Santo do Dia (Auditório da Rua Pará) – 18/10/1968 – 6ª-feira – p. 6 de 6

Santo do Dia (Auditório da Rua Pará) — 18/10/1968 — 6ª-feira

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Reconhecimento da própria miséria para pedir o perdão de Deus. Esperança de ser perdoado e purificado. Gáudio ante o perdão. Extremos de rejeição ao pecado e de confiança. Para a véspera da “Bagarre”: profundo arrependimento e confiança em Nossa Senhora



Comentário do Miserere – II

Reconhecimento da própria miséria para pedir o perdão de Deus * Recordação da antiga amizade de Deus e esperança de ser perdoado e purificado * Profunda humilhação e gáudio ante o perdão * Pedido de um coração puro e um espírito reto * Desejo de um espírito magnânimo e promessa de apostolado * Extremos tocantes de humildade, de refeição ao pecado e de confiança * Espírito compungido, e não sacrifícios * “Sou uma célula viva da Igreja; tende pena da Igreja” * Restabelecimento da aliança entre Deus e o pecador * Disposições de alma na véspera da “Bagarre”: arrependimento profundo e confiança em Nossa Senhora

Nós estávamos fazendo o comentário do Miserere e aqui estão os versículos que faltam comentar.

* Reconhecimento da própria miséria para pedir o perdão de Deus

Os senhores se lembram que eu falei a respeito do Miserere, a historia de Davi, sua penitência, sua compunção, etc. Os primeiros versículos que eu li diante dos senhores são versículos em que ele se acusa de seu próprio pecado e manifesta esperança na misericórdia de Deus. Mas depois ele passa a fazer apelos, depois de ele desistir sobre seu pecado, pecado, misericórdia, pecado, misericórdia. Ele começa a desenvolver mais a idéia da misericórdia para acabar inclinando a piedade de Deus a favor dele, para obter que Deus lhe perdoe o pecado que cometeu. Então, ele diz o seguinte: é o primeiro argumento que ele dá:

Eis que fui concebido em iniqüidades e minha mãe concebeu-me no pecado.

Quer dizer: “Tende consideração, ó Deus, que eu fui concebido no pecado original e que eu herdei, portanto, uma porção de inclinações más de minha mãe”. Todo homem herdou o pecado original por meio de sua mãe, de seu pai e de sua mãe. Bem, e então “tende em consideração a infelicidade que eu tenho; eu nasci no pecado”.

Ele continua:

Eis que Vós amastes a verdade e me revelaste o segredo e o mistério da Vossa sabedoria.

Davi tinha sido muito amado por Deus. Ele era um pastorzinho que tinha sido escolhido para suceder no trono a Saul, o Rei de Israel, que tinha incorrido no desagrado de Deus, e ele possuía a sabedoria de Deus por causa do convívio do Espírito Santo com ele.

* Recordação da antiga amizade de Deus e esperança de ser perdoado e purificado

Então, depois de ele ter pecado, ele diz a Deus isto — primeiro argumento: “Eu fui concebido no pecado original, tende pena de mim”. Segundo argumento: “Vós outrora fostes meu Amigo, Vós outrora me amastes, tende pena de mim em lembrança da amizade que outrora Vós tivestes para comigo. Dizeis que Vós amastes a verdade e me revelastes o segredo e o mistério da Vossa sabedoria”.

E agora, então, vem a conclusão, ele espera ser perdoado:

Vós me aspergireis com o hissope e serei purificado; lavar-me-eis e me tornarei mais alvo que a neve.

Hissope é aquela planta que o padre põe e joga água benta e que simbolicamente quer dizer algo com que se asperge e a pessoa fica completamente limpa. Chama-se hissope muitas vezes também o… Como se diz em português o “cupiom”, hissope mesmo? Bem, aquilo chama-se também hissope.

Diz então: “Se Vós me aspergirdes com Vossa misericórdia, eu serei purificado”. Quer dizer, “está em Vossas mãos curar-me. Vós me lavareis e eu me tornarei mais alvo que a neve”. Aí a analogia é tirada, provavelmente, de uma ferida; o homem está vermelho, inchado, podre, ele recebe umas gotas da misericórdia de Deus, ele se torna alvo, ele se torna branco como a carne sadia, ele se torna mais branco que a neve.

