Reunião
Normal – 4/11/68 – 2ª feira .
Reunião Normal — 4/11/68 — 2ª feira
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Embora existisse em função de um inimigo, as Ordens de Cavalaria tomaram diversos aspectos cuja beleza e coerência parecem ignorar a existência de um inimigo * Um modo muito positivo de construir é o de preocupar-se só com a negação e ter os olhos continuamente postos na polêmica com o inimigo * A vida do Grupo comprova que a atenção principal posta no inimigo é um modo excelente de construir algo positivo * Foi no choque com o mundo revolucionário que o SDP abriu os olhos e a alma para a Contra-Revolução * O caminho certo para nós construirmos algo de positivo é estar continuamente explorando a fundo a atitude do adversário; só assim nosso proselitismo impressionará a Opinião Pública * A plena explicitação da Sabedoria não se alcança sem ser em função do erro e do mal * O problema das Ordens Religiosas ou de Cavalaria que decaem após a morte de seu Fundador * Em certos aspectos e para certos efeitos o mal se manifesta mais possante do que o bem; e o bem para acompanhar o mal e para superá-lo, precisa confrontar-se com ele * Se no Reino de Maria nós não estivermos inteiramente vigilantes contra todas as potencialidades de Revolução, nós amoleceremos * O modo de não deixar com que nós percamos a nossa própria face no Reino de Maria é, no sentido sadio da palavra, o pânico, a obsessão do mal incubado * Muitas vezes Nossa Senhora triunfa sobre o mal fazendo com que o Grupo ressuscite de suas próprias cinzas * Nossa forma específica de ascese é estar continuamente vigilantes contra o mal; nossa dissonância com o espírito do Fundador provém de não aceitar essa ascese
* A Igreja, para manifestar todo seu esplendor, tinha que ter Ordens de Cavalaria, mas estas surgiram numa situação de Plano B da Providência que foi a invasão maometana
Pode haver, vamos dizer, uma Ordem de Cavalaria.
Era o Plano A da Providência que Maomé não tivesse feito a devastação que fez, que não houvesse o Islamismo e que todos os povos do norte da África e da Ásia Menor tivessem continuado católicos.
Bem, mas a Providência permitiu o Plano B de haver o islamismo e de haver aquele desastre religioso todo da bacia do Mediterrâneo que fechou a Europa numa espécie de torquês, não, de alicate, não é? De um lado, os turcos, os mouros entrando até Poitiers, e de outro lado os turcos entrando até Viena, se bem que em épocas diferentes. Mas, enfim, grosso modo falando, este foi o perigo maometano.
Agora, em face deste perigo maometano, Nossa Senhora suscitou as Ordens de Cavalaria. Estas Ordens de Cavalaria, eu creio, que elas teriam existido em qualquer caso, e aqui está o ponto sensível do assunto. Porque a Igreja teria que deitar toda a sua beleza e todo o seu esplendor até o fim dos séculos, e uma faceta da beleza da Igreja não se teria mostrado se não tivesse havido as Ordens de Cavalaria.
De maneira que, e é uma coisa fundamental ter mostrado essa faceta. De maneira que teria que ter havido Ordens de Cavalaria até o fim dos séculos. Mas, concretamente, este plano, que é um Plano A da Providência, e é um Plano A meio dado a Plano B — coisa muito curiosa —, este Plano A da Providência realizou-se diante de uma hipótese B, que foi a invasão da Europa pelos mouros.
* Embora existisse em função de um inimigo, as Ordens de Cavalaria tomaram diversos aspectos cuja beleza e coerência parecem ignorar a existência de um inimigo
Então ela criou uma determinada obra que, por ser uma obra de combate, por ser uma obra de luta, só se explicava em função de um inimigo e que toda ela cresceu de lutar contra o inimigo e desta espécie de polêmica com um inimigo de guerra, com o inimigo, o elemento de seu próprio progresso. Quer dizer, as Ordens de Cavalaria nasceram do fato de haver os maometanos. Elas foram à Terra Santa porque os maometanos tomaram a Terra Santa, e por causa disto uma espécie de ternura especial para com o Sepulcro de Cristo, marcou de um modo maravilhoso as ordens de Cavalaria.
Por outro lado, elas tomaram um aspecto náutico porque o inimigo estava além-mar. Por outro lado, elas tomaram um aspecto hospitalar por causa de circunstâncias ligadas à opressão dos peregrinos que iam à Terra Santa; quer dizer, foi uma série de ações do inimigo que os obrigou a uma série de reações.
Quando a gente examina estas reações, a gente vê que está constituída algo que é uma coisa cuja beleza é tal e cuja coerência interna é tal que a gente teria impressão que foi planejada sem ser em função de um inimigo. Quer dizer, o inimigo serviu de fôrma para aquilo. Mas, a gente examinando, desta posição eminentemente negativa saiu uma ordem, uma obra de caráter positivo.
* Para a História da Igreja é um Plano B que tenha havido os mouros, mas para a Ordem de Cavalaria, lutar contra o mouro é Plano A; e a luta a modelou de modo ideal
Quer dizer, toda beleza da Ordem de Cavalaria se externou; ela existiu e toda a sua beleza se externou em função dos maometanos. Então no que para a História da Igreja é Plano B, para a Ordem de Cavalaria é Plano A, porque a Ordem de Cavalaria nasce dentro do Plano B, e o Plano A dela é lutar no Plano B. Não sei, para uma noite de calor, talvez esteja um pouco atrapalhado, mas não sei se quereriam que explicasse melhor, ou se está claro isso?
