Santo
do Dia (Auditório Santa Sabedoria) – 28/11/1968 –
5ª-feira [ cotejada: SD 253 e imagem] – p.
Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) — 28/11/1968 — 5ª-feira [ cotejada: SD 253 e imagem]
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* Acta Martirum, narração varonil e sóbria * Martírio de Santa Felicidade * Equilíbrio da santidade * Pensamento teológico sem sentimentalismo * Analogia com o protocolo romano * Nota característica de nossa formação: amor à grandeza * Grandeza sacral * Grandeza católica
[Obs: A parte que está em realce está presente na sd253 e não está presente na imagem. Além desta parte todo o restante foi cotejado pela imagem].
* Acta Martirum, narração varonil e sóbria
… [faltam palavras] …com os senhores, aquela narração de martírio de um bispo espanhol na revolução de 1935. Um fato heróico edificante, e eu mostrei como aquele narrador adocicava os fatos. E para mostrar como a narração de um fato heróico deve ser feita sem adocicamento, eu me propus a fazer a leitura de um martírio relatado pela “Acta Martirum”. E expliquei sumariamente aos senhores o que era a “Acta Martirum”. São os anais dos martírios da Igreja feitos por analistas da Igreja primitiva e feitos com a varonilidade, a sobriedade, que representa a conjugação do espírito romano, com aquilo que valia incomparavelmente mais do que o espírito romano, que é o espírito católico.
Eu tenho aqui uma narração da “Acta Martirum”. O Solimeo está dizendo que a “Acta Martirum” não estava aqui, que a narração ele tirou de outra fonte, mas que é da “Acta Martirum”. Por isso ele não pode colher os santos que eu indiquei. Ele tomou outros santos. Há também uma ficha de uma morte heróica de um tal Anacleto González Flores. Mas acho mais interessante ler a “Acta Martirum”, porque se faz bem a comparação entre uma coisa e outra.
* Martírio de Santa Felicidade
Isso é tirado da edição da “Acta Martirum da BAC” pagina 298. É o martírio de Santa Felicidade, que foi martirizada com seus sete filhos, sob Antonio Pio, no século II. Então vem aqui o trecho de uma homilia de São Gregório Magno no dia do natalício dessa santa.
Então, não é da “Acta Martirum” mas é uma narração, dentro de uma homilia de São Gregório Magno, [uma] narração do acontecimento.
Para confirmar essa doutrina…
Todas são palavras de São Gregório Magno.
…vem muito a propósito a bem-aventurada Felicidade. Considerai, irmãos armadíssimos, num coração feminino um valor varonil.
Os senhores já estão vendo como a entrada do tema é diferente daquela ficha. Logo de começo! Lembram-se daquela ficha dulçurosa: o pobre do bispo, estava no cárcere e que cuidava da dor de cabeça de todo mundo… Aquele choramingo. Aqui é o contrario. Já vou assim.
Considerai, irmãos armadíssimos, num coração feminino um valor varonil. Ante a morte , esteve impávida. Temeu perder em seus filhos a luz da verdade, se não os tivesse perdido.
A frase não está muito ao gosto da geração nova. A frase quer dizer o seguinte: que ela, diante da possibilidade dos filhos serem martirizados também, ela mais temeu que os filhos perdessem a Fé diante do medo, do que que eles morressem. Os senhores estão vendo também o vôo do pensamento.
Chamarei, pois essa mulher de mártir? E mais do que mártir: pois chamados à sua presença, seus sete maiores bens…
Que são os sete filhos dela.
…ela morreu esse mesmo numero de vezes.
Quer dizer, como de cada vez foi chamado um filho para se entregar, ela morreu com cada filho.
Contemplou como mãe a morte de seus filhos, entre dolorida e impávida…
Quer dizer, sem nenhum pavor.
…e à dor da natureza aplicou o gozo da esperança.
Quer dizer, ela tinha a dor da natureza porque os filhos foram mortos, um a um, diante dela; então diz São Gregório que ela sufocou essa dor da natureza, pondo por cima o valor da esperança cristã; que dizer, a certeza de que os filhos iam morrendo e iam indo para o Céu. De maneira que com isso ela venceu a dor da natureza.