* Profunda humilhação e gáudio ante o perdão

Depois continua:

Vós me fareis ouvir uma palavra de gozo e de alegria e se regozijarão os meus ossos humilhados.

Vós vedes que bonita linguagem aí: “Eu, por causa dos meus pecados estou humilhado até os meus ossos”. Quer dizer, é como, por exemplo, a pessoa sente umidade — em São Paulo já aconteceu a todos os senhores. Há momentos em que a pessoa sente umidade até os ossos, não é verdade? Há momentos em que a pessoa está humilhada até os ossos, quer dizer, a humilhação penetrou até o fundo do homem; o que ele tem de mais central que são seus ossos. Então, diz isto: “Os meus ossos estão humilhados, mas desde que Vós me façais ouvir só uma palavra de alegria, eles se estremecerão”. Quer dizer, Vossa palavra é tão poderosa, é tão santa, tão extraordinária que uma coisa que me digais eu já ressuscitarei dentro de minha humilhação e estremecerei de gáudio.

Apartai Vosso rosto dos meus pecados, apagai todas as minhas iniqüidades.

Senhor, não olheis para meus pecados e apagai os efeitos do meu pecado em mim” Quer dizer, “o meu pecado é tão horroroso, eu reconheço tanto, que o remédio que eu tenho para obter Vossa misericórdia é pedir que Vós não olheis para meu pecado. Mas, uma vez que Vós não olhardes, Vós tereis pena, e no momento em que Vós tiverdes pena, Vós apagareis as minhas iniqüidades”.

Os senhores estão vendo que o que tem de bonito aí é constantemente uma coisa tocante. Como ele reconhece o péssimo do pecado dele. Senso moral esplêndido que há dentro disto. Mas, de outro lado, como ele confia a todo momento que a misericórdia divina fará por ele todas as maravilhas.

Vem agora, novamente, um pedido para apagar as iniqüidades dele. Quer dizer, o perdão que ele pede é a todo momento, não só um perdão, mas que a maldade dele seja retirada pela graça de Deus.

* Pedido de um coração puro e um espírito reto

Ele diz:

Criai em mim, Senhor, um coração puro e renovai em minhas entranhas o espírito reto.

Ele reconhece que o coração dele se tornou impuro por causa do asco do adultério em que caiu. Ele pecou contra a castidade, o seu coração é péssimo. De outro lado, ele tivera outrora um espírito reto, mas ele perdeu o espírito reto por causa do pecado que cometeu. Então, ele pede isto: “Renovai em mim, criai em mim um coração puro. Eu perdi, meu coração puro morreu. Dai-me um outro coração que seja puro. Eliminai, arrancai este coração impuro que está em mim e dai-me um coração puro, ó meu Deus”.

Depois diz o seguinte:

E renovai em mim um espírito reto.

Mas renovai o que, nas minhas entranhas, quer dizer, o que há de mais fundo em mim. Eu estou podre, o espírito reto me abandonou, eu não tenho mais bom espírito. Eu não tenho mais retidão de alma. O meu pecado da carne penetrou pela minha alma adentro e putrefez minha alma. Mas eu Vos peço, Senhor: renovai nas minhas entranhas o espírito reto.” Os senhores vejam a nostalgia que vai neste “renovai”. Ele, há pouco, lembrou que Deus tinha amado a ele. Ele se lembra que outrora teve o bom espírito, outrora ele teve o espírito reto na suas entranhas, mas depois morreu por culpa dele. Ele diz: “Senhor, renovai. Eu Vos peço por Vossa misericórdia: dai-me o espírito reto que eu perdi”. Bem:

Não me arremesseis de Vossa presença e não tireis de mim o Vosso Espírito que é Santo.

Quer dizer: “Eu reconheço que Vós teríeis o direito, por causa do adultério que eu cometi, de me pôr longe de Vossa presença. Eu, como pecador, não sou digno de me apresentar a Vós; a Vossa cólera me rechaçaria merecidamente. Mas, por Vossa misericórdia, eu Vos peço, não me rejeiteis; pelo contrário, eu Vos peço ainda mais, eu peço que não me tireis, que não afasteis de mim o Vosso Espírito que é Santo. Eu não sou santo, mas Vosso Espírito é Santo; se Vós o afastardes de mim, o que acontecerá? Eu ficarei reduzido a zero. Não me aniquileis, eu Vos suplico”.

