Santo
do Dia – 2/12/68 – 2ª feira .
Santo do Dia — 2/12/68 — 2ª feira
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Leitura de um texto de Santo Agostinho sobre o combate às tentações * Nas tentações, em geral, o fator natural alia-se ao preternatural * Duas categorias de tentações: as que vêm por castigo e as que Deus permite por provação * Muitas vezes o perigo consiste em não ser tentado. A tentação não é uma razão para desanimar, mas para confiar em Deus * Comentário do Fundador ao “Memorare” * Em todas as nossas dificuldades, mesmo as mais comuns, devemos recorrer a Nossa Senhora * É a confiança em Nossa Senhora que dá a têmpera da coragem. Dois estados de alma face ao perigo: a certeza do sucesso, o desejo do martírio
Dia 3 de Dezembro é amanhã, não é isto? Ou é hoje?
Amanhã! É festa de São Francisco Xavier, Confessor.
* Leitura de um texto de São Francisco Xavier sobre o combate às tentações
O meio mais seguro para triunfar do inimigo é ter uma grande coragem.
É um texto de São Francisco Xavier
…desconfiante de si mesmo e se apoiando em Deus, de sorte que após ter colocado toda vossa esperança nEle e só nEle, nada mais temereis e nem duvidareis da vitória.
E como o demônio não tem poder senão sobre aqueles que Deus lhe permite, mais seus assaltos são terríveis mais é preciso redobrar de confiança na Divina Providência porque Ela permite ao inimigo assaltar e atormentar só os seres fracos que nEla não confiam, que desdenham nEla apoiar-se e que colocam em outros as suas esperanças.
É esta fraqueza que gangrena os corpos e faz com que tantas pessoas que começam a servir a Deus terminam por levar uma vida cheia de tristezas e angústias.
É verdade que elas curvaram a cabeça sob o jugo de Cristo e abraçaram a Cruz, mas na verdade não a carregam, mas a arrastam e descansam freqüentemente.
A pusilanimidade é tanto mais perniciosa àquele que por ela foi dominado desde o início, pois cairá logo em desfalecimento nas ocasiões perigosas, onde ele precisa de socorros mais poderosos Divinos, porque não aprendeu a usar dos auxílios do Céu que se lhe oferecem, e que eram dignos de sua confiança.
Mas os presunçosos são cheios de uma tola e cega opinião de si próprios e desprezam os pequenos combates, embora jamais neles tivessem colhido louros. São ainda no meio dos grandes perigos e das grandes calamidades mais tolos e mais fracos que essas pessoas tímidas das quais eu falei. O sucesso em nada corresponde a sua presunção. Nós os encontramos igualmente derrotados e abatidos, tanto nas coisas pequenas quanto nas grandes.
* Nas tentações, em geral, o fator natural alia-se ao preternatural
Eu tenho impressão de que isso pede uma tradução, não é?
Vamos ver, portanto, a tradução.
O texto de São Francisco Xavier começa por falar de uma categoria de pessoas tentadas. Não, ele fala genericamente, mas vê-se que ele tem em mira uma determinada categoria de pessoas tentadas.
A tentação pode ter uma razão, uma causa natural ou uma causa preternatural.
Vamos dizer, por exemplo, a tentação que a gente pode ter de se irritar contra alguém. Esta tentação pode ter uma causa natural se esse alguém nos faz alguma coisa que nos desagrada. Será uma causa explicável ou inexplicável.
Será uma coisa inexplicável se for uma mera mania nossa que a razão não explica, não justifica. Será uma causa explicável se nós tivermos uma razão de nos agastar, mas não devemos nos agastar. Então, com isto, evidentemente, estamos tentados.
Ela pode ter uma causa preternatural se uma pessoa em nada nos dá causa para nós nos irritarmos contra ela, mas nós temos, de repente, um acesso de irritação contra ela. Isto é uma causa preternatural.
Agora, nós devemos tomar em consideração que habitualmente nas tentações os dois fatores coexistem e que, onde há uma tentação natural, há um concurso do demônio apoiando aquela tentação natural.
Pelo contrário, o demônio muito raramente age de um modo inteiramente arbitrário, pelo contrário, quer dizer, reciprocamente ele muito raramente age de um modo arbitrário.
Ele, quando tenta, ele explora, cria até uma circunstância natural, em geral para provocar a circunstância preternatural, para provocar a ação dele.
Assim, por exemplo, ele querendo irritar uma pessoa com a outra, ele primeiro leva a pessoa “A” a fazer uma coisa que não devia, para depois então pôr a pessoa “B” doida contra a pessoa “A”, por exemplo. Quer dizer, habitualmente os dois fatores coexistem.
