Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 5/9/1968 –
5ª feira [SD 170] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 5/9/1968 — 5ª feira [SD 170]
Nome
anterior do arquivo:
Este SD não será mais bem uma RN, uma vez que é uma reunião cumprida e já existe um SD neste mesmo dia? Caso não haja no Índice RN neste dia, talvez seja melhor trocar esta reunião para RN, não? Avelino
Há pessoas que têm o espírito “quadrado”, e por isso vêem as linhas gerais sem considerarem os matizes * O raciocínio mal feito conduz a uma tolice; a premissa mal matizada conduz a uma conclusão errada * Todos os europeus nos parecem quadrados, uns mais e outros menos — É próprio ao espírito europeu perder facilmente a idéia do entrelaçamento dos assuntos e raciocinar a respeito de cada assunto como se somente aquele assunto existisse * O mineiro tem o senso do entrelaçamento: em qualquer coisa que se diz para um mineiro, ele fica quieto e pensativo, mas nisso intervêm a preguiça de sondar todos os laços, e em virtude disso uma dificuldade de explicitação * O baiano fala muito e causa um “nó” no mineiro pela abundância das coisas ditas, que exigem muitas correlações * O paulista, apesar de saber ser suntuoso, grande, digno e ter estilo, pensa pouco e tem preguiça de pensar * A arte de organizar a vida é a grande qualidade paulista, que resulta não de quadratisse, mas de um certo esprit de finesse que o paulista tem * O Sr. Dr. Plinio comenta seus colegas deputados em relação à naturalidade: baianos, pernambucanos, cearenses, gaúchos, paulistas * A única sala da sede que corresponde inteiramente ao espírito do Sr. Dr. Plinio é a Sala do Reino de Maria * Na Sede do Reino de Maria foi feito um arranjo com pensamento paulista ultramontano e com influência francesa e colonial * A mais bonita qualidade, o melhor adorno ao espírito espanhol é a tendência à radicalidade no pensar e no * O que acontece quando o espanhol não corresponde à graça
* Há pessoas que têm o espírito “quadrado”, e por isso vêem as linhas gerais sem considerarem os matizes
… coisa, tem que ter todo o cuidado o verdadeiro enunciado das premissas de onde ela parte, e que ela tem que raciocinar com muito cuidado para que a conclusão não desminta alguns dos matizes, não seja contrário a alguns dos matizes.
Quer dizer, os espíritos muito matizados são muito cuidadosos ao raciocinar. Eles raciocinam, mas eles raciocinam com muito cuidado. Pelo contrário, os espíritos quadrados, pelo fato de que não vêem os matizes, vêem apenas as linhas gerais.
Por exemplo, num quadrado, não são capazes de perceber que o quadrado, à primeira vista, nítido de contornos, é, de fato, cheio de recortes. Por causa disso, eles raciocinam sem pôr cuidado na formulação das premissas. Então eles tiram raciocínios que parecem muito lógicos e muito simples, mas que na realidade não contêm a verdade.
Eu vou dar uns exemplos.
Eu poderia dizer o seguinte: o brasileiro é sentimental. Ora, todo sentimental é briguento. Logo, todo brasileiro é briguento.
É verdade que o brasileiro é sentimental? É. É verdade que todo sentimental é briguento? A coisa é verdade apenas num certo sentido da palavra. Ela é verdadeira no sentido de que, de si, o sentimentalismo leva a gente a ser briguento. Mas ela não é verdadeira no sentido de que outras circunstâncias possam existir na alma do sentimental que não o tornem briguento, apesar de o sentimentalismo, de si, fazer homens briguentos.
Então, é verdade que todo sentimental é briguento? É verdade com matizes. Há nele algo de briguento, mas também pode haver nele muito de não briguento. Logo, não é verdade que todo brasileiro é briguento.
Ora, um espírito quadrado faria esse raciocínio imediatamente e acharia uma beleza, acharia um raciocínio inteligente. Isso, entretanto, é um raciocínio quadrado. Por quê? Porque uma das peças do raciocínio está mal posta.
Todo sentimental é briguento, em termos, conforme o sentido, é preciso considerar uma porção de matizes desta afirmação. Como os matizes não foram considerados, o resultado é sair uma conclusão que é errada.
Não sei se quereriam outros exemplos. Eu poderia dar exemplos ao infinito.
