantos de todas as praças. Houve, portanto, não apenas uma destruição, mas uma dispersão das pedras. Foi uma ordem de coisas a que depurada segundo um certo modelo, um certo conceito, que foi arrasada completamente e os elementos constitutivos daquela ordem foram dispersos sobre a face da terra. Dessa ordem nada mais resta. É algo de parecido com o ouro que perdeu o seu brilho e que se tornou negro. Depois continua… [Faltam palavras?]:

Os ilustres filhos de Sião vestidos de fino ouro como foram considerados quais vasos de terra obras das mãos do oleiro?

Os senhores estão vendo que aqui é uma outra idéia. É uma classe social eminente: a classe dos fihos ilustres de Sião, dos homens que representavam a aristocracia de Israel, que representavam a elite de Israel e que exteriorizavam a sua categoria com o fato de se vestirem de ouro fino. Eles foram de repente entraram em decadência, e eles foram tidos como sendo zero, eles foram sendo tidos como sendo a plebe. Negou-se a diferença que havia entre eles e a plebe. Eles foram [refutados?] vasos de argila fabricados pela mão do oleiro. Há uma diferença enorme entre a jóia feita pelo ourives e o vaso de barro feito por um oleiro qualquer. Como é que se deu isso? Que a jóia decaiu tanto que ela acabou sendo tratada como sendo uma coisa de barro fabricada pelo oleiro? Pior, como é que se deu o caso de que a jóia se deteriorou de tal maneira que não só ela foi tida como isso mas ela se tornou realmente tão vil como o vaso feito pelo oleiro? Mas ainda: como é que os homens se tornaram tais e tão vis que não souberam mais distinguir o ouro verdadeiro do vaso [ordinário?] fabricado pelo oleiro? Os senhores estão vendo que, ao mesmo tempo, o [prenúncio?] da decadência da ordem hierárquica e do espírito revolucionário que leva a toda espécie de igualdade. Depois continua:

Jerusalém, Jerusalém, converte-te ao Senhor, teu Deus.

Quer dizer, ó ouro que obscureceste, recobra tua cor antiga; ó fidalgos que degenerastes, recuperai a vossa antiga beleza, a vossa antiga nobreza, recuperai-a na fidelidade à Igreja Católica, Apostólica, Romana. Ó povos que entrastes em desvario e que já não sabeis diferenciar o ouro verdadeiro do barro, retomais os caminhos da sabedoria e convertei-vos a vosso Deus e Senhor, que é o Deus que personifica toda a sabedoria. Então, essa música é cheia de tristeza. Ele canta [por?] várias formas esta tragédia [nessa?] sucessiva destruição, mas acaba com um convite para a Contra-Revolução e para o Reino de Maria. Eu acentuo [o modo?] muito bonito [pelo?] qual a música [marca-lhes] perdão:

Dispersit sugit, dispersit sugit.

[Dá a impressão, ao mesmo tempo?],… [ilegível] …[alma?] que é… [ilegível] …à mão [cheias?] por todos os lados e [de?] alguém que corre atrás e que contempla a dispersão: dispersit sugit - dilacerado, estraçalhado… [Faltam palavras] …dispersão. É o que seria [nas?] nossas almas se elas [fossem?] verdadeiramente fiéis considerando [essa tremenda?] dispersão. Essa dispersão do santuário tão [marcantemente?] …[Faltam palavras] …[por?] obra do concílio. Assim nós veremos [agora?]… [Faltam palavras]

[O coro interpreta a música]

