Santo
do Dia – 10/12/1968 – p.
Santo do Dia — 10/12/1968 — 3ª-feira
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anterior do arquivo:
General Cristero assume o comando; juramento de fidelidade que desagrada à mentalidade moderna; pois ao homem revolucionário repugna a idéia de pecado original; todo homem pode falhar se não rezar e vigiar; aquele que é otimista quanto a si próprio, na certa cairá.
* No que a cerimônia é chocante ao espírito moderno * Todo homem concebido no pecado original pode falhar * Vigiar e rezar para não cair * O homem que não teme por si, na certa cairá
Episódio da guerra dos cristeros
(Dom Antônio de Castro Mayer: Eu não sou leigo, portanto não pertenço a TFP e não conheço bem a estrutura interna. Assim, vou ler a ficha como está. Está escrito em cima)
Obra: “Méjico Cristero” — pagina 221 — Autor: Antonio Ríus Fácius:
Em Anjusco os cristeros organizaram um pequeno exército cujo comando foi entregue ao General Manuel Reys. A entrega desse comando, contudo, revestiu-se de um pequeno ritual. Formada a tropa, foram hasteadas duas bandeiras. Depois leu-se o manifesto dos cristeros da Anjusco. O líder, Perez… [faltam palavras] …tomou uma das bandeiras e dirigindo-se ao General Reys pronunciou as palavras: Senhor General, Don Manuel Reys, jurais por vossa honra de militar e de católico sustentar e defender, ainda que a custa da própria vida, o manifesto que acaba de ser lido, defender a causa da Religião Católica, Apostólica, Romana e evitar o quanto possível causar dano em sua vida ou propriedade aos cidadãos pacíficos? Emocionado até as lagrimas, respondeu o General Reys: “Sim, eu o juro”. Se assim o fizerdes, que Deus e a Pátria vos premiem, mas se não, que eles vos peçam contas”. Todos os presentes desfilaram para beijar, como juramento silencioso, as dobras da bandeira. Depois, romperam em viva a Cristo Rei e à Virgem de Guadalupe. Antes de entregar-se ao repouso, rezaram, como sempre, o santo Rosário.
Quatro meses depois, o general foi preso em combate e fuzilado na Praça de Espanha, na cidade de Toluca.
(D. Mayer: Há uma segunda ficha, contendo duas frases, em francês, sobre santa Margarida Maria)
[Dom Mayer leu em francês.]
(D. Mayer: Há aqui duas recomendações que pedem a palavra do Dr. Plinio. A primeira é: Dr. Plinio, o senhor prometeu, caso fosse lembrado, responder a pergunta que não foi feita ontem e que seria: quando não há sentimento, pode haver enlevo?)
(D. Mayer: A outra é a seguinte: Dr. Plinio, como amanhã também não há santo em nosso calendário, coloquei mais duas fichas para o senhor escolher: sobre Santa Margarida Maria e sobre os cristeros.)
[Dom Mayer insiste para que Dr. Plinio fale]
É tal o poder de um bispo, que mesmo tendo bons argumentos, a gente não pode resistir. Assim, eu inclino a cabeça e abro a boca.
* No que a cerimônia é chocante ao espírito moderno
A respeito da ficha dos cristeros, há uns dois ou três pormenores que são bonitos aqui. Os senhores vêem que se trata da investidura de um general e de um juramento à bandeira. Agora, o que há de chocante para o espírito moderno — porque há um modo bonito, é um modo admirável de encontrar as coisas admiráveis, é perguntar o que choca o espírito moderno —, porque tudo o que choca o espírito moderno é bonito; e tudo o que agrada o espírito moderno é feio. Agora, é conforme o espírito moderno esse modo de prestar juramento a bandeira? O general mais graduado pergunta ao outro: “Senhor General, o senhor está disposto a fazer tal coisa e tal coisa?” Se o general diz que sim; está bom se fizer, que Deus e a Pátria vos premiem. Se não fizer, que vos punam. O que isso tem de antimoderno? Quem me diz aí o que tem de antimoderno nessa fórmula?
