Santo
do Dia – 6/11/68 – 4ª feira .
Santo do Dia — 6/11/68 — 4ª feira
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Shakespeare e o vocabulário
Creio que não seria supérfulo ler a tirada dele aqui; é uma saudação à Inglaterra. Vejam os senhores a grande alure que isto tem:
“Soberano trono real, ilha coroada, terra de majestade, novo Éden, quase paraíso, praça forte da natureza construída contra a invasão e a violação da guerra. Vigorosa linhagem de varões, pequeno universo, pedra preciosa engastada no mar de prata que lhe serve de defesa, recanto bendito: O terra, ó Inglaterra! não se pode negar que tem o seu charme……………”
… semana tem uns homens lá que vendem uma coisa que teria deixado louco de entusiasmo quando eu era menino: é um líquido que forma bolhas de sabão com uma facilidade prodigiosa. Eles sopram aquilo e enchem o ambiente de bolhas de sabão. Quando eu era pequeno, sempre fui muito desajeitado para essas coisas, procurava fazer bolhas de sabão com minha mão e soprar no ar. E quando eu conseguia fazer uma bolha de sabão fazer uma modesta navegação aérea, eu ficava enlevadíssimo com a bolha de sabão. Achava aquilo uma verdadeira maravilha. Mas eu sempre fui trêmulo, sempre fui desajeitado, soprava de mais, soprava de menos, o sabão não prestava para bolhas.
Quando eu passo lá e que vejo aquele homem que fez uma coisa assim, eu não sei se é uma vareta e sai um arco-íris de bolhas de sabão, eu fico quase com vontade de comprar uma para desfazer a injuria que a bolha de sabão me fez no meu tempo de pequeno.
Pois bem, a bolha de sabão é uma verdadeira jóia para a pessoa que sabe olhar e sabe contemplar uma bolha de sabão, uma verdadeira maravilha. Não se esquematiza uma bolha de sabão, ela explode.
Isto aqui também não é feito para ser esquematizado.
A Inglaterra dá uma sucessão de impressões fugidias, que ele numerou uma depois da outra. Ele apenas teve um cuidado, e esse cuidado é como uma senhora dos tempos antigos que tem um vestido que quase toca no chão, e que ela então pega a cauda e levanta de um modo glorioso. Há um momento em que o elogio dele continuando gracioso, quase toca o chão do terra a terra. É quando ele vem vindo, etc, etc. e ele diz o seguinte: “Praça forte da natureza, construída contra a invasão e a violência da guerra”, da um ar um pouquinho pacifista. Mas vejam como ele tem cuidado, sentindo a poquice do pacifismo, de colocar essa manifestação pacifista entre dois bastiões armados: Ele chama aquilo de “praça forte da natureza”.
Logo depois é o começo da introdução quando ele fala da paz logo depois del ter falado disso, ele diz o seguinte: “A vitoriosa linhagem de varões”. Então fica quase como um cântico.
Não sei se eu me exprimi bem, ou se alguém tem a me perguntar algo… Mas fica quase como um cântico.
Então fica quase como um cântico. “Praça forte da paz, vigorosa linhagem de varões”. Ele reergue imediatamente aquilo que poderia começar a cheirar mamãezismo, E com isso os senhores têm uma coisa verdadeiramente literária mas de uma literatura que é isto. Quando a gente considera a Inglaterra como pode pegar, por exemplo, aquela caixa que eu tenho, de pedras coloridas, fazer assim à gente tem uma impressão fugidia daquelas pedras não é? Assim a Inglaterra deita chispas diversas. A gente pode fazer uma ladainha da Inglaterra. Essa seria a ladainha da glória da Inglaterra. Eu achei tão bonito que eu quis trazer aqui para os senhores verem.
Eu vou fazer um inquérito, que é o seguinte: nem sempre a ficha do santo do dia é inteiramente compreensível para os meus caríssimos ouvintes da geração ultra nova. Essa ladainha é compreensível ou é fisgada assim meio no ar? Quer dizer, todos percebem bem a beleza que tem ou gostariam que eu desse uma explicação? Mas precisariam. Gostariam, não, porque gostar nós não saímos mais daqui hoje, mas eu pergunto, vamos dizer assim, aqueles a quem ouvindo isso, sentiram que é muito bonito, levantem o braço, para ter uma idéia É a totalidade, de onde se vê que é a má literatura sobretudo que é mal entendida, não é.
(O Sr.Dr.Plinio, verificando que o santo do dia é o Beato Nuno Alvarez Pereira, condestável de Portugal, desenvolve o sentido da palavra condestável).
Hoje, 6 de novembro é festa do bem‑aventurado Nuno Alvarez pereira, condestável de Portugal e donato Carmelita. Conservou sob o hábito carmelitano o arnez de cavaleiro Século XIV.
Sobre o bem aventurado Nuno Alvarez Pereira já não teria nada a dizer, a não ser, já que falamos a respeito de literatura, a palavra “condestável”. Eu não sei se a palavra condestável lhes diz alguma coisa na linha do que diz Shakespeare. Mas é inútil dizer.