(José Inácio: …)
A questão é a seguinte: para a História da Igreja é um Plano B que tenha havido os mouros, mas para a Ordem de Cavalaria, lutar contra o mouro é Plano A, porque ela nasceu para o Plano B, dentro do Plano B, e para ela aquilo é plano A; e quando a gente vai ver como é que uma obra deste tipo se realiza, ela não se realiza alguém fazendo o seguinte raciocínio: “como é bela uma Ordem de Cavalaria, portanto vou fundá-la preventivamente, para algum inimigo que possa aparecer, e como ela teoricamente deveria ser assim, assim, assado, eu vou fazer uma Ordem de Cavalaria assim preventivamente”.
Não, ela nasce toda ela modelada pelas circunstâncias do inimigo. Mas quando a gente vê, ela corresponde ao que seria uma obra imaginada teoricamente por um indivíduo, de modo preventivo. Quer dizer, a luta a modelou de um modo ideal. Não sei se a tese está clara.
* Um modo muito positivo de construir é o de preocupar-se só com a negação e ter os olhos continuamente postos na polêmica com o inimigo; exemplos: Inquisição, Teologia Dogmática
Bem, então nasce um ideal de fazer, um modo de conceber, uma construção positiva para certo tipo de obra, que é em face do adversário, em face do negativo; e, em face do negativo, tendo o faro do que o adversário vai querer, e sempre preocupado com os perigos que ele está constituindo, a gente vai respondendo e a gente parece estar preocupado só com o inimigo, mas para as obras deste tipo, depois, quando a gente olha, a obra foi construída como um teórico a construiria.
Quer dizer, há portanto um modo muito positivo de construir em face da negação, e de se preocupar só com a negação, onde a polêmica e a atenção principal posta no adversário, serve no fundo de contemplação e onde o negativo é puramente positivo.
A Inquisição é muito assim, não é? Aliás, quase todos os dogmas da Igreja, portanto a teologia, cujo arcabouço é a dogmática: todos os dogmas da Igreja foram elaborados, ou quase todos, nesta perspectiva. Não é verdade? Quer dizer, é uma porção de coisas da Igreja que são assim.
* A vida do Grupo comprova que a atenção principal posta no inimigo é um modo excelente de construir algo positivo; historiando a luta contra o progressismo
Bem, então um dia acontece que nós, se analisarmos a vida do Grupo, percebemos que a vida do Grupo tomou esta modelagem verdadeiramente única, em face das pancadas que levou e da necessidade de sobreviver dentro das condições criadas por estas pancadas. Não só porque não seria possível prever o que aconteceu, mas porque não seria lícito prever o que aconteceu, a não ser em face do que aconteceu.
Eu vou me tornar menos nebuloso: os senhores reportem, sobretudo aqui os mais velhos, ao ano de 1935. O ano, por exemplo, o ano portanto em que, se não me trai a minha memória, D. Duarte ainda estava em plena vida. Em que Pio XI ainda governava, mas em que o ambiente reinante no Brasil era o ambiente de São Pio X, porque o Brasil estava muito, as coisas européias chegavam muito tarde aqui, e o Brasil vivia em toda a atmosfera da Igreja de São Pio X.
Não nos era possível prever toda a podridão que andava dentro da Igreja em vias de preparação, e não nos era lícito olhar para dentro do santuário. Nós talvez não tivéssemos as graças de perseverança que nós tivemos depois se nós tivéssemos olhado para esta podridão antes da hora, porque é uma hora em que a gente tem que fazer como os filhos de Noé, que não quiseram ver Noé bêbado para não perder o respeito.
E depois há uma outra hora em que a gente tem que ver Noé bêbado. Tempus est tacenti, tempus est loquendi — há tempos para calar, e tempos para falar, diz a Escritura. Assim também há tempos para abrir e há tempos para fechar os olhos.
Ora, naquela época, não era piedoso, não era direito, não era lícito e portanto era impossível da pior das impossibilidades, a gente deitar os olhos — com os dados que tínhamos, nas circunstâncias em que estávamos — para esta podridão.
Bem, isto é tão verdade que nosso espírito se desenvolveu muito em ortodoxia por causa deste respeito, inclusive às pessoas que constituíam a hierarquia sagrada.
* Obrigados pelo adversário, nós abrimos os olhos à traição que se operava dentro da Igreja e ficamos em face de duas perspectivas: ou trair ou combater e resistir
Agora chega o momento e nós ficamos colocados numa alternativa. Esta alternativa é que nos obrigou a abrir os olhos.
Nós tínhamos a ortodoxia e o conhecimento da doutrina. E começamos a ver aqueles que conhecem a doutrina trair. Ou nós abandonamos a doutrina, ou nós, pelo contrário, abrimos os olhos para os homens que estão espalhando a má doutrina. Então, obrigados pelo adversário, nós abrimos os olhos para as condições [que] estavam reinando na Igreja. Nós abrimos os olhos para as condições que estavam reinando na Igreja, obrigados pelo adversário.
E, obrigados pelo adversário, nós formamos todo um panorama da Igreja contemporânea que é um panorama que nós nunca teríamos tido se o adversário não tivesse saído das suas posições. Bem, mais ainda. Este mesmo adversário que nos abriu os olhos, nós, para sobrevivermos, sentimos a necessidade de atacá-lo. Sentindo a necessidade de atacá-lo — porque se não atacássemos, nós mesmos nos desmilinguíamos — nós fomos escorraçados por ele e fomos obrigados a nos conservar, construir, sobre uma base autônoma, que é a base em que hoje nós existimos.
O resultado é que se não tivesse havido tudo isto, até hoje nós éramos irmãos terceiros, veneraríamos o Cardeal D. Agnelo Rossi, se ele tivesse escondido, estávamos metidos com toda esta gente podre, estávamos dentro desta obra completamente oca, e não teríamos feito aquilo que nós fizemos, que foi a continuação da tradição, numa coisa completamente autônoma.