[Há uma resposta de José Luís.]
Sim, primeira coisa, porque é um castigo, e não se castiga. Mas há uma coisa um pouco mais profunda do que o não castigar.
(Sr. –:… [faltam palavras] …não cumprir o dever.)
* Todo homem concebido no pecado original pode falhar
Exatamente, é uma suspeita, portanto, uma coisa mais antimoderna do que um castigo. Há um agravante, do ponto de vista moderno, quanto a essa suspeita? Há uma circunstância que torna essa suspeita particularmente agravante? Isso debaixo do ponto de vista moderno, particularmente antipática. É uma suspeita a priori para um homem que acaba de jurar e que se dispões a ir morrer. O outro que recebe o juramento olha para ele desconfiado e: será? Você vai cumprir esse juramento?… Olha aqui, por via das duvidas: se jurar, está bom, mas eu não garanto nada por você. Se estiver errado toma na cabeça.
Por que tudo isso é antimoderno? É antimoderno porque toma em consideração o pecado original, toma em consideração a maldade que o pecado original implantou no homem. Quem tem consciência do pecado original, quem tem fé no pecado original — não consciência —, quem acredita no que a Revelação — diz a respeito, quem tem experiência da vida e percebe a devastação do pecado original na sua própria alma e na alma dos outros, é vigilante, é desconfiado, desconfia de si e desconfia dos outros. Quem, pelo contrário, não toma em consideração o pecado original, é otimista e toma uma desconfiança dessas como uma injúria. O bonito não é só que o general superior tenha disto isso, mas é bonito que o outro que prestou o juramento não achou má a desconfiança. Porque ele sabe que ele é homem e vai colocando numa posição difícil e que todo homem posto numa posição difícil pode fazer uma coisa má.
* Vigiar e rezar para não cair
E a confiança do homem não está no homem, mas em Nossa Senhora. É preciso rezar, porque se rezar por misericórdia será atendido e poderá proceder bem. Se não rezar não será atendido e faz uma “pactuada” qualquer no primeiro momento. No momento em que esse homem assume o comando da tropa, ele pratica um mandamento de Nosso senhor: Vigiai e orai para não entrardes em tentação. Ele reconhece que há razão para desconfiar dele. E ele aceitando essa desconfiança enuncia implicitamente o propósito de vigiar-se a si mesmo, de prestar atenção em si para ver senão vai fazer um desatino. É isso. De outro lado está implícita também a idéia de oração. Porque quem admite com tanta humildade que é capaz de fazer uma porqueira, evidentemente só encontra esperança na oração.
* O homem que não teme por si, na certa cairá
Aqui está, portanto, num rito que parece comum, todo um mundo de pressupostos de fé que dão a esse rito uma nobreza extraordinária e que são contrários ao que poderíamos imaginar de um juramento puritano e idiota: “Juro cumprir tal coisa assim” etc. Está bom, mas aquela bonita desconfiança [cartesiana?] por detrás: Será?… Olha aqui, eu conheço a criatura humana e em você vejo por onde pode fraquejar. De maneira que olha lá: você é meio bambo e abra os olhos. Eu temo por você e se você também não temer por você, eu te dou por perdido, porque não há homem pelo qual mais se dava temer do que o homem que não sabe temer por si mesmo. Isso é bonito, isso é guerreiro, isso é másculo e, sobretudo, isso é sobrenatural.
Agora, um “pelutrica” que fica sentido como isso, que fica dizendo: “vocês estão ofendidos, ou melhor, vocês estão desconfiados de mim, hein?” Natural, você vive em pecado original. Se você não desconfia de si, a minha desconfiança se transformou em certeza. Você não vale nada. Essa é a conclusão. Assim é que se deve raciocinar. Os senhores vêem bem que isso não é moderno. E aqui está um comentário en passant, mas eu creio dos mais indispensáveis para nós termos a verdadeira perspectiva católica a respeito de uma serie de coisas.
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