Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 25/10/1968 –
6ª-feira – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 25/10/1968 — 6ª-feira
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Exemplo de despretensão. Apreço pelo hábito. Grandes provações e confiança em Deus. Atração exercida pela santidade. Fenômenos místicos e milagres. Pedir a despretensão e a simplicidade dele.
São José de Cupertino –- II
Exemplo de despretensão, o Fra Asino se tornou um verdadeiro santo * O grande apreço do Santo pelo hábito religioso * Uma seqüência de provações e grande confiança em Deus * Imerso em provações, faz amorosa queixa a Deus * A consolação lhe é restituída * Atração exercida por sua santidade * Fenômenos místicos e milagres * O que pedir a ele: sua simplicidade e sua suma despretensão
Parece que não há, não é? Então, nós devemos dizer alguma coisa sobre são José de Cupertino.
* Exemplo de despretensão, o Fra Asino se tornou um verdadeiro santo
Eu obtive a biografia de São José de Cupertino e eu sublinhei na biografia apenas os dados que não tinham sido expostos na ficha. Como o santo nos interessa muito, mesmo esses dados interessam, mas a moça que faz o Santo do Dia de fato havia extraído o que havia de mais interessante. De maneira que são apenas dados complementares que devem constar do comentário de hoje.
Os senhores se lembram bem, eu creio, de quem era São José de Cupertino. Aquele santo chamado Fra Asino, tão burro, tão incompetente, que não servia para nada. E não servia nem sequer para conduzir direito uma panela. De maneira tal que, a título de castigo, os capuchinhos, ou os franciscanos, não me lembro bem, costuravam no hábito dele cacos da louça que ele deixava cair. Mas que se tornou um verdadeiro santo, e que acabou sendo muito consultado, muito ouvido, etc., enfim, uma figura de grande destaque dentro da conservação da sua asneira. E para a sagrada despretensão, para a sacratíssima despretensão, nada melhor do que a gente ver que pode ser até Fra Asino e valer muito mais do que um membro inteligentíssimo do Grupo, perspicaz, que vê as coisas de longe, sorrateiro, diplomata, simpático, agradável, capaz, eficiente, dirige as coisas, que sabe, que pode, que faz e que não é abençoado por Nossa Senhora porque é pretensioso. Então, nós temos aqui alguns dados biográficos a mais sobre ele.
* O grande apreço do Santo pelo hábito religioso
Disse que chegou em determinado momento a lhe tirarem o hábito religioso. Quer dizer, tão nulo, tão que não prestava para nada, que obrigaram a sair da Ordem religiosa. Declarou ele, mais tarde, ter sofrido nesse momento como se lhe tivessem arrancado a própria pele. Os senhores vêem a sabedoria desse homem, e a diferença entre ele e tanto teólogo de hoje em dia que conhece aramaico, que faz interpretações de outro mundo da Sagrada Escritura — depois vem dizer que Deus não existe, é verdade — mas que tira a batina com a maior naturalidade possível e que não tem nenhum amor ao hábito religioso. Para ele, não. Ele sofreu como se lhe arrancassem a própria pele. Depois continua:
Por cúmulo da infelicidade, perdera uma parte de suas vestes leigas. [no microfilme não está claro o que é leitura]
Isso é bem o que haveria de acontecer com ele. Na hora de tirar a batina, não tinha veste leiga.
Faltavam o chapéu, as meias e o sapato.
Que época, hein! Faltava o chapéu!… Ele fugiu sem nenhum.
* Seqüência de provações e grande confiança em Deus
Uns cães de um estábulo vizinho assaltaram-no e puseram em pedaços os andrajos que o revestiam.
Os senhores vejam como Nossa Senhora toca a vida dos santos. A gente diria, para quem está habituado à psicologia do “fim feliz” das coisas, do happy end: é o tipo da coisa que não devia acontecer. Ele entrou para o convento. Se ele entrou, ele vai acabar logo Provincial, porque é um gênio, naturalmente, não é verdade? Não: ele é posto fora, tem que tirar o hábito; na hora de tirar o hábito, já perdeu uma parte do que ele tinha quando entrou no convento; ainda os cães — e saídos do pior, porque não são os cães do senhor feudal do lugar, os cães limpos e prestigiosos que o foram morder, pelo menos, mas cães imundos, saídos de um estábulo — caem em cima dele e rasgam os restos dos andrajos. Acabou. A pretensão está reduzida a zero.
Bem, continua:
Uns pastores, tomando-o por ladrão, quiseram lançar-se sobre ele.
Feliz a época em que os ladrões andavam tão mal vestidos! Hoje, pelo contrário, se o sujeito está assim é porque não roubou. Porque quem rouba não é esse o jeito que tem. Bom:
Protegido por um deles contra a fúria dos outros, ele retoma a sua carreira.
Os senhores vejam aí, Deus…
Deus que põe o peso, põe a mão. Afinal, acaba havendo um ladrão que protege esse homem, e que tem dele uma pena que os Superiores religiosos não tiveram.