* Para enfrentar o adversário, fomos obrigados a nos estruturar, porém esta estruturação gerou uma constituição interna orgânica, por assim dizer independente da ação do inimigo
Como é que nós fizemos isto? A golpes de coisas feitas pelos adversários contra nós. Quer dizer, foi o golpe do adversário que nos modelou. Não sei se isto está claro. Bom, nós poderíamos ir mais longe. Nós fomos obrigados a nos estruturar. Obrigados a nos estruturar, os grupos nasceram assim, com o primeiro grupo, com o segundo grupo, com tudo isto que nasceu da própria necessidade.
Apareceram os mais antigos, os mais perseverantes, depois vieram outros, estes outros já eram movidos por uma graça um pouco diferente, não podiam se misturar inteiramente com os primeiros, e assim umas ramificações como de uma árvore. Bem, no que é que o adversário tinha algo que ver com isto? O adversário nos confinou tanto que nós fomos obrigados a deitar raízes nas gerações mais novas sob pena de perecer.
E, nas gerações mais novas, ele nos confinou tanto que em cada geração a gente só pôde obter um pouquinho de gente que já foi obrigada a pegar outra geração. E aí formou uma fileira, assim como terrenos de aluvião sucessivos que dão mais ou menos os vários grupos nossos, a constituição interna dos nossos vários grupos.
* Foi no choque com o mundo revolucionário que o Senhor Doutor Plinio abriu os olhos e a alma para a Contra-Revolução
Bem, agora em outro sentido, a Revolução: nós fomos obrigados, de que maneira é que, por exemplo, os nossos olhos foram abertos para a Revolução? Os meus olhos foram abertos para a Revolução não foi pela tradição contra-revolucionária vaga, aliás, não é contra-revolucionária vaga, pelos fermentos contra-revolucionários do ambiente semi-contra-revolucionário em que eu nasci. Mas, foi do choque destes fermentos com o mundo da Revolução.
Aí é que eu tive uma surpresa e pensei de mim para comigo: “isto é ruim. Isso não é só ruim, mas é péssimo. E é péssimo por isto, por aquilo, por aquilo. Mas como é que a doutrina católica me apóia na oposição a isto?”
Eu sinto que isto é ruim que isto é péssimo, que eu devo combater isto, mas depois de ter visto aquilo como era ruim, eu tive que ir à doutrina católica e fazer um trabalho de arqueologia para encontrar nela o que não estava à flor do chão.
Às vezes estava no fundo do mar. Para montar a doutrina católica, como revide da Revolução que eu conheci. Quer dizer, como construção teórica e como construção prática, foi continuamente o revide, aquilo que em espanhol se usa numa expressão muito bonita que em português não existe inteiramente, el rechaço, é a repulsa, mas tem uma energia que não há nenhuma palavra portuguesa que tenha devidamente, foi el rechaço a estas coisas que foi fazendo com que fosse sendo explicitado todo nosso pensamento, toda nossa obra, numa posição polêmica, num feitio polêmico.
* A longa consideração e a longa análise do perigo são altamente inspiradoras do ideal positivo; exemplificando com as reuniões de análise da revolução estudantil da Sorbonne
A razão pela qual todo ensinamento que eu dou e toda direção que eu dou tem esta característica. Muitas vezes acontece um perigo e eu pego o perigo e ponho debaixo de uma lupa. Eu mesmo advirto: o perigo não é tão grande, eu não estou exagerando o perigo, mas eu estou fazendo em relação a ele uma espécie de ampliação pedagógica, como numa aula de botânica se pega uma formiga e põe numa lente; o professor de zoologia não quer dizer que a formiga é daquele tamanho, mas ele tem que aumentar a formiga para ser bem estudada.
Assim também eu pego o perigo, ponho numa lupa, ou numa lente. Por quê? Não é porque eu queira meter medo nas pessoas, mas é porque a longa consideração e a longa análise do perigo são altamente inspiradoras do ideal positivo.
E é nossa via, no perigo encontrar a solução positiva. No ataque, encontrar a doutrina certa. No obstáculo, encontrar a fórmula verdadeira. E a gente poderia quase dizer que o nosso caminho não é um caminho — é um pouco unilateral o que vou dizer, mas é para exprimir algo — não é um caminho de uma pessoa que procura entre rochedos ou entre vales, o caminho para seguir, mas é uma pessoa que entende que o itinerário tem que correr nas perpendiculares dos cumes das montanhas.
E que abre os túneis para encontrar a perpendicular do cume da montanha, certo de que a terra da promissão está do outro lado. Não sei se me exprimi bem ou se está muito confuso, ou se querem exemplos, enfim, qualquer outra coisa assim.
Bem, de onde, muitas vezes tomadas de posição minhas que parecem pessimistas não são pessimistas, mas também não são chantagistas, mas são de uma consideração pedagógica e educacional de determinadas situações para formar a nossa alma em função disto, certo de que depois vem o lado positivo.
Por exemplo, a crise universitária. Uma das razões, os senhores vira bem, os senhores acompanharam todos os comentários da crise universitária, os senhores viram bem que eu não exagerei nada da gravidade da crise. Mas os senhores viram que eu fiz com a crise como se faz com uma ferida. Eu aprofundei, procurei sondá-la até o fundo. E eu detive a nossa atenção sobre ela tanto, tanto, tanto quanto logicamente era possível.
Agora, eu tinha como intenção formar apenas uma idéia negativa, quer dizer, combater o perigo? Não, eu tinha muito mais do que isso, uma idéia positiva — eu sabia que a graça do Gercal que tudo quanto esta graça trás consigo nasceria do fato de nós respirarmos a plenos pulmões o clima da crise universitária. Que sem isto, nós não estaríamos prontos para esta graça.
Bem, eu coloquei, por exemplo, estes elementos de defesa aqui na sede porque evidentemente foram necessários. Mas, colocando, eu chamei toda a atenção sobre isto, e tornei isto um fato o quanto possível notório porque eu sabia que isto iria preparar nosso espírito para uma posição combativa altamente salutar e que uma aula inteira sobre o negócio do combate poderia não produzir o efeito psicológico de nós termos que estudar seriamente diante de um perigo palpável da defesa da sede.
