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Reunião — 3/11/1968 — domingo
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Encerramento do simposium da DAFN
… [faltam palavras] …encerramento, manifestando a minha alegria pelo modo pelo qual o simposium correu. Nós estamos no fim do simpósio e se bem que não me tenha sido dado ouvir nenhuma das conferências dele, eu estou ao par, entretanto, de tudo quanto foi dito por nele e estou ao par também das reações, das repercussões, da atmosfera que reinou ao longo das conferências. E eu posso dizer que o simposium realizou isso, que me enche de alegria e que me enche as medidas, e que é, que tratando de matéria contábil, de matéria administrativa ele se desenvolveu, entretanto, numa verdadeira atmosfera de retiro espiritual; e que é impossível que os senhores não tenham uma certa sensação, ao terminar esses dias, de que participaram de um retiro. Os senhores querem ver a maior prova disso? É o número de pessoas que estão presentes. Eu fiquei extraordinariamente contente quando eu soube que muita gente que não estava convidada para o simpósio participou de várias conferências do simpósio. O que mostra bem que o simpósio soube colocar todo o problema da contabilidade na perspectiva em que esse problema deve ser colocado. Quer dizer, não é uma pura questão técnica, não é uma pura questão administrativa, como nós veremos daqui a pouco não há para o católico, puras questões técnicas, nem puras questões administrativas. Todos os assuntos e todas as atividades têm prolongamentos que atingem os mais altos horizontes, e é o próprio da alma dos católicos, como nós veremos daqui a pouco, é exatamente ver toda a atividade, saber ver toda a atividade de maneira a, através dela, chegar até os mais altos horizontes.
E foi exatamente isso que, com o favor de Nossa Senhora, os organizadores do simpósio conseguiram. E isso me enche de alegria, porque isso indica uma espécie de plenitude de bom espírito, indica uma espécie de amplitude de bom espírito, por onde nós somos capazes de exorcizar matérias muito sinárquicas quanto ao modo habitual de serem tratadas. Somos capazes, pelo favor de Nossa Senhora, de exorcizar essas matérias e de as tratar dentro de uma perspectiva em elas podem religiosa e espiritualmente ser consideradas.
Mas antes de desenvolver esse pensamento, creio que deve ser o pensamento final do encerramento, eu devo dar aos senhores alguns avisos e algumas comunicações. A primeira das comunicações me é pedida pelo Dr. Castilho, que me pede para acentuar o seguinte: que está nas funções da DAFN não só cuidar da regularização da vida financeira e contábil e da orientação da vida financeira e contábil, vida financeira. Quer dizer, o dinheiro que está, que não está, que vai entrar, que vai sair, etc., etc., contábil é o registro de tudo isso – mas que todos os assuntos trabalhistas e fiscais também entram dentro das cogitações da DAFN. Esse é um ponto muito importante. A matéria trabalhista hoje em dia tomou um desenvolvimento extraordinário, no qual desenvolvimento há, evidentemente, algo de razoável, e há também algo de muito socialista. Mas o fato é que esse desenvolvimento é enorme; e esse desenvolvimento obriga-nos a ter os assuntos trabalhistas muito em dia. Em 1º lugar, porque as penalidades que recaem sobre os que não os têm em dia são muito severas, muito graves, são multas muito fortes; por outro lado, porque há exploração de imprensa muito grande; e, por fim, porque nós devemos ter tudo em ordem. D. Mayer no ser sermão de ontem citou um pensamento de Santo Agostinho magnífico: Conserva a ordem e a ordem te conservará. Isso é bem verdade. Mas para que uma organização esteja em ordem, é preciso que tudo nela esteja em ordem. Em qualquer canto onde a desordem esteja, a desordem prolifera e produz uma porção de outras desordens. E nós, na matéria trabalhista, como nas outras, devemos estar em ordem e devemos, portanto, saber consultar a DAFN, seguir as orientações da DAFN.
Além disso, a matéria fiscal. Todas as relações com o fisco estão intimamente ligadas com a vida financeira e com as atividades de qual quer organização hoje. É bem evidente que isso significa – esta dependência do fisco – significa em grande parte uma penetração socialista. E aí está, e aí até com penalidade criminais muito severas. Se nós não queremos ir para a cadeia, se não queremos nos encher de vergonha, nós vamos ter que passar por onde os outros passaram e ter as nossas relações com o fisco – questões de impostos, de taxas, de notas fiscais, etc., etc. – eximiamente elaboradas. Do contrário, a nossa organização rui. Então, nós temos que ter no nosso espírito, não só a preocupação contábil e financeira, mas nós temos que ter no nosso espírito também a preocupação fiscal, nós temos que ter a preocupação trabalhista.