Temeu que vivessem e se alegrou que morressem.
Vejam que lindo pensamento. Por que eles viveriam apostatas e, no Céu, iam ser santos. Então, ela temeu que eles vivessem e se alegrou que eles morressem.
Desejou não deixar nenhum sobrevivente, por temor de o não ter logo por companheiro.
Ela ia ser morta logo depois. Então, ela pensava o seguinte: Oxalá nenhum sobreviva porque todos vão ser meus companheiros no Céu. É claro que o contrario também está insinuado. Quer dizer, se meus filhos ficarem na terra é porque apostataram, [se perderam] eu não quero.
Mas que nenhum de vós, irmãos, imagine, que vendo morrer seus filhos, o carinho carnal não acelerou o pulsar de seu coração, pois não era possível contemplar [sem dor a morte?] dos filhos, que sabia ser de sua carne.
* Equilíbrio da santidade
Os senhores estão vendo o equilíbrio moral que há dentro disso; porque nos causa enlevo uma mãe que, com tanta esperança do Céu, vê morrer seus filhos. Mas, de outro lado, há qualquer coisa nas entranhas maternas que nos causaria horror de ver que elas não se comovem diante da morte do… [falta palavra] …[filho]. Então, São Gregório sabe mostrar esse prodígio de equilíbrio que é a santidade católica. Como se faz: de um lado, o coração pulsa, porque a mãe vê o filho morrer; de outro lado, a alegria da católica vibra, porque a mãe vê o filho ir para o Céu. E a mãe vê que chega o momento dela mesma morrer e ir para o Céu com seus filhos. Os senhores estão vendo com que alta elevação isso é tratado e com que alto equilíbrio.
Mas havia dentro dela uma força de amor capaz de vencer a dor da carne.
Era a força do amor de Deus que a tornava capaz de vencer a dor da carne.
Amou Felicidade a seus filhos segundo a carne, mas por amor da pátria celeste quis também que morressem, diante de si, aquele mesmo a quem amava. Ela recebeu os ferimentos de todos, mas ela também se multiplicou em todos [os] que entraram no reino do Céu.
* Pensamento teológico sem sentimentalismo
Isso é um lindo pensamento: cada ferimento que um filho levava, ela levava em si pela dor. Mas, por outro lado, era ela que tinha gerado aquelas almas, ela que tinha formado para o Céu, ela cuja presença era a fonte da perseverança daquelas crianças, cada vez que uma criança entrava no Céu, ela entrava com aquela criança. Os senhores estão vendo como isso é diferente daqueles “nhã, nhã, nhã” que nós vimos outro dia. É altamente pensado e teologicamente dito com grande eloqüência.
Com razão, pois chamo a essa mulher mais do que mártir, pois morta pelo desejo em cada um dos seus filhos, alcançando múltiplo martírio, ela venceu a própria palma do martírio.
Dir-se-ia em linguagem de hoje que ela bateu o recorde do martírio, porque ela foi sete vezes mártir, nos seus sete filhos. É o pensamento que ele exprime aqui.
Diz-se dos antigos que tinham por costume que entre eles, quem houvesse sido cônsul, ocupava posto de honra conforme a ordem do tempo. Mas se alguém, posteriormente, vinha a sê-lo pela segunda ou [ainda] terceira vez, sobrepujava em glória e honra aos que haviam sido uma vez somente. Venceu, pois, aos mártires, a bem-aventurada Felicidade, que morreu tantas vezes quantos foram os filhos que antes dela morrerem por Cristo, pois era tão grande seu amor por Deus, que somente sua própria morte não a satisfez.
* Analogia com o protocolo romano
O pensamento é muito bonito e é um pensamento tirado do protocolo romano. O consulado era uma magistratura romana um pouco analógica — com um pouco mais de dignidade —, ao que seria uma presidência da republica hoje em dia. Então, como hoje, os ex-presidentes da republica gozam de certas honras durante a vida inteira, também quem tinha sido cônsul, gozava de certas honras sobre os outros cidadãos durante a vida inteira. Mas quem tinha sido cônsul duas vezes, ou três vezes, gozava de honras maiores do que aqueles que tinha sido uma vez só.