* O caminho certo para nós construirmos algo de positivo é estar continuamente explorando a fundo a atitude do adversário; só assim nosso proselitismo impressionará a Opinião Pública
E assim, eu vivo continuamente explorando a fundo a atitude do adversário, sondando-a a fundo, na aparência despreocupado de fazer obras positivas, mas certo de que nosso caminho para fazer obras positivas é este. E que nós não temos outro caminho para obras positivas senão este. Bem, quando eu mostro tudo quanto o adversário faz contra nós, que o adversário nos persegue, que o adversário nos calunia, etc., etc., eu tenho certeza de que isto é feito em termos que, quando se grita: “Tradição, Família, Propriedade!” tem o caráter de um verdadeiro desabafo.
E este brado só alicia gente e só impressiona sendo um desabafo. Não pode deixar de ser um desabafo. Quando nossos estandartes tremulam no ar, o próprio tremular do estandarte, que é um fenômeno físico, leva consigo o desabafo de mil desaforos recebidos no silêncio, porém não na indiferença, e de uma causa que está alegre de poder levantar a cabeça a de bradar a sua indignação.
Quer dizer, eu fico constituindo uma espécie de banco de indignação, de banco de altaneria, de banco de combatividade, para ser empregado nas boas ocasiões. Tudo isto com probidade; os senhores são, tem a prova pelo convívio de nem sei quantas décadas, os senhores tem aprova de que nada disto é feito com chantagem, graças a Deus. Mas é feito com uma preocupação positiva que eu exprimiria por esta forma, e que lhes faria entender qual é o sentido profundamente à primeira vista, pessimista e polêmico de muitas das nossas impostações.
Eu não sei se isto fica claro, ou se não está claro.
Bem, eu acho que esta via está no nosso Thau e que este é o modo de ser que deve ser o modo de ser nosso. Que é como as cruzadas, e outras obras assim, como por exemplo a Companhia de Jesus, que se modelou segundo o antiprotestantismo. E que certas obras da Igreja são assim: encontram sua verdadeira face fazendo a face oposta a do adversário e que isto é profundamente positiva, que isto não tem nada de negativo, e que é um método de construir. Não sei se está claro, ou se quereriam que eu explicasse qualquer coisa, a esse respeito. Os senhores da esquerda, está claro isto, ou queriam perguntar qualquer coisa?
(Dr. Celso: Dr. Plinio, este é um método ou é “o método”?)
Para nós, para obras do gênero da nossa, é o método.
* As Ordens de Cavalaria decaíram na medida em que deixaram de se modelar pelo inimigo
(D. Bertrand: Dr. Plinio, nesse sentido pode-se dizer, por exemplo, da Ordem de Malta que para ela o Plano A era ir crescendo, florescendo e desenvolvendo, etc., parou de desenvolver e murchou a partir do momento em que deixou de se atualizar constantemente com o inimigo?)
Isto. Está perfeitamente bem apanhado. A chaga da Ordem de Malta é esta. Não sei se D. Bertrand tem a mesma sensação que eu quando vê em revistas os cavaleiros da Ordem de Malta todos, não é?
(D. Bertrand: Eles representam coisa do passado.)
Do passado. Porque representa apenas a sobrevivência de uma possibilidade, porque se não fosse isto, seria um necrotério. Aqueles homens que nunca batalharam, com aquela espada inútil e com aquele chapéu de pluma, é ou não é verdade que se tem vontade de dar uns pontapés neles?
(D. Bertrand: Palhaço.)
Palhaço. Santo Sepulcro, etc., etc. Não há nome mais augusto do que a Ordem do Santo Sepulcro. Mas… o quê é afinal? Machado de Florença, é o “galo branco”, não é? Como o chefe dos… é o Ernesto Leme chefe da Ordem do Santo Sepulcro em São Paulo. É nada. Por quê? Porque perderam isto. Está perfeitamente bem apanhado. Mais alguma coisa, D. Bertrand? Os senhores da esquerda, mais alguma coisa?
(Sr. –: … [inaudível] …)
Daqui a pouquinho, talvez. Os senhores da esquerda, mais alguma pergunta a esse respeito? Eu vejo, por exemplo, que o Prof. Fedeli que consegue resultados muito bons, até admiráveis no recrutamento, que o Prof. Fedeli faz, emprega muito isto. Quer dizer, levanta o adversário, açula a indignação contra o adversário e isto forma o espírito do aluno, não é professor? Fedeli?
* Os trancos que o Senhor Doutor Plinio dá no sabuguismo visa muito mais evitar sabugagens do que propriamente emendar os sabugos
(Dr. Eduardo: [faz uma pergunta no sentido de que isto é aplicado no combate externo e se seria também no combate interno].)
Também. Os trancos que eu dou no sabuguismo aqui dentro são muito menos para emendar os sabugos — porque o sabugo eu creio que dificilmente se emenda com isto, enfim, algo que lhe poderá vir — do que constituir um espírito que preventivamente evite sabugagens dos outros e que nisto torne os fervorosos mais fervorosos. É um sistema de vacina: do próprio mal tirar o bem.
Então, em geral é analisando os problemas internos do Grupo e seus perigos que Nossa Senhora me parece que deseja que nós façamos o crescimento do bem. Alguém dirá: mas por que estar rebatendo? Em primeiro lugar, é porque é necessário, porque há muita gente que bobeia se a gente não estiver mostrando. Mas, depois há toda esta ordem de razões mais altas que chegam ao afervoramento. Se nós não tivermos o nosso inimigo sempre presente diante de nós, nós bancamos a Ordem de Malta. Nós “maltamos” vamos dizer.
Está claro? Dr. João, tem alguma pergunta? Os senhores do lado direito, queriam me fazer alguma pergunta a esse respeito ou não?