* Duas categorias de tentações: as que vêm por castigo e as que Deus permite por provação
Mas as tentações, consideradas do ponto de vista da pessoa tentada, podem ser vistas, consideradas pelo menos em duas categorias.
Umas tentações são tentações castigos, e outras tentações não são castigos; são provas, que de nenhum modo significam que a pessoa esteja sendo castigada, e até são estímulo para que a pessoa vá melhor na vida espiritual.
Eu insisto muito nesse ponto, porque freqüentemente eu recebo confidências destes ou daqueles dentre os senhores que consideram a tentação como uma prova certa de que a pessoa vai mal:
“Eu vou tão mal que até estou tentado a querer tal coisa assim. Ou então é um castigo, eu andei mal, por isso Deus me castigou mandando a tentação, logo, se eu estou tentado alguma coisa fiz.”
Isso não é verdade para certos casos. Poderá ser para outros. É verdade que quando a pessoa se posta em certas atitudes espirituais abre flanco para o demônio e o demônio vem e tenta.
Ele aqui dá um caso, pessoas que, por exemplo, têm que fazer um serviço, têm que fazer um sacrifício, e em vez de fazer esse sacrifício com todo o coração, com toda a alma, arrastam aquilo preguiçosamente. A preguiça com que fazem o serviço já constitui um meio flanco aberto para que o demônio venha e tente para não fazer o serviço, porque já encontra a alma predisposta para não fazer o serviço.
Uma pessoa que deve obedecer em algo, mas obedece cheia de cismas, cheia de ressalvas interiores, mais ou menos arbitrárias, é claro que essa pessoa, de um momento para o outro, será tentadíssima pelo demônio contra a obediência. E é claro que neste caso a tentação terá sido um castigo da disposição do espírito anterior.
Mas, muitas vezes, não se dá isso com a tentação. A pessoa vai muito bem na vida espiritual e porque vai bem, Deus lhe permite travar um combate com o adversário d’Ele para que Ele vença o adversário e aumente de glórias na vida espiritual.
Mais ainda, às vezes a pessoa vai mal na vida espiritual e Deus permite uma tentação para ver se a pessoa se estimula na luta e melhora.
* Muitas vezes o perigo consiste em não ser tentado. A tentação não é uma razão para desanimar, mas para confiar em Deus
De maneira que muitas tentações são permitidas como um verdadeiro tônico para aqueles que vão mal, e o perigo muitas vezes não consiste em ser tentado, tanto quanto em não ser tentado.
Não é bom, não é bom sinal da vida espiritual uma pessoa passar anos sem ser tentada, porque esse gênero de pessoas é um tipo de pessoas que o demônio paralisou, caíram na modorra, caíram na indolência, caíram na chacunière, mas têm um resto de consciência. Se forem tentadas elas começam a se levantar e a reagir. Então o demônio não as tenta para que elas vão se decompondo na sua própria compota aos longos dos tempos.
De maneira que simplesmente achar o seguinte: “Estou tentado, logo vou mal na vida espiritual e estou sendo castigado”, é simplificar enormemente e mutilar o panorama da vida espiritual.
Mesmo para uma pessoa que esteja sendo tentada porque abriu o flanco ao demônio, a reação contra a tentação pode colocá-la numa posição melhor do que ela estava no momento de ser tentada. É um modo de humilhar o demônio e de rechaçá-lo.
De maneira que a tentação não é razão para uma pessoa ficar desanimada, meio apavorada, mas é para a pessoa — diz aqui São Francisco Xavier — colocar toda a sua confiança em Deus. Ainda que essa pessoa tenha sido ela a culpada da tentação, ainda que ela esteja sendo tentada por castigo, Deus continua Pai dela, Nossa Senhora continua sendo Mãe dela, e Nossa Senhora é o Refúgio dos Pecadores. Qualquer pecador que se refugie junto à Ela é protegido, é auxiliado, é assistido.
* Comentário do Fundador ao “Memorare”
Os senhores devem ponderar muito as palavras magníficas do Memorare que rezamos pela vitória da Contra-Revolução sobre a Revolução.
“Lembrai-Vos ó Piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer — a palavra nunca é muito categórica — que tendo alguém — alguém, quer dizer, quem quer que seja, não houve um só caso, quer dizer, esse alguém — recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência, reclamado o vosso socorro fosse desamparado.”
Proteção, assistência, socorro.
Proteção para evitar que a tentação venha. Assistência é um auxílio numa situação difícil. Socorro é para um sujeito que está periclitando, que está sumindo, que está afundando, não é?