É na regularização desses quatro pontos – finanças, contabilidade, fisco e trabalhismo – é nesses quatro pontos, na regularização desses quatro pontos que nós podemos ter uma vida inteiramente em dia, de maneira que nós sejamos aquela fortaleza inexpugnável de que eu lhes falava nos primeiros dias.
Vós me permitireis que eu saia desses dois assuntos para tratar de dois outros assuntos que estão um pouco à margem de nosso simpósio, mas que devem ser tratados. Um deles é pitoresco, e vos descansará um pouco.
Nós poderíamos nos perguntar qual é a repercussão, sobre o povo brasileiro e, sobretudo, sobre o povo do interior brasileiro, de certas coisas que nós fazemos e que escapam à imagem comum do caipira e dos jecas-tatus como costumam ser apresentados pelos Monteiros Lobatos e pelos seus seguidores menos anacrônicos. Formou-se a idéia, a respeito do brasileiro – e sobretudo do caipira brasileiro – que ele é fundamentalmente, baixa de nível, e que ele não aspira a nada que seja alta de nível; e que, por causa disso, tudo quanto tem uma nota aristocrática, tudo quanto tem uma nota elevada, o caipira brasileiro é incapaz de compreender, e que ele rejeita isso com desdém. Ele só é capaz de compreender o cigarrinho de palha, a choça feita de barro amassado, as galinhas correndo pelo meio da choça, o cheiro do chiqueiro de porcos que está perto, um pouquinho de violão, que também toca quando tem uma corda só ou duas, um canto meio desafinado, banguela e cuspindo através da banguela. Isso é a imagem do pseudopitoresco caipira do brasileiro.
Se o Dr. Paulinho tiver tempo no meio das férias de organizar umas três ou quatro slides, com o Sr. João Clá, de quadro de Almeida Júnior da Pinacoteca do estado, representando o caipira brasileiro, poderiam fazer parte das conferências sobre europeização, que é o falso pitoresco de um Brasil que não teve líderes naturais que o levassem. E então, nós nos perguntamos se o caipira brasileiro é bem assim, primeiro ponto, e, segundo lugar, caso ele é assim, de que possibilidade são os nossos sistemas de propaganda junto a eles.
Por exemplo, é uma coisa líquida que o caipira brasileiro não gosta muito do vermelho. Quando gosta, ele não compreende bem o vermelho significa. É uma chita pardacenta que foi vermelha, que tem a cor de todas as poeiras e que uma nhá Chica qualquer usa num dia de ir para um fandango qualquer. O nosso estandarte vermelho, esse leão dourado, o que que a gente pode compreender disso? Pergunta mais aguda e mais apertada: uma marcha, por exemplo, como a dos dragões de Noialles, o que um caipira brasileiro pode pensar dela? Os senhores já pensaram nos dragões de Noialles… [faltam palavras] …forma da revolução na alma do caipira brasileiro é a adesão a essa espécie de símbolo de Jeca-Tatu – eu não sei se os senhores todos conhecem um Jeca-Tatu do tempo de Monteiro Lobato, mas enfim, do caipira tipicamente caipira, prosaico, etc. – mas que há imensidades de caipiras brasileiros que não são assim, e que apenas vivem nessa fôrma porque não lhes foi dado outra coisa. Mas que diante da centelha de uma outra coisa se entusiasmam; e são aqueles que nós devemos levar conosco.
Eu estou vendo o Newton aí fazer um aceno. Ele tem tratado muito por esse interiores a fora e há de saber porque diz isso.
O Dr. Duncan, imediatamente antes da reunião, me comunicou uma coisa tão saborosa que eu pedi para comunicar aqui para os senhores. Lá pelas Minas Gerais, onde também há caipiras, não é só em São Paulo e outros lugares – lá pelas Minas Gerais houve um caipira que perguntou – nosso alto-falante tocou a marcha dos dragões de Noialles – e o caipira perguntou o que que era a música, o que era, que quando ele ouviu, corrupiou ele inteiro. Arrepiou. Eu acho isso uma coisa magnífica. Eu não quero dizer que, porque esse caipira disse fica provado que havia caipiras assim. Isso é indício. Não é uma prova. Mas o indício tem um sabor extraordinário. E o rapaz que deu a ele a explicação era um rapaz – eu não sei quem é, se ele estiver aqui me perdoe – um bocadinho zupao – porque em vez dele explicar qualquer coisa do Noialles, que, aliás, teria sido perfeitamente ininteligível para o caipira, ele disse que era uma música de Santa Joana D’Arc. Resposta do caipira: Ah, nós gostamos muito de Santa Joana D’Arc em casa. Agora, quando rezarmos para Santa Joana D’Arc vamos sempre rezar para a TFP. Eu pergunto aos senhores se isso não enternece.