* Desejo de um espírito magnânimo e promessa de apostolado

Depois ele continua:

Dai-me a alegria de Vossa salvação e confortai-me com o espírito grande.

Com o espírito grandioso, espírito magnânimo, vem a ser isto. Não é esta coisa magnânima boba comum, magnanimidade que se dizia: “Dom Pedro, o magnânimo”. Bem, não é isto, mas é a alma grande, grandeza de alma. Anima magna: magnânimo.

Então, aqui diz: “Dai-me a alegria de Vossa salvação”. Quer dizer, dai-me uma promessa de salvação por onde eu me alegre, eu que perdi minha salvação por minha própria culpa. E, por outro lado, dai-me o espírito grande, confortai-me, dai-me a força de um espírito grande, grandeza de alma, a força ligada à grandeza de alma, por Vossa bondade. Eu, que sou esta podridão, eu que sou este lixo, ouso levantar meus olhos e Vos pedir isto. Eu, então, se Vós fizerdes isto por mim, eu trabalharei por Vós. Vem a promessa do apostolado. Diz:

Eu ensinarei aos iníquos os Vossos caminhos e os ímpios se converterão a Vós.

Os senhores vejam a certeza que ele tem de que Deus ama o pecador. Ele diz: “Se Vós curardes este pecador, eu Vos dou um prêmio, eu Vos trago mais lixo como eu”. E vejam a promessa: “impii ad te convertentur”. Os ímpios se voltarão para Ti. Quer dizer então: “Eu Vos peço que façais bem a esse lixo, que eu trago mais lixo, tanto eu sei que por Vossa misericórdia, Vós tendes horror à sujeira e tendes amor ao pobre porco, emporcalhado dentro de seu pecado”.

* Extremos tocantes de humildade, de refeição ao pecado e de confiança

Não sei se os senhores não acham isso tocante, esse extremo de humildade e de rejeição do pecado. Mas essas fórmulas filiais e hiperbólicas, quase se poderia dizer, para exprimir a Deus a confiança de que Deus tem pena do pecador e não o rejeita para longe de Si, eu acho isto uma coisa absolutamente tocante.

Todas essas oraçõeszinhas de devocionário, pedindo perdão para o pecado, não têm nem de longe a força e o vôo que estas exclamações têm. Isto aqui é uma coisa ditada pelo Espírito Santo e que tem uma grandeza extraordinária. Depois ele continua:

Livrai-me do sangue; Senhor de minha salvação, minha língua exaltará Vossa justiça.

Ele tinha derramado sangue. Ele tinha mandado matar o marido, tinha criado ocasião de morte para o marido da tal mulher. Então ele queria ser libertado do sangue que ele tinha derramado. Então, ele diz: “Livrai-me do sangue, do sangue que eu derramei. Bem, e se Vós me livrardes do sangue, o que é que acontece? A minha boca anunciará os Vossos louvores. Quer dizer, eu Vos farei um cântico de que Vós gostareis, eu Vos pagarei com a glorificação que Vos dá o pecador arrependido”. E, de fato, ele fez isto, porque os salmos dele perduraram por todos os séculos.

* Espírito compungido, e não sacrifícios

Então, ele diz:

Senhor, abrirei os meus lábios, e a minha boca anunciará os Vossos louvores.

Porque se quisésseis um sacrifício, eu o teria oferecido; mas Vós não Vos comprazeis com holocaustos.

Era aquele sacrifício da Antiga Lei, bois e ovelhas, pombos, etc.

Não, para os pecadores, isto não adianta. É preciso outra coisa. O sacrifício digno de Vós é um espírito compungido, um espírito que reconhece o mal que fez e mede até o fim, sonda a gravidade de seus pecados até o ultimo ponto. Este é o espírito compungido. Um espírito compungido Vós não desprezareis, ó Deus, um coração contrito e humilhado.”

É sempre o medo de ser desprezado porque merece. Mas, de outro lado, o ato de confiança: “Vós tereis pena de mim”.