Está bem, nunca se ouviu dizer que tendo alguém pedido proteção, assistência, socorro para Ela fosse desamparado, não é?
“Eis-me aqui que com igual confiança a Vós, ó Virgem como mãe recorro e de Vós me valho.”
Quer dizer, se nunca Vós deixastes de proteger a ninguém, aqui estou eu, que sou um ente humano e como tal, batizado na Igreja Católica, sou vosso filho, eu venho vos pedir auxílio.
Estou tentado, eu tive culpa, vamos dizer, que eu até caí na tentação, mas eu existo, eu vivo, a vossa Clemência me mantém nesta vida, e eu estando vivo eu tenho o direito e o dever de rezar para Vós. Eu venho cheio de confiança. Com isso continua a oração:
“Gemendo sob o peso dos meus pecados me prostro aos vossos pés.”
Vejam como é animadora essa expressão. Essa expressão não diz o seguinte: “Eu, o inocente, eu, o puro, eu, o límpido, eu, o homem sem mancha me dirijo a Vós e peço socorro. A minha inocência me dá direito, dá direito a vosso auxílio”, não é isso não.
“Gemendo sob o peso dos meus pecados…”. Quer dizer, são tantos pecados que me prostraram no chão. Eu estou deitado sob o peso deles. E no chão eles me oprimem tanto que eu gemo sob o peso deles. Pois bem, gemendo sob o peso dos meus pecados, o que é que eu faço? “Me prostro aos vossos pés”.
Quer dizer, eu venho junto a Vós, eu venho para perto de Vós, eu me agarro a Vós, no meu pecado. “Gemendo sob o peso dos meus pecados.” Então vem a conclusão:
“Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus humanado, mas dignai-Vos de as ouvir benigna e alcançar o que Vos rogo. Assim seja.”
Vejam como é lindo o pensamento. Eu, então dignai-Vos de ouvir com benignidade o que eu estou dizendo. Quer dizer, com bondade, de vossa parte eu espero um sorriso e alcançar-me o que eu Vos peço. Assim Seja.
Aqui está a confiança, e de qualquer alma, em qualquer estado, em qualquer situação, inclusive um “sabugo”. Voltar-se para Nossa Senhora e dizer: “Isto eu Vos peço, tende pena de mim e auxiliai-me”.
O raciocínio é simplíssimo: “Vós nunca abandonastes ninguém, ora eu sou alguém, logo Vós não me abandonareis”. É o raciocínio o mais lógico possível, o mais concludente, o mais convincente, o mais simples na sua esquematicidade, o mais irresistível, expresso numa linguagem de fogo como é a linguagem de São Bernardo.
É muito bonita a linguagem, mas que tem um verdadeiro conteúdo teológico: Nossa Senhora é Mãe de cada homem, logo, Ela não me abandonará e acabou-se, não é?
* Em todas as nossas dificuldades, mesmo as mais comuns, devemos recorrer a Nossa Senhora
Bem, então, São Francisco Xavier começa por falar dessas pessoas que estão tentadas e mostra o que é que a alma tentada deve fazer: deve confiar. Deve rezar, não deve ter medo e sua alma tentada é a alma que passa por qualquer outra dificuldade. Nós, mesmos nas dificuldades nossas comuns de todos os dias, nós devemos ter essas considerações em mente.
Por exemplo, em nosso apostolado, nós devemos no nosso apostolado, mesmo nas coisas mais pequenas de nosso apostolado invocar o auxílio de Nossa Senhora.
As coisas pequenas, pedir a Ela por exemplo, que Ela faça esse Santo do Dia sair bem. Pedir a Ela que este ou aquele — eu falo de olhos fechados — que eu vejo não atento no Santo do Dia, que preste atenção. Pedir a Ela que isso, aquilo, tudo. Devemos tratá-lA como uma Mãe boníssima a quem nós pedimos tudo aquilo que nossa alma aspira, sobretudo quando é para glória d’Ela.
Nós vemos um meio moleirão, um meio lerdo ao nosso lado, uma oração: “Minha Mãe, comunicai algo de vossa vitalidade a esse lorpa”.
Está bom! Vai! Está compreendendo?
“Se o lorpa sou eu, então comunicai a mim [esta vitalidade]. Se eu olho para mim e me vejo na pasmaceira, minha Mãe, cuidai da minha pasmaceira. Vede que nojo, está compreendendo? Vós não tendes pena desse nojo, não é? Se eu tenho horror a isto quanto mais Vós tereis. Então, curai-me dessa lepra!” Porque não!?