Bem, exatamente minha esperança é que nosso leão dourado e nosso estandarte escarlate, que uma porção de coisas assim façam despertar, façam corrupiar o Brasil do interior.
Eu não posso dar demonstração de que essa minha esperança seja fundada. É uma, pelos contatos que eu tive, pelas impressões que eu formei, eu não tenho um dossier. É uma espécie de impressão que eu tenho. Mas aí os senhores têm, ao lado do depoimento positivo do Newton, os senhores têm esse fatinho que diz tudo. Porque esse homem diz bem o que eu pensava e que uma grande parte de caipiras pensa. E dos caipiras que não tem senso revolucionário. Aí, os senhores vejam um outro lado da questão. E o lado é esse: se esse pobre caipira, se tocarem diante dele qualquer dessas marchinhas de caipira ditas pitoresquíssimas – e que, no fundo se repetem tremendamente, quem ouviu uma, ouviu quase todas – tocada diante dele, ele gosta. É claro. É como um homem que nunca fez outra coisa na vida a não ser comer miolo de pão, se dá para ele pão, ele come. Não tem remédio. E ele vai acabar dizendo que gostou, porque está com fome. Mas daí a dizer que satisfaz o enlevo interno da alma dele, isso é uma coisa completamente diferente.
Aí os senhores têm um pequeno exemplo do que nós podemos fazer no Brasil. Eu pretendo que um desfile de rapazes, com, tocando a marcha de Noialles – já não digo… [faltam palavras] …, mas com a flâmula, paletó e gravata numa cidade do interior, produziria, sobretudo nas cidades pequenas de certas zonas, um efeito espetacular. É exatamente o Brasil que é Joana Darquizável, se quiserem, não é? É o nosso Brasil, nós somos esse Brasil. De maneira que eu gostaria de deixar isso registrado aqui.
Bem, meus caros, antes de passar a outros assuntos, ainda em matéria Brasil, eu queria lhes dar outra recomendação, e essa muito importante. Eu pediria às cúpulas de grupos que estão aqui presentes que chegando aos respectivos lugares transmitam isso às bases todas, porque eu dou a isso muita importância no momento. Graças a Deus, pela disciplina de que os senhores deram a prova durante a campanha, firmou-se mais ainda no espírito dos que nos conhecem a idéia de que nós conseguirmos um todo monolítico, e que aqui dentro o que um pensa, todos os outros pensam. Agora, resultado é que se alguns dos senhores se pôs a conversar a respeito de política nacional, dando, às vezes, opiniões privadas e particulares a respeito de assuntos sobre os quais o grupo não tem pensamento definido, todo mundo vai pensar que é pensamento do grupo, na zona onde os senhores estiverem. E o resultado é que pode engajar o grupo numa porção de coisas que nós não queremos, numa hora muito indecisa da política brasileira, onde nós devemos ter o cuidado extraordinário de não dar um passo, não dizer uma palavra que não corresponda aos mais sutis e imponderáveis interesses de Nossa Senhora… De maneira que eu queria pedir aos senhores que, pelo espaço variável de 15 dias mais ou menos, se abstenham, para fora do grupo, de qualquer comentário sobre política brasileira. Ouçam, respondam com um não, sim, tirem o corpo, mas não façam comentários. Porque esses comentários podem, inesperadamente nos ser muito nocivos. Um completo silêncio a esse respeito me parece, portanto, fundamental.
Isso dito, eu passo então às palavras de encerramento do simpósio. Eu gostei muito do programa do simpósio, eu creio que desse programa haveria algumas teses, todas as teses formam uma engrenagem perfeita. E eu creio que qualquer das teses que se tirasse desfiguraria o simpósio. Mas eu tenho impressão de que existem três teses que merece ser mencionada de um modo especial num ato de encerramento. O 1º é a tese número 2: o porte de uma campanha da TFP é sempre o resultado do grau de organização atingido anteriormente à campanha. Ou seja, se a TFP está muito habituada a viver muito organizadamente fora da campanha, a campanha será uma grande campanha. Se ela estiver habituada a viver desorganizadamente fora da campanha, a campanha será uma campanha pífia.
Bem. Tese… [ilegível] …: Toda administração bem implantada envolve uma disciplina como que militar nas relações entre os superiores e os inferiores, pela qual o inferior obedece prontamente, executa ordens sem o conhecimento pleno de sua finalidade, faz o que é mandado não o que gosta de fazer. É o que chamamos a graça do… [faltam palavras] …
E, tese 6: Sem programa da vida espiritual, em particular, sem maior devoção a Nossa Senhora, sem uma inabalável e crescente confiança na missão da TFP e sem um implacável combate à pretensão, é impossível haver um autêntico programa, progresso e eficiência na vida administrativa da TFP.
