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Santo do dia 05/10/68 - Sábado -- [SD 010]

Rua Pará, 50

São Bruno

No dia 6 de outubro a Igreja festeja São Bruno, confessor. D. Guéranger, no l’Année Liturgique, diz a respeito dele o seguinte: “São Bruno nasceu em Colônia, por volta de 1035, portanto, em plena Idade Média. Muito jovem ainda, ele foi a Reims, cujas escolas eram célebres. Muito cedo sua inteligência se firmou e seus professores foram tais, que desde logo o arcebispo de Reims lhe confiou o cargo de escolástico da catedral, o que lhe dava a direção dos estudos e a inspeção de todas as escolas da diocese. O novo mestre teve alunos numerosos e fervorosos, entre os quais Eudes de Chantillen, o futuro papa Urbano II, que é o pregador das Cruzadas. Sábio e letrado, São Bruno conhecia o grego e o hebraico. Isso tudo aliado a seus gostos poéticos e sua amabilidade natural, explicam o entusiasmo que era despertado pelos comentários que ele fazia sobre a Sagrada Escritura. Sua autoridade cada vez crescente e o prestígio de sua santidade, não tardaram em lhe suscitar numerosos inimigos. Porque defendeu a ortodoxia e a justiça contra um prelado indigno, Bruno perdeu seu cargo, seus títulos e seus bens. Foi depois obrigado a se exilar. Quando voltou, em 1082, depois da deposição de seu perseguidor, pensou-se em nomeá-lo sucessor do prelado indigno, mas Bruno tinha compreendido a vaidade das coisas criadas e tinha feito voto de entregar sua vida a Deus. Com dois amigos, ele se retirou em Molesmes, onde São Roberto e Santo Alberico, e Santo Estevão Harding preparavam esta forma de vida monástica que acabaria sendo a Ordem cisterciense. Mas Bruno desejava o silêncio e a solidão absoluta e no mesmo ano de 1084 ele partiu com alguns companheiros, para o Delfinado, que era uma província da França, o bispo de Grenobre, São Hugo de Chateauneuf, seu antigo aluno em Reims, recebeu com alegria o pequeno grupo e o conduziu ele mesmo a um lugar ainda selvagem, ainda não desbravado e quase inacessível, no deserto dos Cartuxos. Ele empreendeu a construção de um mosteiro e no ano seguinte, em março de 1085, a Igreja do mosteiro foi consagrada. Foi essa pequena ermida, de uma concepção absolutamente nova, que devia servir de modelo às Cartuxas de todos os países. A tranqüilidade de São Bruno não durou muito tempo. Desde a primavera de 1090, uma carta do papa Urbano II o chamava a Roma, para o serviço da Santa Sé Apostólica. Depois de alguns meses passados na corte pontifícia, no fim desse mesmo ano de 1090 Bruno partiu para a solidão de [trecho ilegível] , onde o conde de Calabria, Roberto, lhe tinha cedido vastos terrenos. Foi lá que no ano de 1101, ele adormeceu tranqüilamente no senhor”.