Por exemplo, a respeito de um palácio feio. Eu poderia dizer: “Todo palácio é bonito?”. Resposta: “Todo palácio é bonito, conforme”. Há algo de bonito em todo palácio, isto é verdade. Ao menos pela sua grandeza, que é um certo fator de beleza. Ora, tal prédio é um palácio, logo, no palácio algo há de bonito.
Isso posso admitir. Mas dizer que todo palácio seja pura e simplesmente bonito porque todo palácio é bonito em tese, isso é errado. Por quê? Porque é uma afirmação que foi pouco matizada, a respeito da qual não foram dados todos os matizes.
* O raciocínio mal feito conduz a uma tolice; a premissa mal matizada conduz a uma conclusão errada
Daí vêm os famosos raciocínios políticos de que os liberais gostam muito, porque toda política dos liberais é quadrada.
Os senhores querem ver um raciocínio político como é?
“Ninguém entende melhor de seus interesses do que o próprio interessado. Ora, o grande interessado no governo do país é o povo. Logo, ninguém entende melhor do governo do país do que o povo”. É um raciocínio que eu já ouvi fazer com toda a seriedade.
Ora, é verdade que ninguém entende melhor de seus interesses do que o interessado? É, em termos.
Quer dizer, de si, o fato de ser interessado leva alguém a ter uma acuidade especial no entender seus interesses, isso é verdade. Mas daí concluir que todo indivíduo entende melhor de seus interesses do que outrem, levaria a dizer o seguinte: “Minha saúde é para mim alto interesse. Ora, ninguém entende melhor dos seus interesses do que o interessado. Logo, o melhor médico de mim mesmo sou eu”. É um disparate! Os senhores percebem por aí como o raciocínio mal feito conduz a uma tolice.
Quer dizer, por exemplo, que um Richelieu entenderia menos bem da política exterior francesa do que o povo francês que andava pelas pontes, pelas ruas vendendo coisas e perambulando de um lado para outro. É evidentemente um disparate.
O que é que se deduz disso aí?
Deduz-se que o raciocínio mal matizado, ou melhor, a premissa mal matizada conduz a uma conclusão errada. E essa premissa mal matizada é que caracteriza o espírito quadrado.
* Todos os europeus nos parecem quadrados, uns mais e outros menos — É próprio ao espírito europeu perder facilmente a idéia do entrelaçamento dos assuntos e raciocinar a respeito de cada assunto como se somente aquele assunto existisse
O que é que acontece com o espírito quadrado? Porque o espírito quadrado é muito apressado e deita muito empenho nos raciocínios mal postos, ou melhor, em raciocinar: ele raciocina muito, raciocina abundantemente e raciocina erradamente.
O espírito matizado é o contrário. É mais lento no raciocinar, mas quando ele raciocina, faz com outro peso, com outro juízo, com outra certeza.
Um bocadinho: todos os europeus nos parecem quadrados. Uns mais, outros menos, mas todos parecem quadrados. Por quê? Porque um dos matizes que a realidade apresenta é que todos os campos da realidade são muito entrelaçados. Ora, é próprio ao espírito europeu, no meio de mil qualidades extraordinárias, perder facilmente a idéia do entrelaçamento dos assuntos e raciocinar a respeito de cada assunto como se somente aquele assunto existisse. Uns europeus têm isso mais, outros têm isso menos.
D. Bertrand não me matará se eu disser que entre os alemães isso é mais freqüente. O Rivoir não ficará excessivamente entusiasmado se eu disser que isto entre os espanhóis é menos freqüente, mas em alguma medida isso existe em todos.
* O mineiro tem o senso do entrelaçamento: em qualquer coisa que se diz para um mineiro, ele fica quieto e pensativo, mas nisso intervêm a preguiça de sondar todos os laços, e em virtude disso uma dificuldade de explicitação
O espírito que eminentemente tem o senso desse entrelaçamento é o espírito mineiro. Em qualquer coisa que a gente diz para o mineiro, o mineiro fica quieto e pensativo. Porque ele tem uma noção pouco explicitada de que aquilo tem tantos entrelaçamentos que não se pode logo dizer qualquer coisa sobre a matéria. E então fica procurando os laços.
Pedro Paulo e Carlos Alberto não vão me matar por causa disso
Agora, intervêm duas coisas: Primeira, preguiça de sondar todos esses laços; em segundo lugar, em virtude da preguiça, uma tremenda dificuldade de explicitação.
