Santo do Dia ─ 5/11/68 ─ 3ª feira ─ TC . 7 de 7

Santo do Dia ─ 5/11/68 ─ 3ª feira ─ TC

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O Senhor Doutor Plinio analisa uma cena em que a rainha da Inglaterra passa em carruagem e é contemplada por duas crianças * O menino está numa posição profundamente contemplativa e enlevada. Involuntariamente ele tomou uma atitude de oração * A atitude do menino é propriamente uma atitude de enlevo * A “infância espiritual é, antes de tudo, ter a alma despretensiosa. Foi desses que Nosso Senhor disse: “Deixai vir a mim os pequeninos…” * Há na Inglaterra muitas almas como a daquele menino. E a igreja anglicana existe para impedir que se abram para a Igreja Católica * Nossa posição perante o Grupo deveria ser a daquele menino diante da rainha * O enlevo é apetente de todos os aparatos razoáveis. Para a pessoa que não tem a alma enlevável, o menor aparato lhe parece exagerado

* O Senhor Doutor Plinio analisa uma cena em que a rainha da Inglaterra passa em carruagem e é contemplada por duas crianças

Aqui os senhores têm uma cena publicada numa revista que representa a rainha da Inglaterra que está numa carruagem, revestida das insígnias da Ordem da Jarreteira.

Os senhores percebem que se trata de um carro puxado a cavalos e que ela está em traje de grande cerimônia. Os senhores notarão aqui uma capa com esses debruns brancos depois, aqui o chapéu com uma pluma e aqui os senhores notam a linha geral da carruagem; e aqui, junto a ela, está um dos couraceiros reais, que são figuras magníficas: os senhores notam aqui a couraça, o elmo, o penacho, aqui a espada, aqui uma manga grande à guisa de luva, que chega até a metade do braço, e aqui se delineia uma outra figura também ornamental. A rainha está olhando para cá, ela não está olhando para lá.

Aqui os senhores notam duas figuras: um menininho e uma menina. O menino, os senhores prestem atenção na posição do menino, é propriamente o contraste com a posição da menina. Até vale mais a pena antes analisar a menina.

* A atitude da menina é de quem está entusiamada com a rainha, mas se divertindo

A menina está olhando com boa vontade. Mas ela está olhando com um olhar ─ se se pudesse conjugar ─ ela está olhando a rainha com um olhar inocentemente mundano. Ela está olhando pelo lado modas, pelo lado beleza etc., com essa natural vaidade de uma menina e interessada quase se poderia dizer, entusiasmada na consideração da rainha. Mas rindo e se divertindo.

* O menino está numa posição profundamente contemplativa e enlevada. Involuntariamente ele tomou uma atitude de oração

O menino está numa posição profundamente diferente. Ele está numa posição profundamente contemplativa e enlevada diante da rainha. os senhores notem que involuntariamente ─ porque esse que é um menino do povo, que não está acostumado a compor as suas atitudes o que é muito espontâneo ─ involuntariamente ele tomou uma atitude de oração.

Ele está com as duas mãos literalmente postas diante da rainha; com um olhar que é um olhar indizível, misto de reverência, de respeito e, de outro lado, de afeto e analisando profundamente a rainha, com toda a atenção posta no aparelhamento todo que cerca a rainha, e os senhores estão vendo que é um enlevo propriamente pela instituição da realeza.

Não é um enlevo pela pessoa da rainha, mas é um enlevo pela instituição da realeza. Ele quer ver, ele quer considerar toda essa glória, todo esse esplendor que se apresenta a ele sob esse aspecto e que é alguma coisa de metafísico. Ele acabou vendo que na vida há algo que transcende enormemente o ambiente dele, que transcende enormemente a vida quotidiana, que transcende enormemente a vulgaridade da vida de todos os dias de todos os homens, e que é isso que se chama o aparato monárquico, um reflexo de Deus na terra, uma manifestação de valores metafísicos altíssimos se exprimem na pompa da realeza. E então ele está enlevado, e a gente vê que a alma dele está sorvendo a largos haustos aquilo que a rainha exprime para ele.

Os senhores podem notar isso pela concentração dele. Olhein um pouco para ele: vejam como ele está atento, vejam como ele tem os olhos fixos na rainha; vejam como, de outro lado, ele está com todo o rosto… uma criança posta diante de um presépio não tomaria uma atitude diferente. Toda a posição do rosto, toda a expressão do olhar é um misto de contemplação e de prece. Por que misto de contemplação e de prece? Exatamente ele foi posto diante dessa coisa que se chama realeza. Esse enlevo é uma base de despretensão.

