Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) – 21/12/1968 – sábado – p. 6 de 6

Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) — 21/12/1968 — sábado

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Por que os Apóstolos praticaram milagres maiores que os de Nosso Senhor? Para quem não tem vontade de crer, os milagres são insuficientes. São Tomé, exemplo de alma verdadeiramente penitente. O verdadeiro arrependimento traz o ódio crescente ao pecado. Um exame de consciência sobre o ódio aos próprios pecados. Graças a pedir: ódio ao mal em nós e admiração pela virtude. Devemos ter alegria pela virtude dos outros, e não inveja.

São Tomé e a penitência

Por que os Apóstolos praticaram milagres maiores que os de Nosso Senhor? * Para quem não tem vontade de crer, os milagres são insuficientes * Bem-aventurados os que não viram, mas creram * Os castigos de Nossa Senhora: severos, enérgicos e maravilhosamente doces * São Tomé, exemplo de alma verdadeiramente penitente * O verdadeiro arrependimento traz o ódio crescente ao pecado * Um exame de consciência sobre o ódio aos próprios pecados * Graças a pedir: ódio ao mal em nós e admiração pela virtude * Devemos ter alegria pela virtude dos outros, e não inveja * Que Nossa Senhora nos obtenha o espírito de contrição



* Por que os Apóstolos praticaram milagres maiores que os de Nosso Senhor?

...praticaria um milagre ainda maior do que [os que] tinha praticado. Por que razão Nosso Senhor teve a intenção de que seus discípulos praticassem milagres ainda maiores do que Ele? Qual é o princípio a que obedece isso?

Não é fácil dar-se uma resposta a isso, mas me parece que entre as múltiplas respostas que podem concorrer, sem se excluir, para a explicação do caso, há uma digna de nota. É que quem viu Nosso Senhor, quem ouviu Nosso Senhor, quem da divina boca d’Ele ouviu a doutrina que Ele dava, este já tinha uma espécie de milagre evidente dentro dos olhos. Era uma coisa tão sobrenatural, tão divina, tão fora de qualquer proporção humana, que para um homem de Fé já não seria necessário outra coisa. É por esta razão também que Nosso Senhor censurou aqueles que lhe pediam milagres. A um dos que pediam milagres Ele disse: “A [?] essa geração malvada e ingrata, só crê por causa dos milagres”. Quer dizer há uma bem-aventurança, portanto, em crer sem os milagres. A São Tomé Ele fez uma crítica análoga: “Tomé, tu creste porque viste; bem-aventurados os que não viram, mas creram”. Era natural que quem tivesse contato com os Apóstolos, que continuavam evidentemente a obra de Nosso Senhor, mas que não tinham nem de longe, porque ninguém pode ter, a irradiação que Nosso Senhor tinha, [que os][seus?] milagres devessem ser maiores.

* Para quem não tem vontade de crer, os milagres são insuficientes

Então, São Tomé fez milagres espantosos. Os senhores vêem que um milagre se somava a outro. Cada vez o rei dizia: se vier mais um milagre, [então] eu crerei. São Tomé fazia um milagre [talvez] maior [do] que o anterior e o rei não acreditava. E por fim o rei acabou expulsando São Tomé. Qual é? O que é que está por detrás disso? É interessante notar por detrás do fato histórico, o estudo da psicologia do rei, o estudo da psicologia dos tais que necessitam de milagres insaciavelmente para crer. De fato, eles não têm vontade de crer. E, por causa disso, um milagre que lhes poderia bastar, dois milagres que lhes poderiam bastar, para eles são insuficientes. E eles querem uma série de milagres. E quando os milagres os acachapam, eles matam quem fez o milagre, ou expulsam quem fez o milagre! É a prova de que para eles não há milagre que baste, porque para quem não quer, não há milagre que baste. O homem pode sempre recusar o seu assentimento, e uma espécie de apetência de milagre, de fome de milagres, de fome de evidência, denuncia, no fundo da alma, uma espécie de recusa preguiçosa da graça, como quem diz: “Eu não estou disposto a pensar, não estou disposto a me esforçar, não estou disposto a abrir a minha alma. Se vós arrombardes a minha alma à força de milagres, então eu atenderei e crerei. Sem isto eu não crerei”. É um misto de preguiça, de alma estreita, fechada sobre si mesma, de recusa da graça. Por maiores que sejam os milagres, estas almas, muitas vezes ­— não digo sempre — acabam a cada milagres se tornando mais duras, recusando mais esta graça e acabam então odiando aquele que praticou os milagres. É essa a psicologia do rei.