* “Sou uma célula viva da Igreja; tende pena da Igreja”

Depois continua:

Senhor, sede benigno com Sião por Vossa vontade bondosa, para que se edifiquem os muros de Jerusalém.

Ele aí é membro da nação eleita e fala como se fosse a nação eleita inteira. É como se um de nós, no extremo de seu arrependimento e sem ter mais o que alegar para obter o perdão de Deus, dissesse: “Tende pena da Igreja Católica, para que se reedifiquem os muros d’Ela. Eu sou um pouco da Igreja Católica, uma célula viva da Igreja Católica, e se eu por mim, enquanto Plínio Corrêa de Oliveira, já não mereço nada de Vossa misericórdia, eu sou um membro da Igreja, e enquanto a Igreja vivendo em mim — eu sei quanto Vós amais a Igreja — então, tende pena da Igreja e levantai este muro da Igreja que está caído, por amor à Vossa Igreja, fazei bem a mim”. A nação de Israel era pré-figura da Igreja.

* Restabelecimento da aliança entre Deus e o pecador

Então –– quando Vós tiverdes pena de mim –– aceitareis os sacrifícios legítimos; então serão colocados bezerros sobre os Vossos altares.

Quer dizer, então estará tudo reconciliado. Então Deus aceitará o holocausto do homem pecador porque ele foi perdoado, os presentes dele serão agradáveis a Deus. E a aliança entre Deus e o pecador se restabeleceu, e a necessidade do culto se restabelecerá também. Quer dizer, termina portanto, numa afirmação: “Isto vai acontecer. Haverá um momento em que meu coração ficará humilhado porque Vós o tereis humilhado e Vós me dareis a graça de então estar reconciliado Convosco. Meus sacrifícios Vos serão agradáveis e a normalidade das relações entre Vossa grandeza e a minha pequenez estará restabelecida”.

Depois disto é só contar o Alle psalite, etc…, porque é a grande alegria, veio o perdão, Deus não se lembra mais do pecado, acolhe o pecador e é a festa do filho pródigo que volta para a casa. E assim é o comentário do Miserere. Se os senhores acham que há vantagem, me peçam para comentar outro salmo penitencial.

* Disposições de alma na véspera da “Bagarre”: arrependimento profundo e confiança em Nossa Senhora

A vantagem que eu vejo nisto é exatamente de nos incutir a todos nós as duas disposições de alma que parecem mais necessárias nesta véspera da “Bagarre”. É um arrependimento profundo de nossas faltas, mas medidas e sondadas em todas as suas agravantes. Eu quereria que nós fôssemos escafandros do nosso subconsciente, escafandros dos nossos pecados e que entrássemos dentro, inteiro, e que medíssemos ponto por ponto: eu tive tal agravante, esta agravante ainda acrescida por tal e depois por tal e chegou a tal ponto.

Entretanto, Senhor, ó minha Mãe, eu Vos peço a Vós, e tende pena de mim porque Vossa misericórdia é maior do que todas as agravantes que eu encontrei em mim. Era preciso que eu encontrasse essas agravantes para me humilhar, mas feita a minha humilhação, eu faço um ato de confiança em Vossa misericórdia. Vosso perdão é muito maior do que a imensidade de crimes que eu cometi, e por causa disto eu me volto para Vós. Minha Mãe tende pena de mim.”

Os senhores compreendem, Davi não tinha Nossa Senhora, Davi não tinha nem sequer Nosso Senhor Jesus Cristo; era a Santíssima Trindade e depois um mundo que caiu em pecado e que só seria perdoado na previsão de Cristo que deveria vir. Nós temos Nossa Senhora, nós temos Nosso Senhor Jesus Cristo, temos uma multidão de recursos de misericórdia da Nova Lei, de maneira que tudo o que diz aqui da misericórdia de Deus, deve-se entender o cêntuplo por causa da Nova Lei.

Mas, meus caros, também o pecado se tornou mais grave, porque nós abusamos de uma graça maior. É uma coisa evidente. Há mais misericórdia, mais pecado. Nós devemos nos humilhar mais. Mas, de outro lado, o superávit da misericórdia é sempre enorme. Então, nós devemos nos voltar para Nossa Senhora com toda a confiança. Aqui estaria a síntese de um dos salmos penitenciais.

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Auditório da Rua Pará