Santo
do Dia (Auditorio da Santa Sabedoria) – 29/8/1968 –
5ª-feira – p.
Santo do Dia (Auditorio da Santa Sabedoria) — 29/8/1968 — 5ª-feira
Nome
anterior do arquivo:
São Fiacre, anacoreta.
Amanhã, 30 de Agosto, é festa de São Fiacre, anacoreta.
São Fiacre nasceu no começo do século VII, de uma ilustre família irlandesa. Os escoceses afirmam que ele era filho de um de seus reis, e que foi educado com os seus irmãos, pelo bispo de Connan. Fiacre aproveitou bem essa educação, pois abandonou, jovem ainda, seus pais e sua família, para servir a Deus em terra estrangeira e na solidão.
Indo para a França, procurou o bispo de Meaux para pedir que ele cedesse algum lugar isolado em sua diocese. O bispo de Meaux, que era também um santo, encheu-se de alegria e disse a Fiacre: “Tenho, não longe daqui, uma floresta de meu patrimônio, que os habitantes chamam Breuil e eu acredito ser própria à vida solitária.”
Os dois santos foram visitar o lugar e o bispo deu ao emigrado irlandês o que lhe seria necessário. São Fiacre, com a benção do prelado, limpou o bosque, ergueu uma igreja em honra da Santíssima Virgem, com uma casa ao lado, onde habitava, e recebeu os hóspedes, que ele alimentava com o produto de seu jardim.
Mais tarde construiu uma espécie de hospital, onde ele mesmo servia os pobres e, muitas vezes, os curava pela virtude de suas orações. Mas não permitia nunca que as mulheres penetrassem em sua ermida. O artigo que impede as mulheres de entrarem em mosteiros de homens é uma regra inviolável entre os monges irlandeses.”
Era, não é?
“São Fiacre não se desfez dessa regra enquanto viveu, e ainda hoje, vê-se, por respeito à sua memória, que as mulheres não entram no lugar onde ele vivia em Breuil, nem na capela, onde ele foi enterrado.”
Com certeza já está cheio de turistas americanos.
“Ana de Áustria, rainha da França, dirigindo-se para esse lugar em peregrinação, contentou-se em rezar à porta do seu oratório. Os escoceses contam que, durante esse tempo, tendo vagado o trono da Escócia, os deputados desse país vieram implorar a São Fiacre que subisse ao poder, mas ele recusou, humilde, mas firmemente. O santo anacoreta morreu a 30 de Agosto de 670, e foi enterrado em seu oratório.
Milagres sem conta tornaram seu nome célebre na França, onde geralmente os jardineiros o honram como seu patrono. Com efeito, rezando em seu oratório e trabalhando no seu jardim, São Fiacre mereceu um trono no Céu. Um jardim, também como um oratório, pode tornar-se um lugar de meditação e de prece.”
Esse lindo "Santo do Dia" é tirado do Rohrbacher, “A vida dos Santos”.
Nós não sabemos o que mais especialmente assinalar nesse "Santo do Dia". Se é a beleza das várias peripécias que a vida desse santo teve, [ou] se é o conjunto dos fatos que se ligam para deixar um perfume de legenda em torno dele.
Do ponto de vista da beleza das peripécias, poucas coisas são mais belas do que nós imaginarmos um santo que, afinal, é filho de um rei, que vai para um lugar distante, que foge das pompas da realeza, que se põe só numa floresta, que vai ter com outro santo, [e que] os dois vão juntos a um lugar numa floresta, onde encontram um ponto adequado para ele viver; e esse príncipe passa lá a vida inteira, renunciando às honras da realeza. Mas, quando ele já teve [mais] do que tempo de praticar a vida eremitica, ele recebe uma oportunidade de se arrepender do que fizera, recebe uma ocasião para voltar para o trono do qual talvez ele tivesse nostalgia. E ele recusa essa segunda possibilidade e morre como humilde jardineiro, como humílimo guardião de hospital, na floresta de Breuil, na França, na diocese de Meaux.