A vida desse santo nos desperta várias considerações importantes: a 1ª delas é percebermos bem qual é a origem espiritual profunda das Cruzadas. As Cruzadas, esse movimento magnífico, que constitui uma das glórias da História da Igreja, as Cruzadas tão detestadas por toda espécie de modernistas que tem aparecido ultimamente e tem infestado a cristandade, as Cruzadas, das quais o papa João XXIII, por exemplo, dizia que nem podia ouvir o nome, mas que foram convocadas por papas extraordinários, nas quais os santos verteram o seu sangue, a 1ª dessas cruzadas foi pregada por Urbano II, cuja formação espiritual tinha sido dada por um santo, que é exatamente este São Bruno, cuja biografia estamos estudando no momento presente. São Bruno foi perseguido por um bispo indigno e ele nos deu o exemplo do que se deve fazer quando se está sob a autoridade de um bispo indigno. A gente deve defender a ortodoxia como ele defendeu. O bispo, segundo D. Guéranger deixa entender, era herege, era o homem que tinha maus princípios. São Bruno entestou com o bispo e sustentou a verdade. Não desobedeceu a ele naquilo que ele tinha uma autoridade legítima. Foi o mais obediente dos súditos naquilo que deveria obedecer. Mas em matéria de ortodoxia devemos obediência à Igreja. E se alguém, em nome da Igreja, ensina princípios falsos, que não são os princípios da doutrina tradicional dos papas, nós devemos dizer que aquilo está errado. Foi o que ele fez e foi perseguido. Perseguido, ele foi para longe; indo para longe, deixou um cargo eclesiástico opulento que ele tinha e na solidão nasceu no espírito dele a idéia de abandonar todas as coisas da terra, mesmo as coisas santas do clero secular, para viver exclusivamente para Deus. Daí ele voltar e ser convidado para ser bispo de Reims. Ele tinha grande prestígio de santidade, talento, era um homem muito atraente. O cargo de arcebispo de Reims era um dos cargos mais importantes da Europa naquele tempo. Não há nem uma sombra de analogia entre o que era um arcebispo de Reims naquele tempo e o que é um arcebispo de Reims hoje. Hoje é um arcebispo como outro qualquer. Mas antigamente os reis da França se coroavam em Reims; o arcebispo de Reims tinha o título de Duque e [ilegível] do Reino; a catedral de Reims era uma das catedrais mais freqüentadas de toda a cristandade, e era um momento para o qual se voltavam com atenção, com insistência, não só as considerações artísticas, mas também piedosas de todo mundo de então. Quer dizer, o arcebispo de Reims era uma personalidade internacional. Convidado para esse cargo, ele recusou o cargo, e ele desistiu dessa alta colocação para realizar o seu desejo, que era levar uma vida completamente no isolamento, completamente na solidão, meditando apenas a respeito de Deus, Nosso Senhor. Esta vida concebida assim, nós a devemos ver como o auge da despretensão. Um homem que abandona todo o resto, que deixa de ser o arcebispo de Reims. Os senhores podem imaginar que consolação: ele, perseguido por um mau arcebispo, e vem a ser, ele, arcebispo da sede do seu perseguidor, que acaba de ser deposto. Que vitória brilhante! Que irradiação de seu talento para toda a cristandade! Como ele poderia se iludir com a idéia de que poderia ser mais útil como arcebispo de Reims, do que afundando-se num deserto, ele, um santo que deveria conhecer o seu próprio valor. Mas apesar disso, Deus o chamava para a solidão. Na solidão, a ignorância, o abandono de todos, todos o deixando de lado, ele, entretanto, procurando exclusivamente a Deus. Ele encontrou uma verdadeira colônia de santos. Vem aqui enunciada a lista de todos os santos que ele encontrou e com os quais ele fez uma ermida. Uma ermida construída logo, uma ermida que se tornou famosa em toda a cristandade pela virtude dos homens que estavam lá. Isto é uma dessas coisas que os modernistas não compreendem. Eles concebem o apostolado exclusivamente como uma ação pela qual o apóstolo vai correndo atrás dos outros. Essa é uma forma de apostolado, e uma forma muito legítima e muito santa de apostolado. Mas há uma outra forma de apostolado, pela qual o apóstolo foge dos outros e atrai os outros a si mesmo. Esta forma de apostolado precisamente São Bruno a praticou e em pouco tempo a sua ermida estava famosa, e ele que contava viver exclusivamente para Deus no isolamento, recebe de repente uma convocação honrosissima: é chamado à corte pontifícia por seu antigo aluno Urbano II . mas logo que ele pode, ele se desvencilha disso: deixa o lugar e volta para outra ermida na Itália, funda outra ermida, encontra, aliás, um lugar solitário, para onde acorre e aí tranqüilamente ele morre.

