Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 22/11/1968 –
6ª-feira [SD 332] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 22/11/1968 — 6ª-feira [SD 332]
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A partir do livro “Nossa Senhora falando àqueles que ama”, comentários sobre a natureza humana concebida no pecado; em nós nenhum bem espiritual procede fora da graça; vivas imagens dessa realidade: o alpinista, o Hércules, o enfermo potencializado; o humilde aceita essa realidade e abre-se à graça; o mega extasia-se consigo mesmo e isso gera a depressão.
* Título de livro no estilo Sion * Conjecturar palavras de Nossa Senhora é legítimo * Por natureza não há bens espirituais em nós * Pelo pecado original todo homem é corrupto * Algo de bom em nós,devemos à graça * Alcance de nossa cooperação com a graça * Outra imagem: o Hércules e o enfermo potencializado * Quando a pessoa faz algo de bom, acha-se um colosso * O extasiar-se consigo mesmo gera a depressão * Devo atribuir tudo à graça * Humildade está em reconhecer nossa maldade * Grande pintor e pintor de parede
TRECHO SOBRE NOSSA SENHORA – A HUMILDADE
[Obs: A página 5 foi microfilmada pela metade, perdendo o final das frases. As palavras que aparecem entre colchete e interrogação foram deduzidas pelo datilografo.]
* Título de livro no estilo Sion
Hoje não há santo do dia em nosso calendário. E há um livro de piedade que um dos membros do Grupo está lendo e que se chama, “Nossa Senhora falando ao coração daqueles a quem A amam”. Autor anônimo, edição de 1868. Eu suspeito muito que seja livro da antiga biblioteca do Sion. Isso é nome de livro da biblioteca do Sion a mais não poder.
* Conjecturar palavras de Nossa Senhora é legítimo
Então, é o autor que atribui a Nossa Senhora essas palavras, e é legítimo atribuir, porque aquilo que segundo a doutrina católica Nossa Senhora nos diz, de fato Ela diz mesmo. E quando a gente lê um livro de piedade, sempre que a gente lê um livro de piedade ou recebe um bom conselho, a gente recebe a graça para aproveitar aquele livro de piedade ou ouvir esse bom conselho. Sempre, sempre, sempre. Se os senhores, ao longo de sua vida, alguma vez receberam um bom conselho, não se esqueçam: os senhores receberam junto a graça para atender a esse bom conselho. Os bons livros que os senhores abriram, os senhores receberam graças para aproveitar os bons livros. Eu também.
…(há um longo trecho inaudível)…
…Ele não enche de bens senão aqueles que se confessam indigentes.
* Por natureza não há bens espirituais em nós
Quer dizer, Ele não enche de bens espirituais, senão aqueles que afirmam que em si não há nenhum bem espiritual que lhes venha de sua natureza, que o bem espiritual que há neles veio da graça, porque eles, por sua natureza, não são autores de bem espiritual nenhum. Tudo que neles há veio da graça. Essa é a tese.
Ele não cumula com seus dons a não ser as almas que a humildade esvaziou de toda pretensão. Ele não se comunica senão àquelas que são desprendidas de si mesmas. Ele não revela seus segredos senão aos pequenos e aos humildes. Ele não confia o zelo de sua glória senão àqueles que não querem nem usurpá-la e nem participar…
Ou melhor.
…nem partilhar com ele. Não há senão humildade, minha filha, que remedeie a indigência, pelas graças que ela atrai. Sim, a humildade é a virtude das virtudes, porque ela atrai todas as virtudes e não há virtude sem ela.
Aqui eu acho tão substancioso, que acho interessante parar e dizer uma palavra sobre isso. É sempre conveniente nós repisarmos alguns conceitos, embora esses conceitos já sejam conhecidos.
* Pelo pecado original todo homem é corrupto
O que, afinal, está dito aqui procede do seguinte ponto da doutrina católica. Nós, em virtude do pecado original, nascemos ruins e por sua natureza todo homem é ruim. “Todo homem é mentiroso”, diz a Escritura. “Toda a carne corrompeu seu caminho”, diz a Escritura. Quer dizer, as vias de todo homem, de acordo com sua natureza, são vias corruptas. É claro que um homem pode ter uma ou outra qualidade. Pode, por exemplo, um homem ser assassino, mas ser bom pai. A gente vai dizer que ele tem a virtude de ser bom pai? Não, ele tem na alma algo que é à maneira da virtude, ser um bom pai, porque um assassino não tem virtude nenhuma. Um assassino não tem virtude no sentido próprio da palavra. Ele é um bandido e nenhuma virtude há nele. Ele tem coisas à maneira de virtude. Ele tem alguns hábitos que são à maneira de virtude. Mas verdadeira virtude só tem o homem bom. O homem é um todo. Não pode ser considerado uma espécie de conglomerado heterogêneo de coisas boas e de coisas más. O homem é todo bom, ou todo mau. O homem que está em estado de pecado mortal é mau. Embora ele possa ter alguns bons hábitos, ele, por sua natureza o homem é mau, e o estado de pecado o torna mau. Restam nele apenas as virtudes infusas da Fé, da Esperança e da Caridade, mas que a Igreja chama de virtude de Fé morta. A Fé existe nele, mas em estado de morte, porque ele caiu no estado de pecado mortal.
