Santo
do dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 29/10/1968 –
3ª-feira – p.
Santo do dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 29/10/1968 — 3ª-feira
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Europeização: Cenas populares espanholas
… japonesas de Cáceres, na Espanha, e que está orçando o material
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Tem aquela baguete, aquela varinha?
Ah, sei, sei…
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Os senhores estão vendo que há…
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Muito obrigado.
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… a pessoa que montou o Santo do dia, provavelmente Dr.Paulinho, montou muito bem, pondo as pessoas, as camponesas, depois pondo um pouquinho o ambiente dentro do qual elas se movem. São camponesas, o ambiente é no campo.
Então os senhores têm o ambiente do campo representado num grande portal, e depois representado nos murinhos e na planície, que é o grande quadro natural do trabalho dessa gente. Quase que se poderia dizer que é a cidade e o campo onde essa gente vive.
Eu tenho impressão de que para se entender tudo, vale a pena primeiro comentar a moldura, vale a pena comentar primeiro o aspecto material, ou melhor, o aspecto natural da coisa, para depois comentar o traje das pessoas.
Os senhores têm aqui o seguinte: a pessoa que tirou a fotografia soube pegar muito bem o sol da Espanha. A Espanha é toda ela ensolarada, mas de um sol brilhante, de um sol rutilante, um sol também sem mancha.
Para mim, cuja vista não se ofusca com excesso de luz — eu, por exemplo, nunca usei óculos escuros — para mim é muito agradável para ver de dentro da sombra. É um sol terrível para a gente agüentar nas costas, no corpo, porque é um sol que cresta, que queima.
No verão, no Rio, nos piores dias de verão, eu não senti o calor que eu senti uma vez no aeroporto de [Barajas], em Madrid, quando eu estava jantando com D. Mayer. É uma coisa tremenda. Bate1 um vento de violência hispânica sobre um cimento hispanicamente calafetado, nasce de lá um calor que levaria a gente a voar, se a gente voasse.
Mas esse sol é um pouco característico da índole da Espanha. Há um misterioso conúbio entre o clima, o quadro, o lugar e a psicologia das pessoas, por onde uma coisa explica outra e a outra explica uma.
O espanhol é muito claro, muito peremptório, muito positivo, gostando muito de pôr o preto sobre o branco e, por causa disso, brigar quando o preto não combina com o branco, sai a briga, não é verdade? Isto faz parte da coerência do espanhol.
E, por isso mesmo, um índio (branco) [sic!] se chama cara ao sol, quer dizer, o pessoal que vai com a cara naquele sol, bate sol. O espanhol fica magro, ressequido, às vezes fica até com uns ossos aparecendo, anguloso e a cara dele toma, pelo perfil, o aspecto de pessoas das montanhas da Espanha. Montanhas queimadas, também crestadas, e um pouco trágicas. Tem uma fisionomia de espanhol deitado e parece que ficam fazendo careta para o sol, como o espanhol quando briga.
Quer dizer, é uma coisa toda ela heróica, trágica, trágica saltitante. A dança espanhola também, batendo com castanholas e batendo com o pé no chão, levanta o pé — e isso sempre dentro do pudor — a dança tradicional levanta o pé, levanta a mão, e salta e depois dá uma pirueta, etc., etc.
É profundamente diferente, por exemplo, do minueto francês: delicado, amável, onde as pessoas são … [falta palavra] …umas com as outras, se curvam, fazem imensas inflexões, não é verdade? Depois se seguram com as pontas dos dedos, em notas tocadas num cravo com notas prateadas,é um ambiente completamente diferente.
E ainda para aumentar o colorido das coisas a guitarra espanhola é cheia de pompons vermelhos, pompons verdes, pompons amarelos, de maneira que tudo tem pompom. Os homens têm pompons, as mulheres têm pompons, as roupas são todas coloridas, tudo é uma espécie de feeria, de borbulhar, de vitalidade sem nervosismo.
