Santo
do Dia (Auditório Santa Sabedoria) – 5/9/1968 –
5ª feira [SD 170] – p.
Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) — 5/9/1968 — 5ª feira [SD 170]
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Defenindo a palavra “desmitificar” * Por uma falha no conduto, a aguardente entrava em contato com os restos mortais do Necker antes de escoar-se na torneira para posteriormente ser consumida * Para a comunista que foi entrevistada, os detalhes da vida pessoal não têm importância alguma, só a revolução universal interessa * Contra a individualidade * Há pessoas a quem Deus chama para uma vocação maior, transcendendo às preocupações individuais, as quais passam a ser perfeitamente secundárias * Quem se deu a Nossa Senhora como escravo aceitou tudo por causa d’Ela, inclusive as maiores humilhações: o homem se reduz ao mais baixo que pode haver, para subir ao ponto mais alto em que se pode subir * Será fiel quem for despretensioso, cauto, reservado em relação a si, e passar por cima de suas mil pequenas coisinhas por um amor muito maior, que é o amor à Causa * Oração de São Nicolau de Flue: “Meu Deus, dai-me tudo o que me aproxime de Vós. Tirai-me tudo o que me aparta de Vós”
* Defenindo a palavra “desmitificar”
O Luiz Solimeo me encaminhou uma notícia tirada aí de uma revista, de “O Cruzeiro”, em que há uma entrevista da mulher de um líder comunista estudantil do Rio de Janeiro. É uma “fassura” de 22 anos. E então há algumas declarações dela que parecem poder servir para um comentário espiritual.
Ela diz o seguinte:
E preciso desmitificar todos nós. Isso de falar sobre nossa vida em casa, se somos felizes e coisas assim, desmoraliza o movimento.
Desmitificar, os senhores sabem o que é. Vamos ver um pouquinho as palavras comunistas.
Eu não vou perguntar o que quer dizer, mas pergunto quem sabe o que é desmitificar, levantem um pouco. Para os que não levantaram o braço, desmitificar é o seguinte:
O mito é uma narração falsa, mitológica, quer dizer, é uma história que não teria uma base na realidade, até que nem pode ter, é meio absurdo em geral o mito. Em geral, eles chamam desmitificar e destruir umas tantas idéias, uns tantos conceitos, uns tantos pressupostos errados, que funcionam na cabeça de uma pessoa como se fosse um mito.
Então os senhores estão vendo aqui qual é uma das coisas que eles qualificam de mito. Eles dizem o seguinte: “O seguinte problema: falar da nossa vida em casa, se somos felizes e coisa assim, são mitos”. É um mito quando se entra no Partido Comunista, é um mito que a pessoa possa se preocupar com essas coisas. A felicidade individual perde a razão de ser, porque o indivíduo não tem razão de ser.
Para o comunista — não sei se os senhores já pensaram bem —, o que é que é um indivíduo? Se um homem é só matéria, o que é que nós somos, em última análise?
Se eu sei que eu posto num cemitério, um coveiro imaginando que vai plantar ali um pé de gerânio, pode sair do meu olho um gerânio e do meu cérebro pode sair uma batata, então eu não tenho nada diferente nem do gerânio nem da batata, se eu sou puramente materialista. E eu não sou senão a mesma matéria equilibrada num outro estado, numa outra situação. Mas entre eu e a batata, ou eu e o gerânio, ou eu e o cabo de vassoura que foi uma árvore outrora nutrida por mim, ou eu ou os sais que correm e que são incorporados à terra e que não se transformam sequer em natureza vegetal, não há diferença nenhuma.
* Por uma falha no conduto, a aguardente entrava em contato com os restos mortais do Necker antes de escoar-se na torneira para posteriormente ser consumida
Os senhores ouviram falar, com certeza, de um famoso Necker, que foi o ministro “fassur” de Luís XVI, ministro das finanças, e que concorreu muito para a Revolução Francesa. O último lance da história desse Necker é o seguinte:
Ele era um suíço. Ele tinha um castelozinho na Suíça, chamado Coppet, e ele foi enterrado numa muralha. E lá nesse castelo se fabricava um negócio que eles chamam Le Eau de Vie, que é uma espécie de pinga pouco mais ou menos, mas feita de outros materiais.