* É à vista da imensidade da tragédia da Igreja que o Senhor Doutor Plinio quer muito dar a idéia de majestade da Igreja; e a Igreja é uma rainha que está posta na sua tragédia
(Dr. Pedro Paulo: … [inaudível] …)
Também. É à vista da imensidade da tragédia da Igreja que eu quero muito dar a idéia de majestade da Igreja. E a Igreja é uma rainha que está posta na sua tragédia. Ou eu faço sentir toda a grandeza e a majestade desta tragédia, ou ninguém tem a idéia da majestade da Igreja.
Ora, esta tragédia é tão imensa que é uma tragédia que só à uma rainha pode acontecer. E através disto eu faço sentir a realeza dela. E preparo a idéia da sacralidade do Reino de Maria e isto, aquilo e aquilo outro. Não sei se eu me exprimi bem. Bem, está claro isto, Pedro? Ou queria que eu exprimisse melhor?
Por exemplo, aquele O vos omnes, não é? Eu quero que vejam a majestade da Igreja jogada no chão. E eu quero que se ame esta majestade. E eu quero dar a vontade de reerguê-la. Porque quem pode ter entranhas de homem e de católico e ver uma tão grande majestade prostrada no chão e não levantá-la? Não querer levantá-la? Não é?
É uma coisa curiosa, à medida que se aproximava o desenlace para Maria Antonieta e Luís XVI, os planos para evasão e a fuga deles se tornaram mais numerosos e mais audaciosos, e o entusiasmo por eles se tornou maior. A realeza decapitada e gotejando sangue emitiu uma forma de beleza que ele não tem no sucesso asqueroso do Otto de Habsburgo.
Henrique III disse isso do chefe da Liga Católica, Duque de Guise morto: “como ele era grande, maior ainda depois de morto do que em vida”. Está claro isso? Dr. Edwaldo!
* A plena explicitação da Sabedoria não se alcança sem ser em função do erro e do mal
(Dr. Edwaldo: Eu pergunto se isso poderia ser enunciado num princípio ou não.)
O princípio seria o princípio próprio para certas obras e que seria o princípio para obras tipo cruzadas, enfim, certo tipo de obras e seria o princípio seguinte: que a plena explicitação da Sabedoria se faz em função do erro e do mal. Não se alcança sem ser em função do erro e do mal. Está claro?
Para obras como a nossa, mas para a nossa é, e se trata aí de uma explicitação porque implícito a gente já tem, mas é o choque que explicita.
Os senhores da direita querem perguntar algo?
(Sr. Paulo Campos: Dr. Plinio, eu ia fazer uma pergunta mais ou menos como a de Dr. Edwaldo e ia mencionar o problema da Redenção e eu não sei se tem também algo disso na Redenção.)
É, com a Redenção dá-se este ponto concreto, os teólogos discutem se a Redenção do gênero humano teria havido ou não sem o pecado original. Ou veio por causa do pecado original e nesse caso se confirma a minha tese, quer dizer, é um processo análogo, ou não veio, mas então foi revelado ao homem a propósito do pecado original e ainda está dentro da linha da minha tese, porque foi quando Adão e Eva pecaram que a Encarnação do Verbo foi anunciada.
(Sr. Paulo Campos: Quer dizer que o princípio então é o mesmo?)
É. Quer dizer, em numerosos feitos da sabedoria de Deus, esse princípio se observa, como em inúmeros lances da história da Igreja.
(Sr. Paulo Campos: E isso faz a ligação num acontecimento mais importante.)
O acontecimento dos acontecimentos. Aliás, também quando os teólogos dizem que a situação da humanidade tinha chegado a um auge de mal. Não é? Quando o Verbo, a Encarnação do Verbo foi anunciada por São Gabriel a Nossa Senhora. Bem, os próprios romanos tem poetas deste tempo, de antes de Nosso Senhor, que dizem que tudo tinha chegado ao fim, que não restava mais nada e que o Salvador das gente estava para ser esperado. Quer dizer, você vê que há aí uma aplicação do princípio, não é?
Agora, esse princípio não é um princípio universal. Não se poderia dizer que Deus age sempre assim, que a Igreja age sempre assim, isso seria exagerar, mas pode-se dizer que é o traço dominante de obras como a nossa, não é?
(Sr. Paulo Campos: A gente poderia chegar a dizer que por ser o traço dominante do Grupo, seria o traço dominante, senão da totalidade, pelo menos da grande parte das almas do Grupo?)
Ah! sim, certamente. Agora, eu gosto dessa ressalva porque essas coisas não são totalmente geométricas, elas concebem, comportam exceções, ressalvas, etc. Alberto!
* O problema das Ordens Religiosas ou de Cavalaria que decaem após a morte de seu Fundador
(Dr. Alberto Duplessis: Uma coisa que sempre me impressionou nas ordens religiosas, um grande fundador, me deu sempre esta impressão, não sei se é exatamente a história, um grande fundador, depois cai sempre, inclusive pode de vez em quando, pode dar até um santo. Nunca atinge a adequação de sua finalidade como no tempo do seu fundador, um pouco de tempo depois. Isto não é uma coisa dos tempos modernos, mesmo ordens fundadas na Idade Média, etc., era assim. isto é uma constância das coisas ou é um acidente lastimável que se repete? Não é necessariamente assim?)
Não, eu creio que para certas obras não tinha que ser necessariamente assim e em outras sim. Porque é preciso ver o que é cair e não cair. Há algumas obras que — como por exemplo a Ordem do Carmo — tem uma promessa de durar até o fim do mundo e portanto de durar num estado, vamos dizer, decoroso, até o fim do mundo. Não é verdade. Eu não me exprimo bem: tem uma missão de continuar aquele espírito de Elias até o fim do mundo. E a gente vê que elas, que a Ordem do Carmo, de fato passou séculos sem gerar o espírito de Elias. E até homens como São Luís Grignion de Montfort que é praticamente Elias, não é? Ele de fato não foi gerado pela Ordem do Carmo. A gente vê que há uma defasagem. Não é verdade?