representantes… [ilegível] …, da TFP do Brasil, da Argentina e do Chile: Há no último canto que acabamos de ouvir uma frase assim: “Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai o seu louvor na Igreja dos seus santos”. Nós nos podemos perguntar se nos vários cânticos que sucessivamente todas as gerações entram em louvor de Deus, Nosso Senhor, se nesses vários cânticos, que são os cânticos de fé proclamando Nossa Senhora a Bem-aventurada, se nesses cânticos diferentes em cada século, mas com notas próprias tão harmônicas e tão afins uns com os outros, umas com as outras, se não existe algo que é o cântico novo que nós mesmos devemos cantar; se não existe algo que é uma nota que está subjacente, que está harmoniosamente oculta nas notas de todos os outros cânticos anteriores e que cabe a nós tocar como quem toca uma [antífona?], daí partindo para um cântico novo que é o complemento dos cânticos antigos que têm sido cantados. Dr. Plinio Xavier, nas palavras tão cheias de amizade para comigo, mas sobretudo de piedade para com Nossa Senhora e de amor ao Grupo que teve aqui, ele falou a respeito do presépio e falou a respeito do que Nossa Senhora e Nosso Senhor viram nos sucessivos séculos na história da Igreja, nós podemos nos perguntar se quando Eles estavam olhando para o presépio Eles não viram também em espírito as sucessivas gerações que se foram aproximando do santo presépio para adorar o Menino, para venerar a Senhora, para apresentar seus respeitos ao pai adotivo de Nosso Senhor Jesus Cristo, se Eles não viram todos os presépios que por toda a terra foram feitos representando as bençãos e os acontecimentos históricos daquela noite memorável, e eu me pergunto se Eles, vendo tudo isso, não acharam que uma nota era para ser representada, era para ser acentuada pelos que viessem nas tristezas da segunda metade do século XX, e essa note qual seria, nos perguntamos a nós mesmos. Se nós tivéssemos que fazer um presépio, segundo inteiramente a nossa alma e o nosso espírito, segundo nossa vocação, como é que seria esse presépio? Ele conteria, por certo, o Menino Jesus, ele conteria, por certo, Nossa Senhora, conteria São José; nós não dispensaríamos nem o burrico, nem a vaca; nós, certamente, não dispensaríamos os pastores; nós nos comprazeríamos em imaginar todos os santos da Igreja primitiva, todos os doutores da Igreja antiga; nós nos comprazeríamos em imaginar os eremitas, os cenobitas, os monges, os frades mendicantes, as falanges sucessivas de Ordens religiosas que têm ido venerar Nosso Senhor no presépio, mas nós colocaríamos num lugar especial do presépio aqueles que junto ao presépio tem sido até hoje, não os negados, não os mal vistos, mas algo que faltava ressaltar; algo que estava visto por todos, conhecido pela história, registrado pela história, mas que a nós competia glorificar de um modo especial: no presépio feito por nós figuraria tudo isso, figuraria com transportes de enlevo, de encanto e de alegria, mas nós não poderíamos deixar de pôr, junto ao presépio, uma luzidia coorte de cruzados, todos armados, revestidos com suas lanças, com suas espadas, baixando uns a pé, outros a cavalo, com suas plumas, com seus escudos, com seus brasões heráldicos, chegando para adorar o Menino Jesus, nesse presépio de Belém, que eles tinham vindo de tão longe, com tanto sacrifício, com tantas renúncias, com tanto heroísmo, com tanto ímpeto, libertar da garra dos maometanos. Não era possível para nós uma meditação do presépio sem que estivessem presente os cruzados, sem que estivessem presente os cruzados, sem que, portanto, é espanto, estivessem presentes também os maometanos; sem a meditação do bem, mas também a consideração do mal. É a Revolução e a Contra-Revolução junto ao presépio; é a luta eterna junto ao presépio, até o fim do mundo, entre o bem e o mal, o demônio rangendo junto ao presépio, o demônio procurando já mobilizar a primeira matança dos inocentes, mas ao mesmo tempo os filhos da luz, armados para a luta, o presépio como o teria visto o profeta Simeão: deitado ali Aquele que era a pedra de escândalo para a divisão dos homens, luz para a veneração de todos os povos, razão de salvação, mas também de perdição de muitos, elemento que é a espada e o fogo; a espada que entra em luta e que divide, o que queima, que separa, que purifica; o grande contraste da história. No meio desse grande contraste, nós veríamos o presépio como divisor das águas, como o ponto [+?] da luta. Trata-se exatamente de glorificar o presépio, de cercá-lo de adoração, de fazer com que sua luz chegue para todo o universo, trata-se, por causa disso, na ponta da lança, na ponta da espada, com o uso de todas as armas, defender o santo presépio, defender a irradiação da luz do presépio por toda a terra, o significado guerreiro do presépio, o presépio, portanto, como fonte de energia combativa, de intransigência, o presépio que inspirou os cruzados, o presépio que inspirou os inquisidores, o presépio que inspirou os heróis das guerras de religião; o presépio que inspirou os heróis da luta da Vendée; o presépio que inspirou os carlistas, que inspirou os cristeros, que inspira os que hoje lutam contra o comunismo, o presépio porque fonte de luz, porque ponto de partida de toda a vida, também como de discórdia e de divisão, mas ponto de partida e elemento de vivificação de toda a reação, de toda a pugnação contra o mal, de toda a vitória; o presépio, ideal do guerreiro, junto ao qual o guerreiro se curva enternecido e enlevado, mas por causa disso mesmo, ora tendo na mão o rosário, ora buscando a espada, ora ajoelhado, ora se levantando e correndo de encontro ao adversário; compreendo, se assim se pudesse dizer, em Deus tão Divino, uma realidade sobrenatural tão admirável não podia ser vista a não ser considerando também quem a quer negar, a não ser considerando quem quer destruir a obra que ela veio realizar e que, portanto, a adoração do presépio não é plena, não é completa se não se explicitar inteiramente esse sentido bélico e é essa a nota que certamente estava subjacente em todos os presépios anterioresl que eu neles vi, por exemplo, desde a minha mais remota infância, mas que a nós nos cabe tornar explícita em toda a sua amplitude, em toda a sua carga, em toda a sua força. Nós não devíamos ver apenas no presépio, com um olhar retrospectivo histórico, os guerreiros dos tempos das Cruzadas, mas devíamos ver muito mais: nós quereríamos ver os batalhadores da próxima luta contra o comunismo, logo depois implantado o Reino de Maria, assistindo o primeiro Natal em Belém, carregando consigo as suas cicatrizes, os seus ferimentos, as suas armas e, ao mesmo tempo que os Anjos do Céu, do que as almas de todos os que alcançaram o Céu pela luta por Nosso Senhor Jesus Cristo, proclamando “Quis ut Deus, quis ut Maria, quam como Deus, quem como Maria”, junto ao presépio de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quem sabe se nós mesmos estaremos nesse presépio nesse dia de glória. Quem sabe se depois de tormentos atrozes, depois de sofrimentos que serão nesse momento, a nossa alegria e nossa glória, quem sabe se depois da fidelidade nesses dias opacos que antecedem à grande luta, quem sabe se depois de mil fidelidades e mil estraçalhamentos, nós, nós mesmo ali estaremos nos lembrando dessa festa de hoje, feita nas dores e nas agonias desse crepúsculo tremendo, feito no prosaísmo desse mundo revolucionário, quem sabe se nós mesmos, fisicamente nós, ali estaremos presentes e nos lembraremos dessa hora e levantaremos aos Céus não só as nossas almas, nem só os nossos corações, mas também as nossas armas, para indicar a Nossa Senhora, para indicar a Nosso Senhor Jesus Cristo, a São José, a todos os Anjos, a toda a Igreja gloriosa, a toda a Igreja militante, ao Inferno, para indicar que ali está uma geração e uma semente de outras gerações de guerreiros que irão até o fim, até o último Natal, até o último momento em que o tempo tiver terminado, em que, como diz o Apocalipse, os Céus tiverem rolado como um pergaminho, em que não haverá mais nada da vida terrena atual, em que os homens serão julgados, em que o presépio ali continuará para adoração dos Anjos e dos santos e para alegria dos eleitos, num perpétuo Natal que será uma perpétua Páscoa e uma alegria por todos os séculos dos séculos.