Nesse castelo se fabricava pinga numa sala próxima à capela. A tubulação passava pela capela, por outros lugares e, afinal de contas, acabava saindo na torneira. Em determinado momento a qualidade da pinga subiu muito e a procura foi enorme. Então mandaram fazer uma pesquisa para saber o que é que tinha havido.
Bom, tinha havido um furo, e o líquido, enfim, não sei como, aquilo se misturava no corpo de Necker. E se desprendia uns sais que estavam dando à pinga um gosto gostoso. E era o último resto de Necker.
Mas em última análise, para o materialista, entre aquilo do Necker que virou pinga e o Necker que era ministro da fazenda — e quando ele entrou na França para ser ministro de uns, ele voltou de um exílio para ser ministro de Luís XVI, as populações ao longo do caminho deviam ficar de joelhos para vê-lo passar — que diferença que há? Não há absolutamente nada, quer dizer, o indivíduo não é nada.
Então, sacrifício inteiro para o Partido Comunista. Renúncia inteira. É um mito pensar que eu sou alguma coisa, e é um mito pensar que minha felicidade é qualquer coisa.
* Para a comunista que foi entrevistada, os detalhes da vida pessoal não têm importância alguma, só a revolução universal interessa
Pelo contrário, isso não tem importância nenhuma, a única coisa que tem importância é acelerar a evolução universal, produzindo as guerras de classe, que devem fazer com que o mais cedo possível o progresso se instaure, os homens fiquem livres e um novo tipo de Humanidade apareça, etc.
Agora ela continua adiante:
Não quero que digam quais são os meus gostos pessoais. Se quiser falar de política, eu respondo. Sobre assuntos caseiros, ficarei calada.
Quer dizer, ela acha que não só isto é uma coisa mítica e que não tem importância, mas que baixa o nível do ambiente do Partido Comunista.
Os jornais inventam gostos para mim, dizem que adoro Sérgio Mendes, falam de meu pai que é jornalista, quando nada disso importa.
Pai também não importa…
O que interessa é a luta revolucionária que estamos pregando. Se sou boa dona-de-casa, se amo meus pais ou não me dou com eles, o que faço quando não estou na luta política, é coisa nossa. Falar disso seria comprometer nossos ideais. Cada vez que troco uma palavra participante por outra alienada…
Participante é exatamente o comum, é o viver nessa espécie de comunidade com todas as coisas, nesse espírito materialista. E alienada é quando a pessoa se dá a outra, para ser governada por outra. Não é isso?
Então, por exemplo, na família há uma alienação, não é?
… estou perdendo a chance de que o leitor ou ouvinte se engaje cada vez mais na nossa luta.
Portanto, ela na entrevista dela não quer falar de coisas individuais porque perde uma oportunidade de fazer com que o ouvinte se engaje na luta dela.
Fale desse governo incapaz que tolhe nosso desenvolvimento, mas não diga como eu sou, como me visto, como fumo, que fumo, se sou bonita ou feia, grande ou pequena. Não faça isso.
Os senhores estão vendo a completa renúncia à individualidade em que isso importa.
* Contra a individualidade
Bem, isso é horrendo. É horrendo porque é uma caricatura. Mas é uma caricatura de uma coisa bonita.
Qual é o horrendo da coisa?
É que Deus nos deu, a cada um de nós, uma individualidade, e uma individualidade que é transcendente, que não se confunde com nenhuma outra individualidade, que é marcada por nossa alma espiritual e eterna, e faz com que exatamente nosso corpo possa passar pelas metamorfoses por que passar. Este princípio espiritual, inteligente e volitivo continua durante nossa morte a gozar a visão beatífica ou a passar pelo Purgatório — não quero considerar hipóteses piores —, continua, enfim, até o momento da ressurreição dos mortos. Nesse momento, nossa alma se unirá com nosso corpo, mas a nossa uni-individualidade permanecerá para todo sempre.
Portanto, interessa sumamente manter os confrontos de nossa individualidade e as características de nossa individualidade.
* Há pessoas a quem Deus chama para uma vocação maior, transcendendo às preocupações individuais, as quais passam a ser perfeitamente secundárias
Agora, isto é admirável debaixo de um outro ponto de vista.