Agora, qual foi o resultado dessa vida? Ele fundou uma Ordem religiosa: uma ordem religiosa de Cartuxos, que é um modelo de solidão. Os Cartuxos vivem mais solitários do que os próprios trapistas. Porque os trapistas vivem em comunidade num convento. Os Cartuxos vivem sozinhos em pequenas casas. Eles se encontram apenas para as refeições e para o ofício divino. Mais nada, o resto do tempo cada um está sozinho na sua cela, às vezes eles saem juntos para fazer um passeio. E até há algum tempo atrás, quando foi relaxada a regra deles, eles iam em fila indiana e quietos. E esse era o passeio. Dentro de suas imensas propriedades, contrárias aos desejos dos agro-reformistas, em que eles podiam passear sem ser vistos por ninguém. Esta solidão impressionou o mundo, esta solidão enlevou o mundo, atraiu o mundo e passou a ser uma das glórias da Igreja Católica; a Ordem dos Cartuxos se espalhou por toda a terra. Por toda a terra? Como eu digo isso com tristeza: no Brasil a ordem dos cartuxos não existe. No Brasil, nenhuma ordem contemplativa de homens existe. Ao Brasil veio o próprio D. Chautard fundar uma trapa. Essa trapa existiu lá pelos lados de São José dos Campos, no meio daqueles lindíssimos e imensos arrozais. Contaram-me que essa trapa, depois que fechou por falta de vocações e que D. Chautard voltou para a Europa, passou a ser propriedade privada de um judeu, que realizava bailes na capela onde D. Chautard tinha rezado. Esse foi o desfecho da fundação trapista no Brasil. Mas em outros países onde há mais recolhimento, onde não há esse vício brasileiro de extroversão, de estar prestando atenção no que fazem os outros em vez de prestar atenção em si mesmo, em que há mais compreensão da contemplação, em outros países a cartuxa floresce e embalsamava, pelo menos até há pouso, com seu bom odor, toda a cristandade.

Esta ordem contemplativa e tão admiravelmente contemplativa, é uma ordem que se tornou conhecida por outra circunstância: o famoso licor chartreuse é de fabricação dela e nós temos aqui estas coisas que aturdem dentro da igreja porque parecem contradições e, no fundo, são supremas coerências. Homens que se voltam à penitência, inventam um licor que os maiores gozadores da vida consideram super excelente; eles fabricam esse licor, eles vendem esse licor, detêm o segredo do licor, dão o seu nome ao licor - chartreuse e cartuxa - em francês, quer dizer, o lugar onde o cartuxo vive - e esse licor circula pelo mundo inteiro. Como é que as duas coisas se [ilegível], como é que entram em coerência uma com a outra? É que exatamente o licor pode ser bebido à la Ademar de Barros. Mas pode ser bebido à la conhecedor, e é uma coisa espiritual, é uma coisa de bom gosto, que eleva a alma que o sabe apreciar. São Paulo já disse numa de suas Epístolas que o vinho módico alegra os corações justos; os corações bons se alegram tomando módico. O que é esse vinho módico? Eu me lembro que já comentei uma vez aqui. Alguns traduzem assim: que é o vinho em quantidade moderada. Outros entendem que não, que São Paulo nem sequer falou em quantidade moderada. Que havia uns montes módicos que produziam um vinho chamado Módico, e que esse vinho seria um vinho muito fino, muito bom, e que São Paulo tinha querido dizer que o vinho produzido pelos montes Módicos, ou da marca chamada Módica, alegrava o coração justo. Pela interpretação do texto, a questão não é tão ociosa. Ela tem seu interesse , eu chegaria a dizer que ela tem seu sal. Eu nunca entrei no fundo da análise disso - foi um monge beneditino muito sutil e apreciador de vinho, coitado! Mais do que a moderação mandava - que me pôs ao par dessa delicadeza da exegese cristã. Mas de qualquer maneira, o princípio está posto pelo Espírito Santo: o vinho, tomado como deve ser tomado, causa alegria para os corações justos. Não mudou a chartreuse mas mudaram os homens. São poucos os homens capazes de beber um licor chartreuse como um santo deve bebe-lo. Mas não é contrário à virtude que se tome um licor delicado, se deguste e daí se suba para Deus. É o contrário: a virtude muitas vezes consiste em subir das coisas elevadas para subir a Deus. É por raciocínio análogo que nossa sede, sendo uma sede muito bela em vários de seus aspectos, não é uma sede que afasta de Deus, mas uma sede que conduz para Deus. Os senhores vejam esse crucifixo pertencente ao Dr. Paulo, que aqui está. Essas pontas de prata, por exemplo, não estavam na cruz de Cristo. O que significam essas pontas de prata nesse crucifixo? São adornos com que o fiel exprime a glória com que ele quer ver cercado o Cristo crucificado. Esse resplendor também. Ele faz obra de arte, ele faz obra de luxo e a Igreja abençoa que essas obras de luxo sejam justapostas à imagem da máxima dor, do máximo sofrimento, da máxima abnegação e da máxima recusa e renúncia a toda espécie de luxo. Como se explica isto? Exatamente a verdadeira obra de arte canta a glória do coração desapegado, canta o esplendor da alma elevada, que transcendeu as exigências do corpo e que voa nas paragens do espírito e que está pronta para os vôos do sobrenatural. É por isto que a Igreja justapõe essas coisas. E essa é uma lição que os cartuxos dão na menor e na mais conhecida das manifestações de sua existência , que é a fabricação do licor chartreuse. Com isso ficam algumas reflexões.

