Santo do Dia – 9/12/68 – 2ª feira [SD 013] . 4 de 4

Santo do Dia — 9/12/68 — 2ª feira [SD 013]

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Fico para dizer uma palavra muito rápida a respeito da questão do sentimento e do sentimentalismo. A pergunta era a seguinte: Em que o sentimentalismo pode se confundir com o enlevo e como o sentimento pode ser usado como meio de amar a Deus?

Há na pergunta de fato duas coisas diversas: a distinção entre o sentimento e o sentimentalismo. Qual é a diferença entre uma coisa e outra. O sentimento no homem decorre de dois fatos: primeiro, a alma do homem, espiritualmente falando, tem uma sensibilidade. Ela sente. E essa sensibilidade — tem uma repercussão no corpo humano. O corpo humano tem sensibilidade. E as paixões da alma, ligadas à sensibilidade física num sincronismo, produzem um ato só. Assim por exemplo, eu me encontro diante de um quadro, vamos dizer um quadro grandioso. Uma vez eu vi com uma bandeira péssima um quadro grandioso. Os senhores todos conhecem de vista e de imaginação, o Arco do Triunfo de França. Eu vi uma festa que se organizou em Paris — não sei se Dr. Paulo ou algum outro estava comigo — o Arco do Triunfo, uma bandeira francesa com as tres cores, da altura do arco do monumento, da altura da porta por onde se entra. Uma coisa simplicíssima. Presa por uma corda, iluminada intensamente e tremulando a todos os ventos. Eu olhei aquilo e havia tanta simetria, tanta linha, tanta simplicidade e uma espécie de grandeza francesa, feita de uma superioridade solar que eles tem e está acabado, então eu tive, eu me lembro, um movimento de sentimento. Qual é esse movimento de sentimento? No momento em que eu olhei, eu ao mesmo tempo tive duas coisas: aquilo me atingiu os sentidos, dando‑me aos sentidos uma impressão de muita harmonia e de muito equilibrio. Mas ao mesmo tempo que me produzia essa impressão sensível, produzia também uma impressão intelectiva de coisa muito bem arranjada e que resultava de uma posição da alma e até de uma análise instantanea feita pelo espírito da beleza daquela coisa que eu estava vendo. Aquilo foi, simultaneamente, um ato de inteligencia, porque eu fiz uma crítica daquilo, segundo principios racionais — foi um ato de sensibilidade mental e foi um ato de sensibilidade física, porque a beleza física e cromática da coisa também me atingiu. Esses tres atos foram simultaneos.

Essa posição de sentimento que é, portanto, a vibração da coisa de encontro, ou melhor, a vibração do homem, em sua alma e em seu corpo, à vista de algo que a sua razão aprova ou a sua razão reprova, e isso feito de acordo com a razão, que indica porque a coisa é boa ou é má — este é um ato que é conforme à ordem natural das coisas. Esse sentimento ajuda a alma a amar a Deus? É claro. O homem não amaria inteiramente, se não amasse também com o sentimento. Se ele não engajasse também seu sentimento nisso. E, se por exemplo, eu estivesse com um colega que me fizesse da bandeira o seguinte comentário: ele me dissesse: Dr. Plinio, eu sou estudante de engenharia, sou engenheiro e eu com o olho meço bem as alturas. Esse arco tem tanto de alto por tanto de largo, a bandeira tem tanto por tanto, isso forma uma massa de tanto com uma longura de tanto, e é portanto racional que ta, ta, ta — a vontade que eu tinha era de dizer para ele: Cale a boca. Porque é uma racionalização que no momento é importuna, porque ela desvia a atenção de um equilibrio de alma muito bom em que a razão e o sentimento falam juntos. Esse homem não deixou de falar o seu próprio sentimento, não amou inteiramente.

Isso é sentimentalismo? Qual seria a posição sentimental em face disso? Essa minha operação diante da bandeira, se eu tivesse tempo de pensar — eu estava com outra gente, enfim, não pude pensar nisso; depois, a gente não pode o dia inteiro pensar sobre tudo o que ve até o fundo, mas o normal seria eu parar, olhar aquilo, depois de ter tomado nota da parte sensível toda, eu chegar a um juizo crítico, enunciado pela razão — quer dizer, isso é belo, é nobre e é grande, depois chegar a dar as razões pelas quais isso é belo, é nobre e é grande. Quer dizer, teria começado como eu descrevi e teria terminado num ato de inteligencia, acabando de dar a volta inteira na coisa e num ato de vontade, amando a coisa, quer dizer, eu quero isso assim, porque a coisa é boa.

Qual é a posição do sentimental em face da coisa? é uma posição completamente diferente. O sentimental olha aquilo e a primeira discrepancia que ele tem em relação ao processo que eu segui, é o seguinte: oh, que beleza! Como está gostoso sentir isso! Ou seja, como eu estou gostando de sentir isso.

Então, se eu estou gostando de sentir isso, eu vou tratar — de entreter a minha sensação para gostar ainda mais. Eu não vou fazer uma análise, eu não vou fazer um juizo, eu não termino com um ato de vontade. Por quê? Porque logo eu olho para a coisa, ela se degenera no meu espírito. Ela não é uma tomada de posição minha perante a coisa, mas é uma tomada de posição minha perante o prazer que a coisa me deu. É uma coisa completamente diferente. Não sei se torno bem claro a distinção entre uma coisa e outra. No primeiro caso, eu estou analisando a bandeira. No segundo caso eu estou analisando meu prazer, o prazer que a bandeira me causou. É um desvio. E como eu quero então prolongar o sentimento, eu começo então a alimentar os pensamentos que são capazes de estimular meu sentimento. Em vez de eu fazer um juizo sobre aquilo, eu começo: bandeira francesa, bandeira gloriosa das tres listas, bandeira que Napoleão levou pela Europa inteira, bandeira que significa toda a cultura e toda a arte da França desde 1789 até nossos dias, bandeira harmoniosa que serviu de de ideal para que, ou melhor, para todos os que em nome da liberdade e da justiça se levantaram, em todos os quadrantes, à procura de aspirações de vida melhor! Alguém dirá: Cuidado, voce está entrando na revolução. Importuno… Está estragando o meu deleite. Se o único jeito que eu tenho de ainda sugar esse deleite é fazer um pensamento revolucionário, eu faço porque o que eu quero é deleitar‑me. E voce, Plinio, com sua eterna RCR, me atrapalha o jogo. Depois, depois, depois… eu retifico isso.