Bem, depois, mesmo nas coisas de serviço, nas coisas de apostolado, de trabalho, nas dificuldades comuns da vida, a gente deve pedir o auxílio de Nossa Senhora, deve pedir para tudo.
A boa tradição Católica é que os Anjos nos auxiliam para tudo e que os demônios nos atrapalham para tudo, e, por isso, havia antigamente até demônio que talhava a manteiga quando o camponês ia fabricar a manteiga e outras coisas assim.
Isto a gente sorri um pouco porque tem algo da inocência da vida rural em comparação com as fuligens e inferneiras de São Paulo, não tem dúvida, mas contém uma realidade.
Quantas vezes a gente vai fazer uma coisa qualquer e talha. E talha por quê? Porque entrou alguma coisa do demônio dentro.
Eu tinha um conhecido que tinha um hábito péssimo: quando o relógio dele não funcionava: ele jogava no chão com toda a violência. Bem, era gagá.
O verdadeiro é isso: tragam um relógio meio enigmático, se o relojoeiro não reza, mais, não acerta, vamos rezar, [e] isso anda.
Quer dizer, essa confiança a todo momento, em toda hora, na Divina Providência, é o que nós devemos ter. Quanto mais para nossa vida espiritual!
* É a confiança em Nossa Senhora que dá a têmpera da coragem. Dois estados de alma face ao perigo: a certeza do sucesso, o desejo do martírio
E não nos apavorarmos, não termos medo de nada, não pararmos diante de nada. Os senhores sabem no que é que dá isto. Alguém poderia me dizer:
“Dr. Plinio, o senhor apresenta esta vida espiritual aí debaixo de um colorido que não é o colorido que o senhor costuma apresentar. Porque o senhor costuma apresentar a existência do homem como uma grande afoiteza, como uma grande coisa que pede uma atitude de alma dura, rígida, empreendedora, combativa, dir-se-ia que para o senhor o símbolo da alma humana é uma espada.
“Agora o senhor vem com todas essas afabilidades de Nossa Senhora por cima disso, e essa espada se transforma, não sei…, de um gládio de aço em um gládio de papelão ou qualquer coisa assim.
“Como é que se coadunam essa duas coisas? Como é que o senhor, que outro dia falava daquela coragem inflexível, daquela coragem lógica, daquela coragem coerente, daquela coragem que não consiste nos ímpetos mas na resolução, como é que o senhor agora vem falar de todas essas coisas que parece que amolecem a alma? Não existe uma contradição entre tanta dureza e tanta moleza?”
Eu digo: é exatamente o contrário. O que dá a têmpera da coragem é essa disposição de espírito: “Eu sei que eu tenho de enfrentar um perigo, este perigo eu quero enfrentar porque devo enfrentar e com o auxílio de Nossa Senhora, porque rezo a Ela, eu vou enfrentar esse perigo.”
E, em geral, se dá com as pessoas que estão expostas em grande perigo uma coisa curiosa, e é o seguinte:
Essas pessoas — conforme a disposição da Providência a respeito delas — elas ou têm…, elas tomam no momento do perigo, elas tomam um pressentimento de que nada vai lhe suceder e elas ficam corajosas pela segurança de que não haverá nada.
Ou, pelo contrário, elas tomam uma espécie de pressentimento de que algo de misterioso e arquitetônico na vida delas pede que algo suceda, mas elas compreendem aí que é bom que suceda. E isto é o fundo da resignação, e é o fundo da decisão de enfrentar o risco ainda que qualquer coisa suceda.
Eu não sei se eu exprimi bem esses dois estados de alma, ou se quereriam que eu explicasse melhor, ou… — estou me alongando um pouco demais… mas é um minuto só.
Os que desejam que eu me alongue, que eu diga mais uma palavra sobre isso queiram levantar o braço para eu ter uma idéia.
Bem, os senhores tomem, por exemplo, uma pessoa que está numa prisão. Eu vou tomar um exemplo melhor, uma pessoa que está lutando, que está combatendo, que está fazendo parte, por exemplo, de um exército contra-revolucionário.
Em certo momento essa pessoa recebe ordem de descer, por exemplo, num pára-quedas, em cima de uma cidade. De descer na cidade, fazer um serviço de paraquedista e apunhalar uma pessoa “X” que está lá.
Bem, um Frei Caneca qualquer condenado pela Santa Sé, excomungado etc., etc., e que se trata de apunhalar. Está bem. Então, vai lá, tem de apunhalar.