Eu acho que [talvez] a segunda recusa seja mais nobre e mais bela do que a primeira recusa. Porque uma coisa é um homem deixar algo dele; muitas vezes, pelo costume que tem daquilo que ele vai deixar, ele não sente falta que lhe faz; depois, ele ainda não experimentou a [amargura] daquilo, para onde ele vai. Ele não imagina bem a coisa como ela é. A gente pode imaginar que, um príncipe habituado a um palácio real, [e] que esteja um pouco farto das pompas reais, pode-se imaginar que a um príncipe seja muito sedutor, seja muito atraente a idéia de, em certo estado de espírito, de ser um solitário na floresta. Mas, depois que o príncipe deixou o principado, depois que ele foi morar na floresta, depois que ele viu quanto dói não ser príncipe, e que a floresta perdeu a sua poesia e passa a ser uma luta contra bichinhos, contra o calor, contra mil coisas prosaicas da vida de todos os dias, aí é que ele tem oportunidade de [aquilatar] bem o sacrifício que ele fez. E, então, na segunda ocasião, recusar, pode ser muito mais nobre do que na primeira ocasião.
Eu me lembro que São Pio X contava esse caso de um [ ].
Não, é um outro caso. Eu me lembro de um caso, que se tratava de um ímpio inglês do século passado, que uma vez fora visitar uma cartuxa na Espanha. E olhando lá para o lugar, um lugar lindo, etc., panorama muito bonito com aqueles frades cartuxos, aquilo tudo muito bem, ele teve uma exclamação: “Que lindo lugar!” E o cartuxo – naturalmente é uma piada ímpia – rompendo a regra de silêncio, diz para ele: “Lindo para ver, horrível para ficar.” E caiu no silêncio de novo, para terminar seus dias na cartuxa.
Bem, o dito era ímpio, mas exprimia algo de verdadeiro. As situações mais lindas de entrar, às vezes são depois, duras de ficar. E nós temos esse homem, que permanece a sua vida inteira fiel ao seu primeiro propósito de sua juventude. Aqui, está uma beleza de fidelidade, uma beleza de continuidade, que nós devemos apreciar.
De outro lado, os senhores estão vendo, também, que quadro extraordinário: a floresta de Breuil, na diocese de Meaux. Para quem tem o senso da musicalidade das palavras, - uma vez, eu fiz a mais malograda das minhas conferências aqui sobre a musicalidade das palavras; eu não me esquecerei dessa conferência.
Bem – para quem tem o senso da ortografia não fonética, que sabe que Breuil, se escreve B R E U I L e não B R trema em cima de um O, e que, portanto, é um lugar na França e não na Dinamarca, aonde poderia haver, sobretudo, na Suécia ou Noruega, um lugar chamado Bröil com + Teöria e outras coisas por lá; quem sabe o que é a diocese de Meaux – M E A U X – em que cada letra, que não se pronuncia, tem uma função para dar beleza musical a isso que um africano escreveria – Mô – e poderia ser um lugar de malária nas [ ] do rio Congo; bem, para quem sabe o que são as florestas da França, florestas em que cada árvore é uma obra-prima, em que cada folha mereceria ser colecionada para um mostruário…
Eu me lembro que eu fui visitar, uma vez, uma casa na França, uma casa modesta, e era outono e a senhora, no “abat-jour” tinha preso, com um alfinete ou uma coisa qualquer, apenas isso: três folhas de plátano que rolavam pelo chão, mas douradas, [e] presas artisticamente no “abat-jour”. Acendia a luz, aquilo ficava uma beleza!
