Santo do Dia (Auditório da Rua Pará) – 15/10/1968 – 3ª-feira – p. 5 de 5

Santo do Dia (Auditório da Rua Pará) — 15/10/1968 — 3ª-feira

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Profunda consciência da gravidade do pecado, profunda tristeza e profunda confiança. Deus pode lavar e mudar o pecador. Terríveis conseqüências do pecado. O poder da oração confiante.

Comentário do Miserere – I 1

As circunstâncias em que Davi compôs os salmos penintenciais * Profunda consciência da gravidade do pecado, profunda tristeza e profunda confiança * Deus pode lavar e mudar o pecador * Terríveis conseqüências do pecado * O poder da oração confiante

Eu vou dar três ou quatro versículos e o resto eu comento depois, num outro dia.

* As circunstâncias em que Davi compôs os salmos penintenciais

O caso do Miserere... vocês conhecem a origem: são os sete salmos da penitência, são sete salmos inspirados pelo Espírito Santo e que cantam a penitência da alma pecadora que se arrepende do que fez e pede perdão a Deus. Esses salmos foram feitos por Davi, e os senhores conhecem as circunstâncias em que Davi compôs esses salmos. As circunstâncias biográficas são conhecidas ou não? Os que conhecem, levantem o braço.

Davi era rei, pecou com a mulher de um de seus generais, Urias, e por causa disso ele mandou Urias para o campo de batalha onde Urias morreu, e ele ficou “fassurando” com esta mulher.

O Profeta Natan, que soube disso, foi então falar com ele e contou-lhe um caso de um homem que tinha um mundo de ovelhas e de rebanhos, etc, e tinha ao seu lado um vizinho que tinha uma ovelha só. Urias era vizinho de Davi, as casas eram próximas, contíguas. Ele então olhou, este homem que tinha muitas ovelhas, ficou… roubou a ovelha daquele que tinha uma ovelha só e matou o dono da ovelha. Então, ele pediu a Davi justiça contra este homem. Davi disse então a ele que sim, que sem dúvida dissesse qual era este homem que ele perseguiria, que esta era uma coisa infame, etc. Então, Natan voltou-se para ele e disse: “Este homem és tu, ó Rei”. Então explicou que ele tinha cometido este pecado, mas muito pior, que aquilo era apenas uma parábola, que ele era rei de um reino inteiro e que o outro tinha a sua esposa e ele matou o outro para roubar a esposa do outro. Ele era um pecador. Então, Davi — os orientais usavam várias túnicas, umas sobre as outras, sobretudo os homens importantes, Davi era rei —, ele, à maneira oriental, rasgou uma ou algumas túnicas dele como sinal de pesar, mandou vir cinzas e colocou sobre a cabeça e começou a se penitenciar pelo pecado que ele tinha cometido.

E, de fato, o castigo que devia vir sobre ele, segundo a profecia do Profeta Natan, cumpriu-se. O filho dele, Absalão revoltou-se contra ele e ele quase perdeu o trono, andou perseguido pela Judéia, foi apedrejado, andou numa posição miserável, e durante todo este período dos castigos ele ia recitando estes salmos, compunha mais outro, recitava, e deram sete salmos da penitência.

Agora, estes salmos que Davi recitou, tendo em consideração o adultério que ele cometeu, estes salmos foram salmos proféticos, porque dizem respeito também a Nosso Senhor Jesus Cristo, pedindo perdão pelos crimes da humanidade, Ele que era o Cordeiro de Deus, inocente. Estes salmos passaram a ser aproveitados pela Igreja como salmos que traduzem a dor do penitente em todos os tempos, em todos os lugares, e exprimem de um modo arquetípico o remorso, de um lado, e a confiança na Providência divina, de outro lado.

* Profunda consciência da gravidade do pecado, profunda tristeza e profunda confiança

O salmo tem isto de característico, que ele é inspirado por uma profunda noção da gravidade do pecado, e daí uma profunda tristeza pelo pecado. Mas, de outro lado, uma profunda noção da misericórdia de Deus, e, por causa disso, uma profunda confiança em que Deus há de tirar o pecador de seu pecado e lhe restituir o estado de virtude que tinha outrora.

Nós compreenderemos melhor o salmo tomando em consideração que Davi, antes do pecado, fora (fôra) um homem boníssimo, muito bem visto por Deus, conduzido por Deus para ser o primeiro rei de Israel da sua dinastia, e que depois naturalmente relaxou, pecou, e caiu então no pecado de adultério e indiretamente no pecado de homicídio. Então, nós aí compreendemos bem algumas referências que Davi tem ao tempo em que ele era bom e as saudades que ele tem do tempo em que era bom. Então, vem o salmo, que é o seguinte. Eu leio em latim porque, apesar de nem todos nós conhecermos o latim, o som latino da coisa tem qualquer coisa de incomparável, e depois, naturalmente, eu traduzo para o português. Eu consegui tornar claro os antecedentes deste salmo? Ou alguém quer me perguntar algo?