Isto é para nós, intoxicados de americanismo, uma grande lição. Vitalidade sem nervosismo. O espanhol não é nervoso. Ele tem temperamento, não é um songamonga. É o contrário do maria-vai-com-as-outras. Mas ele não é nervoso. Ele é vivo no melhor sentido da palavra. E porque ele é vivo, não tem medo da morte, porque aquilo que é verdadeiramente vivo enfrenta a morte. Aquilo que é agonizante, que é tíbio, decadente é que tem medo da morte.
Bem, o espanhol não é isso.
(…)
…nosotros hemos hecho um pacto com la muerte. E realmente a coisa corre por aí.
Bem, então os senhores têm algo disso por toda a Europa. Os senhores considerem aqui este portal.
Os senhores estão vendo a base aqui tem umas pedras de boa catadura. Não sei se dá para ver de longe, mas umas pedras que a gente tem a impressão de que amarelaram com o sol, que ficaram douradas com o sol, que tomaram algo da cor do sol. A gente poderia dizer que é um portal meio feito de sol.
Aliás existe uma praça pública em Madrid chamada La Puerta del Sol. Não tem porta, mas chama-se “La Puerta del sol”.
Bem, quando se chega aqui, as pedras são grandes. Os senhores estão vendo que formam uma espécie de raio. Se os senhores quisessem considerar isto aqui, os senhores veriam uma miniatura de sol dardejando seus raios. São as pedras que batem, grandiosas, imponentes, sobre esta base aqui.
A porta é feita de uma madeira austera e que também tomou mil sóis e mil chuvas e ficou com uma consistência receptiva, sem ficar podre, mas tão usada, que até ficou meio torta.
Estes cravos já não estão em linha reta. Os senhores notam que aquilo tudo está fixo, ou melhor, está penso, mais ou menos com a cara de … [falta palavra] … quando começa a mudar de cara, começa assim a ficar com cara de caneca amassada.
Mas aqui há qualquer coisa de heróico nessa resistência. Há qualquer coisa de uma porta que faz careta para o tempo, mas que continua a existir, continua a funcionar, e que ninguém pensa em mudar para uma porta nova. Isso seria uma baixa de nível norte-americana sem nome.
Não, é uma porta pesadona, que range, que abre de par em par com imponência, mas meio difícil de abrir; e por causa disso, tem uma porta menor que a gente abre para passar as pessoas normalmente, que é cortada dentro da porta grande.
Bem, aqui tem um furo. Os senhores já estão vendo um olho pretão andaluz espiando para ver quem é que chega, não é verdade? E já combativo e desconfiado.
Bem essa… os senhores olhem um pouco o calçamento, calçamento de pedra também. Há um pouquinho de grama entre as pedras, mas é uma grama que cresceu por acaso, contra o sol e contra a aridez do solo. Não é essa graminha que aqui plantam entre as pedras. É uma coisa mais viva, mais real, mais autêntica.
Bom, os senhores notam que os pregos são pregos ornamentais e grandes e que formam um enfeite que é feito de varonilidade, de seriedade e de grandeza. Não é a porta de um palácio, mas é uma porta imensamente respeitável. É indiscutivelmente respeitável isto que está aqui.
Bom, agora, os senhores olham a planície e os senhores não vêem, nessa vegetação o famoso verde do gramado … [falta palavra] … É um verde que a gente tem a impressão de que a natureza acaba de produzir na hora. Os senhores vêem, é uma terra esturricada, terra que custa para dar, que pé preciso ser espremida para produzir, não é?
Mas é uma terra fértil, tanto é que tem grandes moinhos solitários, que fazem pensar no D. Quixote de la Mancha, com seus braços girando ao sol, torres … [falta palavra] … sem preocupação ornamental nenhuma, mas cuja beleza a gente percebe bem nesta figura aqui.
Os senhores vejam que beleza, que harmonia entre o rotundo da torre e o enorme da roda. E a roda girando nessa torre fixa dava a impressão de um conjunto de estabilidade – instabilidade, que é uma verdadeira harmonia.