Essas coisas se tocam umas nas outras. Nós poderíamos dizer que a tese 2 nos fala a respeito de reflexão. A tese 4 nos fala a respeito do holocausto e a tese 6 nos fala a respeito do amor de Deus, de Nossa Senhora e de vida espiritual. Reflexão, holocausto e amor à vida espiritual, amor de Deus, vida espiritual são os elementos que caracterizam verdadeiramente o êxito de todas as atividades e, portanto, também das atividades que tiveram por objetivo especial esse simpósio. Vamos tratar um pouco a respeito disso.
Nós estamos numa época em que nos encontramos no extremo oposto do espírito medieval. E nós podemos dizer que os dois elementos extremos opostos, na linha medieval, por exemplo, um São Tomás de Aquino, mas pode-se dizer, toda a atmosfera da sociedade medieval. Na linha moderna, Marcuse. Representam o inverso, o avesso direto e claro um do outro. Em que sentido, de que maneira? Os senhores percorrem um pouco aquelas coisas medievais: uma iluminura representado a muralha de uma cidade. Uma outra iluminura representando um cortejo. Uma tapeçaria representando uma cerimônia, uma solenidade. Um vitral representando um personagem. A impressão que tudo aquilo nos deixa é de uma atmosfera em que as pessoas são pessoas profundamente refletidas. Pessoas que pensam, que meditam muito a respeito daquilo que estão fazendo e que meditam no mais alto sentido da palavra: não só porque elas põem as suas ações não antes de terem pensado, elas primeiro pensam, depois agem, mas elas quando pensam para agir elas não pensam só sobre a ação, mas sobre os fins da ação, e sobre os mais altos e remotos fins de sua ação. Daí vem qualquer coisa de diáfano, qualquer coisa de elevado, qualquer coisa de plácido, qualquer coisa de ativo e, ao mesmo tempo, de recolhido nas coisas da Idade Média que, a meu ver, caracteriza essa espécie de explosão de sabedoria que houve na Idade Média e que foi uma explosão sobrenatural a meu ver a mais alta explosão sobrenatural que houve na História depois de Pentecostes. Foi precisamente esse conjunto de coisas.
Eu explico melhor. Os senhores tomem uma gravura medieval, portanto, no fim da Idade Média, mas ainda no ambiente da Idade Média, representando um homem que copia coisas, um copista. Os senhores verão que ele está junto a uma janela, mas essa janela não é de vidro transparente. Ela é de vidro colorido, de vidro opaco, o homem que está dentro não tem vontade de olhar fora. Ele tem vontade de estar dentro de seu quarto. Essa janela é feita de cores harmônicas. Ela não tem nada de sarapantado, nada que faça a pessoa perder a distância psíquica. Pelo contrário, a luz que entra dentro dela já é uma luz meio coada e meio tamisada, meio filtrada, uma luz que não tem aquela brutalidade da luz do sol, mas é uma luz exatamente atenuada, acatada, adequada a um espírito que não quer ter, que não quer ter impressões por demais fortes porque ele quer ter as suas impressões um pouco afastadas para poder pensar.
Olhem os móveis desse homem: são todos móveis pesados, móveis estáveis, que são o símbolo de uma ordem de coisas feita para durar, feita para ficar, em que o efêmero representa pouco papel. E porque o durável representa muito, a atenção tem facilidade de se recolher. Porque quem está num ambiente que muda constantemente, esse não pode se recolher.
Os senhores imaginem que aqui, por exemplo, continuamente, tivesse um fogo mudando de cores. Os senhores não prestavam atenção na conferência. Por que? Porque toda a mudança chama a atenção e desvia a atenção. Pelo contrário, aqueles móveis, naquele ambiente muito estável, as impressões tendem a ficar em ordem e o que fica não é a sonolência, mas é a possibilidade do espírito refletir. Quer dizer, o ambiente, é um ambiente de recolhimento, é um ambiente de serenidade, é um ambiente em que se convida a raciocinar, a analisar e a pensar. Mas, raciocinar, analisar e pensar no que? O homem medieval, se ele é um copista, ele está pensando, quando ele copia em fazer boas cópias. E, realmente, os copistas medievais chegaram à perfeição no gênero, até hoje se vendem, nos antiquários, folhas avulsas de cópias medievais para pôr em parede como quadro, tão bonitas elas eram, sem falar nas iluminuras que muitas vezes as ornamentavam.