Miserere…, começa assim:

Miserere mei, Domina…

Aqui está adaptado a Nossa Senhora, mas eu vou pôr como é no texto da Bíblia.

Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam.

Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.

Tende piedade de mim, ó Senhor, segundo a vossa grande misericórdia. E segundo a multidão das vossas clemências, apagai a minha iniqüidade.” Eu vou ler os quatro primeiros versículos, depois comento juntos.

Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me. Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.

Lavai-me mais e mais da minha iniqüidade e purificai-me do meu pecado, porque conheço a minha maldade e meu pecado está sempre diante de mim.”

Os senhores vêem no conjunto destes salmos uma profunda noção do estado miserável do pecador. Da gravidade do pecado e do estado miserável do pecador. Os senhores vêem a humildade que nos imponderáveis está contida nesta súplica: “Tende piedade de mim, ó Senhor, segundo a vossa grande misericórdia”. Quer dizer: “Eu estou num tal estado que só por meio de uma misericórdia muito grande Vós podereis ter piedade de mim. Pelo pecado que eu cometi, não é qualquer misericórdia que basta, meu pecado foi grave, meu pecado foi duro; eu tenho, portanto, que pedir-Vos a Vós muita misericórdia. E é está misericórdia, portanto, que eu invoco: tende piedade de mim, Senhor, pela vossa grande misericórdia”.

Os senhores vêm as duas notas da contrição católica como estão bem representadas aí. De um lado, a consciência da gravidade do pecado; mas, de outro lado, a convicção de que a misericórdia é maior que todos os pecados. Então, tristeza mas, confiança.

Depois ele continua: “E segundo a multidão das vossas clemências, apagai a minha iniqüidade”. Notai a antítese: “Apagai a minha iniqüidade”, quer dizer: “O meu ato iníquo, a maldade que há em mim. Mas, para apagar, é preciso uma multidão de clemências de Deus. Uma clemência, um ato de clemência não basta, é preciso uma multidão de clemências de Deus para que a minha iniqüidade seja apagada”.

Agora, vejam também que idéia bonita da ação da graça, que comentário lindo do opus tuum fac está contido nisto. Quer dizer: “Apagai Vós a maldade que há em mim. Eu estou sujo, eu estou enodoado, eu estou desfigurado pelo pecado que eu cometi, mas Vós tendes o poder de apagar em mim o meu pecado, quer dizer, me dar arrependimento verdadeiro e de tirar dentro de mim o mal que eu mesmo pus. Quer dizer, de me dar uma emenda verdadeira, de me transformar de pecador em homem que conhece, que admira e que ama a virtude e que quer praticá-la”. Isto que é apagar a iniqüidade. “Vós sois o Senhor de todas as almas, regeis as almas como quereis. Senhor, eu Vos peço: mudai a minha alma, mudai a minha iniqüidade, tão profunda que é preciso o oceano das vossas misericórdias, mas eu confio neste oceano; eu Vos peço, tende pena de mim.”

Os senhores estão vendo como isto é bem construído e como é próprio para nos ensinar a gravidade do pecado e a confiança na misericórdia de Deus.

Ele continua: “Lavai-me mais e mais de minha iniqüidade e purificai-me do meu pecado”. Ele insiste mais uma vez: “Estou tão sujo que com uma só ação de lavar eu não saro; Vós precisareis me lavar muitas vezes. Mas meu Senhor, eu confio em Vós, lavai-me mais e mais de minha iniqüidade”. Depois diz: “Purificai-me do meu pecado, lavai-me de minha iniqüidade, purificai-me do meu pecado”. Bem, depois diz… por que é que ele pede isto? Ele pede porque: “Eu conheço a minha maldade e meu pecado está sempre diante de mim”. Em latim é um pouco mais forte:

Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.

Mas quer dizer, “está em pé diante de mim”.

É como eu comentei outro dia este versículo. É como se fosse uma coisa que estivesse dia e noite me acusando como um fantasma em pé diante de mim. O meu pecado me acusando: “Você fez tal coisa e não deveria ter feito, você cometeu tal ação e esta ação você não poderia ter cometido”. Então, “dia e noite o meu pecado está diante de mim, quer dizer, os meus olhos exaustos, a minha mente contrita, a minha vontade humilhada, consideram constantemente a ação má que eu não deveria ter feito e fiz2. E porque dia e noite eu meço a gravidade de meu pecado, eu Vos peço, Senhor, lavai-me porque este remorso eu não agüento, o remorso me venceu e a confiança na Vossa misericórdia me toca para os Vossos braços”.