Bom, os senhores estão vendo o céu, sem uma nuvem, seco, o sol fervilhando, e três figuras que eu vou considerar daqui a pouco.
Agora, estão aqui. São duas espanholas. Os chapéus — eu não sei bem [se] me engano — mas eu tenho impressão de que o que os senhores acham mais extraordinário é o chapéu. O chapéu todo enfeitado, com essa coisa que sobe aqui. Não sei se dá para os senhores verem à distância, mas é uma forma muito pouco usual para os poucos chapéus que restam hoje em dia.
Mas são chapéus, os senhores notem, todos de fundo vermelho; o vermelho é uma cor cara ao espanhol, é a cor da vida e também a cor do sangue e a cor do heroísmo, não é isso?
Bom… sobre o vermelho uma imensidade de bordados: um por cima do outro, por cima do outro. Dir-se-ia que era uma espécie de dança de castanhola de bordado, pisando uns sobre os outros e acumulando-se uns sobre os outros, que não são feitos para serem analisados ponto por ponto, mas vistos no conjunto.
Vistos no conjunto, é um efeito altamente ornamental. É dessas coisas feitas para darem a primeira impressão e que valem pela primeira impressão que dão. Altamente ornamental e o mais colorido possível.
Depois aqui, ainda pende detrás do chapéu, na cabeça dessa moça, um xale. E um xale bem colorido também. Na cabeça dessa outra, um xale também. Mas esses dois xales são já um pouco menos espevitados do que os chapéus. E fazem uma transição para o vestido muito austero.
Os senhores vejam que coisa engraçada, os vestidos escuros, os chapéus, quer dizer, põem em relevo a cabeça, põem em relevo o fator pensamento, deixa o fator corpo em uma certa discrição. Quanto espiritualismo, quanto pudor entra nessa combinação e nessa concepção.
Mas são vestidos adornados. São vestidos muito escuros, mas os senhores percebem que são compostos de uma espécie de túnica, e os senhores percebem que há uma capazinha. Essa capa tem um grande bordado, mais uma vez vermelho, com uma orla verde, e um verde profundo.
Os senhores vêem que as meias são meias — as saias têm uma altura ainda suportável — e as meias são meias muito grossas, e são meias escuras.
São meias que, como em toda civilização de pudor e toda civilização espiritual têm isso de particular: dão pouca importância às pernas e ao pé.
Nós precisaríamos ter chegado à civilização do futebol e da concupiscência para que as pernas e o pé tivessem a importância que têm hoje. Horrível!
Os senhores vejam, por exemplo, os sapatos são sapatos discretos, os desta moça tem até um pompom vermelho mais uma vez, mas são sapatos que vestem bem o pé, mas não chamam a atenção sobre o pé. Uma coisa suficiente para cobrir e para … [falta palavra] … o sapato. Mais nada.]
(…)
Bem, quer dizer que, naturalmente, a vista de quem olha é dirigida para cá.
Bem, estas moças são moças tristonhas? São moças aborrecidas? São moças que se sentem prisioneiras da moralidade? O contrário, são moças extraordinariamente saudáveis, com ar decidido e rindo, de um riso que é muito espanhol, quer dizer animado, satisfeito, etc., etc., quebrando o preconceito de que a alegria só se encontra na imoralidade e que no moral se encontra a tristeza. Isso é o anti-Freud. Aqui tudo isso está moral.
Eu confesso que gostaria das saias mais compridas … [falta palavra] … que o traje tradicional espanhol deve ter sido mais comprido do que esta saia que está aqui. Isso está modernizado, mas quanto ao mais, é perfeito do ponto de vista moral.
Está bem, não tem recalque nenhum, não tem nada de freudismo, nem de psiquismo. É a própria expressão da saúde mental.
Bom. Agora os senhores têm aqui gente do campo. É uma família de camponeses, um velho, sentado aqui sobre um banquinho, com uma blusa de trabalho na qual eu não vejo nada de tradicional, acho que é uma blusa moderna, de trabalho, comum, a boina característica e tradicional.