Alguém me disse, de um modo muito pitoresco, que era o caso de tomar um avião, procurar o menino e fazer apostolado com ele para trazê-lo para o Grupo. Porque os senhores vejam que ele não está pensando nem um poco em si. Ele está completamente abstraído de sua própria pessoa. Ele está considerando exclusivamente a realeza. E isso os senhores percebem melhor no slide do menino que vai ser passado agora.

[Projeta-se o slide]

Aqui os senhores têm o menino. Os senhores notem como é verdade que se dissesse que está passando um santo para o menino ver, ele tomaria a mesma posição. Os senhores vejam a seriedade da fisionomia dele. Vejam o olhar contemplativo atento e, outra coisa, essa atitude de prece como é, ao mesmo tempo uma atitude de afeto.

Mas é um menino que não quer ser rei, que não quer aproveitar-se de nada da realeza, que não pensa em se destacar em nada a propósito da realeza. Ele dá graças porque a realeza existe e porque ela tem aquele esplendor e aquela beleza.

Olhein a menina, que percebeu que está sendo fotografada e que está fazendo pose. E a baixa de nível, a pretensão. Ela está toda excitada com a rainha, com a moda, com não sei o quê. Se disserem para ela que ela vai ficar rainha, ela fica toda melada, toda contente.

Se disserem para ele que ele vai ficar rei, ele fica muito espantado, porque ele não tem a menor vontade de ser rei. O que ele tem é a vontade que exista um rei, o que é uma coisa completamente diferente.

* “Maria, eu vos amo tanto, que se eu fosse a rainha do Céu e vós fosseis Teresa, eu queria ser Teresa para que Vós pudésseis ser a Rainha do Céu”

Aí os senhores têm a boa imagem da despretensão; de uma pessoa que olha para algo que não é ele e que é capaz de se encantar inteiramente com a grandeza de algo que não é ele, porque aquilo é aquilo. É o que está no Glória, na Missa: Gratias agimus tibi propter magnam gloriam tuam ─ “Nós vos damos graças, ó Deus, por vossa grande glória”.

Esse menino poderia dizer à rainha: “Majestade, eu vos dou graças, vos sou grato por vós serdes a rainha”. Está acabado.

Os senhores querem ver como essa posição de alma é uma posição justa? Lembram o pensamento clássico de Santa Teresinha do Menino Jesus a respeito de Nossa Senhora? Ela dizia a respeito de Nossa Senhora mais ou menos essas palavras: “Maria, eu vos amo tanto, que se eu fosse a rainha do Céu e vós fosseis Teresa, eu queria ser Teresa para que Vós pudésseis ser a Rainha do Céu”. Completamente despretenciosa, completamente enlevada.

Essa é a posição desse menino.

(Sr. –: …)

* A atitude do menino é propriamente uma atitude de enlevo

Isso poderia ser comparado com algum slide da agitação universitária. Aí dava o contrário inteiramente. A fotografia não estava nada boa. Eu até sugeri ao Dr. Caio que escrevesse para a revista italiana, pedindo a fotografia. Mas aqui dá muito para ver a atitude do menino. É ou não é uma atitude de prece impressionante?

É exatamente a atitude de enlevo. Enlevo é isso. Ele não está preocupado consigo, nem o que o fotógrafo vai achar dele. Ele ficaria pasmo se soubesse que num lugar que talvez ele não saiba que existe, chamado São Paulo, se realizou um slide com ele. Seria a surpresa da vida dele. Ele não compreenderia. Diria: “Mas é tão natural? Pois estava lá a rainha! A única posição que eu poderia tomar era essa.”

A menininha não; ficaria radiante ao saber que foi projetada. Por quê? Porque é bobinha, pretensiosa, baixa de nível, bestinha.

Ele, não. É um espírito verdadeiramente elevado, e superior. Eu não tenho nada o que acrescentar, o que essa cara não disser, eu não sei dizer.

* A “infância espiritual é, antes de tudo, ter a alma despretensiosa. Foi desses que Nosso Senhor disse: “Deixai vir a mim os pequeninos…”

Aí os senhores têm um aperçu do que é propriamente a infância espiritual. Quando se compara, por exemplo, a infância, a mocidade, a idade madura, a velhice, cada uma dessas idades tem seu esplendor próprio e tem também a sua vergonha própria, sua caricatura própria. Quando falamos da infância, quando o Evangelho fala do menino, ele fala exatamente da criança ainda desinteressada, da criança ainda enlevável da criança que ainda tem idealismo e que é oposta ao homem que caiu no pecado de pretensão, que caiu no pecado de orgulho e só se preocupa consigo mesmo. Que virou egoísta.