Quer dizer, cada episódio dessa vida é uma lição para nós.
Bem:
Um cavalheiro se lhe apresenta adiante e empurrando-o, de espada na mão, acusa-o de ser um espião.
Empurrando de espada na mão, os senhores sabem o que é que é. O homem a cavalo, com a espada, e ele correndo. Quer dizer, não é só o andrajo, mas é a insegurança é o medo… [¼ de linha em branco] …aquela espécie de furor que todo o mundo tem contra o pobre coitado desvalido, desarmado, feio, roto, sujo e trapo. Aí é a hora de todos os heróis quererem brigar com ele. Eu garanto aos senhores que esse cavaleiro é um poltrão, mas um poltrão. Quando encontra um pobre São José de Cupertino, vira um herói… [¼ de linha em branco] …São José de Cupertino.
Bem:
José chegara a… [¼ de linha em branco] …Atira-se aos pés do tio, que o toca de casa.
Os senhores não acham que isso é bonito? Eu sei que é bonito post factum. Mas eu me permitiria de dizer aos senhores o seguinte: as únicas coisas verdadeiramente bonitas são bonitas post factum. São as tais coisas feias que na hora de acontecer são feias e ninguém acha que sejam bonitas. Mas depois aparece uma explicação que as torna belas. Os senhores vejam a confiança que esse homem precisava ter em Deus, em Nossa Senhora, para não desanimar nessas circunstâncias. E depois, ele, naturalmente, sentia o que era: era posto de lado e escorraçado por isso. Com certeza, diziam para ele: “Você é burro, você é feio, você é sujo, você é um cotozinho de gente, você não serve para nada. Puxe daqui!”
A resposta não podia dizer que não era burro, nem que não era sujo, nem que não era feio, nem que não era cotó. Sabe qual é a resposta? É ainda pedir desculpa e ir embora, porque senão apanha. É isso. E sai pensando em Nossa Senhora, sai pensando em Deus.
Isso não é mais bonito do que a Europa inteira, do que o mundo inteiro? Eu sei que o espírito moderno se arrepia com isso. Eu sei. Eu trouxe para arrepiar. Porque há certas coisas que a gente só cura arrepiando. Não cura de outra maneira. Eu trouxe para produzir esse santo arrepio. Alias, nós estamos muito e muito habituados a não examinar a fundo as coisas.
O que é São José de Cupertino sofreu, perto do que sofreu Nosso Senhor Jesus Cristo? O que é? E Ele, quem era? Quem com “Q” maiúsculo e tão maiúsculo que chega daqui até o Sol! Entretanto, não sofreu mil vezes mais? E por nosso amor! Por amor de cada um dos que estão aqui na sala!
Bem, então, ele vai àquela que é a própria imagem de Nossa Senhora na Terra, ele vai àquela que é a fonte de todo socorro e de toda misericórdia: ele procura a mãe. Atira-se aos pés da mãe. Resposta da mãe: “Tu te fizeste expulsar de uma casa santa. Escolhe a prisão ou o exílio, porque só te resta morrer de fome. Sai daqui de casa”. Os senhores não acham que é mais bonito isso do que ser um forte? É mais bonito isso do que ter toda a distância psíquica do mundo? É mais bonito isso do que ser o Churchill? Sair daí, em vez de estar pensando “eu, eu, eu, eu; o que está me faltando?”, etc. Olha para uma flor, olha para um lírio e se lembra de Nossa Senhora, que é o Lírio dos campos, e reza enlevado. Vai andando pela estrada, enlevado, pensando em Nossa Senhora. Isso não é incomparavelmente superior, incomparavelmente mais bonito do que ser um homem inteligente?
Os senhores… estou certo que fariam, e eu teria como honra singularíssima se eu pudesse fazer: beijar os pés desse homem. Quem de nós queria beijar os pés desse homem? Ou melhor, quem de nós queria beijar os pés do Churchill? O [patão?] [Patton]… Não é verdade?
Bem:
José acaba por ser admitido no convento de Grottela, para ser incumbido do tratamento da burra.
Havia uma burra lá para tratar; então, ele servia para tratar da burra. Então, foi admitido. Bem, afinal de contas, os senhores viram, ele conseguiu ser ordenado sacerdote, quase que de contrabando. Voltou ao convento de Grottela e aí passou dois anos terríveis.
* Imerso em provações, faz amorosa queixa a Deus
A miséria material a que se condenara, complicou-se com uma miséria interior bem diversa. As consolações divinas com que fora amparado desde a infância, deram lugar a uma secura triste e sombria, que aumentava cada dia.
Escrevia ele a um amigo: “Eu me queixava muito de Deus, com Deus”.
Vejam que linda frase, só isso: queixar-se de Deus com Deus. Santa Teresa de Jesus sabia fazer isso. Voltar-se para Deus: “Ó meu Deus, por que me fizeste isso?”, etc., etc. Nossa Senhora queixou-se de Nosso Senhor para com Nosso Senhor: “Meu Filho, por que fizeste isso?” Não é verdade? Alguns teólogos interpretam isso como uma amorosa queixa.