O que há de implícito na cabeça de um mineiro vale sempre muito mais do que o que ele diz. Porque, como ele não explicita, ele diz muito pouco, e fica, por causa disso, muito encolhido, porque ele percebe que se os outros forem falar com ele, sai quadradada.
E porque os mineiros explicitam muito pouco o que eles pensam, eles aprenderam uma espécie de telepatia recíproca. A gente vê conversa de mineiro, é uma coisa engraçada, um diz uma coisa, o outro diz: “Será?”. Aquele “será” vem carregado de insinuações implícitas que o outro entende um pouco também. O terceiro responde: “Só vendo”. Sai uma conversa…
E por causa disso, quando o mineiro se depara com um sujeito muito loquaz, um misto de prevenção e um bocadinho, às vezes, de uma “virtude” chamada inveja.
* O baiano fala muito e causa um “nó” no mineiro pela abundância das coisas ditas, que exigem muitas correlações
Por exemplo, um baiano. O baiano começa a falar, solta aquela coisa toda, etc. O mineiro começa a perceber que aquilo é bonito, mas ao mesmo tempo fica muito nodoso com a abundância daquele negócio. E depois, porque cada uma daquelas coisas exige tantas correlações que o mineiro começa a achar: “Ih, mas afinal, quando é que eu vou aprofundar as correlações de todo esse negócio que está sendo dito?”. Resultado, ele fica com “nó” do baiano:
— Aquele fulano, ele disse muita coisa!
A gente facilita e diz:
— No fundo, não tinha nada, não é?
O mineiro responde:
— É, não tinha nada.
Eu tinha vontade de perguntar logo depois: “Mas por que você ficou pensativo, se não tinha nada? É porque algo tinha, não é verdade?”.
Mas o “nó” é muito grande, e daí uma incompatibilidade fundamental com a nossa boa baianada, não é?
Isto está sendo justo, Carlos Alberto e Pedro Paulo? É pouco mais ou menos assim, não é?
* O paulista, apesar de saber ser suntuoso, grande, digno e ter estilo, pensa pouco e tem preguiça de pensar
Bem, o paulista. Os senhores sabem que a pessoa que, humanamente falando, mais bem eu quis no mundo era paulista. Se ela estivesse aqui, eu me precipitaria para lhe beijar as mãos e os pés, tal era o afeto e a veneração absolutamente superlativas e sem nome que eu tinha por ela. Era mamãe. De maneira que eu posso falar dos paulistas. Aliás, meio costado meu é paulista.
O paulista, en su tinta, não é nem quadrado nem tem o espírito de finesse. Ele é peco, pensa pouco, tem preguiça de pensar. Ele é desbotado … [inaudível]… que é uma arte de primeira ordem. Ele sabe ser suntuoso, ele sabe ser grande, ele sabe ser digno, ele sabe ter estilo. Isso o paulista sabe ter.
Por exemplo, contaram-me que o Zayas, lá no Jockey Club, diz: “Bom, tudo isso aqui veio da Itália, veio da Europa”. É verdade.
Um dos mineiros respondeu muito mineiramente: “Os tapetes vieram da Pérsia”. O que eu reputo uma resposta eminentemente mineira, porque é uma saída bem dada, mas que não responde a coisa até o fim.
Tudo quanto está lá veio da Europa, não é bem verdade. Existem alguns objetos de prata maciça antiga, brasileiros, muito bonitos. Bom, existem algumas coisas ali, existem do Brasil, algumas coisas são de China, muito bonitas, não propriamente de Pérsia, mas da China, muito bonitas, mas há uma coisa que é paulista ali, e ali o espírito paulista põe o que há de melhor : é o modo pelo qual se deu conjunto àquilo, o modo pelo qual aquilo faz conjunto. Não tem a nota do gôsto francês, um pouco anglófobo, um pouquinho inglês, nem alemão, nem nada, é o gosto paulista. É uma coordenação paulista, um misto de seriedade, de espaço, de grandeza, de dignidade, uma coisa que se apresenta tão segura de si, que aos brasileiros de um ou outro estado — eu não digo de Minas — dá até nó, de tão seguro de si que é e de tão grandioso.
Ali está o lado bom paulista. E nisto entra um tal ou qual espírito de finesse.