Mas ele não é apenas um copiador, mas ele, ao fazer a cópia, ele pensa na beleza da cópia, e ao pensar na beleza da cópia, ele pensa na beleza de todas as coisas, da qual a beleza da cópia é um elemento, da qual ela é um fragmento, e o seu espírito se eleva como que instintivamente por um movimento de alma lento, sem violência, o seu espírito se espaira numa região serena, onde as impressões não são nada, onde a improvisação não existe. O seu espírito se eleva para a região superior que é o amor de Deus. O amor de algo que transcende essa terra, que transcende o mutável, que transcende o perecível e que é a matriz perfeita e divina de toda a forma de beleza. Daí os senhores vêem o artesão medieval todo feito disso.
Ele, tudo o que ele faz, ele faz com perfeição porque ele faz com reflexão. Ele é exímio na técnica. Está provado hoje, que Idade Média teve mais invenções técnicas do que o mundo inteiro antes da Idade Média. Foi uma coisa fabulosa o que houve de invenções técnicas. Mas ele era exímio na técnica, mas uma técnica que não fecha os olhos para panoramas mais altos, mas se encaminha precisamente para panoramas mais altos. Ele fará relógios, ele fará máquinas, ele fará móveis; mas no relógio, na máquina, no móvel muito pesado, e executados com calma, sem pressa, ponto por ponto, com o gosto de fazer a obra prima, que caracteriza o espírito do medieval, e não o gosto de fazer depressa para tirar um lucro.
Bem, ele fará tudo isso, mas com grandes avenidas de seu espírito diante de si. E essas grandes avenidas de seu espírito são as avenidas do varão religioso, do homem que tem espírito sobrenatural. E então nós vemos que tudo fica na mesma linha. O senso prático, o senso da realidade concreta, o senso da eficiência, fora da trepidação do corre-corre, fora do dinamismo, de uma coisa que gasta o homem e que lhe tira toda distância psíquica, mas dentro de um trabalho metódico, contínuo, aplicado, em que a preguiça não entra para absolutamente nada, em que não se dá quartel nenhum à preguiça.
Dentro dessa atmosfera o homem é eficiente: ele olha para a terra, mas ele olha para a terra com tais olhos que ele na terra encontra a imagem do céu. Não é só quando ele faz imagens de Deus. Um relógio medieval, uma cadeira medieval, uma tapeçaria medieval, uma vitral medieval, um escudo, um brasão de armas medieval, uma torre de castelo medieval são imagens de Deus porque são imagens desse tipo de alma. E esse tipo de alma é imagem do próprio Deus. No próprio Deus que a Bíblia nos mostra, o Gênesis nos mostra fazendo as coisas todas com grandeza. Fazendo as coisas, entretanto, meticulosamente, processivamente, passo a passo. Primeiro tal coisa, depois tal outra. Mas racionadamente - em Deus não se pode falar em raciocínio - mas como que racionadamente, refletidamente, no seguinte sentido de que todas essas partes obedeciam a um plano e que esse plano era a imagem perfeitíssima d’Ele na qual Ele se comprouve e que Ele analisou e na qual ele descansou quando Ele terminou o que Ele queria.
Quer dizer, fazendo essas mil coisas que os senhores vêem por aí que a natureza está cheia na mente divina havia a imagem de um todo para Ele contemplar depois. Um todo no qual Ele repousasse terminado o sétimo dia. Terminada a Criação no sétimo dia. E era o que essa imagem? Era a imagem perfeita do universo que através de mil meios práticos Deus realizou. Isso é a imagem do homem que trabalha na calma, na tranqüilidade, sem preguiça, num esforço contínuo, com elevação de vistas, olhando para o sobrenatural. É essa a imagem do homem medieval.
Agora, os senhores passam pelas sucessivas etapas da revolução. Arrebenta a Renascença - porque foi uma arrebentação - arrebenta a Renascença e arrebenta o protestantismo, e desses conjuntos de estado de espírito esboroou uma coisa: o senso do sobrenatural caiu. O protestantismo conserva um restinho de senso sobrenatural, mas notem que o que ele tem de característico, o que o caracteriza é a dúvida. O humanismo e a Renascença já são a negação.
Bem, o espírito prático continua a progredir. Mas já começa a progredir com uma espécie de azáfama. O comércio começa a se tornar atormentado, o corre-corre começa a invadir as esferas mercantis e técnicas do mundo. E uma espécie de febre de agir e um desejo de ter sensação e não de refletir começa a dominar exatamente, as partes mais tocadas pela revolução dentro da sociedade humana. Vem a revolução francesa e produz aquilo que tem sua plena expressão no americano do Norte. É o homem do chiclete, é o homem da falta de distância psíquica, dos anúncios que piscam, do corre-corre da coisa enlatada, sem elevação nem perfeição nenhuma, prática ainda, mas da prática mais baixa de nível que pode haver. Inteiramente divorciada do espiritual, inteiramente divorciada do espiritual. Com uma técnica de ferro e sem entranhas, na qual não corre a menor seiva de elevação de alma e visando apenas o resultado que já são resultados baixa de nível.
