Santo do Dia (Rua Pará) – 3/9/1968 – 3ª feira [SD 170] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Rua Pará) — 3/9/1968 — 3ª feira [SD 170]

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São Pio X, um dos nossos protetores, seus vislumbres proféticos e sua luta contra o modernismo * Leão XIII escreve ao Presidente da França queixando-se contra a perseguição religiosa naquele país * São Pio X, na ocasião da canonização de Santa Joana d’Arc, lança encíclica arrasando com as autoridades revolucionárias francesas * São Pio X prediz a conversão da França depois de humilhada * O Sr. Dr. Plinio adverte que a pretensão é a grande tentação do ultramontano e aconselha com veemência o combate a esse defeito * Para ser pontual, é preciso ser despretensioso

* São Pio X, um dos nossos protetores, seus vislumbres proféticos e sua luta contra o modernismo

Os senhores sabem que São Pio X pode ser considerado um dos nossos protetores especiais pelo fato de que ele… ou melhor, pelo fato de ele ser um herói na luta contra o modernismo.

O modernismo é a forma avoenga do progressismo. E se nós lermos os documentos de São Pio X contra o modernismo, nós lemos ali descrito completamente o progressismo.

São Pio X, como todo santo… como todos não, mas como muitas vezes o santo tem, tinha assim vislumbres proféticos. E há aqui uma frase dele que tem um certo caráter profético, que nos faz pensar no Reino de Maria. No Reino de Maria, é verdade que visando uma determinada nação. Mas o mundo hoje está de tal maneira, que o Reino de Maria não pode vir para uma só nação. Vindo para uma nação, ele tem que vir pelo menos para várias, rumo a tomar conta de todas. De maneira tal que profetizar o Reino de Maria para uma nação, é profetizá-lo de um modo ou de outro para todas.

É bonita essa frase de São Pio X dirigida no dia 27 de novembro de 1911 ao povo francês em um dos documentos dele. Para compreender essa frase é preciso tomar em consideração que o governo de São Pio X foi um governo de duras lutas com a república francesa.

* Leão XIII escreve ao Presidente da França queixando-se contra a perseguição religiosa naquele país

Eu li nas obras, nos atos completos de Leão XIII, uma carta. Leão XIII escreve ao presidente da República da França dizendo: “Estão previstas propostas, em vias de aprovação, medidas tremendamente contrárias à religião católica, na Câmara francesa. Esse fato me dói e, mais ainda, me deixa completamente sem jeito, porque eu baseei toda minha política religiosa na colaboração com a República Francesa, e agora quando meu pontificado vai chegando ao fim e os dias de minha vida, que também se aproximam de seu termo, o fruto que eu colho dessa aproximação é uma verdadeira perseguição religiosa”.

A isso respondeu o Presidente da República francesa uma carta glacial: “Santo Padre, eu recebi vossa carta, compreendo vossa dor, mas a única resposta que eu tenho que dar é que eu, como Presidente da República francesa, tenho poderes constitucionais muito limitados. Portanto, não está em meu poder evitar que aconteçam os fatos que Vossa Santidade receia. Queira Vossa Santidade dispor de meu respeito, etc. Assinado, Fulano de Tal”, sei lá qual daqueles precitos era Presidente da França nesses tempos.

* São Pio X, na ocasião da canonização de Santa Joana d’Arc, lança encíclica arrasando com as autoridades revolucionárias francesas

Bem, pouco depois subiu ao trono São Pio X, e São Pio X começou com uma política intransigente de defesa dos direitos da Igreja. A França, então, explodiu numa investida contra a religião. Essa investida, naturalmente, encontrou fiel à Igreja uma parte do povo francês. Mas a França oficial, a França das cúpulas, voltou-se toda ela para a luta contra São Pio X. E uma grande parte, mesmo da França dita católica, chefiada pelo príncipe de … [inaudível]…, que era membro da Academia de Letras, e outros, visando uma política de pacificação entre São Pio X e a França, de fato convidava o papa a fazer concessões que ele não podia fazer. Foi uma verdadeira miséria.

Nessa luta São Pio X teve lances de um heroísmo admirável. Uma ocasião ele ordenou juntos vários bispos franceses. Era proibido pelas leis francesas sagrar os bispos sem licença do governo. Ele mandou vir para Roma e sagrou-os ele mesmo na Basílica de São Pedro e investiu-os nas dioceses.

Foi nessa ocasião ou em outra, que ele fez uma Encíclica tremenda contra os erros do governo francês e não disse nada a ninguém. Era na festa de Santa Joana d’Arc, canonização de Santa Joana d’Arc, quando a basílica estava repleta de peregrinos, de pessoas, e quando a Basílica de São Pedro fica cheia por ocasião das canonizações — quem não assistiu uma canonização não pode ter idéia — e com o fausto e o aparato que as coisas tinham ainda na era constantiniana de que São Pio X foi um dos mais límpidos expoentes.

