Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) – 29/11/1968 – 6ª feira [SD 265] – p. 6 de 6

Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) — 29/11/1968 — 6ª feira [SD 265]

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Anacleto González Flores, cristero que foi preso com dois alunos durante o movimento comunista anticlerical mexicano em 1926 * “Minha miséria, meu egoísmo e meus pecados me impedem de pedir-Vos dores” * Em vez de um faniquito de mamãezinha, uma despedida magnífica: “Meus filhos, até o Céu” * Seria natural que a mãe dos iminentes mártires chorasse, mas a perfeição do sobrenatural é portar-se como Nossa Senhora junto à Cruz * “Vós, Senhor, dissestes que quando fosseis levantado entre o céu e a terra atrairíeis a Vós todas as coisas” * “Senhor, Vós que levantareis todas as coisas, levantai-Vos em minha alma pela contemplação de Vossas dores e pela participação de Vossa Cruz” * Ser herói é uma coisa, mas ser “estourado” é outra * A escola do heroísmo é o Calvário, e a mais alta página do heroísmo é o Horto das Oliveiras

* Anacleto González Flores, cristero que foi preso com dois alunos durante o movimento comunista anticlerical mexicano em 1926

Nós estamos no dia 29 de novembro, novena da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Como Santo do Dia, me deram uma ficha que é a proeza de um cristero, numa… que é o tal Anacleto Gonzalez Flores, líder da Associação Católica da Juventude Mexicana em Guadalajara e diretor do jornal “Gladium”, de dois de seus alunos, Jorge e Ramón Vargas Gonzalez, e de Luis Padilla, também líder da Associação Mexicana Católica, do México.

Tratava-se de uma fase em que o México era governado por um governo comunista e anticlerical, num período em que os comunistas eram declaradamente anticlericais e, sobretudo, que os clérigos eram declaradamente anticomunistas, e que fazia então um choque muito forte. E houve realmente lutas muito grandes ali, houve até uma espécie de exército católico dos cristeros que se constituiu para derrotar este governo e que não foi derrotado no campo militar. Ele perdeu a batalha em outro terreno que não vem ao caso mencionar aqui.

Mas, então, aqui está a proeza de um destes indivíduos:

1º de abril de 1926 às 6 horas da manhã. Os soldados do governo invadem a casa da família Vargas Gonzalez e prendem Anacleto. Com ele levam Jorge e Ramón, por terem protegido o professor. A mãe dos jovens deles se despede com uma frase que encerra um pressentimento: “Meus filhos, até o Céu!”.

* “Minha miséria, meu egoísmo e meus pecados me impedem de pedir-Vos dores”

Levados à inspetoria da polícia, foram depois conduzidos ao quartel Colorado, onde já se encontrava detido Luis Padilla. Aí começaram os interrogatórios. Primeiramente por Anacleto, que assumiu inteira responsabilidade de seus atos, mas negou-se revelar qualquer coisa sobre a organização do movimento cristero.

Que era o tal movimento armado da tal revolução contra-revolucionária, não é?.

Para obrigá-lo a isso, os soldados começaram a golpeá-lo, depois suspenderam-no pelos polegares e feriram a planta de seus pés com uma navalha.

Os senhores podem imaginar o que é um homem suspenso pelos polegares, hein! Ou com navalha cortando a planta dos pés, que é uma região muito sensível.

Quando o desprenderam, recebeu tão grande golpe com a coronha de um fuzil, que teve o ombro esquerdo fraturado.

Depois de torturados, seus companheiros foram condenados à morte por um arremedo de tribunal militar. Ao ouvir a sentença, Anacleto respondeu aos juízes: “Direi somente uma coisa. Trabalhei com tal desinteresse por defender a causa de Jesus e sua Igreja. Vós me matareis, mas sabei que comigo a causa não morrerá. Muitos estão por detrás de mim, dispostos a defender até o martírio. Eu me vou, mas com a segurança de que logo verei do Céu o triunfo da religião em minha pátria”.