Nós devemos pedir alguma coisa a São Bruno amanhã, que é o dia dele, embora a festa do santo não prevaleça em dia de Domingo: o que devemos pedir? O amor à despretensão. Nós não pretendemos ter nada , não pretendemos parecer nada, nós amamos viver desconhecidos, ignorados pelos outros, voltados exclusivamente para Deus Nosso Senhor e para Nossa Senhora, ainda que vivendo no meio dos outros, não nos preocupando com o que os outros estão pensando a nosso respeito. Seja lá quem for: seja lá mesmo nosso pai ou nossa mãe, ou as pessoas pelas quais tenhamos essa forma de sujeição meio hipnótica que a geração nova tem em relação aos progenitores, em relação a todos eles, sermos indiferentes. Julguem-nos como quiserem , não nos julguem, olhem-nos com uma insistência exagerada , vaiem-nos, persigam-nos, aplaudam-nos, para nós é completamente indiferente. O que nos importa é nossa solidão. Não apenas a solidão material, não estamos fisicamente no meio dos outros: é uma solidão espiritual, pela qual nada nos importa em última análise, a não ser a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a ortodoxia, a fidelidade ao estado de graça e à verdadeira doutrina católica, a salvação de nossa alma e nós irmos ao céu. A própria salvação dos outros só nos importa porque dá glória a Deus. Se não, não nos importaria também. Isso é o que devemos acima de tudo desejar. Exatamente essa solidão que tem como ricochete, que quando a gente alcança essa graça, a gente não tem a mania de viver no meio dos outros, não tem a mania de viver conversando com os outros, não precisa estar continuamente falando ou ouvindo falar. Mas a gente tem a alegria da santa solidão. São Bernardo, outro grande solitário, tinha essa expressão magnífica: O sola beatitudo , o beata solitudo: ó tu que és a única bem-aventurança , ó bem-aventurada solidão! A alma pode medir em que medida é ela de Deus, na medida em que ela aprecia a solidão, ou melhor, em que ela aprecia a solidão, na medida em que ela, estando só, se sente unida a Deus, se sente em contato com Nossa Senhora, se sente mais autenticamente uma célula viva e sagrada da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Assim, portanto, devemos pedir este espírito de indiferença, de despretensão e, portanto, de recolhimento a São Bruno, esperando que dessa forma ele ponha em nós algo do espírito admirável de seus filhos, que são os cartuxos. O verdadeiro católico deve admirar todas as ordens religiosas e deve admirar tanto, que tenha em si algo de todas as ordens religiosas, tem uma síntese em si de todas as ordens religiosas. Não como elas são, infelizmente, hoje em dia, mas como elas deveriam ser. Então, amanhã nosso pensamento deve enlevar-se com São Bruno e com a cartuxa e deve desolar-se pensando que, infelizmente, é provável que também as cartuxas estejam numa situação tristíssima. Então pedir a São Bruno que olhe para a pobre situação da pobre Igreja Católica Apostólica Romana. Como essas palavras cortam os lábios e cortam o coração! A Igreja que é a rainha do mundo, a obra prima de Deus, podemos dizer dela: a pobre Igreja Católica apostólica Romana. Pobres de nós que não temos, pelo menos a tristeza , ou melhor, passamos pela tristeza de não compreender o que é a pobreza atual da Igreja Católica Apostólica Romana. Vamos pedir a São Bruno que nos faça compreender isto e que no Reino de Maria a cartuxa refloresça e refloresçam todas as jóias da Igreja para a glória de Nossa Senhora e de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A R M