Agora, é positivo também que há certas outras obras que nascem para certas circunstâncias e que depois devem continuar a viver na Igreja de um modo decoroso, mas não é necessário que vivam com o brilho primitivo. Porque elas ficam dentro da Igreja mais ou menos para perpetuar um certo aspecto do passado da Igreja dentro do presente, mas não mais para realizar uma obra definida como aquela que foi realizada por elas.
Por exemplo os mercedários, não é? que se faziam escravos, resgatavam, aquela coisa toda. Sem adaptação muito séria, os mercedários não teriam razão de ser. Então, porque é que existe essa obra? Para rememorar aquele episódio digno de memória, mas com uma vida que continua a espalhar aquelas graças. Mas, já não é necessário que tenha tão grandes homens. Ela continua a preencher a missão de algo que perpetua o passado, mas que já não está vivo, já não é destinado diretamente ao presente a não ser enquanto memorial do passado.
(Dr. Alberto Duplessis: Essas ordens mais modernas, quando li a vida de São João Bosco, tem impressão de um desperdício imenso; quarenta anos depois da morte dele afinal o que era aquilo? E mesmo São Claret, os claretianos, uma ordem… o segundo a ser sucessor dele… que já não é mais nada, entende?)
Com D. Bosco, quando a gente estuda bem a vida de D. Bosco, ele parece ter tido uma florescência de santos entre si mais ou menos do tipo do São Francisco de Assis. Houve muitos santos em torno de D. Bosco. E um com uma fisionomia admirável, cujo processo de canonização está empenhado, é D. Rua, não é? Mas naquelas visões de D. Bosco, ele conta uma visão que teve, etc., etc., e que era da ordem salesiana, numa certa crise futura, bem, então ele conta que sonhou que alguns dos assistentes dele estavam junto a ele vendo este aspecto. E conta as exclamações dos assistentes. Se não me engano, foi D. Rua que vendo a túnica dessa espectrum [dilacerado?] e a túnica representava a obediência, desmaiou e teve este comentário: “será que já estamos assim”?
Quer dizer, que estaria vendo sinais precursores da decadência em dias de D. Bosco antes dele mesmo, D. Rua, ser Geral. E aí é uma coisa inteiramente diferente do que eu falei há pouco dos mercedários, por exemplo. Isso impressiona no século passado; é essa floração enorme [de] congregações religiosas, todas se espatifando, muitas delas com fundadores santos de altar, e com um certo número de personagens de virtude eminente ou santos em torno de si.
(Dr. Alberto Duplessis: E quem teria falhado… um santo, não se pode falar em falha de D. Bosco.)
Como é? Não, não se pode falar. Mas é a…
(Dr. Alberto Duplessis: Falta de correspondência.)
Não se pode falar.
(Dr. Alberto Duplessis: Falta de correspondência dos outros, não é?)
Ah, dos outros sim. Mais alguma pergunta, meus caros?
(Dr. Castilho: E parece que o fenômeno se passa assim, a partir de… qual é a razão de tudo isto?)
O nosso?
* Os erros de grande envergadura são suscitados por um espírito mal que tem uma lógica interna, de maneira que fazendo o contrário dele em tudo, se dá o bem
(Dr. Castilho: É, porque é que a plena explicitação não se faz em função do erro?)
Há na Igreja uma pluralidade enorme de espíritos. Essa pluralidade indica uma perfeição, cuja plenitude não cabe na alma de um homem só, e a própria perfeição de Deus. Entre outros espíritos teria que haver um que fosse assim. Esse é o nosso.
(Dr. Castilho: Não, não. Mas porque é que no nosso estado, em certos casos, acontece que a explicitação se faz em função do erro? Qual é a razão desse fenômeno? Por quê o erro é capaz…)
Ah! Agora eu compreendo.
(Dr. Castilho: .. de contribuir para a explicitação da verdade?)
A sua pergunta seria, propriamente a seguinte: está bom, o erro não é apenas um explicitador de verdades esporádicas, mas é um explicitador de uma verdade global. Que globalidade há nele para que ele explicite uma obra global positiva?
(Dr. Castilho: Bem, assim eu quero saber qual é a razão de ser desse fenômeno?)
É. A razão enfim é esta: é que os grandes erros, de grande envergadura, são os erros em função dos quais este espírito se levanta. Ora, eles são suscitados por um espírito mal que tem ele, esta lógica interna. De maneira que fazendo o contrário dele em tudo, se dá o bem.
(Sr. Guerreiro: Dr. Plinio, o senhor poderia repetir, por favor?)
É, eu dou por exemplo os maometanos. O maometanismo não é uma macumba qualquer. É um erro doutrinário péssimo. Mas profundo, deduzido com todos os seus tentáculos em todo um campo doutrinário. E gerando na ordem prática dos fatos, toda uma ordem de coisas, em que os elementos dessa ordem de coisas, os elementos concretos dessa ordem de coisas, são coerentes entre si.
E são coerentes com a ordem doutrinária que o gerou. Há uma coerência de fundo no maometanismo que chega até a uma coerência desse grande movimento envolvente da Cristandade e tudo o mais. Não é isto? Portanto, alguém que é, sistematicamente “anti” uma coerente, forma uma coerência em sentido oposto. Não sei se me exprimi bem.
Quer dizer, quem fizer o contrário do maometanismo em toda forma, algo de coerente também. Porque o maometanismo é coerente.
* Em certos aspectos e para certos efeitos o mal se manifesta mais possante do que o bem; e o bem para acompanhar o mal e para superá-lo, precisa confrontar-se com ele
(Sr. –: São Miguel e Lúcifer. O mal não necessita dessa oposição para se desenvolver, então ele é mais dinâmico do que o bem.)