Preparado o batalhão de execução, os condenados rezaram o ato de contrição em voz alta e Luis Padilla pediu uns momentos de vida para oferecê-lo a Deus. De joelhos, recitou uma oração que ele mesmo compusera há tempos atrás: “Vós, Senhor, dissestes que quando fôsseis levantado entre o céu e a terra atrairíeis a Vós todas as coisas. Senhor, levantai-Vos em minha alma pela contemplação de Vossas dores e pela participação de Vossa Cruz. Senhor, minha miséria, meu egoísmo, meus pecados me impedem de pedir-Vos dores, mas, se eles hão de elevar minha alma, unindo-me convosco, Senhor, elevai-Vos em minha alma”. Ainda absorto em sua oração, recebeu a descarga que lhe abriu a porta do Paraíso.

Ao chegar a vez de Anacleto, os soldados recusaram-se a executá-lo: foi preciso que um capitão desse o exemplo. Antes de expirar, o herói, fazendo um supremo esforço, pronunciou as palavras: “Pela segunda vez, as Américas ouçam esse grito: eu morro, mas Deus não morre! Viva Cristo-Rei!”.

* Em vez de um faniquito de mamãezinha, uma despedida magnífica: “Meus filhos, até o Céu”

Os senhores estão vendo, é muitíssimo bonito, é de primeira classe. É uma narração ainda um tanto açucarada, mas desta vez vale a pena a gente prestar atenção não tanto no açúcar, mas no que ela tem de forte e de belo.

Eu, em fichas dessas, só lamento uma coisa: é que quando nos apresentam os martírios, os martírios, os martírios, nós vemos nossos irmãos na fé habituados a perder, e isto é quase uma escola de aceitar a derrota, pela unilateralidade com que está apresentado. Não, nunca pelo martírio em si. Depois, há muito mais mérito em aceitar essa derrota do em triunfar alegre.

Mas é bom nós arranjarmos umas fichas também que representem vitórias, para nós compreendermos que alguns de nós podemos ficar no caminho, mas que a vitória nos espera e que a vitória é que nós devemos almejar.

Entretanto, analisando esta ficha aqui, os senhores vêem uma porção de pormenores bonitos. Os senhores vêm nesta família este professor que dorme, que tem em casa dois filhos que o defendem. Dois filhos, não, dois alunos que o defendem. Os senhores vêem dois rapazes que, diante da polícia, têm a coragem de defender o seu professor, já sabendo que com isso eles vão para o martírio.

Quando vão juntos para o martírios, os senhores vêem a bonita atitude da mãe do moço. Em vez de pranto, em vez de faniquito, de mamãezismo, esta despedida magnífica: “Meus filhos, até o Céu!”.

* Seria natural que a mãe dos iminentes mártires chorasse, mas a perfeição do sobrenatural é portar-se como Nossa Senhora junto à Cruz

Alguém me dirá: “Mas, Dr. Plinio, não seria natural que ela chorasse, não seria natural que ela se desfizesse?”.

Eu digo: natural, sim, até muito natural, não é inteiramente sobrenatural. A perfeição do sobrenatural é fazer como Nossa Senhora junto à Cruz, que estava de pé. “Juxta Crucem lacrimosa stabat Mater Dolorosa”: canta o canto que estava de pé a Mãe Dolorosa. Quer dizer, Nossa Senhora não teve faniquito nenhum na mais atroz das dores morais.

Esta senhora parece ter seguido o exemplo de Nossa Senhora, como os filhos seguiam o exemplo do Divino filho de Maria. Ela só teve essa despedida: “Até o Céu”.

Bom, vão para a cadeia, encontram mais um amigo que estava lá. Começa então o martírio. Os senhores podem imaginar a dor que isso há de causar. A distensão dos membros, etc. E cortado nos pés com navalha. Não conta nada. Jogado ao chão, fratura o ombro.