Então, a infância espiritual é, antes de tudo, ter essa alma. E foi das pessoas assim que Nosso Senhor disse: “Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o Reino dos Céus”. E depois disse que quem não fosse assim não entrava para o Céu.

É claro que isso não quer dizer que quando se fica adulto, necessariamente se torna uma alma mercenária e vulgar. Não quer dizer isso. Mas quer dizer que há o perigo de ficar assim e que só vão para o Céu os que conservam essa alma e aprimoram-na até o fim de seus dias. Esses são os que vão para o Céu. Isso foi o que Nosso Senhor quis dizer.

E é essa a idéia mais fundamental da infância espiritual: é esse idealismo entusiasmado, esse idealismo pelas coisas que de fato merecem essa elevação.

* Para um comunista, as almas admirativas são almas alienadas, dignas de desprezo

Um comunista cai na gargalhada a propósito dessa alma e cai por quê? Ele diz que essa alma é uma alma alienada. O que quer dizer aqui alienado? Alienus quer dizer alheio. É uma alma que ficou pertencendo a outrem, que não está voltada sobre si mesma, sobre suas vantagens, sobre seus direitos, mas que está voltada para a admiração e serviço de outrem.

Isso, para os comunistas, é a vergonha das vergonhas. Por causa disso, eles querem uma ordem de coisas em que não haja nenhuma coisa dessas. Então, o que eles querem? É, por exemplo, certos ambientes de agitação universitária. Aquela sujeira, aquela sordície, aquela desordem, aquela tendência para o farrapo, para o trapo, para a nudez, para a desorganização, para a gargalhada do demônio, como por exemplo, foi encontrado em Ibiúna. Porque o demônio odeia isso e esse é o espírito que Nosso Senhor veio trazer à terra. Aqui os senhores têm todo um aspecto das coisas. Eu creio que seria o caso de deixar para outro dia a oração de Nosso Senhor no Horto.

(Sr. –: … a atitude desse menino não podia ser…)

* Há na Inglaterra muitas almas como a daquele menino. E a igreja anglicana existe para impedir que se abram para a Igreja Católica

Podia, perfeitamente. Aliás, eu penso que a aparição de Fátima fez algo disso com Francisco, que foi um meio convertido na aparição de Fátima. Por isso mesmo, muito bom padroeiro nosso.

(Sr. –: … Não se poderia rezar por esse menino?)

É esplendido. Mais do que rezar por esse menino, rezar pela Inglaterra.

A evangelização da Inglaterra foi decidida assim: São Gregório Magno, Papa, estava andando pelo mercado de Roma e viu uns escravos a venda, muito lourinhos, muito bonitinhos e com um jeito angélico. E então ele perguntou de onde eram esses meninos. Eram escravos e tinham sido presos pelos romanos. Responderam a ele:

Sunt angli ─ são ingleses.

E ele disse:

Non sunt angli, sed angeli” ─ não são anglos, mas anjos.

E mandou então que uma missão, chefiada por Santo Agostinho de Cantuária, fosse evangelizar o povo inglês. Daí datou a conversão do povo inglês.

E é porque há muitas almas assim na Inglaterra, que existe a igreja anglicana. Porque é para impedir. Com a proclamação da república e a queda da igreja anglicana muitas almas assim afluirão para Igreja Católica.

(Sr. –: …)

* Nossa posição perante o Grupo deveria ser a daquele menino diante da rainha

Deve ser isso e mais do que isso, porque o Grupo reflete a Realeza de Nossa Senhora. Embora ele não se cerque dessas pompas exteriores, ele tem valores espirituais que para o homem capaz do discernimento espiritual, falam. De maneira que nossa posição perante o Grupo deveria ser essa.

O mais engraçado é que a posição do público, perante os estandartes, muitas vezes é essa. E os senhores estão fazendo assim porque sentiram que é. Eu vou dizer mais: perante os senhores também. Muitas vezes eu noto que os nossos vendedores e distribuidores produzem esse impacto. Produzem de cheio. E é uma graça que está nos senhores, está em nós, às vezes como a graça está na água benta, sem que a água benta se dê conta da graça. Mas já é qualquer coisa ser água benta.

(Sr. –: …)

* A monarquia inglesa existe para evitar que a igreja anglicana desapareça

Se na Inglaterra fizerem república ou melhor, se na Inglaterra a igreja anglicana deixar de funcionar, existe o risco de muitos ingleses, que têm essa mentalidade, ficarem católicos. Porque a igreja anglicana tem toda a exterioridade da Igreja Católica. Mas não tem os dogmas. É uma igreja vazia. Começa que não tem sacerdotes. Depois não admite a infalibilidade papal.