Bem, qual é o próximo passo? O próximo passo é Marcuse. Essa agitação universitária, o que é que vem a ser? É a reivindicação de um mundo em que não há mais, grandes organizações, em que não há mais, grandes sistemas, em que não há mais técnica, em que não há mais raciocínio. A agitação universitária exatamente visa um ensino onde não haja mais raciocínio. Em que tudo fala ao aluno pelos instintos, pela imaginação, pela falta de distância psíquica, em que o aluno é o professor, quer dizer o aluno diz o que ele sente e a expressão do que ele sente é a verdade. Não é mais uma verdade verdadeira que deve ser conquistada pela razão, mas a razão morreu. Existem elucubrações da fantasia, que o professor é obrigado a ajeitar um bocadinho. Fazer o papel de um médium espírita daquela macumba de alunos onde há uma espécie de espírito coletivo, péssimo, que… [ilegível] …que o professor trata de explicitar, mas ele explicita o que está na alma dos alunos. Ele é um médium que capta naquela macumba docente-discente o que vai se destilando que são vibrações nervosas, são manifestações nervosas sem mais nenhum conteúdo cultural, que prepara para e simplesmente “Bagarre”. Preparam a barbárie, preparam o caos, preparam o nada.
Ainda há pouco nós recebemos um livro da Europa que contava da agitação universitária na França - Dr. José Fernando fez até um resumo desse livro - então mostrava cenas horripilantes na Sorbonne, entre outras, de um individuo que no meio do pátio, no meio de todas as desordens, tocava num piano de calda. Os senhores querem uma coisa mais maluca do que um piano de calda posto no do pátio de uma universidade. Quer dizer, a coisa não tem nenhum sentido. - Músicas malucas, provavelmente com algumas notas já sem funcionar. - isso é a imagem do homem novo. King-Kong, felpudo, imenso, meio simiesco, levado completamente por instintos, não sabendo se recusar nada, e achando que a cultura é viver ao léu da falta de distância psíquica., e dá imaginação e da fantasia.
Bem nós devemos afirmar nossa posição ultramontana exatamente tudo dentro do Grupo de modo diverso. E nós não podemos ser ultramontanos e contra-revolucionários em algumas coisas, e não ser em outras. Nós o devemos ser em tudo. Nesse mundo que é um mundo que vai tomando horror às técnicas, é um mundo que vai tomando horror ao que é racional e prático, vai tomando horror ao que é desorganizado, em que ainda existem técnicas e organizações paganizadas, terra-terra, de tipo norte americano, compete-nos a nós, dentro do Grupo elaborar a produção ordenada, técnica, contábil, administrativa, burocrática e de todas as outras naturezas, que seja uma revivescência daquela sabedoria medieval, e eu repito os elementos dessa sabedoria. É fazer as coisas numa atmosfera sem excitação nem falta de distância psíquica. É numa atmosfera calma, recolhida, e tranqüila, aonde a gente pensa antes de agir. Pensa, de um pensamento prático, correto, para que aquilo que agente faz, saia bem feito. Mas pensa também de um pensamento elevado, porque toda coisa prática vista ao fundo, toda coisa pratica vista ao fundo se relaciona com problemas gerais da ordem universal que têm uma beleza própria incomparável.
Na visão católica, sempre a gente aprofunda qualquer coisa, não encontra um precipício, encontra o céu. No fundo de cad perspectiva está uma estrela e não está um abismo, nem está em cobra, nem está um dragão. É questão da gente saber aprofundar direito. E então, por causa disso, com o enlevo do mais profundo da coisa, com o enlevo do mais belo daquela ordem, visando o celeste, visando o sobrenatural. Daí então esses princípios que aqui se encontram. Os senhores vejam como esses princípios enunciam bem essa mentalidade: quanto mais nós estivermos bem organizados, nesse sentido sobrenatural medieval da palavra, quanto mais nós estivermos bem organizados, mais nossas campanhas vão ser excelentes. É claro. É claro por duas razões. Porque o homem incapaz de pensar antes de agir é o homem que não é o cego. Porque a luz da alma é o pensamento. E quem não pensa, na ordem do pensamento é um cego. É claro que uma campanha que não é cega tem que ser o melhor do que a campanha cega. Isso entra pelos olhos. E quem pensa antes de fazer, faz melhor do que o que não pensa. É da primeira evidência. Mas a gente não faz a campanha pensar, se a gente não tem antes o hábito de pensar. Na campanha a gente vai desenvolver o hábito de pensar que a gente teve quando estava fora da campanha. É fora da campanha que se prepara o homem da campanha, como é na paz que se prepara o guerreiro.