Há, portanto, algo que devemos considerar aqui e que é a maldade humana: como o homem, viciado pelo pecado original e pelos consentimentos [excessivos] que deu aos pecados atuais, pode ter a sua alma fechada para a graça de Deus; e como nada, a não ser certas graças fulminantes e que às vezes não passam através dos milagres, podem abrir uma alma para as grandes transformações.

* Bem-aventurados os que não viram, mas creram

Eu tenho a impressão de que por causa disso, [também] certos povos, ou certas pessoas muito supersticiosas, são difíceis de converter. Eu conheci o caso de uma pessoa que tinha muito “thau”, que tinha, portanto, uma atração para o Grupo, enorme. Essa pessoa nunca se integrou realmente no Grupo e nunca se integrou. Eu tenho [razão?] para desconfiar que essa pessoa usava um amuleto para lhe trazer sorte. Esse amuleto, a meu ver, a separava. Não era só a ação maléfica do amuleto, mas é o crer nesses acontecimentos concretos, nessa ação palpável do preternatural sobre o natural, precisar disso para crer, não ter uma forma de uma alma tão elevada, tão aberta, que seja daqueles bem-aventurados que não viram, mas creram. Esses são, propriamente, os eleitos, para os quais, sobretudo — eu não digo exclusivamente — a TPF aceita. E para aqueles que entram para a TFP com o espírito oposto, a TFP aceita para os transformar, para fazer deles almas bem-aventuradas porque não viram, mas creram. Então, crêem com todo o entusiasmo e com todo o seu ardor.

* Os castigos de Nossa Senhora: severos, enérgicos e maravilhosamente doces

É interessante nós notarmos, por fim, a atitude de São Tomé. São Tomé andou mal. Os senhores sabem que ele duvidou da ressurreição de Nosso Senhor [Jesus Cristo?]. Os senhores sabem que por causa disso, o castigo que ele teve, ele foi o único que não estava presente na Assunção de Nossa Senhora. Sabem também do maravilhoso carinho de Nossa Senhora para com ele. Quando Ela ia subindo no céu, Ela desatou a correia que Lhe servia de cinto e jogou do alto para ele. Foi o único que recebeu d’Ela, com o castigo de não poder ver a sua morte, um dom que valia quase mais do que a morte, que ele não tinha assistido. [Assim?] são os castigos de Nossa Senhora: severos, enérgicos, maravilhosamente doces depois. De tal maneira enérgicos e de tal maneira doces, que a gente não sabe que mais admirar, se a energia ou a doçura. E propriamente o que extasia é a coincidência de tanta energia da doçura e de tanta doçura na energia. Não se compreende como numa alma podem caber coisa antitéticas em tal grau e completando-se de um modo tão magnífico.