Agora, é para evitar que a igreja anglicana desapareça, não para evitar que muitos ingleses fiquem católicos, é que a monarquia existe. Para a igreja anglicana existir, é preciso que exista a monarquia, para a monarquia dar a ela o prestígio da conaturalidade do fato da rainha ser o chefe da igreja anglicana. Porque não se compreende um presidente de república como chefe da igreja anglicana. Não é possível. Ninguém vai tomar a sério um chefe de igreja que seja um presidente da república.

(Sr. –: …)

Eu acho que vale a pena na medida em que ela tenha em torno de si o aparato régio. Se eu pudesse ter convidado os senhores ─ me passou a idéia pela cabeça ─ pedir uma hora especial para vermos juntos as jóias da coroa britânica e comentarmos.

* O enlevo é apetente de todos os aparatos razoáveis. Para a pessoa que não tem a alma enlevável, o menor aparato lhe parece exagerado

(Sr. –: […] até onde o aparato serve para ajudar o enlevo e até onde o aparato deve ser poupado para que haja uma atitude de alma suficiente…)

O enlevo, propriamente, pode se comparar a um poço de petróleo. Quando se perfura, se ele é rico, jorra alto; se ele é pobre, dá um jorrinho qualquer que dá para encher uma garrafa e está acabado.

Assim também é o enlevo. O enlevo, lo que se dice enlevo é apetente de todos os aparatos adequados, de todos os aparatos que tenham uma relação razoável com as coisas. Quando a pessoa não tem a alma enlevável, o menor aparato lhe parece uma coisa descabida.

Quando estive no Vaticano, na primeira canonização que assisti, eu assisti num lugar poca, na tribuna de Santa Marta que é uma tribuna erguida num ponto de confluência dos braços da basílica de São Pedro. E nós estávamos nos últimos esplendores da era constatiniana. Entrou Pio XII carregado na sedia gestatoria, as cornetas de prata tocando, tudo muito bonito.

Estava atrás de mim um irlandês dos mais ácidos que pode haver, um picles humano; presumivelmente católico. Mas um homem completamente sem enlevo e feito de ressalvas, de restrições, de perguntas e de conformes. Então, ele falava atrás de mim: “Está vindo… já está vendo como é, como não é. Isso é uma gangorra ou uma cadeira? Está ele na gangorra. Vai cair, não vai cair. Que velhinho, olha…”

O tempo inteiro em que o cortejo desfilou, esse homem não teve ouvidos para ouvir as trombetas de prata de Michelangelo tocando. Ele não teve alma para entender a simbologia dos dignatários carregando pombinhos e uma bolsa de dinheiro, para pagarem depois para o Papa pro missa bene cantata, rito que vinha de nem sei que catacumba, de que coisas primitivas; que o Papa ia depois comer o pombo e mandar comprar o vinho por causa da missa bene cantata. Ele não tinha alma para ver a guarda nobre, as Ordens religiosas, os cardeais os bispos orientais.

Entrou, de repente, um rei negro, mas que nem era provavelmente rei, porque foi alojado perto da tribuna onde eu estava e que não tinha condições para rei nenhum. O rei entrou, negro como o Congo, com uma coroa dourada e pintada, de madeira, na cabeça ─ parecia um pouco como um rei mago, com seu séquito, entrando pela basílica.

Quando o rei negro entrou, todo mundo bateu palmas.

Diz o irlandês: “Para que isto? Eu não compreendo esta história. Que bobagem, esse homem não tem poder”. É o oposto da alma desse menino.

Essas coisas são incríveis. Outro dia alguém mandou-me uma maçã francesa para eu comer. Eu comi a maçã e achei, ao dar a primeira dentada na maçã, eu vi que era uma fruta de boa qualidade, mas ácida como tudo. Tinha qualquer coisa de rebarbativo. Eu disse: “Isso aqui é uma maçã para Calvino, não para mim.” Deixei de lado. Calvino, como os senhores sabem, era francês e representava o contrário da douceur de vivre francesa.

Depois me pergunta esta pessoa:

Que tal a pomme Calvin que eu te mandei?

Eu disse:

Mas como pomme Calvin?”

Não, esse tipo de maçã é conhecido na França como pomme Calvin.

Eu disse:

É isso mesmo. Eu dei uma dentada e não engoli.

Calvino é o contrário do enlevo. É a igreja presbiteriana, com os padres vestidos de preto, não tem bispo, tudo como os corvos, uns urubus, com uma golinha branca aqui por muita cerimônia. E o próprio Calvino os senhores devem ter visto a fotografia dele: um rosto que parece uma faca de afiar se fosse isso assim um pouco mais larga; aquilo assim com uma barbinha, escorrendo dúvida, objeção e mau humor.

É o contrário desse menino.

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