Então, aqui os senhores têm o hábito de pensar na raiz do hábito de organizar. E a vida de organização nascida do pensamento representando, então inteiramente, o espírito contemplativo que está no fundo de nossa escola de ação. Espírito contemplativo prático, espírito prático contemplativo. Sempre nessa perspectiva. No fundo de toda coisa nós encontramos uma estrela e um pedaço do céu. É questão de saber aprofundar bem isso.
Bem, depois nós temos o sentido segundo, isto é, o ponto [1?]:” Toda a administração bem implantada envolve uma disciplina como que militar”. Quem fala em disciplina, fala em sacrifício. A disciplina por definição é aquele modo de proceder no qual o homem faz o que lhe é mandado, e não aquilo que ele quer. Ou seja, ele faz o que sua razão manda, e é o que seus superiores mandam, porque a razão do superior se supõe mais esclarecida do que a dos súditos, e é o que faz o que lhe mandam,e o que faz o que lhe mandam e que ele não tinha vontade de fazer. Porque nós, na nossa fraqueza pelo pecado original, sempre temos vontade de fazer uma porção de coisas que nós não devemos fazer. E o melhor jeito que nós temos de evitar a infiltração em nós de nossa vontade desordenada, é obedecer. É pela obediência que nós nos tornamos razoáveis. Nada há de mais razoável do que a obediência. Nada há de mais obediente do que… [faltam palavras] …
Ele teve a reação de um espírito sacratíssimo de conservação que havia nele diante da morte e da dor. Mas Ele pôs o ato de obediência: se for possível, afaste-se de mim esse cálice, mas senão faça-se a vossa vontade e não a minha. É o holocausto da obediência, em fazer o que é mandado e não aquilo que dá na cabeça da gente.
Bem, então aqui está bem enunciado: o inferior obedece prontamente. Não é obedecer daqui a pouco. Porque o sacrifício que nós deixamos para daqui a pouco nós não faremos. Depois, meus caros, quem ama, tem vontade de dar e tem vontade de dar logo. Não espera para dar. Dá logo que pode. Dá com sofreguidão. Então a obediência deve ser uma obediência pronta. Nada impressiona pior do que a gente chamar um funcionário: Fulano! Ele olha, nem diz senhor, nem nada: Ahn? A gente diz: você pode fazer tal coisa? A resposta é: vira a cabeça. Eu tive um funcionário assim, no antigo Legionário. Assim. Bem, a gente diz: Você ouviu? Ouvi. Bem, se a empresa fosse minha, três taponas, olho da rua. Evidente. Não tem outra solução. Porque esse homem não quer fazer, e de fato, ele não fazia nada. Era o maior vagabundo que imaginar se possa. Agora, o contrário, é a obediência militar. A gente chama, continência, ah, como a continência á boa! Quanta modorra quebra. Bater os calcanhares…Ih! Os calcanhares não esmagam só assim, esmagam também assim, assim esmagam os outros, assim esmagam a gente. Ah! Os senhores estão rindo porque os senhores sabem disso perfeitamente. Pois não, atitude firme, ereta, às ordens. Faça tal coisa assim. O capitão Poli me disse que um militar, depois de receber essa ordem, ele recebe a ordem olhando dentro dos olhos do superior. Não é uma coisa assim, tira o corpo não. É olhando para dentro dos olhos do superior. Ele repete a ordem que recebeu. Coisa magnífica. Repete a ordem que recebeu para ser corrigido, caso não tenha entendido bem. E depois, porque faz bem ao indivíduo: tira a birra dele ele ter que repetir o que ele tem que fazer. Ele não está com vontade de fazer e repete o que vai fazer. Nós estamos nos entendendo, não é? Todos nós pertencemos ao gênero humano e todos nós temos os mesmos defeitos. Bem, repete aquilo e repete em atitude de sentido. O superior o despede, ele não vai andando, gingando não. No gingar já escorrem todas as boas resoluções. Ele bate de novo a coisa e pergunta: não quer mais nada? Como quem diz: se quiser mais, eu estou aqui para fazer. Não é esplêndido? Não é super esplêndido?
Bom, diz: não, é só isso por enquanto. Bate calcanhar e vai fazer logo. Quando chegará o dia em que nós vamos ter isso aqui dentro de nós. Eu acho que isso é mais precioso do que a ordem unida tão preciosa da… [faltam palavras] …Eu acho isso. os senhores me digam com franqueza - devem estar um pouco espantados do que eu estou dizendo - não é verdade que isso desencoscora muito o sujeito, as juntas ficam mais, em que a preguiça fica muito abatida? Muito diminuída? Não é verdade que isso dá um outro entusiasmo?
