Santo do Dia- 23-12-68- Segunda-feira - [SD 134]

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Alcácer

Comentário sobre a Ladainha do Imaculado Coração de Maria

…logo no começo da reunião… seguir sobre o inferno.

Podemos começar a cuidar do assunto do Santo do Dia. E como não há ficha propriamente me pediram para comentar a ladainha do Imaculado Coração de Maria, que está sendo rezada à noite nas novas sedes.

Esta ladainha é quase toda ela uma transposição ao Imaculado Coração de Maria de coisas que se dizem na Ladainha do Sagrado Coração de Jesus sobre Ele; transposição adequada porque Nossa Senhora é a perfeita semelhança de Nosso Senhor, e nessas condições, mutis mutantia, dela se pode dizer muito daquilo que de Nosso Senhor se diz.

Bem, agora para mim fica um pouco embaraçoso fazer um comentário, porque as condições são muitas e eu não posso senão fazer uma ou duas dessas invocações e analisá-las aqui com os senhores.

Eu tomaria essa aqui: “Coração de Maria, no qual o Sangue de Nosso Senhor, preço de nossa redenção, foi formado”. É uma consideração que é muito bonita para as nossas comunhões.

Em geral, pelas leis comuns da reprodução da espécie é sempre assim, que o homem traz consigo algo do sangue de seu pai e algo do sangue de sua mãe. Mas o preciosíssimo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo foi todo ele exclusivamente formado de Nossa Senhora, como também a carne sacratíssima de Nosso Senhor foi toda formada de Nossa Senhora, porque como se tratou da concepção e do parto de uma virgem, não interveio obra de homem. E por causa disso se pode dizer o que Santo Agostinho disse muito apropriadamente: Caro Christi, caro Mariae, a carne de Cristo é, de algum modo, a própria carne de Maria. De maneira que nele, Nosso Senhor Jesus Cristo não havia senão a carne e o sangue de Maria, dados para Ele.

Nós compreendemos melhor aí o que pode ter sido o período em que Nosso Senhor estava em gestação no corpo de Maria, período em que ela ia dando todos os elementos vitais par a constituição do corpo do Homem-Deus e em que a união hipostática já existia, porque nós não devemos imaginar que a união hipostática fosse apenas quando Nosso Senhor nasceu, no momento de Nosso Senhor nascer. Mas a partir do momento em que Ele foi concebido deu-se a união hipostática e a natureza divina se associou à natureza humana e começou a se desenvolver em Nossa Senhora.

Agora, tudo indica, pela lei das reciprocidades e pela lei das anlogias, tudo indica que a medida que Nossa Senhora ia dando seu corpo a Nosso Senhor, por uma reversão, Nosso Senhor ia dando, por assim dizer, seu espírito a ela, e que ela ia crescendo numa união com Ele fabulosamente de um odor insondável; de um modo que nós nem podemos imaginar como é, mas é positivo que Nossa Senhora era capaz de progresso na virtude e que ela não cessou de progredir até o último momento de sua vida, e, que portanto, durante todo esse tempo da gestação ela teve progressos abismáticos, progressos e dons insondáveis, maravilhosos, que eram como que uma espécie de símile de gestação que se dava nela.

A medida que ela dava a carne e o sangue para formar a humanidade Santíssima do Filho de Deus, nela estava pronta para nascer na noite de Natal. A união com Ele tinha atingido um ápice insondável, e ela estava pronta para ser, em todos os sentidos da palavra, a Mãe do Redentor.

De maneira que se pode dizer, de um certo modo, que ela como mãe, gerava o Filho, mas de outro modo se pode dizer que Ele, como Filho, preparava nela a mãe perfeita, e que por assim dizer, por um paradoxo, o Filho gerava a mãe, se quiser.

Mas que a alma que ela precisava ter para ser a mãe santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, esta alma chegou a toda sua perfeição para o papel de mãe de Deus exatamente no momento em que se deu o nascimento virginal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na noite de Natal foi o momento em que houve um êxtase enorme, em que Nossa Senhora foi elevada a uma intimidade superlativa com a Santíssima Trindade.

E foi, naturalmente, nesse momento que virginalmente ela deu à luz o Verbo.

Nós devemos imaginar Nossa Senhora como às vezes umas iluminuras apresentam, - não inadequadamente, porque a pintura não pode representar tudo-, apresentam Nossa Senhora deitada, meio dormindo, com o Filho recém-nascido ao lado. Não é incorreto representar isso, mas a realidade espiritual que está por detrás disso não fica na representação.

E a representação é um êxtase, um arroubo como não houve na vida de nenhum santo e como nem a gente pode conceber que tenha havido, durante o qual a alma dela chegou a uma espécie de plenitude à qual se deveriam suceder outras plenitudes, porque ela baixava de plenitude em plenitude.

E aqui sim, num sentido santíssimo da palavra, de requinte em requinte para a integridade de santidade que ela recebeu no último instante de sua vida.

Mas ali vamos dizer que atingiu uma plenitude. E foi nesse momento dessa plenitude também, que das entranhas puríssimas dela, virginalmente até o próprio parto, nasceu o Filho de Deus.

Aliás, coisa impintável o nascimento propriamente dito, porque não se pode ter a idéia de como é que o nascimento virginal se deu, como é que o nascimento ocorreu. O que nós sabemos apenas pela fé é que Nossa Senhora foi virgem antes do parto, durante o parto e depois do parto.

Bom, com essas considerações nós compreendemos ainda melhor a forma de união entre Nosso Senhor e Nossa Senhora. É uma forma de união estritamente insondável para a mente humana, não se pode imaginar como era.