Então, [como é belo] a gente imaginar o silêncio da floresta de Breuil, na diocese de Meaux e, naquele isolamento de uma natureza que ainda era mais vigorosa do que a natureza européia de hoje; entra dia, sai dia, entra noite, sai noite, ninguém que passa, e apenas aquele santo que reza, que está isolado, que, aos poucos, vai empurrando a erva daninha e a natureza selvagem de perto de si; e como é próprio da Igreja civilizar, é próprio dela até cultivar, e plantar e dulcificar a natureza. E assim vai nascendo em torno de uma cabaninha, vai nascendo um jardinzinho; e o santo, que acaricia a florzinha, [e] a folhinha, que planta mais um pouco, que dá glória a Deus franciscanamente pela [admiração da] flor que vem nascendo; e depois o viajante que vem, e que é um perseguido, e que passa por ali e a quem ele consola, que ele dá um bom conselho, que depois conta na cidade que existe um eremita [e] vem depois, um doente que ele cura. E, aos poucos, aquilo se transforma numa ermidazinha, e num hospitalzinho, e aquela obra toda que vai passando e, sobretudo, mais do que isso, como um perfume de odor agradável a Deus, a reputação desse santo que se estende por toda a zona. Vai além da floresta de Meaux, ganha as aldeias, chega até as capitais, e então, os príncipes e as princesas organizam excursões para beijar o pé do santo e o santo recebe com humildade, respeitosamente, deixa-os fazer, cura-os, consola-os, etc. Então, se diz: “Que um santo novo nasceu na França, e que é o grande São Fiacre.” E, então, há um aroma de Jesus Cristo, que se espalha por toda uma zona.
Esta é a história dos santos da Idade Média, e esta é a maravilha que a gente encontra nessa vida de São Fiacre.
Para nós termos idéia da personalidade dele basta ver isto, que é a permanência da proibição que ele impôs. Ele não quis que as mulheres entrassem lá. Pois bem, as próprias mulheres amaram essa proibição. E, mesmo quando uma rainha esteve lá em visita ao local, ela que, como soberana, podia violar a clausura, de acordo com o Direito Canônico, não violou essa clausura. E não violou, porque São Fiacre não tinha querido. Ela ajoelhou junto a grade, e com toda a sua majestade de infanta da Espanha, de arquiduquesa d’Áustria, de rainha de França, -,não se podia ser mais do que isso – ela se afasta, osculando as grades, que São Fiacre tinha feito descer para que ela não entrasse. Isto tudo indica uma espécie de veneração, que se estende de geração em geração e que torna até hoje, São Fiacre, célebre na França.
Os senhores viram que São Fiacre é até hoje o patrono dos jardineiros na França, e que concorre com um outro bem-aventurado Fiacre, que dirigia carros de rua em Paris no século XVI e do qual veio o nome de “fiacre” para os carros de aluguel que, ainda, durante algum tempo, havia na Europa; era “fiacre” por causa do segundo São Fiacre. E assim o nome de Fiacre foi retumbando, até os dias de hoje.
Essa é a beleza da vida dos santos, essa é a maravilha desta graça que se evola e que perfuma toda a história e que descansa a alma da gente. Depois de a gente passar o dia com aborrecimentos, às vezes também com decepções, a gente ver a festa de um São Fiacre, como essa, é algo que nos dá repouso, que nos dá distensão e que nos faz compreender um pouco daquele perfume que, outrora, teve a Idade Média. A Régine Pernoud escreveu um livro, que se chamava “A Luz da Idade Média”. Nós poderíamos escrever um livro: “O perfume da Idade Média”, com todas essas coisas, que a Idade Média trazia consigo de imponderáveis.
Nós podemos olhar para o futuro, e no meio das trevas dos dias de hoje, nós podemos pensar bem no que será o dia de amanhã, essa "Bagarre" que se aproxima, mas depois da "Bagarre", o Reino de Maria. Quem sabe se, quando nós morrermos, – eu muito antes que os senhores – nós ouviremos também falar da glória de algum santo, que num lugar inteiramente ermo, deserto, onde só há árvores, - onde algum erudito diz que foi o Largo da Sé, - que nesse lugar glorificará a Deus, num isolamento espantoso. E, então, nós nos voltaremos e diremos: “Lembra-se do tempo horroroso aquele, em que nós comentávamos que o Largo da Sé tinha o marco zero, que não sei mais o que? Lá, agora, não resta nada, mas existe a glória de São Fulano de Tal, do qual se contam tais e tais ‘fiorettis’.” E nossos olhos se fecharão em paz, com a idéia de que o perfume do Céu voltou para a terra, que o Céu e a terra estão unidos e reconciliados .
Essa é a perspectiva, que nós encontramos, diante de nós. Ante essa perspectiva, vamos encerrar a reunião, rezando as nossas orações.
Auditorio da Santa Sabedoria