* A arte de organizar a vida é a grande qualidade paulista, que resulta não de quadratisse, mas de um certo esprit de finesse que o paulista tem
Agora, acontece que eu aprecio essa arte de organizar a vida, imensamente, porque eu acho que está mais bem servido um homem de inteligência mediana, um povo de uma inteligência mediana, que vive num quadro muito bem organizado, do que um povo de filósofos que vive num quadro a la alma Belfort de Matos. Ela tem qualquer coisa de arquitetônico. E aí é uma coisa extraordinária.
Para mim é a grande qualidade paulista, e que resulta não de quadratice, mas de um certo esprit de finesse que o paulista tem. A gente entra, leva para lá qualquer pessoa de qualquer lugar. O príncipe de … [inaudível], por exemplo: ele entra lá, o Jockey Club produz um impacto. Não tem conversa, produz mesmo. Mas é um impacto paulista.
Gomide, você de onde é, hein?
(Sr. Gomide: …)
Ai, ai, imagine você que eu ia falar mal do Rio!
Vamos falar um pouco do Rio.
Não é possível organizar aquele Jockey Club daquele jeito no Rio. Não teria uma certa seriedade um pouco monumental, um pouco sombria, um certo silêncio um pouco pesado e uma certa dignidade, um pouco olhando de cima, que o Jockey Club tem. No Rio haveria de ter um sorriso em qualquer coisa. Ele punha uma graça qualquer em qualquer coisa. Mas era um sorriso que, salvo as muito raras exceções, é baixa de nível. É fora de dúvida. Não era o estilo paulista.
Isso é incontestável, não é?
E exceção feita de Paraná e de Minas, o único estado do Brasil que pode entrar em competição com São Paulo nesse assunto é o Rio de Janeiro. De maneira que então eu menciono o Rio de Janeiro especialmente nessa matéria. Não sei se percebem bem onde é que a nota carioca.
Imaginem, por exemplo, dois cariocas conversando lá. Um diz para outro à distância, no Jockey Club a gente não vê uma pessoa berrar para outra à distância:
— Escuta, filho, vêm cá.
O outro diz:
— O que é? Já vou. O que queres?
— Olha, aquela duplicata….
É uma baixa de nível a respeito de um dinheiro que não entrou, que é do outro mundo
Ou então:
— Convidou o Janjão para vir cá ? E aquela história….
Aqui não sai no Jockey Club assim. Há uma certa qualquer coisa que, apesar de todo cafagestamento dos dias de hoje, impede. Isto é a coisa paulista.
Os senhores sentem isto bem assim como eu, o caráter paulista do Jokey Club, ou acham que é fantasia? Digam com franqueza.
Rivoir, por exemplo, isto você sentiu no Jokey? Diga com franqueza.
É de uma seriedade especial porque não é uma seriedade filosófica. Mas é uma seriedade que por detrás da qual há um pensamento. Há um pensamento por detrás daquilo. Implícito, mas existe.
* O Sr. Dr. Plinio comenta seus colegas deputados em relação à naturalidade: baianos, pernambucanos, cearenses, gaúchos, paulistas
(Sr. –: …)
Éramos deputados, os mineiros eram os mais hábeis, os baianos os mais interessantes. A bancada de Bahia era atrás da minha. Era evidente que eu voltava as costas para os paulistas e conversava com os baianos, não é?
Eu me lembro o primeiro susto que eu tive. Porque como modo de ser pessoal, ninguém é bom juiz em própria causa, mas eu tenho a impressão que eu sou muito paulista. Eu estava sentado assim, com a mão atrás, nem sabia que bancada tinha atrás da minha. No segundo dia eu vejo uma mão gorducha, maciça, que me pega assim: “Oh flor, como vai?”.
Em mim subiram várias coisas. Eu olhei para trás indignado. Era um baiano, está compreendendo? Logo no dia seguinte: “Oh flor!”. E com uma voz cantante que eu não saberia nem imitar: “Oh flor, como vai?”.
Aliás, para ser bem preciso, era um pernambucano que tinha ido sentar na bancada baiana — ele se dava muito como os baianos — e que na base de meu pai ser pernambucano estava me chamando de flor, está compreendendo?
Quer dizer, é uma coisa que entre nós, paulistas… Qual é o paulista que vai pegar na mão de outro e chamar de flor, sem nunca ter conversado na vida?
Podem imaginar como eu me voltei para ele. Depois que eu vi que não era um debique, nem nada, eu percebi enfim que era preciso senso de adaptação. Eu sorri para ele, etc.
