Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 22/11/1968 –
6ª-feira [SD 332] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 22/11/1968 — 6ª-feira [SD 332]
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anterior do arquivo:
* Chevalier d´Alsace na retaguarda * À moi Marie, ces sont les ennemies! * O ameaçador do punhal * Pensão mantida até no Terror * Donremy isenta de impostos * Nec nominetur
Dr. José Fernando me aponta aqui um fato histórico — já que estamos na época do heroísmo — um fato histórico bonito que costuma ser atribuído a um francês do século XVIII, um Chevalier “Daface”, ou melhor, Chevalier d’Alsace, o cavaleiro da Alsácia.
* Chevalier d´Alsace na retaguarda
Tratava-se de uma guerra que a França estava conduzindo contra várias potências européias, entre as quais o Sacro Império Romano: era a Guerra dos Sete Anos. E na noite de 15 a 16 de outubro de 1760, deu-se esse fato. Este Chevalier d’Alsace estava na retaguarda do exército francês e o inimigo estava se aproximando. Mas aproximava-se clandestinamente, muito devagar. De maneira que estando na retaguarda, em dado momento foi cercado pelo inimigo.
E disseram a ele: “não grite, porque você será morto.”
Se ele não gritasse, ele ficaria prisioneiro. Sendo prisioneiro, terminada a guerra, ele voltava para a França e estava acabado. É até um bom negócio, debaixo de certo ponto de vista, para um poltrão, ficar prisioneiro. Ainda mais naquele tempo em que o prisioneiro era tratado com as cortesias do Ancien Régime, não ia para os horrorosos campos de concentração de nossos dias. Tendo ele diante de si essa possibilidade, ele, entretanto, fez o seguinte:
Ele gritou bem alto — o regimento dele era o regimento de Auvergne, que era uma das antigas regiões da França —
À moi Auvergne, ces sont les ennemis, “alerta, soldados do regimento de Auvergne, são os inimigos que estão aqui.”
Caiu crivado de punhaladas, imediatamente. Foi uma manifestação de heroísmo muito bonita.
* À moi Marie, ces sont les ennemies!
Que beleza, numa determinada situação, nós podermos dizer: “À moi Marie, ces sont les ennemis”, e cairmos crivados. Que linda morte! Isso não é morrer, isso é viver. Aí é que a gente compreende como é que os antigos celebravam a data da festa de um santo no dia de sua morte. É exatamente porque ele tinha nascido para o Céu. Aliás, isso até prolongou-se para vários santos até nossos dias. Isso não é morrer, isso é viver. Para a História inteira ficou célebre a manifestação dele, a atitude dele, o gesto dele, como manifestação de um heroísmo extraordinário.
* O ameaçador do punhal
É bonito lembrar isso, sobretudo se a gente imagina isso feito na perspectiva do Ancien Régime, quer dizer, um homem de tricórnio, um homem vestido com a elegância de um fidalgo, perambulando pela noite na floresta e, de repente, outros que chegam com aqueles punhais antigos, — e o punhal tem qualquer coisa de mais pungente do que o revólver, o revólver mata mais do que o punhal, mas há qualquer coisa no punhal que é tremendo — os senhores imaginem aqueles punhais aqui e aqui e ele quieto. Depois: “A moi Auvergne, ces sont les ennemis”, e cai morto. É uma beleza!
O resultado: o rei da França, apurado o fato, decretou uma pensão de mil luises — a notícia não esclarece bem se por ano ou por mês para os descendentes desse homem. Para os descendentes, não, muito bonita a coisa: para o sucessor no nome; aquele que continuasse o nome. De fato, ele era solteiro, não tinha descendentes; então, o irmão recebeu essa pensão.
* Pensão mantida até no Terror
Os senhores querem ver a respeitabilidade de certas coisas? Foi, que eu saiba — eu não garanto, porque não conheço a história tão bem — a única pensão que a república francesa manteve até durante o Terror. Notem que havia uma outra pensão, que ela estupidamente eliminou e que eu direi daqui a pouco qual é. E pela notícia aqui — eu li um pouco apressadamente — parece que a pensão se extinguiu quando o nome se extinguiu, em 1920. Quer dizer, todos os regimes, Napoleão e tudo o mais, continuaram essa pensão. Aqui o que vale não é a pensão, mas a glória do nome. Os senhores vejam a beleza disso.
* Donremy isenta de impostos
Havia também uma outra coisa. A aldeia de Donremy, onde nasceu Joana d’Arc, quando havia os orçamentos naqueles livrões, as contabilidades dos pagamentos de impostos, quando chegava à aldeia de Donremy, a aldeia estava isenta de impostos para todo o sempre. E então, os lançadores escreviam à margem do livro apenas o seguinte: “La Pucelle”, a virgem. Mais nada. A república francesa acabou com isso. É infame.
* Nec nominetur
Para terminar tudo, até morrer uma irmã de Robespierre, ou caírem os Bourbons, não me lembro, os Bourbons pagaram uma pensão para a irmã de Robespierre. Eu acho que não preciso dizer nada a esse respeito. Não sei se os senhores preferiam que eu não tivesse mencionado isso depois de coisas tão bonitas.
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Auditório da Santa Sabedoria