Há pessoas a quem Deus chama para uma vocação maior; há pessoas que ele chama para transcenderem às suas preocupações individuais de um modo todo particular, para terem uma tal visão, uma tal concepção do que Ele é, do que é Nossa Senhora, do que é a causa da Igreja Católica, que a pessoa compreende que todas essas preocupações individuais, embora legítimas, são perfeitamente secundárias. E às vezes, com medo de que o secundário devore o principal, na medida do legítimo, até imolam preocupações de caráter individual, por um ato de ascese admirável, e ao imolar isto dão-se a Deus Nosso Senhor de um modo particular.
É esse o exemplo de um frade ou de uma freira que entra, por exemplo, para um Carmelo ou para uma Cartuxa.
Afinal de contas, na Cartuxa ele compromete, ele até renuncia a uma coisa muitíssimo legítima, que é o direito de falar. É um direito, por exemplo, que eu aprecio muito porque sou expansivo por natureza. Vários dos senhores aqui são expansivos por natureza. Até isso sacrifica. Sacrifica para uma porção de coisas individuais. Ele não tem mais roupas que tenham caráter, que sejam escolhidas por ele. Ele não tem mais objetos que sejam escolhidos por ele. Ele não tem mais propriedade, ele não tem mais família: ele só tem tradição. Ele vive da grande tradição de São Bruno, que se perpetua entre os dele como numa família espiritual, e todos os cartuxos levam aquela mesma vida, não para debilitar a sua personalidade, mas para fazer com que ela tome força pela compressão do secundário e pelo embebimento daquilo que é verdadeiramente superior, embebimento pelo Espírito Santo, pela causa da Igreja, por Deus Nosso Senhor, pelas graças que vêm por Maria Santíssima
* Quem se deu a Nossa Senhora como escravo aceitou tudo por causa d’Ela, inclusive as maiores humilhações: o homem se reduz ao mais baixo que pode haver, para subir ao ponto mais alto em que se pode subir
Há, portanto, uma espécie de inteira doação nossa a Deus Nosso Senhor. Doação que encontra, no fundo, a sua expressão mais alta — mais alta até, se nós levarmos a coisa com toda seriedade, que numa ordem religiosa — na escravidão a Nossa Senhora.
Quando nós nos despojarmos de tudo, nós damos tudo e ficamos em relação a Nossa Senhora na situação… eu não sei como diria. Eu diria, por exemplo, o seguinte: que um de nós antes do ato de doação a Nossa Senhora seria para com Ela como que um senhor feudal que recebe coisas d’Ela e usa bem as coisas, mas tem algo dele que não é d’Ela.
Pelo contrário, pela escravidão a Nossa Senhora nós nos damos de tal maneira, que tudo quanto é nosso é d’Ela e nós aceitamos até, para a causa d’Ela, as supremas humilhações. Se for o caso de nos vaiarem, se for o caso de rirem de nós, se debicarem de nós, de nos arrastarem pelas ruas, de nos matarem, isso é justo e tudo isto é razoável. Porque quem se deu a Nossa Senhora como escravo, aceitou a vilania da condição do escravo, aceitou de ser um zero, aceitou de não ter direitos, aceitou, portanto, que pela causa d’Ela a Providência lhe peça tudo, inclusive as maiores humilhações. E ele já não dá, porque ele deu. Se ele pratica seriamente aquele ato de São Luís Maria Grignion de Montfort, ele já deu. Ele apenas honra a sua assinatura, entregando algo que estava com ele, mas que já não era dele. Ele aceita tudo, porque ele se deu a Nossa Senhora completamente.
Os senhores estão vendo que aí é a sublimíssima entrega de si mesmo, o sublimíssimo devotamento pelo qual o homem se reduz ao mais baixo que pode haver para subir ao mais alto que pode subir, porque exatamente é por esta forma que aqueles que são escravos de Nossa Senhora participam do segredo de Maria. É por esta forma, por esta renúncia completa, por esta entrega completa, que se realiza aquela operação na alma do homem de que fala São Luís Maria Grignion de Montfort, e faz uma comunicação de Nossa Senhora com aquela alma, faz uma união de Nossa Senhora com aquela alma, que é algo de indizível e a respeito do que ele mesmo não dá senão umas tintas bastante luminosas para atraírem, bastante obscuras para serem misteriosas. De maneira tal que é uma espécie de claro-obscuro, talvez superior ao entendimento do homem e para o qual ele nos convida com essa união com Nossa Senhora.