* São Tomé, exemplo de alma verdadeiramente penitente

São Tomé convertido por esta doçura e, ao mesmo tempo, por essa severidade de Nosso Senhor, corroborado na graça por essa doçura e por essa severidade de Nossa Senhora, tornou-se uma alma verdadeiramente penitente. Os senhores sabem o que é que é a alma verdadeiramente penitente? É a alma daquele que, quando faz o mal, com vergonha e com tristeza, conta o mal que fez e gosta de repetir que fez mal. Aproveita as ocasiões que com naturalidade e com compostura se lhe apresentam, para insistir em que fez mal. Tem uma espécie de se flagelar a si próprio aos olhos dos outros e de dizer: “Em tal lance de minha vida, é bom que vocês saibam, eu andei mal. Aquele foi o mal que eu fiz, e eu odeio tanto o mal que eu fiz e me odeio a mim enquanto tendo feito aquele mal, que eu gosto de contar para os outros para que os outros me execrem por causa daquele mal, porque eu me execro, por causa daquele mal, e sou faminto da execração dos outros”.

Tal é a alma verdadeiramente penitente: aquela que mesmo depois de se ter arrependido, mesmo depois de ter expiado, mesmo depois de ter praticado anos de virtude, ainda tem, diante de si, aquele pensamento de David num dos salmos penitenciais: “Peccato meum contra me tibi soli ego peccam, et peccatam meam contram … [ilegível] …: “Eu pequei só na Tua presença, ó meu Deus, e meu pecado está o tempo inteiro de pé diante de mim. Ou seja, eu estou o tempo inteiro de pé diante do meu pecado e o meu ódio com meu pecado só se extinguirá com minha vida. E sempre que eu possa falar mal dele, e que eu possa conclamar todos os povos e falarem mal dele e me ajudarem a execrá-lo, eu não deixarei de o fazer, porque eu odeio o meu pecado. E é só com isto que minha alma se aquieta”.

* O verdadeiro arrependimento traz o ódio crescente ao pecado

A alma daquele que não gosta de conversar sobre o mal que fez, daquele que não gosta de ser repreendido, que quando é repreendido, ouve com uma certa impaciência a repreensão e tem um alívio quando se muda de assunto, a alma deste não é verdadeiramente penitente. Este não tem o arrependimento verdadeiro dos seus pecados. O verdadeiro arrependimento é um ódio crescente. Quanto mais cresce o tempo, tanto mais a gente compreende o mal que fez e odeia o mal que fez, e tanto mais a gente tem um pesar daquilo que fez, e um desejo de ultrajar o mal que a gente fez.

Aí os senhores vêem São Tomé. São Tomé que ia por toda parte evangelizar e que não receava ele de contar àqueles que ele queria atrair para a verdadeira Fé, ele contar o pecado que cometera. Ele não teria receio de escandalizar? Não teria receio de causar má impressão? Não. A verdadeira penitência só eleva, só ajuda os outros a se arrependerem também, só ajuda os outros a odiarem também o seu próprio pecado. Isto [é o] que a verdadeira penitência faz.

* Um exame de consciência sobre o ódio aos próprios pecados

De maneira, talvez, [que] se nós voltarmos, nesse momento, para um exame de consciência sobre nós mesmos e nós nos perguntarmos a respeito de nossos pecados, qual é a nossa atitude? Nós, quando há propósito, gostamos de contar os nossos pecados? Nós gostamos de contá-los para pessoas que depois vão esgravatar aquilo e nos mostrar, ponto por ponto, as agravantes do que fizemos? Gostamos do contato das pessoas que nos punem pelos pecados que nós cometemos? Gostamos de nos lembrar do mal que fizemos e de fazer o papel de advogados contra nós mesmos, aduzindo, um por um os elementos agravantes que possam nos ocorrer? Nós temos a consciência de que contando esse pecado, nós não desedificamos, mas edificamos, desde que isso não seja feito para se ostentar? Que pecados? Primeiro, os pecados cometidos antes de pertencermos no grêmio bendito do Grupo. O próprio fato de vivermos longe da Igreja Católica, de vivermos longe da influência de Nossa Senhora, de sermos espíritos mundanos, de sermos espíritos orgulhosos, egoístas, sensuais, tudo quanto fizemos naquela época, nós temos bem presente? Nós falamos mal disso? Nós censuramos? Nós gostaríamos que alguém nos censurasse?

