Santo do Dia -- 16/12/68 -- 2 Feira -- [SD 154]

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Santa Adelaide

Hoje dia 16 de dezembro e dia de Santo Euzébio, bispo e mártir. Ele lutou contra os arianos e os sofrimentos que esses lhe infligiam valeram-lhe o título de mártir, embora não tivesse derramado seu sangue. Ele viveu no século IV

Também hoje se comemora a festa de Santa Adelaide, rainha, a respeito da qual Omer Engerbert, na via dos Santos, diz o seguinte : “ Santa Adelaide, foi uma maravilha de graça e de beleza, segundo escreveu Santo Odilon Cruny, que foi seu diretor espiritual e seu biógrafo.

Filha de Rodolfo II, rei de Borgonha, nasceu em 931, casando-se aos 15 anos com Lotário II rei da Itália. A filha deste casamento foi, mais tarde, rainha da França. Adelaide tinha 18 anos quando seu marido morreu, segundo se crê envenenado por seu rival Belegário II. Este, em breve proclamou-se rei da Itália e ofereceu a mão de seu filho á viúva de sua vítima. Recusando-se Adelaide a fazer-lhe a vontade, Benegário apoderou-se de seus estados e consevou-a presa no castelo de Garda aí sofreu os maiores ultrajes, mas ninguém conseguiu demove-la.

Conseguindo fugir, dirigiu-se ao castelo de Canossa, propriedade da Igreja. Dessa fortaleza inexpugnável dirigiu um apelo a Oto I, rei da Germânia , que correu em seu auxílio com um poderoso exército. Cingiu ele a coroa de Itália em Pavia e foi mais tarde sagrado imperador em Roma. Entretanto, casava-se com Adelaide. O filho desse segundo casamento, Oto II, sucedeu seu pai e, a princípio, revoltou-se contra sua mãe. Temendo pela vida, ela refugiou-se na Borgonha. Foi então que conheceu Santo Odilon e espalhou benefícios pelos mosteiros franceses. Mais tarde, voltando á Alemanha, mandou ao túmulo de São Martinho, o mais rico dos mantos usado por seu filho, já então arrependido.

Quando chegardes ao túmulo do glorioso São Martinho, escreveu ela aquele a quem encarregara dessa missão, dizei : Bispo de Deus, recebei esses humildes presentes de Adelaide, serva dos servos de Deus pecadora por natureza, imperatriz pela graça.

Recebei também esse manto de Oto, seu filho único, e vós, que tivestes a glória de cobrir com vosso próprio manto Nosso Senhor na pessoa de um pobre, orai por ele “.

Logo que pressentiu chegado o seu fim, a Adelaide se fez transportar para o mosteiro de Celles sur Rhein (?) para morrer e repousar junto ao túmulo de Oto o Grande, seu segundo marido”.

Nós vemos aqui um outro tipo de iluminura medieval. Não é mais a da santa que vive no convento, não é mais a da santa que vive portanto no recolhimento do claustro e na paz do claustro, mas é da heroína - a Idade Média é fecunda em heróis e heroinas - que passam pelas maiores aventuras, passam pelos maiores riscos; não tem nenhum ideal de segurança social, não tem nenhum ideal de aposentadoria, mas querem e vêem no risco, na luta, na incerteza, quando a serviço de uma causa alta, e quando em defesa de direitos efetivos e legítimos, algo que dá á vida o seu sal e o seu sentido. Os senhores vêem aqui a existência dela como foi uma sucessão de altos e baixos. Ela foi princesa e casou-se com Lotário II, rei de Itália; era filha de Rodolfo II, rei da Borgonha. Ela teve uma filha que foi rainha da França. Adelaide tinha 18 anos quando seu marido morreu, e Benegário II tinha mandado, ao que parece, envenenar o seu marido. Ele se proclamou rei da Itália e quis que ela se casasse com um filho dele. Ela deveria, portanto, casar-se com o filho do assassino do seu próprio esposo. Era uma vida fácil, era uma vida agradável, ela certamente não sofreria o que sofreu. Ela foi encarcerada e durante muito tempo ficou exposta aos piores ultrajes. Mas, de repente, fugiu. Como me agrada a fuga dessa santa ! Como isso é diferente de idéia que habitualmente se faz de uma santa. A santa presa fica assim sentada de lado, chorando etc. , pensando em tudo menos em fugir e incapaz de fugir. A santa é uma santa gordona, que tem dificuldade em se mover, que não tem esperteza nenhuma, que não sabe iludir os carcereiros, que não sabe teu um gesto hábil qualquer para pular um obstáculo qualquer e sair correndo. Mas essa é uma santa diferente. Infelizmente esse homem que não nos conta como foi a fuga dela. É uma santa que corresponde á imagem verdadeira dos santos, e não a essa imagem caricaturizada que eu fiz, o santo tem a virtude da fortaleza e ele tem a virtude da prudência. E com fortaleza e com prudência a gente foge de todos os lugares de onde se possa fugir. E ela, portanto, tinha que poder fugir do lugar, desde que materialmente fosse possível. Ela foge, e fugindo, liberta-se do tremendo jugo em que estava.