Isso é muito fácil dizer, “fratura o ombro”, como palavras. Mas os senhores já imaginaram o que é um ombro fraturado e que não é assistido, não é medicado, não é encanado nem nada, que fica daquele jeito? Para um homem que depois ainda é maltratado, seviciado e depois julgado. Na hora do julgamento, os senhores vêem a altanaria dele: ele não chora, ele não pede nada, ele só proclama que a causa católica há de vencer no México. E há de vencer mesmo.

* “Vós, Senhor, dissestes que quando fosseis levantado entre o céu e a terra atrairíeis a Vós todas as coisas”

Bem, ele vai para o martírio. Os senhores vêem a linda oração do tal rapaz Padilla que foi morto com eles. Essa oração é belíssima porque exprime o tormento de alma de uma pessoa que reconhece as suas próprias fraquezas, que quer ser generosa e que, então, deposita toda sua confiança no sobrenatural, mas que não cede.

Os senhores vejam a oração, que merece ser relida. O texto é esse:

Vós, Senhor, dissestes que quando fôsseis levantado entre o céu e a terra atrairíeis a Vós todas as coisas.

Parece que os judeus interpretavam esse “levantado”: “quando eu for levado no trono, então atrairei o mundo inteiro”. E é ocasião de bons negócios para a judiaria.

De fato, o “levantado” era levantado na Cruz, que é coisa que não entrava nos planos dos bons negócios dos rabinos, não é? Bem muito pelo contrário.

E realmente quando Ele foi suspenso entre o céu e a terra na Cruz, Ele atraiu a si todas as coisas.

Os senhores conhecem o dito famoso de Napoleão para o sujeito que perguntou a ele porque é que ele não se faria adorar como Deus. Napoleão disse: “Olha, depois de Jesus Cristo, só há uma fórmula: é a gente ir ao alto do morro e fazer-se crucificar, e isso eu não quero”. Porque depois de Cristo, ninguém mais toma a sério um Deus que não se faça crucificar.

Isto é a prova de que como Cristo crucificado atrai. Como um homem como Napoleão, ímpio daquele jeito, soube sentir isto melhor do que muitos filhos da luz sabem sentir. Como Nosso Senhor Crucificado atrai a si todas as coisas.

* “Senhor, Vós que levantareis todas as coisas, levantai-Vos em minha alma pela contemplação de Vossas dores e pela participação de Vossa Cruz”

Então ele parte desta idéia para um outro conceito. Diz ele o seguinte:

Senhor, levantai-Vos em minha alma pela contemplação de Vossas dores e pela participação de Vossa Cruz.

Quer dizer: “Vós que levantais todas as coisas, levantai minha alma, entrai na minha alma e levantai-a, fazendo com que eu consiga isto pela consideração de Vossas dores e pelo amor que eu tenho a Vós enquanto crucificado”.

E depois ele acrescenta:

Senhor, minha miséria, meu egoísmo, meus pecados…

Eu quase ouço ele dizer minha pretensão, me parece quase ouvir esta palavra escapar dos lábios dele.

me impedem de pedir-Vos dores, mas, se eles hão de elevar minha alma, unindo-me convosco,…

Quer dizer, ele tinha medo de pedir dores a Deus Nosso Senhor.

Senhor, elevai-Vos em minha alma”.

Quer dizer: “Se for preciso, eu Vos peço que entreis em mim e me torneis capaz das dores que eu devo suportar”.

* Ser herói é uma coisa, mas ser “estourado” é outra

Isto eu creio que para nós dá uma linda oração.

Por ocasião das brigas de rua, mais de um membro do Grupo teve a lealdade, a coragem, a dignidade de me dizer que tinha muito medo durante a briga, que tinha medo de ser espancado e que ia para lá com medo. E eu respeitei essa dignidade, respeitei essa franqueza e respeitei essa humildade.

Agora, o que é que eu posso dizer a uma pessoa que me diz que tem medo?

A única coisa que eu posso dizer é o seguinte: que é natural. Porque, quem é que pode não ter medo de uma pancada?