Entra o Papa na Sedia Gestatoria, tocam as trombetas de prata de Michelangelo, desenvolve-se toda a pompa do cortejo papal, afinal, como eu digo, entra o papa. Ele vai ao trono, daqui a pouco começa a ser distribuída na basílica a encíclica nova dele. Era uma encíclica arrasando com maior força do que nunca as autoridades esquerdistas revolucionárias que tinham então tomado conta da república francesa.

* São Pio X prediz a conversão da França depois de humilhada

Nesse clima de luta admirável, São Pio X teve essa frase a respeito da França: “Um dia virá, espero que não seja tão longe, no qual a França, como Saulo no caminho de Damasco, cairá rodeada por luz celestial e escutará uma voz: ‘Por que me persegues? Levanta-te, limpa as tuas manchas, reaviva teus sentimentos e vai-te outra vez, como filha primogênita da Igreja, a levar o meu nome a todos os povos e a todos os reis da terra’”.

Os senhores estão vendo que é interessante até a linguagem. É uma afirmação: “um dia virá”. Depois uma conjectura e uma incerteza: “espero que não esteja tão longe”. Aí já não fala o homem que afirma, mas é um desejo. É um cálculo de probabilidade.

O cálculo de probabilidade os fatos não confirmaram. Esse documento foi de 1911, nós estamos em 68, portanto, há cinqüenta e sete anos que isso foi previsto e isso não se deu. Entretanto, os senhores estão vendo que esse é o desfecho para a França.

Quando Nossa Senhora diz em Fátima “Por fim meu Imaculado Coração triunfará”, triunfará no mundo inteiro. E entre outros fatos deverá de haver, com a conversão geral das nações, a conversão da França. E a conversão da França nós vemos aqui predita por São Pio X..

Mas vejam bem a coisa: predita como?

Saulo para ter esse raio de luz precisou cair do cavalo. É bem evidente que a França terá que passar por humilhações sem nome. Não só humilhações como as que ela está sofrendo atualmente, que ela finge não perceber, mas humilhações que ela não possa deixar de reconhecer que está humilhada ao extremo. Nesse momento, quando a prosápia francesa for quebrada, quando a pretensão francesa for destruída, então nós podemos ter uma França convertida e uma França que é o Reino de Maria.

* O Sr. Dr. Plinio adverte que a pretensão é a grande tentação do ultramontano e aconselha com veemência o combate a esse defeito

Eu falei da palavra pretensão e falei de propósito.

Quanto mais eu analiso a vida do Grupo e os problemas do Grupo, quanto mais eu analiso a história e a vida dos ultramontanos de que eu tenha notícia e que não pertenceram ao Grupo, mais eu chego a essa convicção: a pretensão é a grande tentação do ultramontano.

O que é que vem a ser a pretensão?

É o indivíduo pretender atribuir todas as suas qualidades exclusivamente a si, não querendo recebê-las da graça, não querendo ver nelas um dom sobrenatural ao qual a vontade humana tem que corresponder.

Eu chamo de pretensão outra coisa também. É o indivíduo querer extra-extasiar suas qualidades reais e inautênticas também, falsas, diante dos outros, querendo mostrar que é algo que de fato não é.

Os senhores me dirão: “Dr. Plinio, isso parece heresia branca da mais pura. A gente vê tantos problemas, falta de energia, isso, aquilo e aquilo outro, e o senhor vem falar de pretensão?”.

Eu repito o que eu disse uma tarde conversando com um número pequeno de amigos aqui na sede: combatamos a pretensão com toda a nossa alma e o resto nos será dado de acréscimo. É preciso ser despretensioso, não querer bancar nunca, não querer ter saliência nunca, estar normal e natural no seu lugar, e na dúvida preferindo até apagar entre os ultramontanos. Lá fora entramos em luta contra o adversário, é preciso desfraldar o estandarte de Maria, e a coisa é outra. Mas aqui dentro, assim.

E eu vos direi: dai-me uma alma despretensiosa e eu vos darei uma alma que está na via de resolver todos os seus problemas. Dai-me uma alma pretensiosa e todos os conselhos que lhe forem dados não surtem resultado enquanto a pretensão estiver em jogo.

De maneira que aqui está uma reflexão que diz respeito à França, mas que se aplica a nós, e se aplica a todo o mundo. Combater a fundo a pretensão é ter as disposições para resolver os problemas espirituais insolúveis.

* Para ser pontual, é preciso ser despretensioso

Inclusive, meus caros, o problema da pontualidade. Eu sei que os impontuais não estão aqui. Mas eu sei também que o Grupo é muito poroso, muito trans-sonoro, e o que é dito aqui repercute em todos os outros. Eu não estou mandando recado a ninguém, mas se chegar aos ouvidos de outrem também não é mau. Até na pontualidade que queiramos ter, procuremos ser despretensiosos e nós teremos a pontualidade.

Com isso nós vamos encerrar. Que Nossa Senhora os ajude planalto acima.

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