Isso dá um pouco no mistério do residuum revertetur. O mal já é ele mesmo uma contra-explicitação do bem feita pelo ódio.
(Sr. –: … [inaudível] …)
Aqui está. A coisa é que em certos aspectos e para certos efeitos o mal se manifesta mais possante do que o bem. E o bem para acompanhar o mal e para superá-lo, precisa confrontar-se com ele. Entendeu? ou queria que eu me exprimisse melhor?
Por exemplo, o espírito católico atacado pelo protestantismo era um espírito dormiente, era uma Igreja dormiente, Igreja de Leão X. Não é isso? Foi preciso que o protestantismo despertasse nos católicos uma reação maior que ele próprio, para dar na contra-reforma. Porque, certamente, Santa Teresa e Santo Inácio amaram mais a Igreja do que Lutero a odiou.
Mas Lutero, certamente odiou mais a Igreja do que Leão X a amou. E aí vêem o drama da coisa. Quando os bons vão decaindo, o amor ao bem vai murchando e o ódio ao mal vai diminuindo. Em certo momento, o ódio ao mal se levanta mais indignado do que nunca e ou o Espírito Santo suscita um amor ao bem ainda maior do que aquele ou vem o fim do mundo. Não sei se está claro? Eu lamento de numa noite tão quente estar desenvolvendo este tema, mas o culpado do atraso foi dessa coisa aqui. Desse maço de papéis. Pois não, D. Bertrand.
(D. Bertrand: Neste sentido poder-se-ia dizer o seguinte: que no Reino de Maria, como que, atualmente como que o bem vem em função do mal — isso — como que atrelado no mal, ou simetricamente o mal tem um dinamismo maior do que o bem ou vinha tendo. No grupo a coisa está se desenvolvendo em sentido contrário — é isso — e está ultrapassando o mal. Mas no Reino de Maria a situação vai se inverter?)
* Se no Reino de Maria nós não estivermos inteiramente vigilantes contra todas as potencialidades de Revolução, nós amoleceremos
Vai se inverter. E o bem vai amar muito mais, vai ser muito mais radioso do que o mal. Até o momento, D. Bertrand, em que começa a decadência.
(D. Bertrand: Começa a murchar.)
Começa a murchar e aí vem um ódio maior do que o amor que houve no Reino de Maria. E aí virá Elias, que amará mais do que o ódio do Anticristo.
(Sr. –: … [inaudível] …)
Quer dizer, o residuum revertetur aqui…
(D. Bertrand: A Bagarre seria, como que, o momento do equilíbrio entre o bem e o mal?)
Seria isso.
(D. Bertrand: E aí estoura tudo.)
Ou, vamos dizer, o momento em que o mal percebe que o bem já está incontenível. Então ele arrebenta com tudo.
(D. Bertrand: O bem já está no ponto de suplantá-lo.)
Suplantá-lo. É bem isso.
(D. Bertrand: E daí, depende da correspondência do Grupo a vinda da Bagarre.)
É o problema. E de cada um de nós. Minha, por exemplo.
(Sr. –: Mas aí o senhor… — eu acredito sim — mas que pelo senhor a Bagarre já teria vindo?)
Ah, isto é positivo.
(Sr. –: Porque já teria percebido essa irreversibilidade do bem.)
Isto é inteiramente positivo.
(Sr. –: Dr. Plinio, mas no Reino de Maria esse resto continuará?)
Ah, sim. Quer dizer, exatamente, se logo depois do Reino de Maria implantado, nós não tivermos a idéia do perigo sumo, incubado, maior do que foi o da Revolução, quanto a potencialidade e que é preciso estar perseguindo tremendamente, nós “maltamos”.
(Sr. –: E esse método tem uma nobreza própria, que é a nobreza do que é militar.)
Exatamente, é bem isso.
* A coerência do movimento universitário é o marcusianismo do movimento universitário
(Sr. –: Alguns dos exemplos que o senhor deu, dessa coesão interna, dessa coerência, que o senhor apontou no protestantismo, quer dizer que estes elementos são considerados como parte componente da Revolução que ela mesmo é muito coerente?)
É isso. Devem ser vistos na perspectiva da Revolução.
(Sr. –: O movimento universitário que é textualmente incoerente, enquanto parte da Revolução é coerente.)
Não, e depois tem o seguinte: o subconsciência do movimento universitário, o que ele tem de profundo é profundamente coerente. Na sua linha dominante.
(Sr. –: …)
A coerência do movimento universitário é o marcusianismo do movimento universitário.
(Sr. –: Em todo caso isto vale globalmente pelo fato…)
Isto.
Átila.
* O modo de não deixar com que nós percamos a nossa própria face no Reino de Maria é, no sentido sadio da palavra, o pânico, a obsessão do mal incubado
(Sr. Átila: Dr. Plinio, no auge do Reino de Maria quando o mal tiver muito perseguido por nós não vai ser visto na grande parte da Opinião Pública e nos membros do grupo, não é o caso de levantar a dizer que o mal está encubado? Isso é o que o senhor falou?)
É isso.
(Sr. Átila: Quer dizer, é o todo de não deixar ele cair?)
O modo de não deixar com que nós percamos a nossa própria face é — eu emprego a palavra de propósito — no sentido sadio da palavra, o pânico, a obsessão do mal incubado.
Alguém aqui tinha levantado a mão e eu não tinha entendido. Quem é? Ah! Carlos Aldunate, não é Carlos, você tinha, quer me fazer uma pergunta, não é?
(Sr. Carlos Aldunate: … [inaudível] …)
Desculpe eu me distraí, como é?