Bem, e nós nos preparamos melhor para nos aproximarmos do Menino Jesus. Nós compreendemos ainda melhor o papel de Nossa Senhora como medianeira, o papel dela como intercessora; nós percebemos melhor que ela, nos aproximando dela, nós nos aproximamos de alguém de quem Deus está sumamente próximo, tão próximo quanto Deus possa estar de uma criatura.

E por isso nós nos preparamos para fazer uma meditação junto ao presépio segundo o espírito de São Luís Grignion de Montfort. Quer dizer, não é só considerar apenas a presença da imagem de Nossa Senhora ao lado do presépio como um nota histórica, mas ver além da nota histórica a nota sobrenatural e mística que há nisso. Ela é a porta do céu, ela é a arca da aliança.

E assim como aquele Menino veio a nós por meio dela, nós podemos chegar àquele Menino só por meio dela também. E os nossos olhos no presépio devem fixar-se sobre ela, sobre Ele através dela, com os olhos da mente, como quem em Maria considera Jesus.

Compreende que ali está Jesus que é a fonte, e está Nossa Senhora que é o canal. E está ali perto São José. Qual é o papel de Saõ José? Por mais poderosa que seja a intercessão de Nossa Senhora, quis a Providência que nós tivéssemos intercessores secundários, São José.

São José, como os senhores sabem, passou por uma provação tremenda com a sua perplexidade. Não seria a única provação de sua vida. Nós conhecemos duas, ele teve ter tido muitas outras. A provação que ele teve com a perda do Menino Jesus no templo também foi uma provação terrível.

Bem, assim como ia havendo uma preparação de Nossa Senhora para ela ser verdadeiramente a mãe de Deus, devia ir havendo também uma preparação de São José para ele tomar inteiramente a situação de pai adotivo do Menino Jesus.

De pai adotivo que era muito mais do que um pai adotivo no sentido comum da palavra, porque no sentido comum da palavra há qualquer coisa de contratual. O pai adota um filho, o filho se está em idade de razão concorda com a adoção. Se não é o filho, são, pelo menos, os pais do filho que entregam ao outro pai. Mas há qualquer coisa de contratual, não há mais do que isso, não há um vínculo de caráter natural.

Ora, se bem que São José não tenha sido o pai natural do Menino Jesus, ele, como esposo de Nossa Senhora, tinha direito verdadeiro ao fruto das entranhas dela. Não era uma paternidade convencional, não era uma paternidade estipulada, mas era uma paternidade que, de algum modo, resultava da ordem natural das coisas, não porque ele fosse pai natural do Menino, mas porque ele tinha um direito efetivo sobre o fruto do ventre sacratíssimo de sua esposa. Esse era seu direito de esposo.

De maneira que é claro que a alma dele também foi preparada para isso. E nós devemos admitir que durante a noite de Natal, também São José recebeu graças extraordinárias.

Os senhores podem compreender isso pensando nos pastores. Quem é que não admite que os pastores chamados para a primeira adoração receberam graças extraordinárias? Ora, se os simples pastores que estavam ali por perto receberam essas graças, como não admitir que a fortiori São José as recebeu muito maiores? Pela sua união com Nossa Senhora, pela sua revelação com o Menino Jesus.

Então nós devemos ver nele um intercessor secundário junto a Nossa Senhora, mas grandíssimo entre os intercessores secundários. Ele é secundário com relação a Nossa Senhora, não em relação aos outros intercessores, em relação aos quais ele ocupa um lugar eminentemente e talvez o maior dos lugares. Talvez ele tenha sido maior do que São João Batista, do que São João Evangelista, do que todos os outros santos.

Bem, é com esse espírito que nós nos devemos aproximar da noite de Natal e devemos nos preparar para as graças dessa noite.

Seria desfigurar a tradição e sair do reto caminho, se nós fizéssemos sobre a noite de Natal considerações que não fossem centro da linha das graças que o Natal confere. O Natal confere graças de apaziguamento, o Natal confere graças de distensão.

Quando a noite de Natal se anuncia, todos os homens sentem até aqui, - e eu tenho impressão de que isso é uma sensação que se torna cada vez mais ténue -,todos os homens sentiam como uma aliança do céu com a terra que se renovava. De maneira tal que todo o mundo caminhava com placidez, com alegria, com normalidade junto ao Santo Natal, ao presépio.

E havia uma espécie de desmobilização dos espíritos, um aumento recíproco e cristão do afeto entre todos os homens. É claro que nós não podemos ter isso com os filhos das trevas, mas é bem certo que nós devemos ter isso entre nós.

A noite de Natal deve fazer com que nós nos sintamos mais do que nunca filhos de Jesus, filhos de Maria, filhos de São José. Filhos adotivos da Sagrada Família, portanto irmãos uns dos outros, e portanto desejosos de, nessa noite, termos um acréscimo do afeto recíproco, termos um acréscimo desses vínculos que patentemente a Providência quer instituir entre nós e que são vínculos que nos levam ao perdão recíproco, nos levam à generosidade, nos levam ao esquecimento das faltas, nos levam a renovar toda nossa boa vontade para com os outros, talvez um pouco cansada pelos desgastes dos dias, dos anos e dos trabalhos.

Que Nossa Senhora a todos conceda isso, que ela também me conceda uma renovação da boa vontade dos senhores: que com isso a noite da Natal nos vincule profundamente entre nós para nós ficarmos também mais unidos e ligados a Ele.

Hoje é o voto que eu faço em seguida a essa meditação sobre o Coração de Maria enquanto gerando toda a carne e todo o sangue infinitamente preciosos de nosso Redentor.

Com isso o Santo do Dia está concluído.