Bom, pode ser que a pessoa, vamos dizer, que a pessoa no momento faz uma oração a Nossa Senhora. Os senhores verão que essa oração pode ter dois desfechos.
Um desfecho: o avião vai mais para adiante, não pára, a pessoa não pula, ela não corre o risco de vida, e o Frei Caneca embaixo em apoplexia.
Não pode ser que Nossa Senhora faça isso por uma alma? Pode.
Bem, outra saída. A pessoa desce, liquida com o Frei Caneca e volta ilesa. Não pode ser que Nossa Senhora faça isso por uma alma?
Outra saída, a pessoa vai pular em cima do Frei Caneca e é morto, e morre mártir.
Nossa Senhora não pode fazer isso por uma alma?
Bem, na hora do perigo uma alma pede algo. O que é que vai acontecer com ela, qual das três soluções vai acontecer com ela?
Está claro o problema ou queriam que eu explicasse melhor?
Bem, a resposta é a seguinte: conforme os desígnios da Providência sobre a alma, a Providência, às vezes, deixa a alma pressentir — eu creio que acontece isso muitas vezes — mais ou menos o que vai suceder para ela. E o resultado é que ela acaba apetecendo aquilo que a Providência quer, ela quer que suceda. E então uma pessoa muito piedosa numa certa hora pode pedir para o avião não parar, noutra pode pedir para sair ilesa e na terceira pode pedir a graça do martírio. E as três coisas podem ser virtuosas conforme o desígnio da Providência sobre a pessoa no momento e regime de graças que a Providência dá para a pessoa.
Foi essa confiança em Nossa Senhora que num caso ou noutro fez dele um herói. Adaptou a alma dele à perspectiva que estava diante dele, ajustou para a situação que estava diante dele, modelou como um artista faz com as cravelhas de um violino antes de tocá-lo. E assim Nossa Senhora toca naquela alma a melodia em que ela teve intenção de tocar.
Quer dizer, o que supõe aí é um hábito de rezar muito e um hábito de auscultar os desígnios da Providência de acordo com os bons movimentos de sua alma. Os senhores têm a coisa característica em São João: São João Evangelista foi colocado num caldeirão com azeite fervendo e saiu ileso. A gente vê bem que é diferente de Santo Inácio de Antioquia, que caminhou de encontro aos leões: “Aqui, comei-me, triturai-me para ser o trigo na boca do leão como o trigo é triturada para dar uma hóstia.”
Eu confesso que acho isto lindíssimo e até me arrepia. Bem, São João que é mais alto dos altíssimos, no altíssimo São João, o filho de Nossa Senhora no Novo Testamento, talvez com São José e São João Batista o primeiro escravo de Nossa Senhora, com São João o desígnio foi outro. Mas com Nossa Senhora foi que nem tocassem nEla.
Não sei se eu mostro bem o que é aí a coragem, que não é do estourado, nem é do jansenista, mas é uma coisa sobrenatural, toda viva, toda em harmonia com a alma humana e na qual a alma humana vôa. Esta é a coragem. Meus caros, essa coragem é filha da confiança.
Os senhores dirão: “Dr. Plinio, o senhor excluiu um outro caso: é o homem que caminha como a Blanche de la Force, com pavor, para a morte, e na hora da morte ela se entrega tremendo, e morre.
Pode ser que eu me engane, mas eu acho que uma alma assim é como Santa Terezinha, que morreu com horror da situação em que ela estava. Ela chegou a fazer aquela famosa reflexão que junto das pessoas agonizantes, não se deveria deixar remédio que pudesse matar, porque podia ser uma tentação. Ela não consentiu no mínimo nessa tentação, mas chegou a isso. Bem, mas ela tinha dentro de sua alma algo que fazia com que ela desejasse e tivesse pedido essa taça amarga. E essa taça — que seria insuportável para outros lábios — era a taça que ela desejou e que ela bebeu inteira, a tal ponto que ela disse de si mesma, no fim da vida, que todos os desejos dela tinham sido cheios até os bordos da taça.
Quer dizer, há sempre uma proporção, há uma adequação, há sempre uma adaptação, e esta é a coragem. É essa afinidade do homem com a circunstância especial em que Deus o pôs e os desígnios de Deus a respeito dele naquelas circunstâncias. Esse é o varão corajoso. Eu só acredito numa forma de coragem verdadeira: é a coragem da Fé, do discernimento das vias de Deus e da confiança. Essa é a coragem perfeita. Voltaire disse uma ocasião que se houvesse um exército em que todos os homens acreditassem em Deus, esse exército seria invencível. Aqui está, meus caros, uma meditação…
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