* Deus pode lavar e mudar o pecador

Eu acho, meus caros, que isto é muito importante porque é exatamente esta idéia que Deus pode lavar o pecador, que pela graça d'Ele, Ele pode mudar a alma do pecador. Naturalmente, é preciso que o pecador aceite isto, que o pecador queira ser mudado, mas Ele pode mudar. Ele pode, inclusive, dar uma graça tão fulminante que praticamente o pecador não resista e, então, o pecador pode fazer a Nossa Senhora este pedido: “Eu sinto que estou apegado ao meu pecado e não sinto nem sequer vontade de me desapegar, mas eu sinto, ó minha Mãe, que a Vossa graça pode ser tão fulminante que vença até meu apego e que faça com que eu me despegue. Portanto, lavai-me mais e mais de minha iniqüidade. Quer dizer, fazei com que ela desapareça como a lavadeira faz com a roupa, esfrega, esfrega, passa sabão até que a mancha saia do tecido. Assim eu peço que Vós façais com minha alma, ainda que tenhais que esfregar-me, esfregar. Eu Vos peço: purificai a minha alma da nódoa que entrou nela”.

Os senhores vêem que vontade de se corrigir, que desejo de ser outro, que humildade em compreender o mal que cometeu, mas que confiança na santidade de Deus. Deus é três vezes Santo, é infinitamente Santo, é a Sede da Santidade, basta que Ele diga uma palavra e a nossa alma se modifica, e de péssima que é, ela pode ser ótima. Então, diz isto: “Lavai-me de minha iniqüidade e lavai-me mais e mais, que eu…”

É exatamente da conjunção destas duas noções que se faz a boa vida espiritual. De um lado, nós conhecermos bem a gravidade do pecado; não pensarmos que o pecado é uma coisinha qualquer que depois a gente confessa e passa.

* Terríveis conseqüências do pecado

O pecado traz conseqüências terríveis, terríveis. O pecado faz um mal às almas, produz estragos nas almas que almas não sabem medir. Qualquer santo preferiria morrer a consentir na idéia de cometer um pecado, porque isto já é um pecado. Quanto mais a prática do ato pecaminoso. E uma das coisas mais tristes do pecado é quando o pecado se transforma em hábito. Porque, então, há uma espécie de indiferença dentro do pecado, uma espécie de neutralidade dentro do pecado. A gente peca uma vez, duas vezes, cinco vezes, e não se importa mais.

Eu uma vez vi uma coisa horrível. O Dr. Paulo, os veteranos aqui da Rua Pará conheceram um padre apóstata, chamado Pe. Carlos Ortiz, e que ficou comunista. Ele conta a primeira Missa sacrílega que ele rezou na vida dele. Foi, se não me engano, na cripta da Catedral de São Paulo; ele diz onde foi. E ele então conta que ele tinha cometido pecado na véspera, vocês já estão vendo de que natureza era o pecado dele; e que ele não tinha propósito de se emendar; e que ele não foi se confessar porque não tinha vontade de se confessar, mas que ele tinha que celebrar uma Missa para a qual ele estava contratado e que ele então deliberou que ele ia rezar aquela Missa sacrílega; que até aquele momento ele tinha horror ao sacrilégio e que ele imaginava a Missa sacrílega como uma coisa tremenda, o estertor do sacerdote na hora da consagração, aquela noção de estar profanando. A Consagração está profanando a Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas que ele foi celebrar a Missa de alma leve, que estava uma manhã bonita, que do lado de fora da igreja ele ouvia passarinhos cantar, que ele estava se sentindo muito bem disposto, que estava tudo muito alegre em torno dele, que ele recitou a Missa com desembaraço e recitou a Consagração com a intenção de consagrar, e maquinalmente. Depois comungou sacrilegamente e foi tomar o seu café completamente à vontade, e que esta foi a primeira Missa sacrílega que ele celebrou.

Os senhores vêem que coisa horrorosa, não é verdade? Bem, esta espécie de indiferença é uma conseqüência do pecado. É natural. O que em nós se torna habitual, não pode produzir o susto do primeiro ato, é uma coisa evidente. Então, a primeira desobediência, o primeiro ato de pretensão consentido, a primeira vez que a gente capitula diante de um ato de pretensão e pede aquilo que a gente sabe que não devia pedir, depois aceita e faz aquilo que a gente sabe que não devia fazer e se enlambuza com o prazer daquilo, o que é que dá? Daqui a pouco a gente está olhando para a pretensão, pensando o seguinte: “Pecado mortal não é, é só venial; então, pouco me importa”. Bom, daqui a pouco nós estamos indiferentes aos interesses da Igreja.

* O poder da oração confiante

Bem, então, tudo isto está subentendido neste salmo, de um lado. Agora, de outro lado, também está apresentada a misericórdia infinita de Deus e o poder da oração. A alma que pede é atendida: peça, peça, peça, não pare de pedir, mesmo no mais fundo do pecado, porque Nossa Senhora o atenderá. E aí os senhores têm os três elementos do salmo da penitência. Se Nossa Senhora permitir, continuaremos amanhã.

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1 Continua no Santo do Dia de 18/10/1968

2 No microfilme está: “que eu deveria ter feito e não fiz”

Auditório da Rua Pará