(Sr. Carlos Aldunate: … [inaudível] …)
* Muitas vezes Nossa Senhora triunfa sobre o mal fazendo com que o Grupo ressuscite de suas próprias cinzas
É. Mas no fim vem o triunfo d’Ela. Agora, eu acho que esses triunfos d’Ela no grupo, internos, de misericórdias inauditas. Estão na coerência com todos esses acontecimentos, quer dizer, Ela triunfa do mal da época presente fazendo com que o grupo, por assim dizer, várias vezes, ressuscite de suas próprias cinzas. O que mostra uma misericórdia maior do que a malícia do pecado de Revolução. E nisso é que ela vence. Não sei se eu me exprimi bem ou não.
(Sr. –: … [inaudível] …)
* No fundo, as decadências e sabuguismos internos são participações no pecado de Revolução
O pecado de Revolução tem uma malícia igual a isso. É uma malícia tão grande que, em última análise os vários ensabugados e decadências que existem dentro do grupo são, por participação e concessões no pecado de Revolução. A tal pretensão de que eu falo tanto aqui, no fundo é uma concessão ao Pecado de Revolução. O sujeito que dentro de uma ordem de valores assim, que necessita de um valor menor para ser uma ordem, não quer ser valor menor e quer ser o maior. Isso é pretensão, é isso, afinal de contas. Não é isto?
Tem então, o pecado de Revolução é tão grande que ele, sob o aspecto de pretensão já teria morto grupo várias vezes, se não houvesse uma graça maior do que a malícia dele que a todo momento restaura o grupo.
Logo, está sendo dada uma graça que tem mais força do que o pecado de Revolução. E aí nós vemos como a rejeição dessa graça pelos futuros, vai ser uma Revolução pior do que esta. Não sei se eu estou me exprimindo bem? É muito bonito esse jogo.
* Nossa forma específica de ascese é estar continuamente vigilantes contra o mal; nossa dissonância com o espírito do Fundador provém de não aceitar essa ascese
E depois eu acho que é benfazejo para a vida espiritual, profundamente benfazejo. E serve para — creio eu — muito, para entenderem a minha cabeça, vista de dentro dos bastidores, não é?
Quer dizer, quem perdeu a preocupação do adversário, ou quem tem a impressão de que tratando o adversário como uma pessoa, que não é adversária, mas é um trambolho no caminho, mas não é um inimigo no caminho, esse não acerta o passo comigo, é inútil. E não acerta o passo porque é preciso ver o adversário.
Bem, não é verdade que em parte o gosto de levar a vidinha de todos os dias e de não olhar para a Bagarre e não se resignar a esta posição, continuamente atracada no mal e no perigo? Não há aí uma forma de ascese que é especificamente a nossa ascese. Por isso é uma ascese.
Por exemplo, como é que eu correspondo à graça dessa reunião?
Modo besta com que eu jogo esta graça no chão é, ao sair daqui contente, sentado num automóvel confortável, levado para casa por um rapaz dedicado, dizer: “que reunião abençoada, como as coisas foram bem!”
Eu poderei dizer: “que reunião abençoada, como as coisas foram bem”. Logo depois eu devo pensar: “mas no que é que não foram bem?”
Alguém dirá:
— Mas é excessivo. Pois o que não foi bom tinha o tamanho de um argueiro.
— É verdade, mas é desses argueiros que saem as bolas depois os globos e depois os firmamentos, é preciso etc. ,etc.
Por quê? Porque é assim que a gente de fato adquire o espírito positivo. Eu não sei se eu estou claro, mas para me compreenderem eu acho fundamental. E o horror, eu volto a dizer, o horror à Bagarre está nisso. Por exemplo eu estou aqui com vários íncolas da Fazenda Morro Alto, na minha presença, vários habitantes da Fazenda Morro Alto, excursionistas para a Fazenda Morro Alto etc. etc.. Não é verdade que muitos deles são propensos a ver na fazenda uma bem-aventurada paz dos campos?
Eu acho que sim. Como ali se vê a boa natureza de Deus, os bois e as vacas, como ainda funcionam direitinho, e as plantas como nascem, e os caipiras que aprendem a assobiar o hino de Noailles, como afinal de contas são caipiras ainda relativamente bons, há uma boa ordem de Deus ali.
Que faz daquilo um lugar onde a gente se refaz dos seus cansaços etc.,etc. Não tem dúvida nenhuma. Mas se ali a gente se esquece desta posição, a gente perde, a gente “malta”, “malteia”, vira ordem de Malta. E é o perigo, meus caros das nossas cerimônias, hein?! Muito bonitas, na medida em que são vistas com o espírito combativo e vigilante. Paradinhas sem importância, se são vistas sem esse espírito, não é? Não sei se há mais algo a me perguntar a esse respeito.
* A atmosfera emoliente do Rio de Janeiro
Mas, enfim, o essencial dos essenciais seria isso. Eu tive que praticar uma fidelidade muito grande a esse princípio no tempo em que eu morei numa cidade que não é São Paulo. É a mui simpática e amanteigada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Não é meu Marcos?
Não imaginam como tudo no Rio me parecia convidar ao oposto. Mas era tudo. E aquele frenesi com que eu vinha a São Paulo era para fugir dessa desmobilização que o Rio me convidava e que minha hereditariedade paterna me faz propender com todas as veras de minha alma.
Porque o gostoso é aquilo, “hum… lá está o Botafogo!”, pronto está acabado. Um pouquinho, um pouquinho que não é tão pouquinho, a Bahia tem disso também. E a gente precisa saber andar pela Bahia. A questão é que há uns demônios que saem de dentro das pedras da Bahia e que alertam a gente. E há um demônio diáfano, branco, cristalino no Rio de Janeiro que é diferente.
Dr. Luizinho ia dizendo alguma coisa? Sei. Mais algum coisa senhores?
Dos que chegaram, mais alguma novidade do dia para dar? Aqui está o “Fatos & Fotos”, D. Bertrand já marcou? Sei. Então, eu acho que nós já podemos encerrar.
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