* Será fiel quem for despretensioso, cauto, reservado em relação a si, e passar por cima de suas mil pequenas coisinhas por um amor muito maior, que é o amor à Causa
É bom, entretanto, que nós vejamos esses exemplos vindos de tão baixo, vindos daquilo que é o inferno na terra, que é o Partido Comunista, porque nós podemos fazer como Nosso Senhor.
Nosso Senhor uma ocasião falou da agilidade, de destreza, da esperteza dos filhos das trevas e gemeu: “Os filhos da luz são menos espertos do que os filhos das trevas”.
Nós podemos nos apropriar deste modo de nos formarmos e olharmos para uma coisa dessas e dizer o seguinte: esta doação que esta mísera faz de si mesma ao demônio, ela não tomará mais a sério do que, talvez, alguns de nós tomem a sua doação a Nossa Senhora? Nós teremos, para com as nossas coisinhas individuais, aquela indiferença, aquele desapego, aquela sobranceria de espírito pela qual somos capazes de tratar essas coisas como bagatelas que elas são, para nós nos entregarmos completamente a Nossa Senhora? Nós temos desinteresse pelos nossos próprios assuntos?
Existe um modo muito bom de nós sabermos isto. É nós observarmos quando as pessoas conversam conosco sobre nós mesmos, qual é a nossa reação. Se nós ficamos todos contentes, dispostos a dar uma porção de informações, a coisa não está boa. Se, pelo contrário, nós pensamos: “Que baixa-de-nível! Ele agora está querendo saber meticulosamente, não sei, por exemplo…”.
Não sei, vamos dizer que uma pessoa quisesse saber, por exemplo, muito meticulosamente, não assim uma simples pergunta amável, mas muito meticulosamente da minha nevralgia:
— Como é, Dr. Pliínio, doeu até onde? Aqui assim? Quanto tempo? O senhor já estudou bem essas causas? Isso não terá tal razão assim?
— Ai, não, eu vou te contar. Começa a tal hora assim, mas às vezes começa assim, e depois eu sinto como um alfinete aqui.
O outro diz:
— Coitado do Dr. Plinio !
— Ehh! As coisas não estão boas, as coisas não estão boas.
Ou então quando uma pessoa começa:
— O senhor lembra de tal conferência que o senhor fez, que estava muito boa?
— Ah? Ah? Está bem!
Ou em tudo isso a nossa idéia é: “Que baixa de nível ter que estar tratando dessa nevralgia. Não basta o tempo que ela toma, eu ainda tenho que tomar tempo dando explicações a respeito dela. Conferência que eu fiz é conferência que um outro fez. Para mim dá na mesma. Não vou me regozijar com isso por nada”, etc.
Se não for assim, eu não posso estar tranquilo com minha vida espiritual. São problemas que todos nós devemos nos pôr continuamente e que representam, exatamente, o rumo do progresso que nós devemos fazer.
Em última análise, vai ser fiel aquele que for despretensioso, não quiser sobressair em relação aos outros, for cauto, for reservado no que diz respeito a si mesmo e internamente souber passar por cima de suas mil pequenas coisinhas, por um amor muito maior, por um interesse muito maior, que é o amor à causa de Nossa Senhora, o interesse pela causa de Nossa Senhora.
* Oração de São Nicolau de Flue: “Meu Deus, dai-me tudo o que me aproxime de Vós. Tirai-me tudo o que me aparta de Vós”
Aplicação concreta é:
Amanhã cedo nós não nos preocuparmos com nossas coisinhas na hora de levantar, irmos correndo à causa de Nossa Senhora que nos chama. Não estarmos com pena de nós porque está duro levantar, mas atendermos inflexivelmente aquilo que nós devemos fazer, pedindo a Nossa Senhora que nos ajude, que nos dê forças para isso, para nós sermos inteiramente d’Ela.
Eu lembro aqui, para encerrar, a oração de São Nicolau de Flue, que eu uma ocasião tive oportunidade de mencionar aqui. A oração era essa: “ Meu Deus, dai-me tudo que me aproxime de Vós. Tirai-me tudo que me aparta de Vós”. É isso que é a perfeição desse estado de espírito que eu falava.
Tudo quanto nós possamos nos desapegar, que Nossa Senhora aos poucos nos tire, ou de uma vez nos tire. Que Ela nos dê apenas aquilo que nos una a Ela. Este é o propósito da noite de hoje.
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