Bem, aqui duas mulheres, que a gente vê que são mulheres do povo, das quais esta está fazendo renda. Esta aqui está preparando fios para um bordado, qualquer coisa.
A impressão que se tem é de que são mulheres que ajudam no gasto da família fazendo rendas para vender, mas que elas mesmas vestem parte da rendas que produzem.
Vejam que impressão essa pessoa aqui de costas, que impressão de serenidade, ou melhor, que impressão serena, tranqüila, matriarcal dá. Que delicadeza essa renda dá a ela.
É provavelmente uma pessoa de mais idade a quem não convém a exuberância da moça e que tem aquela espécie de doçura, aquela espécie de suavidade que toma a mãe de família quando vai ficando mais velha.
Na verdadeira mãe de família, na verdadeira mãe de verdadeira família, isso é uma coisa que é universal e que aqui assume um aspecto que as coisas universais assumem, aspectos em cada país — aqui o aspecto que tem na Espanha.
Vejam que ela está ligeiramente inclinada sobre o trabalho dela, uma espécie de tear, e há um imponderável qualquer que faz ver nela uma pessoa doce, uma pessoa afável uma verdadeira mãe para todo o mundo.
Quando a mãe de família atinge certa idade, de tal maneira a plenitude do sentimento materno toma conta dela que ela toma uma espécie de disposição materna em relação a tudo e a todos. Ela fica uma espécie de matriarca. E é para onde tende esta aqui. Nota-se a idade dela, embora não se veja dela nada. Notem a saia que chega até o chão e que contrasta com esta saia um tanto curta aqui.
Esta que está de frente é manifestamente mais moça, vestida também com muito recato. Mas as condições da fotografia não dão para se dizer nada sobre o traje dela. As três estão tomando sol.
Aqui vem uma pessoa com uma saia, infelizmente também modernizada, de uma pessoa manifestamente pertencente à família, com uma mantilha de renda também e que se dirige para cá.
Bem, é o sol ao qual estão habituados e que não estorva o povo mais borbulhante da Europa e talvez o povo mais borbulhante do mundo.
Aqui estão a alma, o salero [sic!], está a graça daquela vida que tornou a Espanha famosa na literatura e na arte do mundo inteiro.
Mais do que pelos seus pintores, escultores, sues literatos, é esse estado de espírito espanhol que é a expressão de todo … [falta palavra] … espanhol, desde o guerreiro até o pintor, ou até o mercado popular, isso que coloca, que dá o charme específico da Espanha, dentro da grande família de almas do mundo inteiro.
É bonito a gente ver isso e comparar, por exemplo, com o que eu falei há pouco da França; ou comparar, por exemplo, com uma casa alemã que nós examinamos algum tempo atrás, não sei se os senhores se lembram que era uma espécie de … [faltam 2 a 3 palavras] … aconchego ou de ambiente estável, sólido, desafiando os séculos, diferente — nada borbulhante, embora muito guerreiro, muito recolhido, enquanto a coisa espanhola é saltitante, sem perder o recolhimento — o que é uma coisa muito interessante, mas é uma outra forma de recolhimento, uma outra escola de recolhimento.
É muito bonito a gente contemplar tudo isso e depois a gente fazer uma pergunta: nós brasileiros, aonde é que nos situamos? Como é que nós somos?
Uma pergunta mais alta… eu não podia prever isso, do contrário eu teria mandado trazer aqui a fotografia de um homem que eu considero um típico sem as deformações da Revolução, uma fisionomia que a Revolução não contaminou: que a gente vê, portanto, que é brasileiro pelos quatro costados. Varão até onde alguém possa ser: é D. Vital.
Eu teria trazido aqui a fisionomia de D. Vital e eu teria perguntado: à luz disso, como é que seria o brasileiro?
Mas isso fica para alguma outra ocasião.
Vamos encerrar.
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1 No microfilme está “basta”.
Auditório da Santa Sabedoria