Hoje me contaram, porque eu não tive tempo de ler, as notícias a respeito desse satélite - a Revolução e a Contra-Revolução me ocupa muito mais tempo do que essa cavalgada sem cavalo por homens sem alma feitos por uns espaços que não são para eles - ma enfim me contaram que a Terra vista de longe apresenta um brilho extraordinário com uns certos coloridos de arco-íris. E eu me pus a me perguntar se até isso não contém para nós um certo ensinamento: a Terra, olhai para ela. Ela está aqui debaixo de vossos pés. Não é nem esse tapete, nem é aquele cimento, nem são essas [pedras?], mas é isso; essa realidade que parece feita para o homem nela se enterrar: parda, feia, escura. Entretanto, vista à distância, ela é tão brilhante! ela é [rutilante?] e ela tem as cores de um arco-íris. Não é isso um símbolo da vida [prosaica?] que nós levamos no momento, até… [ilegível] …Se é [vivermos?] com fidelidade, se é vivermos com olhos postos na Bagarre, se vivermos na [esperança?] contínua do Reino de Maria, se vivermos na [oração?] e na vigilância e na intransigência e na luta, e na fé e na esperança, se vivermos assim, essa vida não será [como essa Terra?]… [ilegível] …[sem graça?]; mas quando ela for vista [de longe?] pelas gerações que nos seguirem ela não vai também [emitir?] um brilho extraordinário e não verão nela, nessa nossa [fidelidade?] nesses dias tão [sensaborões?], ou com [todos?] os péssimos sabores neles reunidos, não verão nessa [nossa fidelidade?] um brilho único e uma luz de arco-íris? Meus caros, coragem. [ilegível] …para viver nesses dias, mas sobretudo coragem para nesses dias viver para os dias da coragem e da luta que se aproximam: para que nós sejamos aqueles guerreiros que vão estar junto ao presépio na aurora do Reino de Maria, de tal maneira que nunca mais será possível representar o presépio sem representar os muitos guerreiros que até lá tenham [ido?] por aquilo têm lutado e morrido, com os olhos postos em Jesus, com o coração nas mãos de Maria e com a certeza de uma eternidade bem-aventurada. Eu tenho… [ilegível]