Bom, os mineiros eram os mais hábeis, os baianos eram mais interessantes, os pernambucanos brigavam com uma graça extraordinária, os gaúchos brigavam com uma periculosidade extraordinária. Havia de tudo. Havia o Ceará com todas as suas notas típicas.
Do lado esquerdo das duas primeiras fileiras eram ocupados por deputados paulistas. Uns, com fama de inteligentes, mas em comparação com os nortistas eram apenas medíocres. Mas o tom da assembléia vinha deles.
Todos eles chegavam atrasados, dando sorrisos, satisfeitos, sentavam-se nas cadeiras, conversavam um pouco entre si, fingiam que não conheciam os outros deputados, cerravam de cima, era uma coisa bárbara a superioridade, ouviu?
Sessão solene, paulistas iam de cartola e fraque, e os outros iam de qualquer jeito, não é?
Quem estava inteiramente à altura dos paulistas, e até superior, era o velho Antônio Carlos. Isso não tinha dúvida nenhuma. Era um colosso.
Eu não quis entrar nesses pormenores. Eu soltei isso no ar e não entrei nesses pormenores. Havia bancada de gente que não era muito bonita, está compreendendo? Os nordestinos não eram muito bonitos, não, com a exceção de Sergipe, onde todo mundo era muito bonito. Os nordestinos… e assim por diante.
Bom, está claro, Rivoir, o que é que é o quadrado e o espírito?
* A única sala da sede que corresponde inteiramente ao espírito do Sr. Dr. Plinio é a Sala do Reino de Maria
(Sr. –: …)
A nossa sede aqui é uma coisa… É preciso primeiro dizer o seguinte a respeito da sede: a única sala da sede que corresponde inteiramente ao nosso espírito é a sala do Reino de Maria, porque a sala do Reino de Maria foi feita com largueza orçamentária e no momento em que as doutrinas de nosso grupo estavam bastante desenvolvidas para que se pudesse pensar em fazer uma sala completamente segundo o espírito dela. Nós pudemos mandar fazer os móveis que quisemos mandar fazer, mandar fazer vitrais que quisemos mandar fazer, etc. Os outros objetos de nossa sede são objetos que, em comparação com o mundo de hoje, são objetos contra-revolucionários, são objetos bastante bons que eu dou graças a Deus de ter, mas que não correspondem a nosso espírito com o rigor com que corresponde a sala do Reino de Maria. É uma coisa evidente.
Depois, muitos desses objetos inclusive foram presentes, não é? O altar que nós temos na capela, por exemplo, eu não sou entusiasta daqueles mil anjinhos fazendo uma revoada pouco sapiencial em torno de Nossa Senhora e rindo a gente não sabe bem do quê.
* Na Sede do Reino de Maria foi feito um arranjo com pensamento paulista ultramontano e com influência francesa e colonial
Entretanto, a nossa sede é um arranjo com pensamento paulista e com influência francesa e colonial, é um arranjo com pensamento paulista e ultramontano das coisas que nós temos. Isto é propriamente a nossa sede.
O que é que caracteriza a nossa sede?
Os senhores fazendo uma comparação como o Jockey Club, que evidentemente é imensamente mais rico e que tem, portanto, objetos também muito mais bonitos, no fundo o pensamento é o mesmo: é linha, seriedade, dignidade, elevação de espírito, compostura em tudo, conforto e um convite para que todo mundo se porte alinhadamente. Isto aí é o traço característico de nossa sede.
Eu creio que nossa sede foi muito bem servida pelas circunstâncias. Essas quatro salas de enfileirada favorecem muito esta grandeza. E há uma outra coisa que eu creio que é em nossa sede um instrumento de graça, e que é a luz.
Há uma forma de luminosidade na nossa sede que é só dela. E uma luminosidade tal, que pede que a gente, até durante o dia, acenda a luz. Mas é uma luminosidade tamisada, suave, agradável, espiritual, que sobretudo se faz notar quando o sol entra pela porta do hall e joga naqueles biseautée, e que lança sobre o crucifixo e sobre os mármores, e fica então aquilo tudo uma verdadeira beleza.
Eu tenho a impressão de que nossa sede é, portanto, uma expressão de um conjunto de coisas dessas com a nota ultramontana.
No que é que está a nota ultramontana na sede?
Com exceção da Sala do Reino de Maria, ela requinta enormemente o caráter sério e solene, próprio ao espírito paulista. Isso é o que eu teria que dizer.