* Algo de bom em nós,devemos à graça
Cada um de nós que nasce, nasce ruim, porque sua natureza é incapaz de cumprir os Dez Mandamentos da Lei de Deus. E por nossa natureza, se não fosse a graça, nós pecaríamos.
Então, é a graça que nos torna bons. E qualquer coisa de bom que há em nós vem da graça. É verdade que há uma cooperação nossa com a graça. Nós podemos recusar a graça, ou aceitar a graça. Mas vamos ver bem qual é o alcance dessa cooperação. 0
* Alcance de nossa cooperação com a graça
A cooperação não é, por exemplo, a de um remédio duríssimo que um médico me oferece. Então, eu tenho o heroísmo de beber aquele remédio. Vamos dizer, um remédio que põe o organismo todo em fogo, e eu todos os dias tomo aquele remédio e sofro durante dez horas de gemidos, e no fim, sarei. Então, havia a minha energia, que não veio do remédio, mais as qualidades curativas do remédio. E as duas coisas juntas produziram minha cura.
Não é o que se passa com a graça. O que se passa com a graça é uma coisa diferente. Os senhores devem imaginar um homem que está em estado pré-agônico, não é mais capaz nem sequer de abrir a boca para tomar um remédio. Vem um médico e dá para ele uma coisa para cheirar e ele tem um reflexo por onde ele abre a boca. Depois o médico chega para ele dizendo o seguinte: “você está sofrendo muito. Você quer um remédio?” Ele: “hum!” E o médico lhe dá um remédio para beber.
Pergunta-se: esse homem é grande herói? Ele é um colosso como no outro caso que falamos? Pelo contrário, toda possibilidade de fazer a coisa lhe veio do médico. Ele disse sim, é verdade. Ele abriu a boca, é verdade. Depois de curado, ele fará grandes atos de energia. Quer dizer, depois de termos aceito a graça, nós praticamos grandes atos de energia, por causa do que a graça pôs em nós. É só deixar a graça, ou melhor, a graça nos deixar que nós ruímos por terra. Quer dizer, o remédio não é como um remédio que eu o tomo, o meu clássico… [falta palavra] …por exemplo, e que durante vinte e quatro horas se incorporou ao meu organismo. Não, a graça está continuamente me mantendo nesse estado. E se ela sair do meu organismo, de minha alma, eu me ruo e eu me espatifo.
* Outra imagem: o Hércules e o enfermo potencializado
Os senhores têm um símile diferente no seguinte: os senhores imaginem um homem que é um colosso. Ele sobe montanhas a pé como ninguém. Sobe como um cabrito, pula por cima dos rochedos, quebra as árvores como se fossem palitos e em pouco tempo está em cima com um fôlego perfeito, com um fôlego apolíneo. Imaginem que esse homem desce, recebe uma festa e fica satisfeito com a festa que recebe, alegre: “vejam que colosso sou eu. Eu sou um Hércules, eu subi na montanha, olhem aqui o jequitibá que eu quebrei!” E mostra isto para os povos estarrecidos da força dele. Imaginem que alguém provasse que a situação é a seguinte: ele é um doente e todo o dia de manhã vem um médico, abre a boca dele, mete dentro um remédio que o médico conhece, põe ele em [funcionamento?] e depois dele ter ficado capaz de subir a montanha, ele vai e sobe a montanha. Ele pode dizer que ele é um Apolo? Que ele é um Hércules? O Hércules é o remédio ou o médico, se quiserem. Ele, não. Ele tem uma propriedade hercúleas que circula nele, é verdade, que ele quis realizar, é verdade, em virtude das quais ele realizou um grande esforço, é verdade; mas, nada disso teria sido possível sem os remédios do médico e o médico que deu o remédio.
Assim somos, os grandes santos, os homens simplesmente virtuosos comuns, assim são diante da graça de Deus. Deus é o médico e a graça é o remédio sobrenatural que nos é dado, e [depois nos?] fazemos colosso; tem muito sacrifício, tem muito mérito, uma beleza. Mas a graça nos foi dada, não merecíamos, nos foi dada gratuitamente.