Então ele diz que o mesmo se deu com Santa Felicidade. Ela não foi mártir uma vez só, mas sete vezes, de maneira que ela teve sete vezes as honras do martírio, como alguém que tivesse sido sete vezes cônsul teria sete vezes a honra do consulado. E assim ele termina o comentário.
* Nota característica de nossa formação: amor à grandeza
Eu lamento que a necessidade de traduzir isso numa linguagem mais contemporânea nos prive do sabor direto da oratória de São Gregório Magno. Mas, em todo caso, os senhores têm ai pensamento de grande vôo sobre um fato de grande envergadura. Dá-nos o que? Dá-nos aquilo que deve ser uma das notas características de nossa formação: é o amor à grandeza. O mundo de hoje é um mundo igualitário e é um mundo que detesta tudo quanto é grandeza: que com todas as suas energias tende para o que é vulgar, para o que é chulo, e até para o que é corrupto, e antipatiza com aquilo que representa a afirmação da grandeza. De fato uma grandeza egoística existente só para o proveito do grande não é uma grandeza católica. Mas a grandeza existente para a glória de Deus, que é o modelo e o autor de toda grandeza, a grandeza que, portanto, é conduzir para servir a causa de Deus e não para uma fruição egoística, esta grandeza, todo homem com a alma bem feita e verdadeiramente católica deve amar. É uma grandeza que é “sacral”, não é a pura grandeza do dinheiro e da matéria, como é, por exemplo, a grandeza do Onassis, para dar um péssimo exemplo, mas [muito] significativo: é grande só porque tem grandes sacos de milhões. Isso é grandeza da matéria; não vale nada. Mas é a grandeza do espírito, a grandeza do Direito, a grandeza da virtude, da tradição, da história. Essa é a verdadeira grandeza. E essa é imagem da grandeza divina. E toda [a] alma modelada pelo espírito católico deve gostar dessa grandeza.
* Grandeza sacral
Grandeza que, entretanto, é uma grandeza sacrifical, porque aquele que possui essa grandeza, se ele é católico, está num estado continuo de holocausto; continuamente fazendo um esforço para não fruir essa grandeza, para não se apegar a ela egoisticamente; para [a] ter apenas para servir a Deus, Nosso Senhor, a Nossa Senhora, a Santa Igreja Católica, pronto a largá-la no momento em que for necessário. E preferindo até, se tal for a vontade de Deus, largá-la do que tê-la. Porque como diz Santo Inácio de Loyola, em igualdade de condições nos devemos preferir a pobreza à riqueza, devemos preferir ser atacados e perseguidos a ser glorificados, devemos preferir ser doentes a ser saudáveis, e devemos preferir ser pequenos a ser grandes. Em igualdade de condições. Quando a pessoa conduz a grandeza por essa forma e dá numa grandeza “sacral” [então?] e sacrificada. Nós temos a verdadeira imagem da grandeza do cordeiro de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, que foi a grandeza e que nós então devemos seguir e devemos imitar.
* Grandeza católica
Então, é para esta visualização da grandeza como um valor metafísico e como um valor sobrenatural que conduz essa meditação sobre o martírio de Santa Felicidade. É um heroísmo enorme, uma grandeza de alma extraordinária, cantada por um homem de um talento grandioso, todo ele posto ao serviço da causa católica, como foi o de São Gregório Magno. E os senhores têm então a grandeza cantando os elogios da grandeza pela boca de São Gregório Magno. E aí os senhores têm um desses aspectos magníficos da Igreja Católica. A qual Igreja Católica é isso mesmo. Ela é uma rainha cheia de grandeza; por mais que o progressismo procure desfigurá-la numa proletária demagoga, ela nunca o será. E na grandeza “sacral” da Igreja, mas na grandeza bondosa da Igreja, e numa continua efusão do Sangue de Cristo que a Igreja faz na missa, nós vemos a grandeza “sacral” sacrifical ou de holocausto da Igreja Católica.
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Auditório Santa Sabedoria