Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 21/8/1968 –
4ª-feira – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 21/8/1968 — 4ª-feira
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Imaculado Coração de Maria; isenção de qualquer mau impulso; acréscimo do “sapiential”; sabedoria, pedestal de todas as virtudes; reconhecendo sua pequenez com alegria engrandece a Deus; sermos sérios em nossa entrega a Ela como escravos.
* Imaculado * Impulsos maus * Coração sapiencial * A sabedoria é abarcativa * Fruto de sabedoria, o Magnificat * Engrandecer a Deus * Mediu sua pequenez * Reconhece que é pequeno e se encanta * Tomar a sério nossa escravidão a Ela
Imaculado Coração de Maria
Os senhores terão visto que nós acrescentamos um adjetivo à expressão Imaculado Coração de Maria: é Sapiencial e Imaculado Coração de Maria. Qual é a razão desse adjetivo; por que é que nós falamos o Coração Sapiencial?
* Imaculado
Tanto se tem falado a respeito do Imaculado Coração de Maria, que quase eu não julgo necessário dizer uma palavra a esse respeito. Nossa Senhora, como os senhores sabem, foi concebida sem pecado original e o Seu Coração, que é o símbolo de Sua alma, é o símbolo de Sua santidade, é o símbolo das cogitações de Sua mente, o Seu Coração é imaculado, porque Ela é Imaculada. Tudo aquilo, que procede de uma pessoa imaculada, é sem mácula, e dizer que o Coração de Maria é Imaculado, marca uma diferença abismática entre Ela e nós.
* Impulsos maus
É que nós somos concebidos no pecado original, e por causa disso, por mais que nós subíssemos na vida espiritual, nós sempre teríamos impulsos maus. Seria preciso estar vencendo esses impulsos maus, combatendo esses impulsos maus, até o fim da vida, mas nós sempre teríamos impulsos maus; impulsos dos quais não teríamos culpa, precisamente porque lhes negaríamos toda e qualquer adesão de nossa vontade, os detestaríamos, mas nós teríamos os impulsos maus.
Os senhores têm o exemplo com Santo Afonso de Ligório, Bispo, Doutor da Igreja, Fundador de uma Ordem Religiosa que no passado foi insigne, que é a Congregação dos Redentoristas. Ele sofria tentações contra a pureza tão tremendas, que, até depois de velho, com mais de oitenta anos, não podendo mais andar, e caminhando em cadeira de rodas, ainda as tentações contra a pureza eram, para ele, uma verdadeira dificuldade; embora fosse castíssimo, mas ele tinha o impulso da impureza.
Com Nossa Senhora, nada disso acontecia. Nela, nenhum impulso era mau, todos os impulsos eram conformes à razão, e todos os movimentos da razão eram inspirados pela graça, de maneira que n’Ela tudo era harmônico, tudo era perfeito, e tudo estava continuamente voltado para o bem. E, quando nós falamos do Imaculado Coração de Maria, nós queremos caracterizar este fato de uma pureza tal, que Ela não tinha, nem no que diz respeito à castidade, nem [em] qualquer outra virtude, o menor pendor para o mal. Ela nunca teve o menor pendor e a menor inclinação para o mal.
* Coração sapiencial
Agora o que [é] que vem a ser a “sapiencialidade” do Coração de Maria?
Evidentemente, o Coração Sapiencial é o Coração cheio de sabedoria. “Sapientia”, em latim, se traduz para o português em sabedoria. Mas, o que [é] que vem a ser propriamente a “sabedoria”, e porque [é] que o Imaculado Coração de Maria é um Coração Sapiencial? O que é que quer dizer isto com o Coração Sapiencial?
A virtude da sabedoria é aquela virtude que nos faz ver as coisas pelos seus aspectos mais elevados, e que, por causa disso, também nos faz ver [as] coisas numa maravilhosa unidade, a partir de uma maravilhosa unidade; porque, se o mundo é organizado em forma de pirâmide, e quanto mais nós vamos analisando pelos seus aspectos elevados o universo, tanto mais as nossas considerações vão se ajuntando umas às outras, até atingir ponto extremo, que é a existência de Deus, Ser absoluto, infinito, perfeito, eterno, que jamais poderá sofrer nenhuma alteração, nenhum fim, que se basta [perfeitamente][inteiramente?] a Si mesmo, e que é o Criador, o Modelo e o Fim de todas as coisas.
A consideração de todas as coisas, enquanto representando a Deus, enquanto feitas para servirem a Deus, enfim, esta concepção das coisas por onde elas são vistas pelo seu mais alto aspecto, quer dizer, pelo seu aspecto deiforme, porque o mais alto aspecto de qualquer coisa, é o por onde essa coisa mais se parece com Deus Nosso Senhor, esta consideração faz com que a mente tenha uma unidade admirável, tenha uma coerência extraordinária, nada de contradição, nada de dilaceração, nada de hesitação, mas certeza, fé, convicção, coerência, firmeza, desde os mais altos princípios [até] as menores coisas.
Esta é a fisionomia moral do varão verdadeiramente católico. Coerente em tudo, porque tudo nele provém das mais altas cogitações do espírito, quer dizer, das cogitações que se ancoram em Deus Nosso Senhor.