Eu não quero — sobretudo Nossa Senhora não quer — heróis que sejam tontões, que não medem as conseqüências dos seus atos e, de doidos, vão entrando no meio da paulada, racha metade da cabeça e depois não explica o que é que acontece.

E o herói é uma coisa, o estourado é outra. Eu não quero estourados, eu quero heróis.

O herói mede o perigo, mas em razão de um motivo mais alto. Por amor a um princípio soberanamente alto e sacrossanto, ele declara: “Eu sinto o instinto de conservação bradar dentro de mim, mas eu vou para frente E eu vou pra frente porque QUERO IR. PORQUE QUERO QUERER, E QUERO! Vou por causa disto, e por mais que este instinto se levante em mim, eu hei de esmagá-lo, e eu hei de chegar até o fim do caminho que a Providência me tenha traçado, porque eu quero imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo que fez a mesma coisa”.

* A escola do heroísmo é o Calvário, e a mais alta página do heroísmo é o Horto das Oliveiras

Exatamente a escola do heroísmo para nós é o Calvário. E o Horto das Oliveiras para mim é a mais alta página de heroísmo. Para mim, não: é! Não tem para mim. É a mais alta página de heroísmo que houve em todos os tempos.

No momento em que Nosso Senhor sentindo próxima a morte e a paixão que Ele sabia que Ele devia sofrer e todos os ultrajes morais e dores morais que Ele devia sofrer, Ele começou a sentir, na perfeição absoluta de sua Humanidade Santíssima, o instinto de conservação que se levantava. Instinto de conservação que nEle devia ser extraordinariamente ágil, fino, agudo, porque todos os instintos nEle eram perfeitíssimos. E, com o instinto de conservação, Ele começou a, diz o Evangelho, “coepit taedere et pavere et maestus esse”.

Ele teve tédio, pavor e encher-se de tristeza, suou sangue diante do medo do que devia acontecer e fez aquela oração: “Meu Pai, se for possível, afastai de mim esse cálice, mas faça-se a Vossa vontade e não a minha!”.

Veio um anjo do Céu, deu-lhe forças, e com isto nós temos o Herói com “H” maiúsculo, perfeito, de todos os tempos, fonte de todo heroísmo, que recebeu do sobrenatural… Ele que estava unido hipostaticamente à Divindade, querendo que sua Humanidade recebesse consolo de um anjo, recebendo esse consolo sobrenatural por essa forma, para ser capaz daquilo que foi o heroísmo dos heroísmos, dos heroísmos mais heróicos que foi a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim fez esse rapaz. Em última análise, a oração dele é a repetição disso: “Se vós quereis algo de mim assim, eu tenho medo, mas se Vós quereis, dai-me força, eu farei”.

E para mim, o heroísmo é este, e heroísmo que não é este, não é heroísmo.

Nós temos falado em “gercalização”. Os senhores sabem como eu aprecio isto, como isto é necessário para a educação de nossos reflexos, mas não é para criação de uma troupe de estourados que faça as coisas sem motivo de caráter sobrenatural, porque isso não é desejável. É para completar aquilo que o espírito de fé diz em nós; aquilo que a virtude sobrenatural da fé, a virtude da esperança, a virtude da caridade nos leva a fazer: “Se for preciso levar a minha vida, que se leve a minha vida. Se eu tiver que ficar estropiado, que fique estropiado. Eu quero o que Deus quer de mim! Porque eu quero fazer a vontade d’Ele! Peço a Ele, por meio de Nossa Senhora, que me dê forças para isto”.

Quem pedir esta força, terá.

Às vezes, meus caros, pode ter logo. A graça opera de mil modos diferentes. Pode ser que algum dos senhores, ouvindo essa oração deste moço, se sinta inflamado por uma coragem, desde já, que não o abandone até o último momento. E coragem não consiste em sentir coragem ou medo: o título de medroso, o epíteto de medroso não deve ser dado a quem sente medo. É corajoso aquele que agride na hora de agredir com toda força da agressão, que dá todas as bordoadas necessárias.

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