Mas que bonito uma alma que se queixa de Deus com Deus; que foge de Deus para dentro dos braços de Deus. Como isso é superior!
“Tinha deixado tudo por Ele, e Ele, em vez de me consolar, me entregava a uma angústia mortal.”
Vejam bem o valor dos bens do espírito, que esse homem conhecia. Ele era privado de todos os bens da Terra, não se incomodava. A partir do momento em que lhe faltou um bem do espírito, que é a consolação espiritual, aí ele soube pedir a Deus. Vejam a superioridade dessa alma, o quilate dessa alma.
* A consolação lhe é restituída
Bem:
“Um dia, como eu chorasse, como eu gemesse — só de pensar me sinto morrer —, um religioso bate-me à porta. Não respondo.”
Ele estava na baixa dele.
“Ele entra. ‘Frei José — diz ––, que tens? Aqui estou para servi-lo. Olha, aqui está uma túnica. Pensei que não tinhas túnica.’
“Efetivamente, minha túnica caía aos pedaços. Vesti a que trazia o desconhecido e todo o meu desespero desapareceu no mesmo instante. Ninguém reconheceu jamais o religioso que tinha trazido a túnica.”
Para que comentar, hein? Não é o caso de dizer: “Olhai os lírios do campo: não fiam, não tecem. Entretanto, Salomão, em toda a sua glória, não se vestiu como eles”? O que é o manto de Salomão perto dessa túnica humildade, trazida nessas circunstâncias, evidentemente por um Anjo do Céu? Ou então, por algum outro frade virtuoso, de alguma ermida, ou de alguma tebaida, que foi transportado assim pelos ares pelos Anjos, com uma túnica que uma santa havia tecido para ele e que foi levada a São José de Cupertino; depois os Anjos levaram para o ponto de partida. Quem sabe lá a beleza…
Foi-lhe restituída toda a consolação. Eu pergunto: Não é melhor isso do que ser Churchill?
* Atração exercida por sua santidade
Bem, a partir desse momento, a vida de São José foi uma das maravilhas de que faz menção a História.
A sua vida exterior foi, ao mesmo tempo, agitada e monótona. Para evitar as multidões que o buscavam, transportavam-no de um lugar para outro e o mantinham quase em prisão até um novo deslocamento.
Quer dizer, essa santidade estalou. Começaram todos a perceber. E as multidões na Idade Média não iam atrás dos demagogos, iam atrás dos santos. Resultado: começaram a ir atrás dele. E então, ele que era o último dos leprosos, desprezado por todo o mundo, todo o mundo ia atrás dele. Ele, então, tinha que viver fugindo do todo o mundo. Eram os anos de glória, mas os anos de desapego. Era uma glória desapegada. Os senhores não podem pensar numa glória “mega”… Helder Câmara… não é nada disso, não. É desapego completo. Esse é que é o fato.
* Fenômenos místicos e milagres
Bem, a sua vida interior oferece a reunião dos fenômenos de êxtase e de milagres mais variados e mais sublimes.
Em vez de enxergar…
Aqui dá algumas particularidades, e encerra assim:
Em vez de enxergar os homens sob a figura que têm no mundo, São José os via, às vezes, sob a forma do animal que lhes representava o estado de alma.
Que maravilha! Sentia cheiros que só existiam para ele; seres espirituais que se lhe afiguravam materiais. Encontrava um homem cuja consciência estava em mal estado: está cheirando muito mal, dizia José para ele: “Vai te lavar”. E depois da confissão, se a confissão era boa, ele sentia outro cheiro no homem. Não era todo o mundo que tinha coragem de chegar perto dele, não é?
A sua pessoa tornara-se uma espécie de símbolo vivo; dominava o mundo visível por um reflexo sensível do mundo supra-sensível.
Quer dizer, ele era o espelho de Deus, aquilo que aquele advogado disse do Cura de Ars, de São João Batista Vianney. Perguntaram: “O que é que você viu em Ars?” Ele disse: “Eu vi Deus num homem”. Assim se diz de São José de Cupertino, não é?
A Madonna de Grottela era o ponto onde ele deixara o coração. Voltava sempre para lá.
* O que pedir a ele: sua simplicidade e sua suma despetensão
Bom, há muita coisa ainda para comentar, eu acho melhor não desperdiçar todas essas maravilhas de uma vez só. E no Santo do Dia de amanhã, se Deus quiser, nós continuamos. Nós fazemos aí, talvez, um pouquinho de mortificação. Porque em vez de nós conhecermos o fim da história, por amor à mortificação nós aceitamos um suspense.
Vamos pedir o que a São José de Cupertino? Que ele tenha pena de nós. Que ele olhe para o interior de nossa alma, que terá, talvez, tanta pretensão. Que ele nos alcance a simplicidade e a suma despretensão dele.
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Auditório da Santa Sabedoria