Entretanto , ela soube para onde fugir, porque em vez de fugir para um lugar qualquer, ela fugiu para Canossa.

Canossa é a terrível fortaleza de Idade Média, ilustrada pelo fato de que São Gregório VII ali recebeu Henrique IV, que lhe foi beijar os pés, pedindo-lhe perdão. Canossa era um feudo da Igreja e um feudo da Igreja não podia ser invadido por um rei, por um soberano temporal. Ela ali estava, portanto, inteiramente tranquila. Ela, portanto, não só sabia fugir, mas sabia aonde refugiar-se. Era boa política. Ela tinha a inocência da pomba, mas tinha também a astúcia da serpente. E os senhores vêem que desse lugar, o que ela fez ? Uma coisa que também não se esperava numa santa : arranjou um marido e bem escolhido. Ela escreveu para o rei da Germânia, que era o herdeiro presuntivo do imperador do Sacro Império Romano Alemão, pedindo para ele ir defende-la. Ele foi defende-la, e pediu-a em casamento, se casaram. E então começa para ela uma nova vida. Os senhores vêem quantas mudanças nessa vida, quanta força de alma, quanto denôdo, quanta intrepidez essas mudanças supunham e quanta verdadeira virtude nessa magnífica santidade. Ele foi sagrado imperador de Roma e casaram-se. O filho desse casamento, entretanto, foi mau filho e começa aí mais outra tragédia. Ele revoltou-se contra sua própria mãe e por isso ela teve novamente que fugir e foi para a Borgonha. Foi então que ela conheceu Santo Odilon, em Borgonha e que ela se tornou célebre, ela com certeza tinha bens pelas liberdades que fez aos conventos de Borgonha. Mas o seu filho se arrependeu e eu creio que deve ter se arrependido a pedido dela. Porque esse manto do que ela mandou para São Martinho tem todo o aspecto de um pagamento de uma promessa como quem dissesse a São Martinho : Se vós me converterdes o filho, eu vos enviarei o manto dele. Então foi com essa magnífica mensagem : dessa mensagem, o fato mais bonito é o título que ela arranjou para si : Fulana, pecadora por natureza, imperatriz pela graça. É um tal contraste de títulos, há uma tal grandeza na simplicidade desse contraste, que mereceria ser o epitáfio dela : pecadora por natureza, porque todos os homens por natureza são pecadores; ainda quando são santos e não pecam, na sua natureza são pecadores por natureza; imperatriz pela graça. É uma coisa que ficaria bem num vitral, debaixo da figura nobre dela, da figura serena, da figura forte dela : Santa Adelaide, imperatriz : pecadora por natureza, imperatriz pela graça.

Vamos pedir a Santa Adelaide que nos de uma graça que tenha relação com isso, é o espírito de luta, o espírito de intrepidez e eu não hesito diante da expressão : o espírito de aventura. São Tomás de Aquino diz que o supra sumo da virtude da fortaleza é a agressividade e que o homem forte é um homem agressivo, quer dizer é um homem que toma a iniciativa da luta. Quando é necessário, quando é oportuno, quando é criterioso, ele não espera o inimigo vir a ele, mas ele toma a iniciativa da luta; ele vai ao inimigo, ele cria a situação e toma a iniciativa de investir contra o inimigo. Nós devemos pedir esse espírito de fortaleza mas, ao mesmo tempo, esse espírito de prudência, essa sagacidade, essa capacidade de discernir, de perceber, de escolher as situações, de dispor dos meios adequados para chegar aos fins que nós temos em vista. E então nós poderemos, no nosso epitáfio, também ter isso : Nós fomos lutadores e amamos inclusive o risco, levado não até a temeridade, mas a um extremo que os tontos diriam que é temeridade, nós teremos sido pecadores por natureza, mas teremos sido, pela graça, soldados intrépidos de Nossa Senhora. Vamos pedir isso a Santa Adelaide.

(A.R.M escrito no final.)