Não sei se há mais alguma pergunta a fazer.
(Sr. –: …)
É uma conclusão que, por detrás, tem raciocínio e, muitas vezes, raciocínio muito inteligente. Aliás, um dos desdobramentos curiosos disso é o senso de improvisação do brasileiro.
Há mais alguma ponderação, alguma pergunta, alguma comunicação? Especialmente o Rivoir?
* A mais bonita qualidade, o melhor adorno ao espírito espanhol é a tendência à radicalidade no pensar e no agir
(Sr. –: O senhor pode fazer alguma digressão do espírito espanhol?)
Sabe qual é a dificuldade que eu tenho em descrever o espírito espanhol?
É que há, sem dúvida, um certo espírito espanhol, e até muito marcado, mas ele toma matizes tão diferentes conforme a região da Espanha. No castelhano de tal maneira ele é um, e, por exemplo, no andaluz de tal maneira ele é outro, que é um pouco difícil a gente fazer uma descrição exata do espírito espanhol.
Mas quem sabe se nós poderíamos por essa descrição da maneira seguinte: eu tenho a impressão de que a qualidade de espírito que distingue o espanhol dos outros europeus é dupla.
Em primeiro lugar, eu acho como psicologia, como mentalidade, o espanhol como tal muito mais fácil de se desligar, em alguma medida, das condições da carne, do que os outros europeus.
A gente pode notar muito isso quando a gente compara o espanhol com o flamengo e com o belga, não é? As coisas flamengas são bojudonas, redondonas, obscuras, as comidas são comidas que fartam, a pessoa come dez colheres daquilo, janta no almoço já de uma vez. O modo de eles andarem, uns pelões enormes, uns passos, umas cabeçorras, umas mãozonas. A gente toma aqueles pintores da escola flamenga, umas mulheraças, não é?
A gente toma o espanhol, o espanhol é… Por causa disso, aquela gente é lenta e quadrada. A gente toma um deles e vê que ele seria incapaz de dançar com a castanhola, porque ele sai das suas possibilidades completamente. Ele terá outras qualidades, mas isso ele não tem — e agora entro na qualidade de espírito: é um misto de frugalidade e de rapidez que faz com que o espanhol com muita facilidade perceba até o fim as últimas conseqüenciais das premissas que adota e sem quadratura. Nesse ponto ele não é quadrado.
E de outro lado, conceba com muita facilidade a necessidade de grandes esforços para conseguir aquilo que ele quer conseguir. Daí uma coisa que os cretinos chamam uma tendência ao exagero, mas não é. Para mim é a mais bonita qualidade, o melhor adorno ao espírito espanhol: é a tendência à radicalidade. Radicalidade no pensar e radicalidade no agir.
Radicalidade no pensar: se uma coisa é boa, facilmente se vê o que ela tem de ótimo; se uma coisa é má, facilmente se vê o que ela tem de péssimo.
Radicalidade no agir: se ela é boa, vamos defendê-la, ainda que seja morrendo ou matando; se ela é má, vamos atacá-la, ainda que seja morrendo ou matando.
* A resistência que os espanhóis opuseram a Napoleão: não foi um exército que se levantou, mas de todos os cantos da Espanha saíram, individualmente, heróis aos milhares
Nesse sentido, eu não acredito que nenhum povo europeu seja capaz — e talvez nenhum povo do mundo — de opor a ninguém a resistência que os espanhóis opuseram a Napoleão. Aquilo para mim é um dos mais bonitos episódios da História de todos os tempos, porque é um episódio de heroísmo individual de milhares. Não foi um exército que se levantou, mas de todos os cantos da Espanha saíram, individualmente, heróis aos milhares.
A gente está vendo a Espanha em convulsão e um trapista andando no claustro: Frei Diego. E o Frei Diego andando de um lado para outro.
Olhão preto, nariz comprido, magro de comer pouco, vive pouco mais ou menos de azeitonas, não faz muita mortificação na trapa porque na casa dele a vida também era dura, mas ele está pensando. Contaram para ele que Napoleão, esse herege, fez não sei o quê, etc.
Frei Diego vai andando de um lado para outro e diz: “Pois é!”. Em certo momento ele conclui: “Eu vou matá-lo!”. Porque a coisa funciona assim.
Vai prostra-se diante do superior e diz:
— Padre, eu preciso fazer uma coisa fora, mas é um dever que eu não poderia dizer, a menos que vossa paternidade ordenasse.