* Quando a pessoa faz algo de bom, acha-se um colosso
Agora, onde está a megalice? A gente olha para si, depois que fez alguma coisa boa e diz: que colosso! Olhe, eu o que fiz! O outro que não é capaz de fazer! Ninguém faz isso como eu. Vejam como é minha natureza. Que [“plinicidade”?] aí… Porque cada um de nós tem uma “icidade” própria; há uma “gregoricidade”, uma “fernandicidade”, uma “lauricidade”, uma “paulicidade” e daí para frente. Cada um tem seu [superelixir?] pessoal, a tintura-mãe maravilhosa de si mesmo, [que?] os outros não conhecem porque são “fassures”, têm má vontade, não querem reconhecer; mas que é uma coisa maravilhosa. [A gente?] bem que conhece. A gente vê dentro de si e vê que é [uma?] coisa maravilhosa. Veja que “plinicidade” aí! Que “plinicidade” há em mim. Aí há um quê que é conatural a mim, que é minha pessoa e que existe porque eu sou eu, por onde eu amo aquilo que eu faço. Oh, que coisa formidável! Que competência! Toca a olhar as minhas mãos, toca a olhar no espelho já me vendo como eu não sou. Então, relendo meus artigos, ouvindo minhas conferências: “Ah, que beleza!”
* O extasiar-se consigo mesmo gera a depressão
Ninguém acha santo assim, mas a gente fica extasiado, porque cada um de nós tende a ser um admirador incondicional de si mesmo. A não ser nas horas de depressão, em que dá um detrator incondicional de si mesmo. Porque o castigo disso é a depressão. Quando eu vejo gente que chega para mim e diz que está deprimida, eu nunca disse nada. Aqui vou dizer pela primeira vez. Muitas vezes eu olho: “meu caro, é verdade, quanta megalice deve estar saindo dessa depressão! Está deprimido? Está bom. Te conheço, porque julgo me conhecer, e julgo conhecer a natureza humana um pouco. Tudo isso vem de megaladas, de megalagem”.
* Devo atribuir tudo à graça
No que está a megalice aí? É atribuir à minha natureza uma propriedade única em mim, que é a minha “plinicidade”, por onde eu sou Plinio e não sou mais ninguém, e ninguém é Plinio. Atribuir a isso o bem que possa haver em mim não é verdade; o bem que há em mim vem da graça e sem a graça eu não faria. Quer dizer, eu devo atribuir tudo, por meio de Nossa Senhora Medianeira de todas as graças, a Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador, que me remiu e que é Deus. E aqui na palavra Deus está o ponto final. Ele é que [é] a origem de todo bem e de toda graça. Ele é o bem, Ele é a verdade, Ele é o autor desse dom sobrenatural que se chama graça.
* Humildade está em reconhecer nossa maldade
Então, o que é a humildade? É o estado de espírito por onde a gente habitualmente se considera ruim por natureza. Não quer dizer que eu me considere ruim nesse momento. Se eu estou em estado de graça, como posso achar que sou ruim? Mas devo saber que a graça é que me fez tal.
Dirá alguém: “mas o senhor correspondeu à graça.” Eu sei bem como eu correspondi… Se a Graça não me tivesse dado meios de corresponder a ela, eu não corresponderia. “Mas o senhor fez coisas muito duras.” Graças a Deus, é. Rezem para que eu seja capaz de fazê-las amanhã também. Porque o dia de ontem não dá prova do dia de amanhã. Mas isso veio por causa da Graça. A Graça tornou-nos a nós capazes de fazermos coisas duras. Então, correspondemos, houve esforços, houve sacrifícios, houve mérito, não há dúvida. Mas o ponto de partida não foi minha natureza. O ponto de partida foi a Graça.
Isso é que é preciso ter em vista. E isso mata qualquer “megalice”. A tal ponto que se uma pessoa é “mega”, procura esquecer essas considerações. E se ela não esquece, ela deixa de ficar “mega”.
Daí esses conselhos de Nossa Senhora, conceitos tão justamente atribuíveis a Nossa Senhora, sobre a humildade. Esses conceitos vêm da onde? Vêm da idéia de que na natureza humana trincada pelo pecado original, tudo é ruim e que o bem nos vem da Graça.
* Grande pintor e pintor de parede
Alguém dirá: “Está bom, mas o senhor imagine um homem que seja um grande pintor. Esse pintor, o dom de ser pintor não lhe vem da Graça, vem da natureza”.Eu digo: “É bem verdade, vem da natureza. Vamos logo acrescentar que a natureza foi feita por Deus e que isso é um dom de Deus”.Não obstante, digamos, vem da natureza. Os senhores sabem qual é o resultado do estado de alma de um grande pintor? Ninguém é grande em nenhum sentido, sem levar muita gente para o Céu, ou muita gente para o Inferno. E o talento de um grande pintor que não vive em estado de graça leva muita gente para o Inferno. Quer dizer, é pior ser grande pintor sem estado de graça, do que ser um pintor limpa paredes, mas que está em estado de graça. O verde de uma parede que uma alma cândida pinte, pode levar alguém para o Céu. O quadro de um homem que não está em estado de graça não leva ninguém para o Céu.
E aí os senhores têm: nada presta, a não ser Deus. Só Deus é bom. É o ato de humildade que devemos pôr continuamente, continuamente.
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Auditório da Santa Sabedoria