A sabedoria, enquanto virtude da inteligência é isso e, enquanto virtude da vontade, ela é uma disposição firme na palavra, ou da vontade de seguir o que a inteligência sabe e nos mostra e, portanto, de fazermos, inabalavelmente e firmemente, aquilo que é o nosso dever. Então, uma inteligência soberanamente límpida e lúcida, porque cheia da convicção da existência de Deus, cheia de Fé sobrenatural. Uma inteligência, porque límpida e lúcida, sumamente coerente, uma vontade forte, firme, inabalável, constantemente voltada para o fim [a] que ela deve ter em vista e para a hierarquia em que este espírito se põe. Isso nos mostra o homem sapiencial.
* A sabedoria é abarcativa
Esta virtude da sabedoria é uma virtude que contém, portanto, todas as outras virtudes, e ela está posta no primeiro mandamento da Lei de Deus. Quando o Decálogo nos diz: “Amarás a teu Senhor, teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma, de todo teu entendimento, etc.”, Ele nos prescreve de sermos assim, e é assim que era Nossa Senhora. O Coração d’Ela, quer dizer, a alma d’Ela, a mente d’Ela era soberanamente elevada, soberanamente grande, soberanamente séria, soberanamente profunda, porque era assim. Ela era o Vaso de Eleição no qual pousou o Espírito Santo para fazer Seu conúbio com Ela e gerar [a] Nosso Senhor.
* Fruto de sabedoria, o Magnificat
E a única coisa que [nós] conhecemos como dita por Nossa Senhora, é uma verdadeira maravilha de sabedoria, e que é o Magnificat. Eu, numa ocasião, já fiz aqui uma análise do Magnificat e não é o caso de [o] fazer nesse momento, mas eu gostaria de mostrar apenas o que há de “sapiencialidade”, na primeira palavra do Magnificat.
* Engrandecer a Deus
Magnificat, quer dizer engrandecer. “Magnificat anima mea Dominum” quer dizer a Minha alma engrandece o Senhor, ou seja, em outros termos, a Minha alma está enlevada com a grandeza do Meu Senhor, Ela adora o Meu Senhor na Sua perfeita e insondável grandeza, e Ela dá um aumento extrínseco a essa grandeza, cantando a grandeza do Meu Senhor. Os senhores vêem que o cântico com que Ela entoou e a palavra com que Ela [irrompe?], é um cântico de grandeza, é um cântico de uma alma nobilíssima, e que voa para considerar a Deus nos seus mais altos aspectos, e depois volta por um contraste harmônico e maravilhoso para a consideração de seu próprio nada. “Minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito exultou em Deus, meu Salvador.”
* Mediu sua pequenez
Agora, porque considerou a humildade de Sua escrava e, por causa disto, todas as gerações me chamarão de Bem-Aventurada. Os senhores estão vendo que beleza [é] isto, não é? Como, pela sabedoria, Ela mediu toda a grandeza de Deus e se alegrou nisto — quanto uma mente criada pode medir a grandeza de Deus — como, de outro lado, Ela mediu sua pequenez, e Ela então diz: Eu me alegro em Deus, meu Salvador porque Ele olhou para a pequenez de Sua escrava. É um poema de Contra Revolução, que está nisto. É a Escrava que se encanta de ser escrava, se encanta de ser pequena, e se encanta de ver como Deus é superior a Ela, infinitamente superior a Ela, e do fundo de Seu nada, dá glória a Deus.
* Reconhece que é pequeno e se encanta
E depois diz: Meu espírito exultou n’Ele, porque Ele olhou para Mim que sou tão pequena. Os Senhores estão vendo aqui o pequeno, que reconhece a sua pequenez, e que gosta de ser pequeno, que não se revolta, que não se indigna, mas que se coloca no último dos últimos lugares, no último dos papéis. Nada existe de mais vil do que o escravo. O escravo é um nada, ele não tem direitos, ele está colocado abaixo da condição comum do homem. Pois Nossa Senhora se proclama Escrava de Nosso Senhor, Precursora de todos os escravos d’Ela, que Ela iria ter ao longo dos séculos. Ela se encanta de ser nada, Se encanta de ser Escrava do Senhor, e foi a esta pequenez desta Criatura e de uma Criatura Escrava, que Meu Senhor Se dignou deitar os olhos e, por isto Eu exulto, porque sou pequena e porque Deus é grande e porque a grandeza amou a pequenez.
Os senhores vejam como isto é profundamente contra-revolucionário e para dizer tudo numa palavra só, é profundamente o oposto do espírito da Revolução Francesa, do espírito do Comunismo, tão oposto, que é até uma blasfêmia quase fazer uma comparação. Aí está a verdadeira humildade, que ama seu lugar, ama a pequenez do seu lugar, mas adora a grandeza e se enleva com a grandeza, ainda que não seja dona da grandeza. Pelo contrário, proclama que a grandeza é dona d’Ela.
É isto que meditamos, quando nós consideramos o Coração Sapiencial de Maria, e considerando assim, amanhã nós teremos um tema especial para a nossa meditação.
* Tomar a sério nossa escravidão a Ela
Pedir a Nossa Senhora, na hora da comunhão, que Ela nos faça puros como Ela, que Ela nos faça sapienciais como Ela, que Ela nos faça amar a nossa pequenez, que Ela faça que nós tomemos a sério, e até às últimas conseqüências, a nossa escravidão a Ela. Que, de outro lado, nós lembremos a grandeza d’Ela e todas as grandezas que não são as nossas, porque assim a grandeza se debruça sobre nós, e nos olha e nós podemos nos encantar com este debruçar-se amoroso da grandeza sobre a pequenez.
Isto é a meditação para a véspera da festa do Sapiencial e do… [Imaculado Coração de Maria].
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Auditório da Santa Sabedoria