O outro ouve assim e diz:
— Vai, filho.
— Bem, padre, a pobreza me obriga a levar um objeto desse convento.
— O que for necessário para a tua necessidade, meu filho.
— Vossa bênção, ó padre.
Ele já sabe que vai matá-lo, está compreendendo?
O trapista sai, sobe numa árvore e fica de cócoras. Quando passa um francês, ele mata. Se não pode ser Napoleão, é um francês.
Depois volta dizendo: “É morto”, está compreendendo? Volta e continua até matar — segundo, o terceiro, o quinto.
Isto que faz o trapista, faz a velha: “Ah, tal coisa, eu sei, sei. Quando passar embaixo de minha ventana, vai ver o que é que acontece…”.
Joga um móvel, está compreendendo? E lá vai por aí. Envenena comida, pega fogo em campos, e lá vai por aí. Ah, o que for.
Eles fizeram de tudo, mas o bonito foi o seguinte: sem grande conspiração. Foi uma combustão geral de gente que chegou à conclusão que Bonaparte era péssimo, primeiro dado do raciocínio. Segundo dado era: o que é péssimo se mata. Terceiro: logo, matarei Bonaparte.
Vai a gente mover um flamengo a isso… é quase impossível. Ele pode fazer uma conspiração de cinqüenta, mas é outra coisa.
É completamente diferente a conspiração flamenga: é num subsolo, bebendo, longos silêncios:
— Isso não pode continuar!
Um longo silêncio e outro assim diz:
— Não pode mesmo!
Outro diz mais adiante:
— É preciso fazer algo, hein!
Outro diz:
— Garçon, traga a bebida — uma genebra .
Quando todos estão bem quentes, sobem a outro quarto. A gente não entende como a polícia não ouve essa patada deles subindo a escada. Lá eles combinam alguma coisa e de fato sai algo. Mas não é a conspiração espanhola, borbulhante, não é verdade?
Bem, daí vem tudo quanto é obra do espírito espanhol, uma obra em que o espírito se reflete muito mais do que a carne.
A pintura espanhola. A gente compara, por exemplo, a pintura espanhola com a pintura veneziana. Eu espero que não ofenda a ninguém. O Muratori é meio de origem veneziana, não é, Muratori? Veneto…
Bem, aqui eu tenho que falar mal de todo mundo, mais mal do que eu falei dos paulistas. Eu só não falei dos pernambucanos porque eles são tão pocas que ninguém perguntou, está compreendendo?
Aqui se fala mal de todo o mundo, não é?
A gente pega aquelas pinturas venezianas, aquelas donas repletas, não é? Aqueles comerciantes enxundiosos naqueles terraços, dando risada, que compram albaneses para mandar matar na guerra, depois voltam dizendo que o almirante veneziano ganhou a guerra. É cada albanês doido que eles contratavam e que foi ganhar a guerra para eles.
É a velha história das coisas, e basta a gente olhar um pouquinho para a gente compreender como é.
Agora, a gente compreende. Compara, por exemplo, estes quadros com Murillo, já não falo com Zurbarán, mas compara com Murillo, compara com Velazquez, compara com qualquer outro pintor espanhol. Pintor espanhol pinta espírito, os outros pintores pintam outras coisas, não é?
* O que acontece quando o espanhol não corresponde à graça
Bom, tudo isso é muito bonito. Agora, o que é que dá o espanhol quando ele não corresponde às graças que estão ligadas a isso?
Ele dá duas coisas igualmente ridículas. Ele dá em Sancho Pança, e isso é mais o espanhol do sul; e ele dá numa espécie de homenzinho vazio, faceiro e suscetível, que é mais o espanhol do centro.
O Sancho Pança é o espanhol gordão, esperto, falso, ganhador de dinheiro, comercializado, completamente prosaico.
O espanhol do outro tipo é mais bem um espanhol tipo corte decadente da Espanha, magricinho, efeminadozinho, procurando imitar o francês ou o inglês, completamente vazio, e a gente tem até dificuldade em prestar atenção no que ele diz quando conversa.
Com a devida reverência, não repita para o Zayas, mas acho que Afonso XIII tinha algo disso, ouviu?
Está injusta esta descrição, meu caro Rivoir?
(Sr. –: …)
D. Quixote seria a caricatura do espanhol verdadeiro, não é?
*_*_*_*_*