Agora, vamos virar a página; depois que nós entramos no Grupo, os pecados que cometemos? Os que nós contamos e os que nós não contamos? Por que é que nós não contamos? Não foi exatamente de medo de que nos falassem? Não foi esse medo, porque guardávamos amor-próprio? Que disparate! Nós não tivemos vergonha de cometer o pecado; temos vergonha de contar. Que hipocrisia! Que farisaísmo! Entretanto, é assim a alma humana, ou pelo menos é assim a nossa alma.

Hoje em dia, em relação aos pecados, quer dizer, às faltas de correspondências, a tibieza, a mania de brinca-brinca, da baixa de nível, da ingratidão em relação à graça, da vulgaridade de espírito, de quantas outras coisas desse gênero, nós gostamos de que nos falem mal a esse respeito? Nós temos sofreguidão, ou nós somos lânguidos e indiferentes? Ou nós rugimos de raiva, quando nos chama a atenção?

* Graças a pedir: ódio ao mal em nós e admiração pela virtude

Então, para concluir nós devemos nos dirigir, neste ato, a todos os santos penitentes que há no Céu. O Céu está cheio de penitentes. Quantas almas foram penitentes nesta Terra? Quantas almas foram penitentes no purgatório… Então, nós nos dirigimos a essas almas penitentes e nós pedirmos que elas tenham pena de nós, que elas façam com que nós compreendamos o mal que fizemos, caiamos em nós e tenhamos as santas alegrias da contrição; a santa e jubilosa tristeza da contrição; aquele ódio ao mal, ao nosso mal, ao mal em nós, que é um dos pontos de partida do espírito Contra-Revolucionário. Que nós tenhamos probidade no nos considerarmos a nós mesmos, que sejamos implacáveis conosco no julgamento de nossos próprios defeitos. É isso que [nós] devemos pedir com toda a alma a esses santos, junto com o amor e a admiração pela virtude. Uma admiração enlevada, trazida pela virtude; a alegria de que outros foram inocentes, não praticaram o mal que [nós praticamos]; que os outros praticam um bem que não praticamos; a satisfação de nos sentirmos pequenos diante de nossos irmãos.

* Devemos ter alegria pela virtude dos outros, e não inveja

Nós nos devemos lembrar bem que é um pecado contra o Espírito Santo a inveja da graça fraterna. Quer dizer, quando a gente vê que um irmão da gente é mais do que nós na ordem da graça, e a gente inveja, isso constitui um pecado. Mas a contrário, …[ilegível]… a alegria pelo dom fraterno dá glória ao Espírito Santo. E se nós queremos reparar os nossos pecados, um dos melhores meios de reparação é termos alegria pela virtude dos outros. Então, pensarmos em tanta virtude que [nós] conhecemos aqui no Grupo, em tanta virtude maior do que a nossa. Nesse ponto, esse; naquele ponto, aquele; naquele ponto, aquele outro; como são superiores a mim: “Meu Deus, eu vos dou graças, eu Vos dou graças por vossa grande glória que brilha na pessoa desse, brilha na pessoa daquele, ou daquele outro”. Almas sem inveja, alegres da virtude dos outros, tristes pelo seu próprio pecado, estas são as almas nas quais Nossa Senhora entra e domina, trazendo consigo — Ela que é o templo do Espírito Santo — trazendo consigo o Espírito Santo; Ela que é Mãe de Deus Filho, trazendo consigo Nosso Senhor, Ela que é Filha do Padre Eterno, trazendo consigo o Padre Eterno.

* Que Nossa Senhora nos obtenha o espírito de contrição

Nossa Senhora que faça germinar em nós [assim] o amor da Santíssima Trindade, Nossa Senhora que nos dê esse espírito de contrição, Ela que é a Virgem das virgens, inocentíssima, mas pela qual passaram todas as graças de arrependimentos, de atrição e de contrição, que encheram e encherão até o fim do mundo a face da Terra.

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Auditório Santa Sabedoria