A gente vai so dicionário. Condestável e os senhores sabem qual é a origem desta palavra tão bonita, não é. Porque a palavra é linda: “Fulano é um condestável”. A gente tem a impressão de um homem colocado na ponta da guerra, mas no mesmo tempo generalíssimo. Ao mesmo tempo investido em todas as direções, exposto a todos os perigos, levando de frente todos os ventos, e leve na conquista de uma vitória fulminante e decisiva. Isso é o condestável. É uma espécie de São Miguel Arcanjo terreno. Isso é o condestável, não é verdade?
A gente vai procura num dicionário, poderá achar em algum dicionário poca que condestável é um título antigo que foi substituído depois pelo de marechal ou pelo de general nos exércitos contemporâneos. Mas é inútil. Nem o título de marechal, nem o de general dão o que o título de condestável dá. Há qualquer coisa de heróis, de proeza, de um cavaleiro que está no alto de um arco‑íris capitaneando legiões invisíveis. São Miguel Arcanjo é um condestável verdadeiro. Assim os condestáveis da Idade média.
Há qualquer coisa de belíssimo no título de condestável que eu tenho a impressão que o título de marechal não tem, que o título de general não tem e que o título de caudilho ainda tem muito menos e que sõa vários tombos sucessivos.
O que é que é um marechal? Uma marechal seria um general reforçado, mais ilustre. Não se pode imaginar um marechal sem o clássico chapéu bicórneo, com plumas, dentro condecorações e uma cara conspícua. Uma homem que é capaz de arcar com graves responsabilidades, de resolver grandes problemas, um chefe de guerra com muita sabedoria. Já não é o condestável. Porque o chefe de guerra que não é guerreiro, não tem a plenitude da guerra militar.
Agora, já o general já é o quepe — me perdoe o capitão Poli —, mas é a farda caqui, é a farda verde oliva, é grau contemporâneo, não é verdade. De maneira tal que o título de condestável tem uma beleza e uma poesia própria, por onde, por exemplo, se poderia chamara Santa Joana D´Arc de condestável dos exércitos franceses. Seria baixar o nível dizer: “Santa Joana D´Arc, esse grande general…” Isso foi elogio? É questionável.
Aqui os senhores estão vendo a beleza das palavras. Não sei se o santo do dia, mas saem algumas reflexões que não deixam de ter a sua santidade.
Eu termino com uma coisa santa. Eu sei que a minha caríssima geração nova não é muito propensa ao vocabulário abundante. É mais propensa ao português básico, assim umas das mil palavras, qualquer coisa dão para o gasto. E eu sei que isto obedece ao preconceito de que não adianta saber muitas palavras que, acabam no fundo dizendo a mesma coisa.
Uma das belezas da lingua portuguesa é exatamente que há muitas palavras para dizer a mesma coisa, mas que cada palavra diz a coisa sob um ângulo especial. De maneira que a gente conhecendo os sentidos imponderáveis de cada palavra, a gente sabe apresentá‑la no ângulo que quer. E então, além da conversa ponderável, tem a conversa dos imponderáveis. É o que torna a conversa agradável. E exatamente quando a gente sabe fazer escachoar no meio da conversa uma porção de imponderáveis que a gente vai acompanhando com um tom de voz, então a conversa se torna quase um cântico, quase uma proclamação.
Então, aqui fica um convite para nos interessarmos pelo vocabulário abundante, pelo vocabulário fluente, caudaloso, vário. Para nós nos interessarmos pelos matizes das várias palavras. Eu lhes garanto que produz a alma uma das sensações de descompressão mais agradáveis que há.
Os senhores sabem o que é? Os senhores andam pela rua, há um certo gênero de gente — vale a pena os senhores examinarem —, umas caras assim que a gente tem a impressão de um besouro zumbindo, olhando aquele zumbido é um zumbido interior de quem nunca conseguiu explicitar nada. E se vive portanto, na cabeça uma espécie de maçaroca de impressões que não se exprimem, de vontades que não se definem e de idéias que não tomam corpo e o indivíduo vai pardacentamente andando pela vida e por isso morre assim. Não funciona, não é verdade? Isso em grande parte é por falta de vocabulário?
É porque o vocabulário não permite explicitação e a pessoa fica com uma porção de idéias inexpressas, gemendo dentro da cabeça, produzindo mal estar, misturado com um desânimo de jamais conseguir experimentar, então, eu volto a dizer: a variedade do vocabulário, a abundância, o curso rápido e fluido do vocabulário, tudo isso dá o gosto de falar, dá o gosto de pensar que dá o gosto de viver.
Isso serve, inclusive, até para rezar porque Deus, que nos fez capazes de explicitação, que nos fez capazes de conhecer e amar os matizes, gosta que nossa inteligência se abra, como um agricultor que gosta que a rosa, da roseira que ele plantou, se abra inteira também. Não vamos fazer, aos olhos de Deus, o papel de um botão de pétalas assim calvinisticamente fechadas, mas vamos nos abrir para Deus, para os homens e para nós mesmos.
Um último elemento de expressão é o vocabulário. Ele não teria sabido dizer o que era a Inglaterra, ele teria sido menos ele. É uma forma de infortúnio muito maior do que ser pobre, muito maior do que ser fluente, muito maior do que ser desprezado pelos outros, é isto, a gente notar que a gente não chegou a ser inteiramente a gente mesmo.
De maneira que aqui está um convite ao vocabulário abundante. Eu lhes garanto que isso dá glória a Deus. E com isso nós encerramos.
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