No momento, me deixe gozar disso. Lá vem Napoleão no seu corcel branco… O pequeno caporal da ilha da Córsega, com seu bicórnio. Atrás dele eu vejo Ney, príncipe de Moscova. Eu vejo Cavour… eu vejo…, eu vejo não sei quem, vem a cavalgada cintilante dos ajudantes, de ordem: Roustan, o mameluco, tocam as fanfarras, tudo isso caminha mais no céu do que na terra; é a epopéia imperial que brilha diante dos meus olhos, tará tá tá. Quanta asneira! Eu sei que Ney traiu, que outro fez não sei o que, que Napoleão era uma espécie de Peron vagabundo e ordinário, um Getulinho briguento, nada disso importa, porque o que eu quero é me embriagar com a sensação que aquilo traz.

Isso é sentimentalismo.

O que distingue o sentimento do sentimentalismo? O sentimento é uma repercussão do que a razão viu, é uma repercussão do que os sentidos perceberam, mas voltada para a coisa e não para mim; para conhecer algo, para amar algo, para tomar posição perante algo. O sentimentalismo é uma coisa diferente: é uma experiencia que o sensível produziu em mim e um cultivo do prazer que essa sensibilidade produziu em mim. Esse algo tem o puro papel externo de um excitante de uma importancia secundária. O que é preciso é gozar, gozar, gozar.

Então, agora passamos disso para o enlevo. Há muita gente que pode ter um primeiro movimento de enlevo. E o enlevo, quando é verdadeiro, é sempre reto, é sempre causado pela graça e leva sempre a posições de almas boas. Vamos dizer por exemplo, que eu vou andando pela praça do Patriarca e, de repente, vejo nosso estandarte desfrasdado e vejo o desafio daquilo em relação a todo o ambiente que está em volta.

Tenho um momento de enlevo. Eu posso ter duas reações diante disso, uma é: que belo estandarte, como simboliza bem nossa causa! que linda causa! como eu amo essa causa! como as impressões materiais que esse estandarte me dá são os simbolos adequado de tais e tais principios verdadeiros, aos quais eu quero servir a vida inteira. Isso é um enlevo com sentimentalismo. Agora, existe a possibilidade de um sentimentalismo a propósito da causa, do assunto. O sentimentalismo como é que se enuncia? Enuncia‑se da seguinte maneira: eu olho o estandarte e digo: que beleza de estandarte; Logo depois: como é gostoso sentir a beleza de nossa causa. Logo depois: vou então entreter isso para gozar a beleza de nossa causa. Pouco depois… os senhores sabem o que eu estou fazendo, se eu descer por essa rampa? Eu, eu. Eu cada um dos que estão aqui.

Estou me enlevando comigo mesmo. E acaba porcaria. Por que?

Porque eu começo a pensar no estandarte, mas eu não tenho nenhum Napoleão sobre o qual eu vou pensar a respeito do estandarte. Então, eu penso: como retrata bem minha alma esse estandarte, eu, membro do Grupo! É bem verdade. Dr. Plinio disse que o estandarte retrata a alma de todos nós. Isso, como é parecido com as horas de coragem que eu tenho quando estou deitado na cama, longe do inimigo. Olhe que eu travo cada batalha quando estou deitado que é uma coisa prodigiosa. Como isso é bonito! Como isso parece comigo em tal ocasião, em tal outra ocasião. E, daqui a pouco, tudo o que eu estava imaginando a respeito de Napoleão, eu estou imaginando a respeito de mim mesmo.

O que é isso? É sentimentalismo. Entrou a megalice pela portas do sentimentalismo e deformou completamente o enlevo.

Há uma pergunta do auditório.

O enlevo tem em si a essencia do espírito de sacrifício. Eu me esqueço de mim para pensar na coisa que está me enlevando, na causa, no principio, enfim naquilo que está me enlevando. E não penso em mim. Eu me deixo absorver por aquilo e vou em direção aquilo. E esse é o maior sacrificio que no fundo o homem possa fazer. É o holocausto da própria vida do homem é ele viver com a mera preocupação de se enlevar nesse sentido da palavra. Isso é o espírito de sacrifício. Por sua vez, isso dá vontade de sacrificar‑se por aquilo e assim a gente se sacrifica. Pelo contrário com sentimentalismo não dá vontade de sacrificio nenhum. A gente, pernas para que te quero, na primeira ocasião. É claro, amolece a alma completamente. A alma se degenera.

Eu deixei de propósito de fora uma questão que deveria dar uma pergunta; e eu me pergunto se a gente não ouve às vezes o santo do dia com uma forma de enlevo um pouco sentimentalista. Como quem diz: está me fazendo um bem essa sensação aqui. Agora eu vou pegar bem essa sensação. E quando não tem sentimento então, não tem enlevo? É uma pergunta que todo mundo poderia me fazer e que eu nem sequer posso dizer que li nos olhos. A essa pergunta não respondida, como não houve sofreguidão de faze‑la, eu também não respondo logo. Se me lembrarem, eu respondo amanhã.

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