Não sei se os senhores conhecem uma cançãozinha brasileira revolucionária: Oh, vida malvada, nem adianta fazer nada. Para que trabalhar, não adianta a gente se esforçar. Bem, isso é o contrário. E todos nós carregamos em nós algo que é uma hereditariedade tremenda e que leva à isso. E essa hereditariedade entra pelos poros: pega o filho de italiano, o filho de alemão, o filho de japonês, o filho de turco, o filho do que for, e ao cabo da primeira, segunda geração entra. Que é, e faz tanta cerimônia para entrar. Eu acho curioso, eu estou falando aqui diante de vários nisseis; eu acho curioso que, às vezes, olhando na rua para nisseis, eu sou capaz de determinar se era o avô ou era o pai que era japonês, por causa da atitude do corpo e de um certo jeito. Eu posso determinar. Também alemão. Alemão por exemplo, da nossa cara Sta Catarina, filho, neto de alemão, louro, de olhos azuis, todas essas estampilhas bem a gente olha, determina a origem, tempo de pedigree nacional que entrou. A gente já sabe como é que é. Isso faz muito bem e se eu estou dizendo isso é porque eu estou preparando isso; e se eu estou preparando isso é porque eu estou querendo isso. Se eu estou querendo isso é porque eu estou pedindo isso a Nossa Senhora. E se eu estou pedindo isso a Nossa Senhora eu espero que venha um dia que caia. Aqui está.
Bem, o último ponto é esse: “sem progresso na vida espiritual, em particular sem uma devoção a Nossa Senhora, etc. é impossível haver um autêntico progresso e eficiência na vida administrativa da TFP”. Eu, há algum tempo atrás, eu li aqui; bom, eu dou a coisa de outro jeito e os senhores vão ver. O exército mais importante que houve na História a respeito dessa generalidade, dessa [serenidade?] quero dizer, foi o exército alemão. Perfeito. Continências, sobretudo o exército diante de Hitler. Quando os alemães usavam aquela coisa pontuda feita para espetar o que desse. Foi o auge. O exército do Kaiser foi o auge do exército alemão. E foi o auge do militarismo no mundo. Bem, depois o Hitler militarizou muito a Alemanha. Todo mundo fala da historia ascensional desses exércitos. Não fala do fim desses exércitos. Quando eles começam a perder, eles perdem tudo, dão numa compota e se entregam. E os senhores sabem por que? Porque não adianta bater calcanhar, fazer continência nem nada disso, se não há amor de Deus. Isso desmorona diante do primeiro obstáculo sério, diante da primeira situação verdadeiramente trágica, quando a situação é verdadeiramente trágica, ou há vida sobrenatural ou nada se sustenta, nada agüenta. Ora, essas coisas só são bonitas na medida em que correspondem a um espírito de sacrifício autêntico. E espírito de sacrifício há muitos exemplos na História: mas espírito de sacrifício autêntico, de personalidades, inteiramente constituída e não fabricadas em série e capazes de tudo, esse espírito de sacrifício só sagrada eucaristia o gera: só a devoção a Nossa Senhora faz com que a Sagrada Eucaristia faça chegar até nós essas graças. É só a vida interior que… [faltam palavras] …
Eu dou mais valor a uma só alma que seja uma alma como Santa Teresinha do Menino Jesus, que declarava que para o amor nada era impossível, e que faz os últimos holocaustos numa vida curta, para o bem da causa católica, que foi para o que ela viveu, eu dou mais valor a isso do que a todos os exercícios alinhados em campo de batalha. Porque uma só alma como essa faz tudo quanto Deus quiser dela. E se Deus quiser dela que ela detenha um exército. Ela detém o exército. Não tenham dúvidas. Se fosse vocação de uma Santa Teresinha do Menino Jesus deter o exército russo, ela detinha, ainda que fosse como Santa Genoveva apresentando-se aos bárbaros, simplesmente apresentando-se. Mas ela detinha. Porque a missão que Deus lhes deu, essa gente cumpre. Eu não quero outra coisa, nós não podemos outra coisa querer, senão gente que seja capaz de vencer, de amar e de executar a missão que Deus nos deu. Que Nossa Senhora nos dê força para isso, e que a vida sobrenatural, a devoção a Ela, pelos rumos da pequena Via tão característica para nós que isso nos leve a dar vida interior verdadeiro sentido aos outros pontos que acabei de desenvolver aqui. Aqui está encerrado, um pouco longamente demais, mas com os olhos postos em Nossa Senhora, esse magnífico simpósio do qual vos… [faltam palavras] …Vamos agora rezar
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